Namoro

Imagem: Namoro (Almada Negreiros)

O despertador na cabeceira já tocara várias vezes. Mas ela não conseguia estímulo para levantar da cama. Uma, duas horas de atraso. O telefone, na sala, já demonstrava a irritação de pessoas procurando por eles. Madalena é festa e descanso no dia seguinte.

Evitara muitas vezes deixar o seu corpo falar. A vida inteira aprisionou os seus desejos e apenas era metáfora e dúvidas quando a pele exalava rumores de angústias de pele aflita. Quando tomava banho o corpo chorava. Desejava o moço. Desejava a vida. Desejava sair como saíra naquele dia: braços abertos para a imensidão de doar-se a si e a ele.

Madalena nem quis pensar nas possibilidades do desencontro de peles e cheiros. Desencontros tardios de aflições e sentimentos. Isso tinha que ir além de alguma forma. A hora estava marcada. O dia no calendário lunar adornava-se de uma lua amarelada com os contornos em relevo pendurada sobre o mar azul. Mar de ondas serenas e com um cheirinho suave invadindo a rua onde Madalena estacionaria sua ansiedade.

Quando tocou a porta, Miguel a esperava com uma roupa delicada. Tinha no beijo um vinho perfeito: hálito, boca e segredos enrolados na sua língua quando a recebeu na porta. Madalena era esperas e entrega. Por pouco esquecera a porta aberta, enquanto os vizinhos do flat cruzavam o corredor.

Quando o mundo se fechou atrás dos dois, o céu era ali dentro. Estrelas, cometas, brisa noturna no corpo dele, onde Madalena passeava tentando provar o nunca e o impossível de acontecer. O vinho da boca dele a embriagava, deixando-a mole, cada vez mais entregue e apaixonada. Mas não poderia pensar em sentimentos. Não em paixão. O que estava ali era apenas a sede e a vontade de comer. Mas ele fazia tudo para que aquele momento fosse mais e além. E foi.

Delicadamente Miguel a conduziu a cena seguinte. Ritual de passagem, necessário, se estivesse falando de pessoas comuns, não de Madalena que tinha na pele outros tons em rosa azul incandescente. Sim, a pele dele e o cheiro traduziam o que ela mais quis e sonhou. Cheiro de homem e de menino. Tudo poderia passar despercebido, como apenas mais um encontro entre duas pessoas que se desejam, repito, se não estivesse falando de Madalena essência de vontades e malícia.

Eles não tinham pressa. Nenhuma. Tinham a vida para degustar todo aquele vinho. Na sala, os cheiros se misturavam ao som das ondas quebrando na calçada. Miguel sabia exatamente onde as faltas de Madalena a escondia em barbantes espalhados pela sala. Fio por fio e ele a tecia com mãos de mágico e de escultor. Sabia exatamente como redesenhar a alma dela e isso não tinha nada a ver com romantismo, era apenas um homem conduzindo uma mulher para depois, deixar-se conduzir pela paixão. Miguel não estava preocupado em ser o mais superficial possível com medo que a pobre e indefesa mulher se apaixonasse perdidamente e arruinasse a sua liberdade.  Eles eram cúmplices do desejo e depois de uma amizade que desenrolaria outras cenas de afeto.

Com ele, Madalena ousava dizer “te amo” sem culpa e medo, quando ele orquestrava seus gemidos naquela noite. Era lua cheia. E os gemidos, uivos de carinhos moldados pelas mãos dela... pequena artesã de seus caprichos. A sinfonia era de um afeto incomum àqueles tempos... mas era real, eles se sabiam.

O dia amanhecera devagar e ela se recusava a acordar junto. Não queria ir embora. Nem. Desejaria acordá-lo com flores do campo, cereja que mergulharia sobre o corpo alvo dele... brancura pintada de pelos e marcas de batom... Naquela noite mergulhara nele de corpo e alma, procurando nascentes de águas límpidas onde bebeu e matou sedes. Guardaria o seu gosto entre as mãos, os lábios, o corpo inteiro, até que a ausência, provocasse outras reprises em preto e branco.

