
"Estou indo embora quando pareço ficar"
Nunca se dá o tudo. Madalena sabe. Ele sabe. O que sai é o que sobra. E o que nos falta nunca se completa no outro. Não há metades e nem a alma gêmea, apenas a solidão do outro, cadeira vazia na sala de jantar. Homem que trabalha no dia que devia comemorar para não ter ver o tempo e o sorriso do lado.
Quando a estrada pareceu único caminho, ela voltou despedindo-se do mato, do vento, dos insetos alados que batem contra o vidro do carro. A lua, abrindo os braços em vestido para cheia, acendia o breu da volta. Madalena estende o braço para fora e brinca com o vento provocando barulho para não ouvir a própria respiração.
(não dizem que toda volta é feliz?)
Madalena não se sente dona de lugar algum. Tem medo da estrada e dos olhares alheios quando pára em algum posto à beira da estrada para tomar água, carregar o celular, comprar algo para mastigar enquanto o longe é companhia.
Mais à frente, um policial fez sinal para que parasse e em suas mãos um refletor enorme. Não sabia se acelerava ou se diminuía a marcha. Estava cansada e confusa. O gesto assustou o homem à frente que veio com a luz sobre ela. – Estou sozinha, disse Madalena sem muita convicção. Ele passeou o refletor pelos vidros para dentro do carro e desejou boa noite. Madalena seguiu. O outro seguiria junto porque prometera sempre estarem juntos. Mas ela sabia que ele não cumpriria a promessa. O longe dele era o perto que ela queria tocar e isso o assustava e o deixava vulnerável.
A velocidade excessiva concedia asas ao veículo. E quando a rua era escada, a solidão se abafava com o barulho dos passos ou do som produzido pelos carros em contrário.
(quando o amor era o som da voz deles, Madalena ouvira suas promessas. mas ali, na estrada, o amor se espatifava no que ficava para trás)
E se ela ultrapassa o que é, certamente mete os pés pelas mãos, diz o que não quer e nem para ouvir o seu coração descompassado. Preferia nem voltar onde todo silencio é falta. E mesmo quando o espaço é extenso, parte dela se constrange e recua.
Quando a cidade fez paisagem à frente do carro, Madalena relaxou e ainda assim, sentia-se estrangeira de qualquer lugar.
Ela está indo. Ela sabe. Ele sabe, mas finge nem ver. Talvez quando ela o procurar ele já disponha das armas que o protejará. Madalena está indo. Ele já foi, mas vai preferir dizer nada.
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