Quando o meu tempo era margem eu te recebi em mim. Flores silvestres nos teus olhinhos que se fechavam no amor noturno e confuso nos meses ímpares. Era uma festa poder brincar com os pelos que cresciam no teu peito, e trincar no dente o teu mamilo de superhomem. Se eu fosse uma mulher alta, tu subirias em um banquinho e me amarias ainda assim. E se eu fosse de cor, tu desenharias outras cores para tocar a minha pele em outros tons. Nesse tempo de margens e de desejos, fizemos das tardes pares, o que normalmente não seria possível, com toda a patrulha nas ruas. Se o nosso tempo fosse o outro, a minha alma de hippie, brincaria com a tua de ser feliz.
Quando o meu tempo mergulhou fundo, e as margens nos comprimiram em encontros fortuitos e passageiros, não tive mais as tuas mãos a brincarem com os pelos crescidos do meu umbigo. Porque já era tarde e um tempo escuro já nos cegava em dores. Antes, tivesse as minhas margens ao alcance de tua boca faminta e eu pudesse te sussurrar entre dentes, todas as palavras nunca ditas. Acordaríamos os vizinhos, acenderíamos fogueiras, pularíamos os meses pares e os ímpares de saudades e outra vez, apenas outra vez, seríamos margens ao alcance dos olhos.
Dira Vieira
dira.vieira@gmail.com
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Neste livro estão todos os textos publicados no Blog da Loba (Euza) com a participação dos amigos blogueiros que a visitam. Entre eles, estou eu também com o Poema Incisiva. Quem quiser, faça o pedido antecipado a preço mais baixo. (Obs. Descpnsiderem a data no desenho)
Amores são açoites
Como escravo açoitado e indefeso, assim a minha fome dos teus olhos sobre a paisagem morta. Braços abertos no horizonte e o que foi, num passado presente quase futuro, amarrado a correntes do tempo. Os olhos, esses mortos-vivos, são de um vermelho opaco e sangram mares de águas que tomo como soro para não matar de vez, por desidratação, essa saudade que se recorta em mil mensagens que mando em tambores. Ontem, o coração tocou flautas, compôs cânticos, pulou todas as fogueiras, fez sinal de fumaça, mensagens em garrafas, pombo-correio, telégrafo, simpatias juninas, fez pacto de silêncio com a lua e por fim, empalideceu em frente ao espelho: há dias que não como e o que me alimenta é a esperança de ruas abertas, pisar o corpo do feitor e tocar as estrelas como fazia antes de todas as cores. O meu corpo ainda deseja e a vida ainda deixa úmida as minhas vestes. Tenho sim todas as fomes e sedes de ti. É que ainda não aprendi a decifrar os silêncios.
E a noite domina, lamento na senzala, mulher na janela olhando o breu que se forma lá fora. Eu vou embora, mainha, eu vou. E é tão tarde, tão tarde, quase ninguém ouve os meus gritos. As minhas faltas já não têm tanta pressa e nem a dor é assim tão aguda que eu não possa esperar o Quilombo de janeiros de outras paisagens íntimas sobre a blusa rota. Há muito tempo que não tenho rumo e nem as pernas, um tanto tortas, obedecem ao comando do meu próprio destino. Alguém parou de escrever minha história e ainda assim, continuo na cena, implorando ao autor que reedite minhas falas. E se ele escreve o último capítulo eu me invento em outro final.
O riso é pouco, a infância é tardia. O meu Quilombo amarga na boca, e a minha fala entrecorta, treme, ensaia um grito. Faz frio aqui nessa floresta, e os gritos que ouço vêm de dentro de mim. Tu eras assim em mim, música de todas as notas. Agora, aqui, há cartas escritas na mesa da sala e eu perdi a vontade de querer partir. Ontem eu bem que quis te fazer um poema, mas poucas notas me restaram sobre a pele. E eu emudeci de vergonha.
Dira Vieira
Sobre a imagem: Capturei essa imagem na net, mas não possuia referência ao autor. Se alguém souber, ajude-me a dar os devidos créditos.
Foto: Hugo Amador (1000Imagens.com)
no tempo das secas
Para Dom Quixote que foi ali lutar contra moinhos, mas volta já
quando ele ia pro deserto e recolhia-se em sua concha, tudo ficava bem pior que os desertos dela. tempo de fastio e dores no quarto escuro de seus dias insossos. ao seu redor, tudo era culpa e transpiração tardia. quando casar essa dor passa. a coluna ardendo, a mãe brava no portão esperando. quando separar a dor tormenta. porque algumas dores nasceram para enfeitar jardins, adornar a mesa da sala de jantar, bromélias na entrada da casa, retrato de família no centro da sala de estar, feijão queimando no domingo azul, pequenas mentiras contadas em conchas. porque algumas dores não nasceram para ser expostas, mas ocultas debaixo do tapete da sala principal. quando morrer isso piora. o filho que a esqueceu. o dia das mães no asilo. a vontade de beijar o vácuo. a ardência entre as pernas e os sonhos a galope. a carta que não veio e a que amarelou dentro do livro de Pessoa. se anoitecer ela acorda. porque quando ele era estio e secas, Madalena recolhia as asas e chorava.
Dira Vieira

Foto: Brasil e Argentina
Bola na trave
Quando o dia amanheceu, abriu o guarda-roupa e viu o espaço sobrando. As roupas dele já não estavam ocupando aquela parte do móvel. Tentou entender o que estava acontecendo. Um vazio se instalara no ambiente, empurrando-a para a parede fria. Na sala, os móveis arrumados como todos os dias em que esteve morta, tinham uma tonalidade diferente. Um azul enegrecido, uma aura esquisita no ar. Uma falta presente em tons pastel.
