
Hotel Room (Thyssen-Bornemisza Collection) Edward hopper
E o sono não vem...
A noite se perde entre as paredes e o tempo voa. Viro de um lado ao outro da cama e o sono é um monstro no armário preso de cansaço. Se ele sair perco a palavra que me incomoda no vazio. Minha alma seca os olhos e já não acho as lágrimas de uma menina doce que caminhava no centro da cidade comendo milho verde cozinhado.
Temo que o tempo tenha secado os meus pomares e as minhas fruteiras, sejam mulheres estéreis à porta do hospício. Sou um bebê desmamado e faminto. E a minha angústia são algumas faltas sacodindo o travesseiro sem consiguir embalar o sono, como quem embala um filho agitado e nervoso. Ainda sou mãe do seu desejo de embalar em mim as suas canções ao violão.
Por favor, mamãe, não chore. Quando o dia amanhecer, terás o descanso merecido e as mãos lívidas do dever cumprido. Os meus olhos já não marejam mar de saudades e esperanças. E as imagens que me sacodem nessa noite, são as criancinhas mortas nos braços de uma guerra comum que me vem do Líbano. Quantos temores eu chorarei os inocentes mortos? É a terra? É o poder? É o quintal que cercas, é o muro que levantas entre nós? Eu já não consigo comer e nem chorar nos túmulos dos anônimos. Toda guerra que pisa os cadáveres civis são injustas, absurdas e me tiram o sono. E quem morreu é só uma página em vermelho agitada contra o vento.
E mesmo que não venhas, mesmo que não apareças, mesmo que não tomes aquele sorvete comigo, mesmo que não anoiteça, mesmo que não sorrias, mesmo que não me faças a devida honraria, mesmo que não chores, mesmo que me emprestes as tuas pantufas, mesmo que durmas de cansado, mesmo que não amanheças em mim, mesmo que não me tenhas, e me faltes, ainda assim, mesmo que eu morra... ainda vou ser o úmido que recolhes nas plantas na janela aberta de frente para a lua.
Porque nem toda a fome tem o seu nome e nem toda ausência soletra a sua pele. Mas todo o meu corpo falta os seus rios e tempestades de palavras. Só as suas mãos conhecem o tom da minha pele nua. Porque soletrar a solidão sempre falta palavras e incompleta o brilho que os olhos escondem de ouvir a sua voz. É tão tarde aqui no hemisfério norte, e já não consultamos os mortos, porque eles estão cansados de ser lápide sobre a nossa memória.
Eu quero o seu olhar mirando o meu nessa madrugada quente. Quem sabe assim, eu não espere o dia amanhecer e não enxágüe a vida com as nossas chuvas e os nossos dedos, ávidos de fazer acrobracias para o dia nascer mais lindo sob o céu do Líbano.
(Enquanto os corpos dormem em camas seguras e confortáveis, as meninas e os meninos que um dia poderiam entoar versos, fecham os olhos para sempre, debaixo dos escombros e nos braços dos homens que correm desesperados para lugar nenhum).
Eu bem queria a sua boca úmida a dividir comigo a insônia de viver esses dias cinzentos de pólvora e escombros. Porque o mundo pesa para que olha sozinho para o lugar comum. Com quantas lágrimas, farei rios secretos para inventar novos sonhos e esperanças?
Temo que os meus olhos tenham voltado ao tempo de estio e secas. Temo que em mim, a tristeza seja o café amargo na refeição diária de todos os dias. Temo olhar os outros, sempre e constantemente, ignorando a lama que nos rodeia e a outra lama que vem do oriente, fechando os olhos cansados de esperar dias mais novos para embalar.
E os esquimós passeiam em nossa lua cheia, dando beijinhos gelados em nossa omissão fria de todas as eras.
Dira Vieira
Imagem Capturada no endereço: http://www.cielosur.com/pc/pc5.htm
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Dira Vieira
Prescrição
A boca do outro sobre o seu mamilo, com uma fome de amante, de filho, deixou Madalena em outra dimensão. Entenderia dali em diante, todas as fórmulas de física quântica. A boca do outro não tinha fórmulas matemáticas complexas e incompreensíveis. Era simplesmente uma boca úmida a devolver-lhe a alma, nos dias que se seguiram de tantos vampiros a dissolvê-la em pedaços.
O outro a comia. Literalmente. E ela, lânguida e úmida, como as tempestades que ensaiara por anos a fio, era alí naquele instante, apenas um fio que a conduzia à vida e o seu seio ligado na boca dele, como um cabo de energia em alta voltagem. Poderia ter desfalecido naquele momento que não faria falta em nada, o sexo dos anjos, e o toque mais profundo de qualquer natureza. Madalena não era dele, nem dela, nem de mais ninguém, apenas um delírio, uma felicidade, um gozo latente na boca do outro. Por que precisaria de mais?
