Feliz Ano Novo!

 

Nada de promessas, nada.

 

Nunca consigo falar em primeira pessoa. Acostumei-me a enlaçar as palavras e os sentimentos em silêncio guardando-os dos transeuntes... As minhas teias, adornando as minhas ilhas, falam de mim de uma menina assustada e faminta. Dias de fome e angústias, mas dias em que esperei atentamente as tempestades passarem para bordar novos sonhos nos meus dedos de gritos. Dentro de mim, algumas meninas brigavam entre si. Madalena, Clarisse, Rebeca, Diadorim, Alice, e a versão de Pollyana-moça sempre trocaram juras e algumas farpas quando eu me descuidava de mim.

 

Com elas, aprendi a guerra. Não se pode expor o sangue, as vísceras, o suor. Tudo é pecado e as meninas em mim ousavam me ensinar que o maior pecado era manter em segredo os meus gemidos e a ousadia de dar o primeiro passo quando o desejo fosse meu e fosse além. Talvez eu ainda nem saiba ser gente grande e Madalena sempre me puxa os cabelos quando me diz que eu devo crescer como ela, que virou uma moça feita e quando ama, sabe ser dela mesma e de mais ninguém. Madalena sabe encolher-se quando chora, mas sabe ser leoa quando a fome aperta. Eu sempre esperei que o outro tomasse as rédeas de minha vida. Não que eu gostasse, mas que talvez a comodidade de esperar a comida na boca me fizesse ser invisível para minhas lágrimas. Nunca fui frágil e nem desprotegida, mas deixar que pensassem isso de mim me trazia benefícios. Eu sempre quis ser a filha, mesmo quando eu era a dona da cena e da poesia.

 

Minhas mãos sempre desenharam invisíveis. Amei o que nunca vi, entreguei-me a paixões inúteis, tive grandes amores e tracei metas que nunca cumpri. Um dia, um único dia eu voei sem a minha vassoura. Alice, atordoada no avião, ensaiava versos de ousadia para as estrelas agora bem pertinho da janela.

 

Essa semana, enquanto via “O amor nos tempos do Cólera” me senti pequenina e ao mesmo tempo gigante nos braços do amor que eu amo. Um amor sem limites. Esse amor que nada tem a ver com as nossas razões e nem com o que imaginamos de “fidelidade”. O amor não requer pactos de fidelidade, ele apenas é. E quando vem, nos atinge o estômago como um soco. O amor que sentimos nunca é em via dupla. Ele quase sempre existe sozinho... por si só.

 

Enquanto o filme se desenrolava na tela eu sentia falta do amor em mim, e dessa troca que a gente costuma fazer quando ama. Senti as ausências de mim mesma e do encontro amoroso de minhas meninas dentro de mim. Madalena, Clarice, Beatriz Alice, sabem que quando estamos “tocadas” e afetadas por algo ou alguém não há como controlar a ansiedade e o desejo de ir buscar o outro, seja lá onde o outro possa estar.

 

Não. Nada de promessas para o ano novo. Só a gratidão de ainda manter vivo dentro de mim esse poder de renovar a alma. Síndrome de Peter Pan, síndrome de Phoenix. Síndrome do amor que adorna os meus dias tornando-me cada dia mais guerreira.

 

Trago em mim as frases incompletas e dos desejos inconclusos para dividir com o outro. Aquele que eu espero e que não seja nunca meu, mas seja do amor. Nada de posses, nada de meu e teu e dele. Que o amor é casa sem muro e portas abertas.


Quando sai do filme... com a cabeça em lugares ermos e um desejo de voar, mirei a minha emoção na ultima cena em que o casal de velhinhos fazem sexo, ela com vergonha do corpo marcado pelo tempo e ele a dizer-lhe: como pode sentir vergonha, do corpo que eu esperei por 52 anos? É esse o amor que eu quero para mim. Hoje, com 42 anos, amanhã com 80 anos. Amor que conhece o desejo, mas se reconhece acima de tudo, como o outro que se vê no espelho e ama a si mesmo. 

 

P.S. Obrigada aos amigos carinhosos que continuam vindo aqui, mesmo quando eu estou sem inspiração e pareço ter abandonado o blog. Eu volto. Isso sim, é promessa. Beijos a todos e Feliz Ano de 2008!.

 

 

 

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]