O primeiro round

(Imagem capturada na net, mas desconheço o autor)

 

 

Não demorou muito para sentir a presença dela dentro da casa. Sabia que o seu espectro, o de uma mulher gorda, obesa mórbida se movia pela sala, por todos os cômodos como a desafiar o espaço que a encolhia e a própria gravidade. Um pavor me subia as pernas. Um medo atroz. Mas não me intimidava. Sabia que era maior que ela. Era apenas um fantasma, um demônio escroto, e o melhor, mortinho da silva. Eu estava lá, viva, poderosa, poderia vencê-la, baseada na fé que me tomava o corpo e a alma. Eu confiava em Deus, plenamente. Sabia que aquilo era decorrente do que acontecera durante o dia quando pregávamos para crianças que nunca ouviram falar de Jesus.

 

Eu sabia que era uma represália fortíssima. Quando a vizinha chegou com aquele olhar meio atravessado, querendo começar uma briga que não era dela, percebi que viria chumbo grosso pela frente. E veio. Começando com uma dança esquisita, um besouro que invadiu o meu ouvido e quase pôs à loucura e a cena dantesca em seguida. Nada fazia sentido. Nada se encaixava. Parecia um filme em outras dimensões. Ninguém entendia o que estava acontecendo. Nem eu. Tinha apenas uma suave desconfiança. Mas não tinha nenhuma experiência na área.  

 

À tarde, quando estávamos juntos às crianças na praia, eles tinham sede de saber quem foi Jesus e o que ele havia sido na história. Depois de conversarmos sentados na areia, os meninos queriam que entoássemos alguns cânticos sobre Jesus. Quando o fizemos eles caíram em um choro coletivo. Eu não entendia nada. Começou com um, depois, uns olhavam para os outros e começavam a chorar também. Eu não sabia o que fazer. Não estava preparada para consolar 10 crianças que não tinham a menor base religiosa, além de serem crianças carentes, de lares complicados. Apenas abracei uma a uma...delicadamente e começamos a orar para que Jesus, o motivo de estarmos ali os consolasse um a um. E foi o que aconteceu. Os meninos foram acalmando, até parar completamente de chorar. E foi uma alegria geral. Corríamos na praia como se tivéssemos todos as mesmas idades.

 

Mas naquele momento, preocupei-me em proteger as crianças na cama. A mulher obesa caminhava lentamente pela casa, empurrando para longe as paredes e os móveis. E poderia sentir bem de perto a sua ofegante respiração monstruosa. Ela era odiosa. Sua presença me causava um profundo mal estar. Um torpor. Uma náusea. Eu não parava de tremer, mas não recuava em orações. Sabia que de alguma maneira Deus enviaria para aquele lugar anjos poderosos que contenderia por mim. Eu tinha absoluta certeza disso.

 

Era uma guerra. Uma guerra invisível. Enquanto todos dormiam na casa, eu estava imóvel sentada na cama, morria de medo, mas não recuava, não dormia, não fechava os olhos. Orava de olhos abertos, guerreava. A mulher não entrava no quarto em que eu estava, nem poderia, seria queimada instantaneamente. Eu podia sentir isso, pelo calor poderoso que me agasalhava. Acho que isso a irritava, ela crescia mais na sua ira. Caminhava como se fosse um gigante pelos cômodos. Suas passadas eram como trovões, seguidos do estremecimento dos terremotos. Eu apenas orava e clamava a proteção de Deus.

 

Pedia que o dia amanhecesse logo. Que pudesse ver o sol iluminando a casa e ficar livre da mulher. Ela tinha um nome. Eu ordenei que me dissesse o nome. E ela disse. Nunca mais esqueci disso. Quando o dia amanheceu, eu estava exausta. Os olhos fundos, o corpo deplorável, pareciam que tinha levado uma surra. Mas eu estava ali, viva, vivinha e a mulher, o sol partiu em mil, o pobre espírito irado tinha virado fumaça.

 

Mas as conseqüências dessa guerra puderam ser percebidas ao longo do dia seguinte. E só eu sabia, o que tinha enfrentado. Ninguém mais. Porque o invisível não existe para a maioria das pessoas, quase que assunto proibido entre todas as rodas de amigos. E isso não daria para explicar a qualquer um. Eu sabia que outros embates teria com aquela mulher. E realmente tive. Mas isso é assunto para outro dia.

 

Dira

Augusto toca a canção, Madalena é volta

 

Certamente seria uma cena comum se ela não estivesse ali, naquele exato momento. Madalena me contava com os olhos cheios de uma esperança que há muito eu não via em suas estantes da alma. Os olhinhos eram poemas concretos, mergulhados em lágrimas de alegria.

 

Coloquei uma música enquanto ela, deitada no tapete da sala, olhava para o teto a contar como foi o encontro tão sonhado. Eu embarcava na sua narração, me emprestando as asas para ser a angústia tirando férias e embarcando naquela nave. O desejo de Madalena me dava asas.