Quando acordou, Miguel sorria ao seu lado. Sem jeito, arrumou o lençol sobre o corpo desnudo e pediu para ele olhar para o outro lado. Miguel riu e sem entender o constrangimento dela, obedeceu carinhosamente. Madalena levantou, trancou-se no banheiro e pediu aos céus para nunca acordar daquele sonho bom. Beberia todas as tempestades que saíssem daqueles lábios, corpo, pele e músculos. Mas sabia que era um corpo estranho ali naquela cama e naquele quarto. Precisava desocupar o espaço até há pouco tempo dividido entre gemidos e ensaios de um ritual de acasalamento.

Sussurrou o nome dele. Mil vezes, para tornar real aquele tremor em suas pernas. Mas Miguel era apenas uma promessa tórrida e meiga e era tudo que Madalena queria: descanso dos dias e gozo nas preliminares. Aquele sim era sua metade, o parque de diversão e a sala de leituras que ela desejara a vida inteira. Pena que era apenas um personagem que compôs para si mesma. E ele morreria na cena final, quando o livro por fim, fosse fechado, sem nenhuma chance para uma segunda parte ou a continuação de outros sagas. Personagem com dia certo para nascer e morrer, sem substitutos no set de filmagem. Nada é tão perfeito, quanto a imaginação dessa moça.

Clarice

                                                                  Imagem capturada aqui 

 

Clarice apareceu na minha janela num sopro e logo saí para vê-la brincar com a chuva. Há meses que não me refiro a ela, não que ela não tenha tanta importância quanto Madalena em minha vida. Lógico que não. Mas Clarice é mais passiva, espera os dias, espera as noites e brinca de encantar castelos que ela constrói na areia da praia. Ela não é ousada, possui a displicência de dias silenciosos e dos apaixonados.

 

Lembro do dia que ele casou. Clarice chorava sozinha pelos cantos da casa. Relia as cartas que trocaram no tempo em que eram apenas riscos e planos de um futuro que nunca chegaria. Olhava a boca dele... a foto que tirara quando estiveram juntos pela primeira vez pela webcam.

 

Talvez eu evite falar nela porque não suporto sua dor de ter perdido aquele moço das letras. Moço lindo. Moço real e de uma cor ímpar onde ela se desenhava nua em azul todos os dias. Só pra ele. Até o dia que puderam ouvir a voz um do outro. Clarice estremeceu quando o tom da voz dele cantava em notas coloridas, rimas e ritos africanos e a melodia quase explosiva da paixão em embolada. O amor, o seu único amor que se proibia pela mentira e o medo de perde-lo se fazia maior que todas as promessas.

 

Talvez eu a ignore pelo que ela suscita em mim todos os dias. Saudades das suas narrativas em que os dias teciam palavras e promessas azuis. “Haja o que houver nunca vou deixar você”. E o moço a deixou. Abriu a janela e lançou-se asas e ira sobre a tempestade. Clarice sabia dos ferimentos que causara nele e em si mesma. Mas nunca, em toda a sua existência, teria amado tanto e entregado-se como a ele, nem nunca ao menos ter provado da sua boca.

 

A voz ainda era uma promessa em branco e preto ecoando pela tarde vazia que se seguiu quando ele resolveu ir buscar o que nunca teve. Não vá. Clarice pediu e angustiou-se quando o moço saiu, louco de tudo, apagando os rastros e o passado para cair nos braços de quem ele dizia nunca mais amar. Clarice tinha a impotência da distância e das mãos curtas na vontade de tocar o moço das letras e consola-lo pelas dores diárias. Ela queria ser apenas dele como um comercial de tv e teve as asas dilaceradas pela dor e pelo sumiço dele. Fique online, meu amor, fique. E o dia tinha o tom de desejo e desgraça no ar.