Tentou recompor o poema, como recompõem-se as roupas rotas no próprio corpo. Limpou as palavras desnecessárias, chorou tudo o que sobrara, pôs limites no verbo e levantou-se para respirar. O que nunca tivera espelho, estaria espelhado em outra cor, outra parede, uma mulher mais nova. Outra marca de batom de cor mais clara. Um ritual mais beira de estrada, cheiro de mato, sertão de lata na cabeça, um novo cotidiano de juras falsas e jogos de azar na mesa de bar.
A vida recomeçaria do outro lado, fraldas descartáveis, chupeta, choro de criança nova, uma vida sem o álcool e sem as marcas na pele. Quantas dores de esposa engomou entre os cueiros do primeiro filho? Sabia que certamente não teria volta. O peito sangrando, o poema ainda roto, os filhos chorosos, o dia se arrastando, a mágoa alimentando a ira e entornando o caldo da indiferença. Tinha todas as sedes de beijos aflitos e o corpo latejando numa saudade nova. Mas o dia, era de encaixar retratos, quebrar copos, garrafas, expulsar os demônios, varrer as traças, lamentar os dias em que não disse sim à vida quando a paisagem lá fora, tocou o seu braço de leve e ela se arrepiou. Poderia ter mergulhado, mas naufragou em si as asas abertas.
Devia ter sonhado mais, renovado mais a umidade dentro de si. Devia ter a vida como tatuagem de dragão nas costas, de canto a canto para delimitar os seus limites. Limites que nunca foram respeitados. Tinha agora as marcas da cama vazia e a ausência como um fantasma passeando pela casa, assombrando as fotografias em cima do móvel da sala.
No piano, a nota ficaria muda pela eternidade, e o cheiro de mofo, daria conta da dor, enraizada no tapete persa. Restariam as dívidas, as doenças, a solidão que ele nunca estancou, e ainda o velho desejo de beijar todas as bocas que desejou. Isso, não sairia assim, no primeiro banho quente do dia seguinte. Porque algumas marcas não saem assim, passando uma lixa, aparando as arestas e moldando a cara de pau do passado. Seria preciso alguns dias, talvez anos, convivendo com a cara insuportável da culpa dele esperando o filho na calçada da casa. Com o tempo, até o amor do filhos ficaria como parte de sua dívida no contrato do altar.
Seria preciso mais alguns dias para contabilizar as perdas, quando não sentisse mais o vazio na casa, as garras da mentira, os beijos escondidos na empregada pelos cômodos da casa, as passadas de mão na bunda dela, da outra, as juras de amor, a boca no sexo, a obrigação da puta, de dar, o que ele pagava em salário e carteira assinada. Tudo isso na mesma casa em que um dia jurou, como um altar do amor que dizia ter, ano após ano a ela, grande mentira em que ele se fazia crer e enganava a todos.
Seria como cortar os gastos, fazer regime, lipoaspiração, cortar o cabelo, pintar a boca do batom mais vermelho para ser melhor que a puta, a dona da casa, da pensão, do bordel em que ele transformou o que ela chamava de lar. Precisaria de mais alguns dias para exorcizar o fantasma dele e dela, na cozinha, trocando olhares desconfiados, andar de serpente, mulher de saia cobrindo o joelho sem cobrir a vergonha de ser a puta, quando os filhos saiam para a escola. De que vale ser a rainha do lar, quando as servas são as que levam a melhor? Mas será mesmo que ele seria o melhor? Ou os restos que caiam da mesa da patroa, a dona da casa, a que era hoje, a outra.
Nem seria a puta, nem a serva, nem seria a página rota, nem o poema de verso quebrado, rima pobre, cheiro ruim de suor do outro. Queria ser a que nunca foi, o vôo livre, a poesia que se reparte, mas não se curva, o jogo limpo, o olhar de quem ama o outro, sem o trair com cheiro de gordura de batata frita. Queria ser a liberdade e a folha em branco, uma história nova, um novo mundo, salário de conquistas na carteira. Queria ser senhora de si, e dos filhos, que desolados aguardam o outro na calçada, enquanto durar a farsa do pai saudoso. Há uma cena em cada esquina. Há atores desempregados. Há dores que se vendem na feira livre, na esquina de casa.
Seria preciso apenas mais alguns dias, para ligar a televisão, pipocar os salgadinhos e assistir à estreia da seleção no jogo da copa. Ao menos assim, gritaria gol com toda a sua voz, choraria apenas quando o penalti tocasse a trave. Xingar, só a mãe do juiz, dos bandeirinhas, do filho que passa na frente da TV e tem parte com o outro. Puta sim, a mãe do próprio filho, por ter se doado a um amor bonito apenas no retrato do móvel da sala.
É gooool! Gritaria, quando o time adversário fizesse ponto. Porque mais vale ser do contra, que jogar eternamente em time errado, marcando faltas graves, e levando cartão vermelho, como o sangue, como a boca da outra, a da puta. A outra, que por muito pouco, deu a ele um filho, quando em lágrimas ela recompunha a vida. Porque alguns homens se vendem por muito pouco, ou por quase nada, e vomitam o que sempre recebem de graça e dom.
É gooool! Mas gol contra. Antes, fosse na trave, na vida. Bola fora, falta, cartão vermelho, escanteio de mulher ferida. Jogo prorrogado, empate técnico de reclamações e faltas.
Dira Vieira

Foto de Rev. Mundo Científico encontrada na pág. http://aupec.univalle.edu.co/informes/marzo98/ingeniero.html
no dia seguinte
a cama espaçosa
contava as dores de outrora.
Dira Vieira
dira.vieira@gmail.com
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