Tempo de chuvas
Quando ele se derramou em mim, nem era primavera e o cheirinho de flores silvestres entrou como oxigênio em minha pele, inexplicável, como o que senti quando mergulhou em mim. Precisei respirar fundo e beliscar o dentro para saber que estava viva. O tempo não deu espaço para o vento forte dos dias correrem entre nós. Estávamos tão juntos que nos confundimos entre as nossas bocas. Eu bem que resisti, e troquei as toalhas sobre a pele, armazenei as resistências e disse não posso, por favor entenda.
Era apenas um disfarce das normas e dos dias contados. Ele era tudo o que eu precisava para arrumar a rota dos meus planetas ao redor de mim, além de alguns saturnos que se escondiam entre os meus braços.
(eu tinha um vácuo de estimação e faltas e uma saudade atravessada como espinha na garganta)
Eu precisava na verdade, controlar os meus impulsos suicidas e atirar-me àquela boca que me chamava pelo nome quase tão silenciosamente quanto o meu desejo tocava a sua face. Era tão suave aquele cheiro e a barba por fazer fazia estragos na minha pele. Marcas que nunca sairiam após anos e anos e banhos e chuvas.
Andava solta, como se não me pertencessem as ações e a boca úmida de faltas. Mas foi tão de repente. Não houve tempo para pensar duas vezes. O lábio pronunciava trêmulo as letras do nome dele, água que se derramava em mim, como uma comporta aberta, deixando-se ondular folha a folha na epiderme das minhas esperas. Nem era fevereiro, mas eu sabia que ele me prometia outros janeiros em dobro. Toda a vida e a pele umidificava quando ele me chamava, pássaro obediente a comer alpiste em suas mãos.
Naquele dia, foi apenas um sussurro, a palavra quase não saía, mas o verbo era imperativo e viramos a rua rumo ao desconhecido. Promessas que não fizemos para não interromper o ciclo das águas. Ele era primavera em outra estação. Flores ainda em botão, e eu, cismada de outras tempestades, abri-me em pedacinhos, lentamente, a cada toque da língua dele. Os dedos dele fazia poesias breves nas tardes suadas e eu a tudo compreendia como dádiva.
Não era o fevereiro que sonhávamos. Nem o março seguinte das dores. Mas em nós, todos os meses se completavam no filho que teríamos com o imperativo das faltas amordaçando o querer. Eu te falei que não atravessasse a rua nos dias de chuva. Lembras? Mas a felicidade, e a vontade do desejo que cega a língua, subiu os degraus do quero, e partiu para uma terra úmida de esperas aflitas. Se a nossa espera tivesse um nome, perderia o secreto e seria mais uma rua de estacionamentos comuns. Não era comum aquele desejo. Nenhum é.
Não precisou pedir duas vezes para que eu voltasse dali. Estava escrito que eu feriria a lua e voltaria. Boca que me esperava na calçada, ali, bem perto, quando fechei os olhos, apaguei a luz e mergulhei. Suas mãos pálidas de desejos e insegurança, atravessaram os sim, e abriram a blusa, nem sei quem saiu de mim, se os seios, ou todos os filhos que teríamos juntos. Fechei os olhos para não profanar o sábado, e faltou-me ali todas as certezas matemáticas. Porque quando ele se derramava em mim, eu era areia úmida, e terra pronta para a semente, lugar comum de ausências.
Já era março e nem percebemos, e outros elefantes nasceram em nosso ventre, amores, partidas e vindas. E o coração em pedaços marcava hora ao telefone. O amor comportado, ainda molhava as fibras óticas e se acumulava pelo retrovisor. Quem disse que soletrar era verbo solitário? Vi isso nos olhos dele, miúdos, me mandando embora na paisagem bucólica. Vá embora, antes que me impeça de ir. Porque sou contigo, a epiderme do ontem.
Era a boca dele, sempre tão molhada, que me lavava a alma, cacheava os cabelos e enrubescia a face, quando a roupa deslizava joelho abaixo e ele só sorria. Um sorriso indecifrável, um código que nunca conseguimos decifrar e pagamos caro por todas as culpas. Um dia, o amor cansa de se desculpar e anda sozinho, chutando lata, sujando a rua, gastando o batom em bocas ressequidas.
Depois de ensaiar as ausências, nos acostumamos a comportar as águas, e nunca mais os janeiros foram ousados. Travamos nossas batalhas tímidas e seguimos sozinhos, molhando os pés nas lembranças, umidade que nunca mais provocou-me deslizes. Tocaríamos outros céus, nunca outros paraísos.
O amor, agora reza em cartilhas sociais. Faz lições de casa, calça sandálias em dias quentes. Ponto, livro de saída, horário de embarque, dia de visitas, olhar de arrumar a casa, boca seca, olhar perdido. Alma vagando pelos dias frios, pés que esperam as pantufas esquecidas debaixo da cama dele, ali, logo ali, do outro lado do amanhecer pelas ruas de baixo, ao lado do violão na avenida paulista.
Das minhas tranças, sei apenas das madeixas que a mão dele desenhou enquanto pescávamos estrelas nas noites perdidas. O tempo redesenhou a lua, varreu todas as ruas, e trocou os tapetes de jardins pelos os da sala. No lugar dos rios que suas mãos provocavam, fica hoje, a mesa de jantar, sempre posta, com os talheres fora do lugar. Para que arrumar, o que a correnteza levou?
Dira Vieira
|
|
|
|
|
|
|