Apoiou-se na parede, para não se deixar levar pela corredeira e cair, como seria o inevitável, diante do tremor das pernas. Não era o proibido, não era o consentido, não era o carnal, era apenas o seu desejo e o do outro, escrevendo sobre o seu corpo, página em branco, perfurada de tantas dores, um outro estatuto de amor, um estatuto das permissões de amar.
Sim, seria apenas o amor, esse lugar-comum, reescrevendo de si, as órbitas dos seus olhos enquanto a língua lhe delineava as curvas de um amor prescrito em conta-gotas. Ela ainda não sabia lhe dizer "te amo". E nem ele ousava quebrar o livre do instante. Seria pisar o chão e perder as asas.
Madalena sorvia esse remédio metodicamente, até que estivesse devidamente curada das luas atropeladas e soníferas que se permitiu sonhar e negar silenciosamente.
Foi aquela língua que solene, cantava-lhe louvores, que a preencheu de rios e abriu-lhe os caminhos pegando sua mão para atravessar a rua nos dias de iras, protestos e sinais vermelhos.
Dira Vieira
Há um silêncio depositado sobre a mesa. O teu nome e o meu partidos em um fevereiro que não se completou em linha reta, pela fechadura. A minha saudade, como dedos aflitos sobre o peito que se completa de pelos, espera o dia, o apocalipse, os sonhos dos teus olhos miúdos. Eu poderia voltar o relógio e acreditar. E as aspas fechadas sobre a carta que não mandei talvez traduziriam o meu contrário que tu não conseguistes tocar mesmo quando fiquei de costas e não ousei ir embora. Eu não ouso ainda escolher o esquecimento. Esqueço pois de mim, em vários lances de escadas no descendo.
O que vimos era apenas um holograma em preto e branco. E as mãos espalmadas sobre o meu branco tinham o marron dos teus dedos e a sede dos dias ocultos chorando sobre a paisagem. (Lembras? Tu fechavas os olhos e a boca tinha o formato de uma concha aguardando a minha).Quantos dias o melhor de mim esperaria a tua volta, ali na paisagem sonora do telefone, tocando numa hora imprópria e indecente a acordar as estrelas, que fartas, iam dormir sem a tua palavra. Foi o teu ciúme que deixou a porta aberta e o amor voou para longe. Eu bem que sabia que o amor não vira cartão de ponto, nem estampa crachá expondo o feliz aos olhos dos outros. Burocratizamos o amor em horários e datas importantes e ele caiu de maduro. É leve para começar, é duro para ir embora. O dia do primeiro olhar, primeiro beijo, primeira vez que disse te amo, primeiro toque, primeira traição. Datas inesquecíveis guardadas no meio do livro, junto a primeira rosa e o papel do primeiro bombom. Quem disse que eu saberia colecionar quantas vezes te vi embora pela minha própria covardia.
O verde é o que vejo agora, sobre o peito nu de ausências escrevendo o teu nome na pele, como pergaminho. Queria ler a tua língua e os teus contornos de desespero daquele nome que não ouso dizer, sussurrando-o por mil vezes, contra o vento, como se fosse um mantra suave e carregado de dor. Eu conto os dias em que me fazes faltas e que me secas as lágrimas dos olhos. Há tempos tu não me molhas e sentes. Há séculos que não sou contigo e dói.
Eu estava de costas e o meu avesso era o teu nome ao contrário. Por que cargas dágua é tão difícil assim ler passando os dedos sobre a pele? Não falei eu que o invisível tinha o gosto do meu batom e o meu perfume era a tua saliva impregnada nos meus segredos? Não trocamos nossos cheiros por um outro comum a dois?
Sem jeito de voltar ao ontem, quando o relógio avançou o sinal e as montanhas mudaram de lugar realizando o teu desejo de milagres de um fevereiro morto e sepultado. No dia que chamo presente, tenho os restos de uma festa triste e os convidados dormindo sobre o tapete da sala, nem sabem ao certo o que vieram comemorar. Estavas em uma outra foto, outro retrato de vida, outro outdoor, uma outra boca desaprendida do meu nome. Eu tinha um verbo incompleto e proibido e o peito ainda ardia violentamente a cena do ontem.
Alguns verbos são impossíveis tocar, o que dizer conjugar, tocando o céu com a língua. Se eu pudesse, juro, eu comporia um verso, uma trilogia surda para brincar de índio, enquanto soletraria minuciosamente o teu nome em vários tons tocando fundo as tuas fogueiras.
