O sorriso amarelo estava ali, como máscara naquela manhã de azuis imperceptíveis. Enquanto o carro se perdia na estrada e a paisagem contava histórias que Madalena não queria mais lembrar, o que era do ontem tomava corpo na sua memória. Pequenas imagens, rostos, conversas interrompidas, choro contido, despedidas. Madalena se recolhia na cadeira de viagem em posição fetal. Na face, agora, uma expressão de desconforto e aflição. Eram várias Madalenas esfaceladas em um mesmo corpo. As que sorriam, as que choravam, as que sentiam dor e não ousavam revelar. Um outro corpo habitava as suas entranhas, a de uma Madalena esquecida nas ruas de areia de uma outra cidadezinha do interior do estado.
Fechou os olhos para tocar a menina com os seios ainda por vir. Brincadeiras na chuva, angústia desatada por algumas dores de adulto que ela ainda não distinguia em si. Quem era aquela menina de cabelos cacheados, boca carnuda, mãos pequenas, unhas roídas que varria ao redor da casa enquanto a mãe saíra para trabalhar. O que sonhava aqueles dedos que empurravam o lixo para dentro do saco, sem a ajuda de uma pá? Madalena sorria, de olhos bem fechados enquanto o carro sacolejava na estrada.
O desconforto da viagem trazia à sua memória uma lembrança dura, que doía enquanto a imagem se formava em sua cabeça. A ausência de tudo. O vazio de coragem que a perseguiria por toda a vida. Madalena era outras e não era mais ninguém por esses dias de reconstrução.
Seus pedacinhos, ora encardidos, ora azulzinhos, ora tímidos, diziam muito pouco do que ela realmente queria. Assustaria se gritasse o seu querer? Cada toque seu era bem vindo, mas as pessoas assustavam do profundo que aquela palavra poderia supor e seduzir. Não fale mais, Madalena. Chega! Jogar aos poucos as suas pérolas e os beijos de carmim. Para que? Não era uma estrada longa e sempre solitária que a esperava nos dias vindouros?
Chega, chega, Madalena. Dispense o ar condicionado dessas suas decisões sempre tão arrumadinhas e abra as janelas do carro. Se o cabelo se molda à posição do vento, logo, logo o seu olhar verdadeiro não precisará de antigas lentes. Há travas na portas? Sim, sempre terão. Travas nos olhos e nas pernas, cola a mais nas paredes do casulo, excesso de cuidado com a chuva.
Madalena abriu os olhos e viu a estrada à frente como uma serpente morta, caminho para os pés em suas voltas. O ar batendo contra os vidros, trazia pingos de um outro choro. O choro dos céus, a promessa de sonhos. Madalena era a vontade que se debatia contra o vidro, respirava fundo e entornava o corpo amargo de remédio. Outro impulso e lá estava Madalena novamente contra o vidro, até que ele fosse pedacinhos, como os seus desejos de pequenas asas infantis.
Madalena abriu bem os olhos para retirar as lentes e abrir os braços para voar de novo contra os seus moinhos internos.
Os olhos de Madalena tinham aquele branco de outros dias. Eu tinha muito medo quando a via assim. Olhar parado. Uma angústia que mergulhava o seu azul numa nódoa de branco quase transparente. Seu semblante era uma página sem as linhas de escrever, o que não tinha o que contar, com a aparência de um molusco que estaciona sua baba na parede e alí fica por horas e horas a fio.
Eu era nela observação, angústia e medo.
Os cabelos desgrenhados não viam escova há dias. A pele, antes úmida de intenções, habitava a solidão de dedos e de luz. Não dava para entrar naquela bolha, mesmo que ela abrisse a porta. Algo de mistério e dor cercava os seus pulsos e Madalena lacrimejava ausências de si mesma.
Aproximei-me como quem se aproxima de um passarinho, com medo de assustar e vê-la voar sozinha. Estou aqui. Disse quase balbuciadamente. Eu sei. Madalena respondeu lentamente. Mas não adiantava. O deserto por onde ela caminhava não dava espaço para outros passos. A solidão dela sempre foi de um egoísmo gritante. Timidamente saí dali, não sem antes tocar o seu cabelo fazendo um carinho.
