Olhando para trás

Foto: Inácio Freitas

Houve um tempo em que eu não chorava mais. Os problemas vinham, as dificuldades e eu, imbuída de uma birra infantil, tentando fingir uma fortaleza, dizia, "não vou chorar". Eu só precisava seguir em frente. Houve um tempo em que eu desviava o olhar da dor, e alimentava os moinhos de ventos para com eles, brincar de Dom Quixote em busca da alegria. Deixava-me levar pela ventania, e sempre voltava, folha seca de outono, respirando prazer e terra molhada.

Houve um tempo, bem mais anterior a esse, trazido à memória hoje pelo meu amigo de infância Belarmino, em que, proibida de ser criança, eu entrava na adolescência ainda me escondendo atrás das bananeiras para
ver o casal de cágados fazerem amor por trás dos tijolos. E como eles demoravam naquele malabarismo de um sobre o outro...

(Eu transgredia regras que nunca criaria. O desejo, as vontades, carinhos infantis, a vontade de ser feliz pulando o muro para comer goiabas do colégio de freiras. A saudade morde a minha canela de criança descalça, como um cachorro que toma conta do quintal alheio).

Em seguida, a vaca no quintal parindo, era o maior acontecimento. Corríamos para ver o bezerro cair no chão, passando por um buraquinho tão pequeno, envolto em uma bolha tão esquisita de veias e cores azuis. Tudo era novidade, tudo era incrivelmente lindo e maravilhoso. Dona Gessi, a mãe de Belarmino, e nossa vizinha, chegava com um cipó nas mãos retirando as crianças do ambiente do "parto". Mais tarde, finalmente liberados, víamos o bezerrinho já andando, ainda que com dificuldade pelo pasto. Lindo. Nem podíamos chegar perto demais porque a mãe cuidadosa corria atrás da gente.

Houve um tempo, em que ser criança era descobrir como se beija no espelho, bisbilhotar pela brechas das janelas os namorados na calçada, soltar pipa, bola de gude, fingir que soltava pião, para chamar atenção do garoto mais lindo da rua. A minha mãe dizia que sonhar não pagava as contas. E o que o mundo era um leão com a boca aberta, rugindo o tempo todo na esquina de casa. Mas como era bom, esperar mamãe ir trabalhar para brincar de casinha no fundo do quintal, brincar de comidinha, imitando gente grande, e pular a janela, tendo a porta trancada, para tomar banho de chuva com os moleques da rua.

Houve um tempo, quando os pêlos no corpo começaram a ficar inconvenientes, e a vergonha de perguntar à mamãe como me livrar deles, fizeram-me pegar uma lâmina qualquer na casa e cortar toda a axila, ainda novinha em folha, com marcas de sangue por toda a sua extensão. Eu tentava apagar as marcas de um tempo que viria e eu não podia conter com a minha sede de continuar sendo a menina que fingia ser gente grande, mas sonhava em brincar de Barbie, quando mamãe não estivesse vendo.

E nesse tempo, quando o dia  pesa, tenho dificuldade de levantar da cama onde tendo a noite como uma coberta fria e pesada, não consegui pregar os olhos. O silêncio da noite, da caixa dos emails e do msn, colocaram-me como no deserto - e se ele me falta, eu desfaleço. Não foi sono o peso que fechou os meus olhos, foi outra dor. O travesseiro amassado contra a face, dava a falsa ilusão de companhia agradável. A cama fria, a parede que me continha quando o meu caminhar noturno me jogava contra ela, era de uma impessoalidade gritante - o que me impede dos mergulhos, é a água rasa e a superfície plana.

Haverá um tempo, em que não precisarei mais chorar, como um tempo passado, e pensar em peso, será como ver um filme antigo de uma guerra vivida, e abraçar os sobreviventes, com saudades dos que se foram. Ontem, quando implorei ao sono para vir, a caneta e o caderno na ponta da cama não conseguiram chamar minha atenção, e o silêncio das horas, escrevia as minhas angústias no concerto dos grilos noturnos. Eles cantaram a noite toda, entoaram um lamento e um aboio singular. Era uma sinfonia ímpar. Não sei se era lindo, mas era triste. Era para mim, eu sei. Enquanto a noite pesava sobre as pálpebras e sobre as asas, não houve música, não houve carícia, não houve sonho para sonhar. O pesadelo estava no acordar e ver que o mundo ainda é o mesmo da noite passada.

Houve um tempo em que eu ousava acreditar. E sorria. (Dira Vieira)

                                     Para Belarmino e Luis Fragoso, com carinho


dira.vieira@gmail.com
Maiores informações sobre essa coletânea de blogueiros está no blog da Loba http://lobabh.zip.net/

Neste livro estão todos os textos publicados no Blog da Loba (Euza) com a participação dos amigos blogueiros que a visitam. Entre eles, estou eu também com o Poema Incisiva. Quem quiser, faça o pedido antecipado a preço mais baixo.

