Gatinhos

Imagem: Jorge Jacinto (1000Imagens)

Brinca de gato e rato. Quando ele quer, chama, e ela, só de pirraça, esconde as garras, finge-se de morta, faz biquinho mas acaba cedendo. Mexe nos cabelos dele, passeia a língua em seus braços e em seu peito nu, ronrona como uma gata manhosa e depois enfia as unhas em suas costas, só para que ele não esqueça quem manda ali.

Madalena ri de como deixa o professor incomodado. Mas na verdade, é ela, a moça nada comportada, que, em dedos, treme quando veste a sensualidade na palavra e toca o outro, lá onde a poesia traça palcos e encena sussurros e beijos. Ela nem confessa mas morre de medo de ser ela o rato.

Gostava de vê-lo tímido, olhos confusos se escondendo dos dela. As mãos fazendo gestos arredondados no ar tentavam falar de outras coisas, outras teias que tece enquanto estão longe.

Quando as palavras se gastam e o tempo de olhar o longe conta os dias para o fim, Madalena é sonho e desejo de tatuar-se par no moço. Na briga de gato e rato, a lua mingua e quase, no ontem infindável, ela é ímpar nas decepções de inacabáveis sonhos de nanquim.

Quando ele quer ela é poesia concreta e úmida desenhando possibilidades e rebeldias na pele que tecem, a dois, enquanto se alimentam de luas cheias (a voz miada e sussurrada ao telefone diz tanto, e ele se finge de morto).  Quando ela é sim, nem sempre o mundo se parte em dois e se entrega em seus tons. Madalena é sempre solitária, quando ama e quando apenas deseja rios pela vida inteira.

Por ela, subiria outros telhados, contemplaria outras luas e faria serenata em outros quintais, mas foi querer o sorriso do menino rato, os dentinhos de roedores novos e a pele branquinha de lençois virgens com sinais por mordiscar. A sua alma de bruxa deseja a alquimia da boca dele com a sua pele. E para isso, tecerá nuvens e tempestades, adornará os dias de verde e lilás incadescente até que o rato se deite em sua teia, farto de fugir e ávido por suas mordidas.   

Para responder silêncios

Autor da Imagem: Marcus Ribeiro - 1000Imagens

 

 

Silenciosa, a madrugada se veste de uma cor que eu não decifro. Cores e formas e o invisível, é a carícia do silêncio se compondo na pele da gente. Nem todos podem compreender quando a noite se veste de festa e sorri sozinha para inaugurar os guardados. Eu nem sei quem sou e ainda assim, ouço o murmúrio de uma chuva fina lá fora e penso que o mundo fala comigo. O mundo talvez não. A noite. A madrugada com os seus segredos e sonhos quase sempre impossíveis.

 

O longe é a tatuagem em máscara que brilha na televisão e eu já nem acredito que haja parte entre os opostos. Não sinto o cheiro, nem sei do hálito quente ou frio e nem se as mãos abarcam minhas vontades – há tanto por se pensar e querer que nem vale a pena o desejo morno. Todo o querer é mínimo quando a cena se desarma e as cortinas fecham.

 

Pensava que longe era um lugar que não custasse mais que dois passos e perto de alcançar o outro, mas cada vez que ensaio chuva dentro de mim, invento de desfilar desculpas para o inevitável. Não se pode negar, as portas sempre se fecham quando nos acovardamos diante do nada.

 

Antes, à noite, fechava bem os olhos até que o redor dormisse para que eu ficasse sozinha com o silêncio. Essa era a senha para pensar em tudo, inclusive no verso inacabado e impossível de terminar. Algumas palavras são ditas no silêncio, na ausência e ao apagar das luzes. Talvez eu peça a ele, para apagar a fala quando precisar sonhar. Ou afagas os meus bichos sempre tão selvagens. Em mim todos os poros são abismos abertos ao ar livre. Livre sou de coisa alguma. E o que temo são as algemas da consciência. Quem pode se livrar das culpas?

 

- Imaginei o beijo dele como a métrica dos poemas mais complexos. E nem foi. No mínimo a ausência do calafrio na espinha e o tremor da língua me diziam para ir embora o quanto antes.

 

Traduzo o poema, a canção, os versos provocam barulho ao teclado quando todos os seres dormem. Enquanto a noite descansa, a poesia alardeia sua incompletude bizarra. Nunca ninguém me acompanhou nessa viagem, por anos e anos teci canções que desfiava de meus próprios rosários.

 

Desconfio que não haja lugar para acompanhantes ao meu lado. Toda viagem é solo, desenho solidão como um casaco surrado, cheio de pó dos dias que eu trago comigo nessa passagem. Levanto, afasto para um lado o sono, (na madrugada, sono é palavra impossível e sem rima) e vou escrever, como se ninguém mais pudesse estar comigo.

