SUAVEMENTE EM CONCHAS

Dira Vieira                                                    (ao professor)

Eu a vi sentada em um bar em Copacabana. Nunca esquecerei. Linda. Sempre de azul, vestido esvoaçante, como era de sua preferência. Tomava um Gin e lia Bukowisk – cenário perfeito. Os cabelos, moldados vez ou outra pelo vento, traziam as ondulações de dias em que se desenhava nua para si e para a rua.

As pernas cruzadas em um contorno suave guardavam os mistérios do não que ela teimava fingir. O celular, dentro da bolsa enorme que pousava sobre uma cadeira, tocava insistentemente no tom do Bolero de Ravel. Madalena demorou a encontrá-lo, e quando o tocou, o moço desistira de chamar. Fim de tarde em Copacabana e ao lado do velho Buk, Madalena brilhava os olhos, iluminados por algumas doses de Gin.

Guardava na boca o gosto de um ontem presente. E tremia quando pensava nele. Sentei com ela. Trocamos beijinhos. Descruzou as pernas, perguntou-me o que queria beber. Chamou o garçom, pediu algo para mim, superior, com a sua mania de tomar sempre, a iniciativa. O celular tornou a tocar. Madalena pediu licença, abriu o aparelhinho e viu o nome dele na tela. O professor. Estremeceu. Desconcertou-se visivelmente e mesmo que me pedisse licença, ficou sem jeito para atender. Sei que ela queria ficar a sós com aquela voz. O professor e a generosidade da vida que trazia até aquele momento aquela voz e aquele desejo. Não sabia o que dizer a ele. Nos minutos que passou a olhar o celular, o professor desistiu. Talvez nem ele tivesse certeza do que dizer. O que seria no minuto após o oi inicial?

Madalena sorriu sem graça. As mãos envolvendo o ar faziam gestos inseguros. Uma menina, agora, desconcertada e tímida que pilotava tempestades de uma só vez. Eu quis rir. Quis sair dali para deixá-la senhora.

Madalena fechou o livro, depositando-o sobre a cadeira. Ocupava todas as cadeiras da mesa, espalhava-se para tentar preencher as faltas. Se eu pudesse pintar o seu quadro naquele momento, desenharia chuvas caindo sobre os ombros daquela mulher tão ingênua e lírica. Os seus olhos eram mistério de águas coloridas e brilhantes, e diziam tanto, ninguém a conteria para si em laços eternamente. Difícil e árdua sua tarefa de guardar a si mesma de posseiros e aventureiros.

Inventei uma desculpa, levantei deixando mais uma cadeira para que ela se espalhasse. Madalena trazia pequenas histórias entre as mãos e nas unhas, esmeradamente pintadas, que cantavam seduções enfeitiçando suas noites em Copa.

De longe, vi que rabiscava um guardanapo e entregava ao garçom enquanto a chuva começava a cair. Jogava os cabelos para trás sedutoramente e sorria suave. Fim de tarde. Cruzou as pernas a espera do retorno do moço ao celular, pediu outro Gin entregando-se novamente ao velho Buk, até esse momento largado na cadeira.

Aproveitou a neblina leve, enquanto ele não ligava e levantou para ir embora. Guardou um punhado de chuva nas mãos em conchas e passeou silenciosamente pelo rosto. Estava linda. Deslizava chuva com a criança que guardara dentro de si. Em cada tropeço em uma poça de água mais funda, gargalhava exibindo os dentes pequeninos e infantis.

Agora sim, sozinha, adornava a alma para ouvir a voz grave do moço e a ele se entregaria em outra tempestade que certamente viria quando fechasse os olhos já bêbeda de tanto desejar.

 

Dengosa

 

Dengosa, enquanto a paisagem mudava de um sonífero escuro para um amarelo que desenhava o céu de desejos, Madalena se mexia como uma gata preguiçosa ainda na cama. O dia acordava devagar e dentro dela ainda o sono escrevia palavras que ela não diria a qualquer um. Nem ao outro. Madalena era silêncio e juras, não repartiria esse dom com qualquer um. Nem sob tortura.

O sol pousou na janela como um passarinho que vem dar bom dia, deslizou por sua pele manhosa ao mesmo tempo em que escrevia silêncios consentidos e ainda assim, estava plena em um vestido azul que prometera a ele naquele verão de um verso passado.

(Algumas rimas não encontram pares, vivem quebradas pela eternidade).

Madalena é de uma brisa que rompe o quarto escuro e faz sombra de mãos na parede imitando bichos. É uma criança que espera o dia acordar para sentir-se inteira. Mesmo que naquele dia fosse a metade em metáfora, um grito preso na garganta e a melancolia que chorava em frios. Hálito de uma história que ainda não possuia meio e fim. Nem queria pensar no dia anterior e as suas mãos se arrastando numa superfície dolorida procurando a pele dele. Estavam cortando os laços e Madalena ainda sentia a pele dele macia, sem a barba, sem a aspereza dos últimos anos em que não se suportavam mais.

Não queria pensar. Não naquele momento. Ainda nem bem o dia acordava, Madalena já dispunha de um milhão de procedimentos práticos para resolver. Calma. A gata, arranhando o lençol de sua quase liberdade que acabara de receber linhos novos, não queria acordar à saudação da vida batendo na janela. (Na janela? A vida? Onde mesmo?)

Era um ritual. Como todos os outros. De passagem, sofrimento, troca de pele, ou seja lá que nome ela viesse a dar àquele momento. Nem ousaria ver-se no espelho: tinha um aspecto de alguma rima mal empregada ou um poema que nunca chegaria a ter desfecho final, pois as palavras enveredavam por sulcos em sua pele. Apenas palavras que erravam o caminho e mergulhavam na sua boca, caminhos que o prazer desviou a cor.

Mas ela é Madalena. E Madalena é outra coisa nada igual cujas dobras de pergaminho vão se desenhando na paisagem e renovando o ar sempre que fecha os olhos e mergulha. Nada que se compare. Livro semifechado de propostas indecorosas. Alia-se ao sol todas as manhãs para provar para si mesma que pode todas as coisas sempre que retoca o mundo com o seu batom. Poder maior nenhum. Senão quando se veste de seu próprio prazer, muda o tom da camisola e dança sozinha para ninguém ver.

Madalena é faminta de linhas, de cores, de fantasias. Não seria fiel a mais ninguém senão a si mesma e àquele desejo das mãos do outro subindo pela encosta de seus seios. Bastaria olhar a si mesma no espelho e aquela carinha manhosa de pensar o que se produzia a si mesma quando o outro era apenas mãos e língua sobre a sua pele farta de esperas.

Faria o caminho sozinha e os desvios que quisesse para respirar fundo. O hálito, era aquela esperança desenhada na janela que Madalena tocava. Nenhum profundo tem tanto sabor quanto o que ela toca lá no fundo de uma superfície crespa e cheia de curvas para se servir.

Madalena é mais que inspiração. E isso importa muito enquanto a chuva não entregar suas funduras onde apenas ela mergulha e sonha. Isso basta.

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