Quando eu sai, Madalena continuou com o olhar perdido na janela. Esperava o que não viria, o que se fora dela com o presente que lhe deram sem nunca ter tirado o papel de presente. Não é seu, Madalena. Nunca pertenceu a você. O ontem se vestia de um azul, agora incompreensivelmente mentiroso.
Sei que chorou. Quando a noite se escondeu, a janela onde ela possuíra os silêncio estava molhada de dores amenas. Não quis nem encostar. Não poderia profanar aquela dor de estimação. Madalena tinha dessas excentricidades. Nunca tivera mesmo coragem de dizer não e vivia a sofrer sozinha, com medo de fugir de si mesma.
No dia seguinte, procurei-a em seus aposentos. Madalena já era rua, descalça, de vestidos estampados, tocando a relva de suas lágrimas do dia anterior, mesmo que ainda carregasse em si as suas cacimbas d’água nos olhos.
Madalena era propriedade privada das tempestades. Tinha os braços abertos sobre as paisagens líquidas, quando os seus poros apenas eram súplicas poéticas. Quem poderia supor o que lhe faltava? Qualquer dor, era o fim do mundo, o mergulho sem volta de suas angústias. E nós, os mortais que a rodeia, não temos dom algum de tocá-la quando ela está nesses momentos.
Madalena é intensa em todas as coisas. Quando ama, quando sofre e quando usa batom. Ela é única em suas ilhas. E eu sempre fui apenas espectadora de suas danças, a borboleta que a segue pousada sobre o seu ombro, mas ela nunca me deixou chegar mais perto que a brisa daquela janela.
Imagem: Luiz Ferreira (Site 1000Imagens)
O dia chuvoso embaçava o vidro traseiro do carro. Velocidade controlada pela anomia do olhar que se perde entre os carros e os pingos fortes da chuva que lava os dias. De que adianta? Quanto mais escorrem palavras, mais sujeira incrusta nos recantos da indiferença.
Ah, o dia é breve entre os sonhos de Madalena e a estrada úmida entre os seus dedos. O pensamento se arrasta como se fosse serpente. Sonífera idéia. A vontade que se interrompe quando ela acorda, abre os olhos e percebe que nada mudou. Que desastre...
O olhar faz contorno com as mãos e esbarra em gavetas carregadas de angústias e lembranças duras. Madalena não merece isso. Merece planícies onde pode desfilar sua boca carmim. Mas ele insiste, faz charminho, ri de levinho desviando das setas do olhar dela que o deixa imóvel no meio da sala. Por que remexer no que foi apagado por livre e espontânea vontade?
É azul a cor do passado. Anil no lençol branco como a sua avó ensinara. Ela se esparrama na cama ainda desforrada pela sua angústia desatada e entende que o tempo tem sua linguagem própria.
Ele a tocou. Tinha a mão pesada. Cortou o vento e a distância mínima que os separava e invadiu a sua blusa num toque que em outros momentos demorariam uma eternidade para acordar. Os dedos dele, ágeis, pesados, passearam pelo seu seio. Madalena prendeu a respiração de menina assustada com a primeira invasão naquele corpo intacto. Quis sair dalí. Quis ficar. Era uma mistura de sentimentos. Gostava. Delirava. Ao mesmo tempo, tinha muita raiva por um gesto que seria o primeiro e único naquela relação.
Era uma despedida. Um aviso de que passara a primeira impressão daquele amor prometido pra sempre. Ele crescera. Madalena não. Ainda era a menina apaixonada pelo menino mais lindo e inteligente da sala de aula.
E agora, ele a tocava, deixando a sua marca. Para nunca mais. Será que ela conseguiria esquecer aquele gesto fora de hora, de contexto, de tudo?
Madalena se encolheu na cama. Puxou o lençol e tocou o seio que ele tocara. O seio que guardou a marca daquele moço. E tudo isso voltara lentamente à sua memória, apenas por ter esbarrado nele no elevador. Por que isso tudo estaria de volta pelo retrovisor?
No seio, ainda o peso daqueles dedos. E a imagem do também menino querendo crescer, manchava-se embaçada no vidro do carro. Madalena era o brilho, e o desejo na boca. As mãos inquietas que não sabiam onde se postariam quando o moço a tocou para sempre. Isso ninguém a ensinou. Era uma pena. Tocar aquele corpo foi tudo que ela sempre sonhou.
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