Recentemente separada de um casamento com um tempo razoável de vida a dois, nunca me aventurei a fazer feira sozinha. Se eu ia para os supermercados com o ex, ia para a parte melhor da feira. Deslizava na escolha dos produtos de limpeza, infinidade de absorventes, sabonetes, desodorantes, esmaltes e xampus. Era uma festa. Estava sempre testando um xampu novo, e mais absorventes para os dias de ciclo, para os outros dias.
Nunca soube o que acontecia do outro lado das prateleiras. Senão a parte dos biscoitos, chocolates e similares. Encontrávamos no caixa, cada um com a parte que lhe cabia e a feira estava feita. Não entendia de carnes, preços de alimentos, legumes, frutas, nada. Sabia dos últimos lançamentos de biscoitos e dos litros e litros de refrigerantes que fazia questão de pegar.
No primeiro mês de separação veio a constatação: preciso fazer feira. Uau! E agora? Chamar a mamãe? Quem sabe uma vizinha, a comadre, a melhor amiga. Alguém precisava me dizer como raios faria essa feira. Não. Melhor não. Se eu vou ter que fazer todos os meses sozinha, preciso aprender logo.
Imagina a dondoca aqui, bolsa ouro velho, salto alto, batom lilás, chegando num frigorífico e ficar feito cachorro faminto olhando as carnes na vitrine sem saber qual a diferença entre chã-sei-lá-de-que, e um ovo. O balconista lá, pacientemente olhando pra mim e eu sem saber como pedir o que. Vi fígado de boi. Ah, esse eu conheço. Esse eu tratava quando o ex trazia pra casa. Fui lá na maior cara de pau, uma autoridade danada e lanço a sentença: por favor, quero meio quilo desse fígado. Ora, pensei que era suficiente, e tal. O cara me olha, avalia a situação e tira 3 bifes bem pequenos, põe no saco, pesa e me diz com cara de deboche: “só isso, madame?” Não sei se o cara disse isso para rir da minha cara, não sei se me chamou de madame para irritar. Só sei que, sem saber o nome das outras carnes e nem sabendo como pedir, respondo como se soubesse o que estou dizendo: Só isso, obrigada. Dei a volta no carrinho que era maior que eu, onde um pacote de café (só um? Lembro que eram quatro para o mês) brigava com um pacote de biscoito e coloquei o mínimo saco com o fígado dentro. Arrumei a pose sobre o salto alto e continuei a minha primeira saga sozinha ao supermercado.
Claro que ainda voltei lá, no frigorífico, depois de dar voltas e voltas entre as prateleiras e ver como as pessoas compravam carne. Parecia uma maluca observando de longe. Olhei, olhei. Elas diziam o nome das carnes, determinavam os quilos, e eu observando tudo, atentamente.
Quando ninguém estava olhando, fingi ter esquecido e fui ver a carne moída. Essa, todo mundo sabe comprar, oras. Está ali, carne moída. Mais simples impossível. Tem até uma plaquinha sinalizando: carne moída. Como errar?Olhei a vitrine, olhei, olhei. E estava lá a carne moída. Feia de dar dó. E onde tava aquelas carnes moídas tão lindas que o ex trazia? Carnes novinhas, deliciosas, eram excelentes complementos nas lazanhas, cachorros-quentes e macarronadas. Mas aquilo era carne moída? Como duvidar da plaquinha. Por acaso não sei ler? Estava ali: carne moída.Putz. Mandei ver, depois de meia hora fingindo analisar as carnes. Por favor, coloque pra mim 1 quilo de carne moída. O rapaz ainda tentou me ajudar: dessa, senhora? E eu, ora, tem outra? Claro. Ele colocou a carne e encaminhei-me pro caixa, sentindo-me poderosa. Com apenas R$ 50,00 (cinqüenta reais), comprei carnes, presunto, queijo, biscoito e café. Comprei até um monte de alho. Adoro alho. É facílimo de comprar. Já vem embalado.
Deus existe, eu sei e uma senhora idosa me acompanhou. Tadinha, ou não sei se uma filha-da-mãe. Quando passei a carne no caixa, e após ter pago toda a feira, ouço da senhora o seguinte conselho:
Querida, deixa eu te ensinar uma coisa (será que me achou muito novinha? eba.), quando quiser comprar carne moída, escolha um pedaço inteiro de chã de dentro (que é molinha) e peça para moer na hora, na sua frente. As carnes moídas já prontas trazem gorduras, porque eles colocam toda a carne que sobra, ou carne difícil de vender. Ah, tá, muito obrigada. Mas essa eu já estou levando. Que maravilha. Fui pro carro, ainda ajudando a doce senhora a atravessar a rua. Caramba, por que raios ela não me avisou antes de eu passar no caixa?
Sei que a carne ficou boiando na geladeira. Fiquei com medo de consumir. E se tivesse muita carne estragada ali? Eca. Preferi não pagar para comer. De novo. Alguém chegou na minha casa e levou de presente o saquinho de carne moída da minha primeira feira, de mulher separada. Um dia eu aprendo. Precisavam me ver solta entre os corredores sujos de uma feira livre. Acho que já vivi o Vietnã. Mas isso eu conto depois.