 

A saudade a despia de vestidos azuis, a cor dele e a deixava com o olhar perdido, perdido, como se nada mais importasse. Daí evitar Clarice nos meus dias de lua. Sei do sofrimento dela e de como pediu aos céus o fim de seus dias. Sei de como chorou e se perdeu em lágrimas que desenhou na mesa naquele dia que ele se fora. Chorava descontrolada e sozinha. Tinha uma angústia tão grave em suas amídalas que quando cantava, era como se gritasse chamasse o nome dele em prantos. Quis me poupar de sua angústia porque não suporto outros pesos senão o meu próprio de esperar arco-íris diários. Sou outros rios e Clarice pesa sobre os meus ombros quando fechou as janelas, travou as portas e cingiu-se de dores e prantos por ele. Com ela por perto, tenho dificuldade de voar.

 

Mas é claro que não digo isso pra ela, até que se cure, e isso levará anos. Espelha-se nas poças de chuva que vai pulando como uma criança. De certo, espera o moço voltar, ou ao menos conta os dias e as horas para esbarrar nele por alguma avenida dessas. Ela é frágil e mesmo fingindo-se de forte, sei que todas as noites, implode sozinha em seu quarto: cores, cheiros, voz grave do poeta, o abraço dele e a despedida trágica. Tudo isso é o alimento mórbido de seus dias. Até que se vá enfim para outro planeta azul. Clarice ainda é do poeta, em todos os dias em que se desenha sua para toda a eternidade de lágrimas. E isso pesa demais em mim. Não suporto as folhas em branco e os finais melosos das novelas dramáticas.

 

Reescreveria sua história, se possível fosse e evitaria as cenas finais para que a poesia nunca se partisse em dois e fosse um poema em carne viva: alimento de sensualidade e nunca de vermes. Eu dançaria outros ritos e destilaria outras cenas, para que Clarice nunca tivesse que implorar perdão. Ela bem que poderia ter sumido com ele no ontem e ter sido a meretriz, mas preferiu o papel da mocinha e percebeu que as mocinhas sempre morrem no final.

Desencontro

Imagem do Site: Escola de Parapente

Foi do nada, assim, batom escrito boca no vidro mesa da sala, venenos suaves em conta-gotas e rapidinho Madalena era refém. O dia, cada vez mais longe, desenhava contatos, marcava encontros e marcava a calcinha com a vontade dele. Menino-ideal-como-companhia-para-matar-passarinhos. Espantava-se com o que queria e como tudo concorria para o contrário, pele indisposta, hálitos, pêlos demais nas axilas e as filas de banco. Precisava tempo para ser dele. Mas isso era quase impossível. Tudo girava em aberto e ao contrário e Madalena desistia dia a dia, silenciosamente, de andar em asa delta.

- tinha as asas encolhidas pelo frio do silêncio dele -

Desenhou encontros, fez caras e bocas, tocava o corpo, a alma, sonhava com ele, queria, queria, queria... e a lua era outra, medusa, de costas. E por mais que desejasse e moldasse a pele àquelas mãos, tudo concorria para as lágrimas, a decepção e a aquarela de uma cor só na contemplativa tarde na praça. Esperaria-o sair de casa para caminhar silêncio na praia. Não telefonaria. Não mandaria mais e-mails, nem cartas, nem flores, nem beijinhos pelo correio. Esperaria-o na calçada de sua casa e seria dele, sempre, quando na chuva tatuava aquela tarde.

Madalena tinha fome dele. De sonho, de imagens, de contos eróticos e de passeios ao pé do ouvido. Queria aquela voz, melosa sorrindo à meia boca, meia lua, meia cara, a sua metade dos desejos malditos. Nunca desejara tanto e sempre, ser daquele moço exatamente naquele dia, em que não combinariam mais nada, para que o vento não tomasse o rumo, a hora e o dia marcado e varresse seus sonhos. Madalena é alfenim e aquele moço, a decisão que ela queria tomar entre os braços. Chave jogava fora para nunca mais perder a porta aberta e o holocausto de medos.

