Imagem: Sérgio Pinto (Minhós) - Site: Mil Imagens
“A boca ainda guarda o medo, os lábios tremendo, as palavras entrecortadas procurando pouso e sentido. O novo, à véspera do sim, abriu as portas para a poesia sem rima e eu me derramei versos à espera das mãos dele. Que importa? Abri com ele as comportas e deixei entrar a chuva temporã, o riso e a fala mansa e aquele moço me olhando serenamente”. Ouvi essa descrição do primeiro encontro de Madalena com o moço da barba ruiva. Enquanto ela descrevia a cena, minuciosamente, o toque, as falas, as vírgulas partindo a dúvida e as interrogações atrapalhando o trânsito, eu arrepiava os cílios da alma. Onde estaria eu naquele exato momento em que me transportava à pele dela e sorvia aquele instante.Foto: Tânia Flores (1000Imagens)
“flores e imagens, flores e imagens: flores...” Louca. Madalena era a menina e a mulher quando decidia suas ruas e esquinas por onde passar. Por longos anos esqueceu desse poder. Escolher, sozinha a rua que desejava deslizar. As cores, as imagens, os sons dos gemidos quando tocada. Era a plantinha de folhagem miúda que se fechava ao toque humano.
Passou anos subjugada àquele ser. E eu sempre dizia: Madá, reage, garota. Esse cara não pode te maltratar assim. E Madalena virava os anos no mesmo ofício, cuidar da casa (filhos não tinha – o que na situação dela era ótimo), administrar a vida doméstica esquecendo que a pele sempre reclamava dos maus tratos. Madalena era uma menina ainda e não sabia ainda cuidar de si.
Não demorou e estava na praia. Sozinha, em um silêncio quebrado apenas pelos beijos dele. Beijos de espera. Suculentos. Famintos. O moço, bem mais alto que ela, passeava pela idéia dela de que aquele momento era o abrir e fechar de portas atrás de si, quando a casa grande era apenas cenário de alegria. Seria justo olhar as estrelas, embriagada pelo hálito daquele moço que tanto lhe tirava o sono? Vinho. Gosto do vinho na boca dele, onde bebia o cálice do atordoamento. Madalena o empurrou suavemente e o beliscou. Ai... maluca. Estou viva? Perguntou sorrindo ao moço que lhe tomava emprestado a noite para ensina-la a desenhar horizontes. Uma lua cheia, garrafa de vinho dentro de uma sacola que trouxeram, sandálias dele e dela, e o mar como companhia. Poderia fechar os olhos ali...e estaria satisfeita. O seu amor, o seu menino, estava ali, contornando os próprios bichos e temores e entregues numa paixão febril.
Nunca aprendi a escrever sobre o amor de Madalena. Achava lugar comum quando tocasse a pele dessa mulher que tanto me incomoda quando é pura e quando de puta, se entrega aos seus desejos, pouco se importando com o mundo que se dita os passos e as sandálias nada confortáveis. Mas ontem, vendo-a despir-se de um passado doído, vi Madalena menina, ser mais que estrada onde o amor transitava. Mas vi-a mulher tomando as rédeas dos seus desejos e fazendo o que sempre ignorou desejar: uma praia, silêncio, lua, estrelas e um vinho do Porto a ensinar Madalena a sonhar. Esse moço sabia de todos os mapas dela. Tocaria mais que o zíper descendo silenciosamente sob o impulso dos dedos firmes dele, sabia dos gemidos e da fome que ela tinha (dele), sempre e quando aqueles dedos gravavam nela e dentro, o mapa da sobrevivência e outros temores.
Nunca aprendi a decifrar essa moça que inventava sempre uma boa desculpa e um olhar que me contasse tudo, quando me via assim, paralisada ao vê-la. Segurava o seu silêncio, quando o que mais queria era outdoor estampado na quarta avenida. Guardava os seus secretos e derramava-se nua e sempre quando mergulhava no moço renegando de mim protestos e promessas de salvação. Madalena nunca mais ouviu ninguém, senão a voz dele, ao seu ouvido, em noites de tempo quente e lua no céu.
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