Algumas tardes não deveriam acabar nunca. E a voz ao telefone, era de uma telefonista que repetia seguidamente, que o teu número, era uma combinação de sorte. Deixe o seu recado que na próxima onda ou uma outra vida, se assim pudesse, eu te retornaria o fevereiro que não conjugamos e nem repreendemos da falta. Algumas falam já nasceram mudas e ainda assim, o relento é o que me molha a paciência de viver.
E se for preciso finalizar o terço, terminar de contar os passos, farei uma prece enquanto molho a língua de todas as faltas para te ter ao menos, pelo retrovisor, acenando o teu marron, para a minha pele branca de sol, desenhada num poema novo, comemorado enquanto te espero em uma outra antologia úmida.
Estou só num rabisco com o teu sorriso. Converso ao pé do ouvido com as estrelas e acenas para mim, como cão sem dono, o verbo órfão e a boca pálida de sorrisos. Andas, pegue logo esse ônibus e parta. Eu já não sinto mais a dor, aquieto as cordas vocais e enrubesço só de pensar na tua voz. Eu já nem sonho, reparto entre mim as possibilidades e continuo tocando o barco para o infinito.
Dira
Foto:Ricardo Costa (1000Imagens)
Enquanto dormem as estrelas
Ouvindo Faraco e a sua cidade mostrada a mim com ternura, cresce no peito uma vontade de deitar no colo, ficar em silêncio e dormir. Um sono de cansaço, de
lutas, de rotas alteradas. A mesa cheia de trabalho. Tanto trabalho que a mente corre a fugir de tudo, como se assim, pudesse sobreviver aos holocaustos diários.
Não sei dizer quanto tempo a cidade não cabe em mim e em Si repito a música de Faraco, uma, duas, três vezes, até que a vontade de trabalhar suma de vez e eu corra aqui para respirar e pensar em você na noite comprida, e nessa imensidão de tantos dias em que vou e volto e a cidade se encolhe em mim em dias de chuvas e lamentos.
Em mim, há uma senzala que exala desejos de alforrias e cânticos suaves. Cante para mim, cante. Antes que o dia se canse e acorde. Porque alguns acordes só você dedilha em mim em suas mãos de encantador de imagens. Então, cante, solte o seu verbo e deixe que eu umedeça as suas secas. Porque em mim, algumas águas jamais cansam de descer todas as vezes que a sua voz é a minha música.
O violão toca uma música silenciosa como se fosse uma trilha sonora de desejos e segredos. Notas que só quem sente canta – talvez seja esse o segredo de esperar suas tempestades. Notas que só quem escreve, respira. Ligo o espelho e desenho-me na blusa que cai sobre os ombros, nas caras e bocas que invento. Uma outra mulher que se disfarça, sem batom, sem arremedos, apenas a blusa que cai e ela finge ter medo. Pescador que lança a si mesmo sobre as redes e pesca seus sonhos em solos de um violão solitário. Eu cantaria a noite inteira até cansar a lua no céu.
Não é lua cheia. Nem há um cheiro diferente no ar. É apenas inverno, como tantos outros que virão. A fumaça das fogueiras invade as ruas, deixa os cabelos com cheiro esquisito, e o fogo torna as ruas mais propícias aos desejos de labaredas. Algo de bruxa se acalenta no meu peito com saudades do fogo das cruzadas que trilhamos juntos. Invadir a mata, sem devastar as florestas é apenas uma desculpa para vê-lo nu de todas as reservas. Nem meu, nem sua, apenas juntos pela alquimia.
Não sei se isso é uma carta, ou um texto como outro qualquer. Pouco importa. É mensagem que lanço ao mar, dentro da garrafa. Cãibras nas pernas de tanto tempo parada, esperando a palavra descer numa nuvem especial e brilhar no papel em branco. Ultimamente, sou essa folha em branco, sem sinais de sua passagem em meu território de índio. Talvez rota, talvez amassada, mas com ânsias de ter a pele esbarrada pelo carinho de uma caneta... ou as agulhas de uma impressora moderna.
(que você escreva com pena, tinta e saliva sobre a minha pele úmida).
Aqui, em mim, enquanto Faraco repete a mesma música trezentas vezes, eu tento reinventar a mim mesma a partir da lembrança do que um dia eu fui, quem sabe depois do inverno eu reacenda?
Todos os quilombos me esperam no fim do dia, quando as palavras lançadas sobre mim reproduzam o vinco e umidade necessário para frutificar desejos.
Dira
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