Tecendo carinhos
Enquanto o vi pousar a mão sobre a outra mão e mexer delicadamente em uma pele que se soltava, não me contive e a toquei também. O dentro da mão vestia uma veludez de calor que combinava com a minha calma (no dentro sou dele e o que sobra é que nos recorta). A proximidade dos nossos corpos, e a multidão em volta pareciam não sufocar o que eu sentia, um desejo quase incontrolável de encostar a cabeça em seu ombro e adormecer feliz. Nas minhas mãos, saudade do que não vivi.
Por mais que os anos e as experiências se multipliquem causando marcas irreversíveis sobre a pele, ainda e sempre ao tocá-lo em mim tudo se acende como em festa de um dia em que a lua realça o céu com a sua brancura perfeita moldando um esconderijo para onde fujo sempre que me percebo só, nessa imensa selva.
(minha mão sobre a dele a procurar calos que não existiam, tinha a simbologia de alguém que cuida e zela para que aquele menino grande ao meu lado jamais saísse ali de bem pertinho, quase dentro de mim... a alma nua beirando os meus lábios).
Ele me olhava enquanto conversava aparentando ignorar a sua presença. De lado, a sensação era de estar dentro... e quando o ouvi chamar meu nome, Madalena, era como se me acordasse de todos os pecados. O amor me cura ainda me culpa de querê-lo. Onde mesmo que eu parei?
Certamente Deus sabia do quanto me faltava e restava para viver. Nunca quis outros palcos senão a simplicidade de quem trabalha para quem aparece. Eu teço sonhos aonde a amizade é apenas lembrança e onde o amor é um retrato no ontem de uma menina que ele amou.
- Madalena, você é linda.
Ele disse. E eu fechei os olhos para não acreditar.
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