À véspera era o desgosto e a espera pelo vidro da janela fechada. Tomaria as rédeas entre as mãos como os cabelos dele, puxados para trás, e o amaria assim, com a folhinha do calendário rasgada para evitar os gritos ao avesso e fora de onde plantaram tantas dúvidas.

Tatoo

A intensidade do olhar e daquele toque no braço - sutil - parecia formar um conjunto de secreções e desejos que em nada lembravam os filmes de mocinhas e príncipes românticos. Naquele momento, Madalena era apenas a fome; e o moço de barba, a salivação de palavras que nem conseguiam formas de exorcização. Só desejo, como se animais não precisassem explicar odores e cores e nem justificativas para estarem ali. Os dois. Transparentes aos olhos do outro.

O sol de meio dia tinha uma dimensão multiplicadora daquele sentimento. Por que desejar aquele moço era tão complicado naqueles dias? Queria ir. Queria ficar. As horas, as marcas, os compromissos, nada parecia sintonizar numa faixa que pudesse explicar aquilo ali, entre os dois. Madalena se fazia de boba, fingia não entender, disfarçava o tom e a marca na pele e a tatuagem da mão dele, sobreposta sobre a pele nua dela: o seio colado àqueles dedos. Contorno sutil pelas bordas. Para o precipípio, era o pulo, o vento forte, o delírio. Não queria entregar-se alí no meio do trânsito onde tudo seria um escândalo encantador. Queria tempo para saborear o ar que aquele homem respirava lentamente, prendendo a respiração quando lhe tocava o braço. Precisava de tempo para ser a menina dele, e a mulher que explodia nas suas mãos e só conseguia descanso naquele olhar, sereno, recostado sobre a paisagem verde.

Saíram de braços dados. Mais ela, que ele. Ao menor toque da pele dele, Madalena estremecia de um impulso só. Sentimentos guiados por eletrodos plugados aos pêlos dele. Sempre e sempre um tom pastel desenhava a boca dele escondida em alguma travessura que se prometiam. Nenhuma aliança os feria, nenhuma promessa de ano novo e natais juntos em família, apenas a vontade de deitar sobre ele e pichar aquela pele branquinha, branquinha de saliva em tons vermelhos-fogo.

Não queria lembrar a hora, a fila no banco, o trânsito que enfrentaria para pegar as crianças no colégio. Ficaria alí presa àquele clima de vontades e cumplicidade, atrapalhando a passagem dos estranhos ao redor deles. Madalena achava que estava escrito na face dela, como se lia na dele, em tom imperativo para que a lua escurecesse aquele sol e eles pudessem tocar-se finalmente, como se nada mais existisse que pudesse ser mais importante que o tempo em miragens e volta. Nada mais faltava.

O moço de barba ruiva e olhar em jazz, dedilhava a pele dela, franzindo a roupa pesada e nada convidativa que vestia os dois (eles se vêem fera e se lambem como se desejassem sangue e dor). Nada favorecia, nem o tempo, nem o momento, nem a língua acesa, nem a paisagem verde ao redor e dentro. Suplício e querer aos pés do nada. Madalena suspirou, levantou-se para sair e deixou-se deslizar sobre o moço. Ele a puxou para si e mergulho lira sobre ela. Rimas, cartas, intenções e promessas do agora. Nada se transportaria futuro, o sonho tinha data marcada no calendário da geladeira. E segurava-se apenas com o imã da atração febril - imãs de geladeira com dia certo para perder a cor.

A saliva, com prazo de validade, secaria à boca, no depois e antes e ainda assim, seriam disperdício e saudade, onde o desejo curaria o anoitecer.

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