Reescrevo-me numa página em branco. Uma, duas, linhas em que traço apenas as confusas idéias do verso seguinte. Não tenho o tamanho exato da dor alheia, mas sei que o que nos ronda é a ausência de estrelas. Há tempos que não uso mais mapas, bússolas, estratégias de guerrilha. Passo os dias matando os leões que esbarram no meu medo.
É tarde. O espumante borbulhando na taça dá conta das minhas lágrimas. Uma a uma. Nem sei o que me faz chorar, nem os motivos de não sair para ver as ruas. Dou-me conta de que os meus sábados são verbos que conjugo no passado e no singular. Atravesso as borbulhas e penso que há um universo ao contrário. Acenos com lenços vermelhos. Por que acreditar que o outro pode ser feliz é assim tão complicado de aceitar?
Viro a página e a folha em branco que não consegui escrever vai para o prato seguinte. Alcaparras, legumes, marcas na geladeira dão conta dos anos que estive numa bolha. Eu sou uma bolha e as borbulhas do espumante chamam a minha atenção para a luz da lua que invade o quarto e as horas se completam na novela das oito.
Páginas da Vida. E a minha ainda está em branco enquanto a caneta já secou toda a sua tinta. Era um dia azul como todos os outros coloridos. Eu só podia mesmo imaginar que aquele ser que caminhava fétido pelas ruas, tinha um olhar mágico, quase lÃquido, algum chá que não tomei antes de dormir. Não consigo chegar ao último capÃtulo. Aquela imagem sempre aparece, em calafrios, e me fecha os olhos, no melhor parágrafo. Enquanto cruzo o olhar com a paisagem, sei que do que acompanha passo a passo na calçada. A minha página ainda está em branco e eu não consigo passar à página seguinte.
Talvez me falte o batom ideal, a roupa nova, a nova máscara, aquele perfume inesquecÃvel que deixa rastro. Talvez a mordida, a languidez, o olhar duvidoso, a alma alada. E a vontade de fechar o livro e redesenhar o mar. Algumas trilhas ficam marcadas para sempre com o novelo de Ariadne. Já nem sei se sou o novelo, ou os labirintos da minha inquietude insana.
Aquelas ruas tinham um cheiro peculiar. Esse foi o marco, o ponto de partida para todas as minhas falhas. Há tempos que deixei de usar os mapas, se eu me perder dessa vez, terá sido unicamente por opção e graça.
Foto Imagem: Elsa Mota Gomes (1000Imagens)
Debruço-me na varanda do apartamento e vejo a cidade amanhecida em dias que esperam. Sei que suas esquinas me esperam passo a passo, a traduzir os meus secretos.
(quem sabe de mim são as costuras do avesso e minha blusa na cadeira do ônibus finge guardar o lugar de alguém)
Descanso as palavras enquanto o ônibus envereda o sertão quente, como as minhas idéias. As palavras, deixo descansar no banco vazio ao lado, quem sabe assim elas me traduzam essa impaciente vontade de alcançar o céu.
Na janela, a paisagem completa: quantos quilômetros percorro ao encontro de tua boca?
Sei da estrada e dos segredos que me conta enquanto deslizo em seus braços de um asfalto quente mesmo quando a noite cai. Os acordes do motor é a música que me embala enquanto penso nele, placa a placa, passagens que esbarram contra a janela de emergência. Os dias seguintes se abrem em harpa em minha vida. Nota a nota, eu conto das dores que tive e dos pesadelos diários das horas que estive só na estrada, querendo saber a minha identidade sonora. Que música soaria melhor aos teus ouvidos se eu sussurrasse o seu tom?
Se eu te contar o meu sonho, erguerás para mim um caminho a sós? Ando querendo o teu beijo, em pequenas conchas que quando a estrada se alonga eu te alcanço numa nota só.
O dia me conta dos seus ciumes, horas e horas em que teço esperas na janela do terceiro andar. A saudade ensina quantas dobras possuem a minha ausência. Não fazem faltas que me olhes a cadeira vazia na mesa. O prato continuará limpo e a solidão irá temperar tua ingratidão.
Adormeço o corpo sobre o teu, formato de mãos que seguram o mundo, ar-condicionado, um homem que ronca ao lado, o barulho de um celular no fim do corredor e uma criança insuportável que grita sem parar uma tabuada de cotidianos.
Eu sei da estrada que me conta das intenções do verbo. Quero o teu longe, a página virada, o branco de ausências e o perto que me esconde do tédio.
Algumas vezes me cansa remodelar os sonhos para caberem em caixinhas de sapato branco. O tempo recorta e eu me embrulho para o presente.
Dira Vieira.
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