O encontro

Imagem: Sérgio Pinto (Minhós) - Site: Mil Imagens

“A boca ainda guarda o medo, os lábios tremendo, as palavras entrecortadas procurando pouso e sentido. O novo, à véspera do sim, abriu as portas para a poesia sem rima e eu me derramei versos à espera das mãos dele. Que importa? Abri com ele as comportas e deixei entrar a chuva temporã, o riso e a fala mansa e aquele moço me olhando serenamente”. Ouvi essa descrição do primeiro encontro de Madalena com o moço da barba ruiva. Enquanto ela descrevia a cena, minuciosamente, o toque, as falas, as vírgulas partindo a dúvida e as interrogações atrapalhando o trânsito, eu arrepiava os cílios da alma. Onde estaria eu naquele exato momento em que me transportava à pele dela e sorvia aquele instante.

Rui caminhava ao seu lado, enquanto Madalena tentava uma distância de proteção a si mesma. Medo de entregar-se, medo de ser ela mesma quando desceu até o estacionamento conduzindo o visitante em sua cidade. Rui possuía o ar e a sílaba e poderia tê-la se quisesse, alí mesmo. Antes, quando o abraço tocou o brilho, Madalena experimentou entregar-se ao outro, ao que não estava alí, ao que ele guardava de si da lembrança do menino. Sempre o menino como pano de fundo e réstia e a vontade de mergulhar, libertando as falas e as atenções.

Era eu ali e ela e Rui. Sozinhos em um palco sem intrusos. Rui, de barba quase farta, roçava as nossas fronteiras, uma a uma, frente e verso e eu me sentia descoberta quando Madalena sorria jogando os cabelos secos de um banho apressado, sem tempo para aninhá-los em um creme qualquer. Queria as mãos dele em minha nuca e na dela. As mãos espalmadas deixando a boca, dela e a minha, à sua mercê. Mãos de homem, de dono e de servo. Mãos de quem escreve com o polegar a um código quase perfeito de amor sem culpas.

Enquanto Madalena olhava o teto e confessava o encontro com Rui, eu também sentia a pele dele, o cheio, o toque e me enroscava no beijo deles, porque ali eu era ela e ele o mais perto de mim e o dentro. Pensei no moço entre os livros da estante e a imagem pulsando na memória. Em quantas letras eu soletraria aquela dor e descreveria aquela saudade?

E por que ouvir Madalena falar de Rui me remetia tanto ao poeta que estava longe, ao alcance da imagem na tela de vídeo? A minha boca salivava a saudade do beijo prometido e amaldiçoado em passado de todas as fomes sepultadas. O sonho virou fumaça preta, disforme e vazia, em um cogumelo sombrio. O amor também veste miragens e se clamufa nas vontades.

E Madalena continuou, me fazendo chorar numa angústia inexplicável: “Quando parei de falar e falar e falar, Rui me olhava de uma forma a decifrar os meus gestos inseguros e infantis. Não era a mulher fatal e nem a deusa do amor que estava na frente dele. Era a menina insegura, querendo que ele me conduzisse pela mão e me abrisse os armários com as chaves que eu já entregara a ele. Uma a uma. Estava vestida de uma roupa que me cobrisse e não revelasse, mas estava nua, cobrindo as vergonhas que nunca tive dele e nunca, em tempo algum, esqueceria o moço que me ensinava a tocar Rui, como se a ele e ainda perguntava, foi bom tocar o longe
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Foto: Tânia Flores (1000Imagens)

“flores e imagens, flores e imagens: flores...” Louca. Madalena era a menina e a mulher quando decidia suas ruas e esquinas por onde passar. Por longos anos esqueceu desse poder. Escolher, sozinha a rua que desejava deslizar. As cores, as imagens, os sons dos gemidos quando tocada. Era a plantinha de folhagem miúda que se fechava ao toque humano.

Passou anos subjugada àquele ser. E eu sempre dizia: Madá, reage, garota. Esse cara não pode te maltratar assim. E Madalena virava os anos no mesmo ofício, cuidar da casa (filhos não tinha – o que na situação dela era ótimo), administrar a vida doméstica esquecendo que a pele sempre reclamava dos maus tratos. Madalena era uma menina ainda e não sabia ainda cuidar de si.

 

Não demorou e estava na praia. Sozinha, em um silêncio quebrado apenas pelos beijos dele. Beijos de espera. Suculentos. Famintos. O moço, bem mais alto que ela, passeava pela idéia dela de que aquele momento era o abrir e fechar de portas atrás de si, quando a casa grande era apenas cenário de alegria. Seria justo olhar as estrelas, embriagada pelo hálito daquele moço que tanto lhe tirava o sono? Vinho. Gosto do vinho na boca dele, onde bebia o cálice do atordoamento. Madalena o empurrou suavemente e o beliscou. Ai... maluca. Estou viva? Perguntou sorrindo ao moço que lhe tomava emprestado a noite para ensina-la a desenhar horizontes. Uma lua cheia, garrafa de vinho dentro de uma sacola que trouxeram, sandálias dele e dela, e o mar como companhia. Poderia fechar os olhos ali...e estaria satisfeita. O seu amor, o seu menino, estava ali, contornando os próprios bichos e temores e entregues numa paixão febril.

 

Nunca aprendi a escrever sobre o amor de Madalena. Achava lugar comum quando tocasse a pele dessa mulher que tanto me incomoda quando é pura e quando de puta, se entrega aos seus desejos, pouco se importando com o mundo que se dita os passos e as sandálias nada confortáveis. Mas ontem, vendo-a despir-se de um passado doído, vi Madalena menina, ser mais que estrada onde o amor transitava. Mas vi-a mulher tomando as rédeas dos seus desejos e fazendo o que sempre ignorou desejar: uma praia, silêncio, lua, estrelas e um vinho do Porto a ensinar Madalena a sonhar. Esse moço sabia de todos os mapas dela. Tocaria mais que o zíper descendo silenciosamente sob o impulso dos dedos firmes dele, sabia dos gemidos e da fome que ela tinha (dele), sempre e quando aqueles dedos gravavam nela e dentro, o mapa da sobrevivência e outros temores.

 

Nunca aprendi a decifrar essa moça que inventava sempre uma boa desculpa e um olhar que me contasse tudo, quando me via assim, paralisada ao vê-la. Segurava o seu silêncio, quando o que mais queria era outdoor estampado na quarta avenida. Guardava os seus secretos e derramava-se nua e sempre quando mergulhava no moço renegando de mim protestos e promessas de salvação. Madalena nunca mais ouviu ninguém, senão a voz dele, ao seu ouvido, em noites de tempo quente e lua no céu.

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