Amigos, hoje estou aqui: http://mascarados.wordpress.com/ gostaria de recebê-los por lá. Enquanto isso, alguém pode me dizer como eu arrumo esses comentários para ser novo em cada post? Beijos. Espero vocês nos Mascarados.
Sim. Havia vida dentro dele. Uma vida que borbulhava o olhar quando me via, a moça do azul com os seus cabelos esvoaçantes na rua. Ele me via sedutora. Ele sabia. Eu sabia que cada frase que dissesse, algo dentro dele acendia feito um alarme. "E ela nem é assim tão bonita", ele pensa quando se esconde de mim por trás daquele cigarro e óculos diminuto.
Eu bem que fazia de propósito. Gostava de provocar ao me sentir atraída. Mas naquele dia estava cansada de falar. Queria que ele entendesse apenas o meu olhar. Mas ele estava distante. Uma distância quilométrica que o afastava pela eternidade do meio metro. Na maioria dos dias, sou como tempestades incontroláveis, poucos são os gestos que me suportam. Poucos são os homens que me completam. Vitor completava, mas gostava de fugir de mim. Talvez fosse o seu jogo para me enlouquecer, de vez.
Homem das letras, escritor, o melhor professor daquela faculdade. E era só meu, até poderia dizer. O sentimento de posse aflorava instintivamente, mesmo quando eu reprimia. Era só ele passar com aquele jeito de poucos amigos, cara fechada, cigarro sempre entre os dedos, e eu pensava, é todo meu, esse homem sou eu. Eu sentia uma atração por aquele homem, porque de tão diferente, ele se tornara o meu avesso. Era só mirar os seus passos e em mim, algumas senzalas se abriam deixando livres os meus temores. Eu era livre o ventre aceso para ser vitórias nas páginas que ele inscrevia em mim.
Vitor tinha algumas chaves que eu resguardava de quase todos. Mas ele não me abria. Eu tinha a posse do corpo dele quantas vezes tivesse vontade. Quando o via evitar o meu olhar e entrar na sala dos professores como se ali fosse um quartel geral livre de minhas garras, lá estava eu, Madalena, para seu desespero, pronta para seduzi-lo para deleite dos voyeur de plantão. Não tinha perdão. Ele sentava em sua sala minúscula e ligava o radar contra o meu olhar. Mas éramos ímãs e desfrute, lâmpadas acesas e tomadas ligadas na contra-mão.
Nunca fui feliz. Nunca quis ser seduzida. Nunca quis ser de alguém. Eu me possuía a mim mesma e esse era o meu gozo diário. Gostava de libertar minhas presas, sempre depois de fazê-las imensamente felizes. Nunca ninguém entendeu como eu mandava embora os homens a quem amava desesperadamente. Não fazia jogos. Não fazia guerras. Nem conheci o ciúme. Eu simplesmente pousava para beber e seguia meu vôo diário. A vida segue lá fora. E ele gostava de rebater dizendo, aqui dentro também.
Nem do Roberto, quando ele me possuiu a alma eu tive ciúmes. Eu nunca fui de ninguém, nem queria que ninguém me tivesse. Era a regra. E eu sorvia dos lábios do Vitor o desejo dele e o seu medo de entregar-se a uma louca dos cabelos esvoaçantes. Abrir a sala dos professores era o meu melhor ritual. Não era um jogo. Nem era uma guerra que nada tinha de fria. Tínhamos um ao outro, escorrendo entre os dedos e o sexo latejando entre as pernas. Quem poderia pertencer a alguém se sentindo parte daquela atração?
Não conto as vezes em que fizemos amor sem tocar o outro. Sim. Fizemos amor por tantas vezes que quando o via naquela sala indefeso ao meu toque, a gente ria da situação. Eu fecharia as portas ali mesmo e o possuiria, se o Vitor já não me tivesse em todas as vezes que escrevemos cartas um ao outro. Sim, fazíamos amor com o olhar e com a palavra tantas vezes quanto os dias nos dissessem não, afastando a nossa mão de tocar o outro. O nosso amor não era um jogo. Nem uma obrigação. Era a necessidade que tínhamos de nossas almas, juntinhas naquele momento, lendo uma poesia, enquanto os corpos juntinhos provavam o cheiro do outro.
O amor sim, era um código aberto, ensinando as regras de um não-jogo e nos ensinando o brilho dos olhos nas letras que nos ajudavam a flutuar quando o outro tocava a música ao violão, enquanto deslizávamos nas pernas um do outro. Vitor finge que não vê, e eu finjo que acredito que é não em mim que ele pensa quando deseja água para beber. Ele me bebe todos os dias, quando eu passo, quando ele desfila. E é em sua boca que eu viro cinzas quando ele me suga em cartas que trocamos depois do amor.
Mas na verdade é ele quem me provoca e eu apenas reajo, como tempestade que sou, instântaneamente, na vontade de ir, na de ficar, gasolina secando no carro, enquanto dou voltas no quarteirão, esperando o momento certo de ser com ele, como na sua canção em completa luz do dia.
Dira
(para Luis Fragoso, Claudinha, Sara, Zeca, Taís, Nélio, Marco, Loba, Cherry, Claire, para os meus amores de longe e de perto, o meu coração)
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