Vestida de Lilás

Imagem capturada no http://gbizzotto.free.fr/fotos/neblina.jpg

a estrada que me toca desenha asas de borboleta em minhas mãos. sou teias que se desfazem de um tempo quando. espera o céu e rasga, para que tanta cerimônia? Meu gozo é rápido-indolor-comedido, arranha a minha pele num cenário de neblina. tenho medo da curva que se apresenta em branco. sigo. a volta é a véspera da dúvida, como a pátria e a alma que esparramo pela casa. tenho medo. e a mulher de batom que me olho no espelho soletra palavrões de gratidão.

o tempo é outro de um brilho reluzente. o amor é um lilás tão cinza que eu choro quando a última nuvem acena paisagem. Metalinguagem carmim. sigo pernas de violoncelo, enfeitiçando ruas desertas por onde me aninho, procurando palavras embrulhadas para um presente que não dei. se o dia acontece sem ruas, silencio os pés, faço arco-íris com o dedo e mostro a língua para a imensidão das horas: fingir-me de morta é pecado que não sei contar.

a minha alma é a navalha no verso e no reverso. sol de meio-dia, meia noite. salvem a rainha desse desgosto de morrer tão cedo. não tem jeito que o amor é assim, arruma desculpa onde é apenas floreio.

num minuto e eu era o centímetro da fome. a barriga plantada onde o ontem começa e parte. tenho toda a fome do mundo e ânsia de vômito no jardim da casa. o quarto é o ontem dos desgostos ao me encostar na parede. o mundo gira. e tem mesmo que girar, senão enjôo e dúvidas. Há vários e pequenos caprichos onde eu não alcanço e nem sinto chorar.

não tem jeito que o amor é assim, arruma desculpa onde é apenas floreio.

Dira Vieira

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