 

Quando bati à porta, Mel, não imaginei que ele a abrisse. Entende? Sim, ele mora sozinho. Não teria outra pessoa a abrir a porta. Mas eu não esperava que ele tivesse aquelas feições. Esperava alguém diferente. Madalena contava quase sem fôlego. Foi só abrir a porta, Mel e eu mergulhei nos braços dele, sem nenhuma corda. Éramos apenas dois corpos, entende? Nenhuma pergunta. Nenhuma interrogação. Carla Bruni tocava em um aparelho de som muito simples que ficava em cima de uma mesinha rústica no canto da sala. Um tapete lindo verde-musgo, adornava a sala com almofadas espalhadas de todas as cores. Na parede, quadros pintados por ele. Lindos, de uma textura emocionante. Era como se eu entendesse de artes plásticas, você me entende, Mel?

 

Claro que eu entendia. Madalena estava apaixonada. Isso eu entendia tão bem que não carecia dessa pergunta inútil. A sua voz tremia quando falava em Augusto. O homem que tocava violão. Ela daria outros nomes a ele. Vítor, Roberto, Mário, Tadeu. Tantos nomes a apenas um desejo seu, o de entregar-se ao amor, sem nenhuma reserva. Madalena é ávida de amor e de emoção. Nada a move mais que o desejo. O mesmo desejo que agora acelerava a sua voz e a deixava perdida com o movimento de suas mãos no ar. Ela gesticulava o desejo e o encontro com o Augusto de suas falas.

 

Não tomava vinho, Mel. Mas em cima da mesa, uma cesta de vime trazia em seu interior uma garrafa de um vinho especial. Duas taças. Você bem sabe como dou valor à taça que recebe o vinho como o nosso corpo recebe o melhor do outro, a taça que toca a nossa boca e traz o melhor vinho não pode ser qualquer taça. E aquela, Mel, era a taça que ele preparou para nós. Madalena não parava de falar e eu me confundia o tempo inteiro se era ela ou eu ou o desejo de Augusto me invadindo a alma  com a sua voz ao violão, cantando enquanto entornávamos o vinho à boca. Meu amor, repetia Madalena enquanto eu me transportava à cena.

 

A música se auto repetia no aparelhinho na sala. A minha música... enquanto suas mãos tocavam a garrafa de vinho, para me servir. Como um ritual, uma oratória, Augusto me esperara a vida inteira. Ávido para beber de mim minhas falas nele. Sentei nas almofadas já solta de mim. A boca queria falar da agonia de tantas ausências, mas era apenas o rio, correndo para as suas mãos hábeis que me tocavam, como se tocasse o seu violão, o instrumento de sua paixão. Augusto sabe onde eu me guardo, Mel. Quando me olha, destrava os meus secretos e eu sou rua sem carros, sem sinais, aberta para que ele percorra em alta velocidade, como se já tivéssemos perdido tempo demais.   

 

Quando finalmente aproximou-se, não tinha os atos tão comuns aos homens que violentamente nos forçam a tocar o seu membro, como se eles fossem apenas o sexo, ereto e nada mais o possuísse. Augusto é homem da cabeça aos pés, entende isso, Mel? Repetiu isso algumas vezes para explicar o seu amor. (Eu não só entendia, como já amava Augusto e sua poesia).

 

Claro que entendo, Madalena. Entendo o seu brilho no olhar. Entendo as pernas entreabertas e suas mãos acenando o dia seguinte para o tempo não deixar que aqueles dias ao lado de Augusto não sejam paisagem em sua memória de felicidade. Madalena é especial, porque descobre em nós o especial que escondemos por trás dos dias mórbidos de lamúrias e lamentos. Lamentamos tudo. Choramos por tudo. Pedimos tudo, queremos tudo. E Augusto era o que o nosso espelho esconde: o homem que é apenas homem, nem deus nem semideus, um homem apaixonado por uma mulher e um momento que pode ser o único em suas vidas, mas nunca igual em outros dias gelados daquela fria cidade.

 

Qualquer momento era a festa completa ao lado dela. Madalena só via o melhor dos outros, e isso me animava a ouvi-la por toda a noite, enquanto eu também desejava Augusto, ali a me fazer as honras de sua virilidade e doçura. Esse sim era o homem, o professor de línguas, e o tradutor de suas falas sempre tão impróprias e inconstantes. Augusto nunca a repelia, quando Madalena esfregava na sua cara os dedos ainda úmidos dos seus desgostos pela vida e a tudo ouvia, silenciosamente, amando-a, querendo-a como nunca o seu querer foi igual. O amor deles era assim, lúcido, dentro da loucura estabanada da minha Madalena sempre tão infantil a contar-lhe das suas aventuras entre um pico e outro de suas depressões e fantasias. E a tudo Augusto acedia, até quando ia embora e demorava dias para retornar.  Augusto apenas tocava a música dela e sabia que cedo ou tarde, ela voltaria, sonata breve, ou rock pesado para as suas teias, levemente absorvida, pela sua pele.

Dira Vieira

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