 

Minhas inquietações são olhos brilhando no pedinte que encontro na rua. Estava ali,  desenhado na minha cara, o que custei a esconder. Palavras, frases, sons quase inaudíveis, cada vez mais angustiantes. Sempre o que quero é o que nego e digo não. Talvez por ter desafiado o silêncio e ter aprendido a dizer sim quando me convém. Isso talvez seja imperdoável.

 

Sou quadros desenhados em curvas na parede e pele. Sinuosidades que eu desfilo faminta, mas que ao fim, desconheço-me roteiros e avenidas. Não tenho rumo certo mesmo quando abuso das bússolas. Nem quero saber teu endereço, escapando assim das tuas promessas inúteis. Quando a palavra se esgota, a boca implora e isso é o que eu nunca consigo traduzir.  

 

(E eu lá sei, que ruas – e segredos a –  percorrer?)

 

Eu conto dias e enfileiro carícias para amanhecer mais leve, mas nunca adianta, porque planto dúvidas onde me sobra tempo e madrugadas a compor-me insônias e pesadelos.  

Imagem: Delírios de Baco - Autor: Ramarago no 1000Imagens

 

Estendidas

 

Quando Mariana chegou encontrou-me varal de roupas estendidas em um quintal limpo e arrumado. Há tempos que arrumava a casa em mim, tentando guardar os pertences ainda amassados e cheios de poeira. Demorei a vê-la no portão. Costumo olhar a roupa secar ao sol no varal. Algo de especial há nesse ritual que me toma o tempo e eu fico a ver o ritmo das peças para um lado e para o outro... Silenciosamente.

 

Mariana chamou minha atenção pela pele que usava naquela tarde. Pele de esperas, como a de Madalena que é morna por vida. Quando a toco, parece que esteve ao sol há pouco tempo. Transpira em minha mão como se vivesse eternamente febril. E eu sei de suas febres quase sempre incontroláveis. Madalena possui a febre de matas virgens e ao mesmo tempo, a febre dos pactos de sangue em que diz não, quando a pele diz sim o tempo todo.

 

Ontem estivemos juntas, eu, Madalena e Mariana. Conversamos e dançamos e enquanto a chuva nos pegava de surpresa ao ar livre, vi Mariana atender ao celular. Noite de entregas que ficou pairando no ar como promessas juvenis. Era Rodolfo. Engraçado que sempre achei que a cara dele combinava com esse nome. Um menino cheio de azuis e de mistério. Bem que Mariana o acolhe em si e se farta grávida dos desejos que nutre por esse moço. Achei que aconteceria o que ela esperava, noite de estrelas e Chico César cantando ao largo. Nem tanto, algumas paisagens líquidas são quase impossíveis de relacionar como realidades febris. Precisa mais. Tom, cores, a brevidade das necessidades urgentes em nós. Eu disse isso a ela. Pena que a minha pele cética sempre tenta proteger as mulheres em mim.

 

É inútil. Elas sempre se jogam no escuro. Fendas, labirintos secretos que, ousadas, teimam em desbravar como bandeirantes afoitas. Foi só ele ligar, pela primeira vez, como insinuou da última vez e Mariana ali, com a febre de Madalena, suspirando tão alto que daria para compor uma sinfonia. A sinfonia das esperas nuas.

 

Quando ela voltou, estava sozinha. Celular na mão, e os olhinhos miúdos ainda esperando o retorno. Do que? Eu me entregava ao show. Dancei como nunca, tentando tornar real apenas aquele momento na mata, recebendo a chuva dos céus e contendo em mim todos os secretos. Porque minhas fomes são tantas e a água pouca para fazer gerar fora de mim as sementes do outro.

 

Eu queria a febre delas. Mas o que me restou foi os medos da volta e a solidão barulhenta de quem vagueia a noite, como gatos que voltam madrugadinha de suas farras pelos quintais vizinhos. Eu sou o outro que se recolhe em esperas infinitas e febris. Madalena e Mariana se divertiram, muito embora, notássesmos os olhos de Mariana para o celular enquanto durou a festa. E ele não retornou.

 

Estendida sobre a nossa pele, sobravam as esperas, o vinho e o ofertório. O desejo da festa e a esperança de beijos trêmulos quase infantis. A roupa secando no varal e em nós. E o corpo em festa, movido pelo vento a voar sozinho naquele noite que podia tudo, mas ficou a dever e ainda será quando a poesia se completar em versos que podem tatuar o desejo e esperar a completude. Eu sei que o que ela espera virá. O radar, instalado em seus olhinhos miúdos era a promessa, o vento na roupa a balançar.

 

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