Pela fibra óptica

 

Olhando a paisagem, do primeiro andar de onde podia contemplar o começo da rua, Madalena se ajeitou uma boa posição e procurou a máquina dentro da bolsa, ao lado, e fotografou o fim da rua. A suavidade do dia quente trazia ao seu corpo uma temperatura esquisita. Não era o sol. Nem aquele mormaço que invadia a varanda da nossa casa. O que sentia tinha outro nome e outra intenção.

 

Algo a perturbava e não podia dimensionar o quanto e nem o que. Foi só fechar os olhos, e sentiu que ele havia chegado novamente. Não havia indo embora? Mas voltara. E ela sabia que voltaria. Algo mais os ligava. A palavra, o violão sempre por perto, o vinho guardado pelos dois para uma ocasião especial. A idéia de que o sentimento não tem volta, como o presente de Alberto da Cunha Melo que um dia leram juntos.  Voltou à máquina, fotografou a rua.

 

Quis prolongar aquela sensação ao senti-lo subindo as escadas, lentamente, o coração batendo forte, o peito arfando, o suor frio tomando o rosto enquanto ela desenhava na máquina os contornos da rua. O moço entrou, aproximou-se da rede fazendo o seu coração soltar as rédeas. Faltava muito pouco para jogar tudo ao alto, e mergulhar.  Pensou em fechar a máquina, preparar-se para o beijo inevitável que sabia, viria. Mas não houve tempo, Mateus, o moço do longe que a tudo tocava nela, aproximou-se da rede, Madalena fechou os olhos. Sentiu a respiração do outro acelerada, e a palavra saiu como uma brisa suave no meio do dia quente. Oi. Foi a única palavra que ele conseguiu dizer, como se fosse uma prece. Madalena nada disse. Respirou fundo, fingiu-se dormir, queria que o tremor do corpo desse espaço ao desejo de encostar nela a sua alma.

 

A tensão se produziu pelo medo de todas as regras, pondo sinal vermelho no desejo. A boca, a pele, a extensão dos pés, sua alma, o silêncio do mundo que se encurvava a eles. Tudo, tudo era a mão de Mateus, tocando nela, sobre a pele, com a palavra, letra a letra, como se o universo fossem os dois, o verbo, o princípio de tudo, a vontade de estar ali, violão à mão, taça de vinho na outra e as bocas repletas do discurso sem pausa e entonação. Se faltasse luz naquele momento, eles nem sentiriam mais, os dois mergulhados no sim, travavam um duelo silencioso de carinho que destravava todas as portas.

 

Que importa os Manuais do Consumidor? Madalena queria era a boca dele, o cheiro, a barba por fazer, a unha que roça as cordas do violão,  a bossa nova tão velha, o som grave daquela voz, o mistério que encerrava o desejo deles. Ela mordeu os lábios e deu vida à Mateus, soprando em suas narinas. Foi assim que ele mergulhou no corpo dela via portas de fibras ópticas e puderam amar-se, como dois animais 

Dira

A vida é arte, é ficção

(cena da novela Mulheres Apaixonadas: Camila Pitanga e Paloma Duarte)

De volta ao passado em suaves lições

 

 

O ano era 1978. O cenário, uma rua de um bairro da periferia do grande Recife, crianças brincando de bola de gude, outras andando de bicicleta. Uma mulher ousa passar de bicicleta em frente a uma casa onde algumas crianças pequenas que acabaram de tomar banho, estão sentadas e olham a rua enquanto sua mãe varre a calçada com uma vassoura feita de galhos secos de mato. A mulher, de pele negra, vestido estampado, cabelos amarrados, e boca carnuda escandalosamente pintada, desfila seu corpo ainda jovem e sem marcas do tempo.

 

Da calçada, enquanto junta o lixo com a vassoura e uma pá, a mãe observa a familiaridade com a bicicleta. É a de seu marido. Daquele que jurou amar, mas não jurou comportar-se diante da provocação que passava sobre pedais. O ódio toma conta de seus olhos. A retina é fechada por um raio de fogo, que traspassa o seu coração. A dor que se instala em seu peito, cega os seus olhos, e fortalece a sua ira fazendo-a desconhecer-se a si mesma. No dia anterior, lera ocasionalmente no bolso do marido, o dono da bicicleta, um bilhete escrito minuciosamente à mão: “Filhinho, finalmente, fomos agraciados por Deus com um filho. Estou esperando um filho seu”. A mulher chora. A sua dor é incompartilhável e amarga na boca.

 

Quando a mulher da bicicleta cruza o pensamento do dia anterior e o bilhete vem à mente da outra mulher com a vassoura, o céu escurece para a segunda e ela não sabe de onde vem tanta força de parar a bicicleta e jogar a outra mulher mulher do vestido ao chão. A dor comanda a cena. E o homem, em bar próximo tudo vê, sem se importar com o que fizera. Todo macho que se preze tem no mínimo duas mulheres que por ele lutam e rasgam-se na praça. Se não for assim, não é homem.

 

Talvez Madalena fosse uma das crianças que levantou da cadeira para socorrer a mãe. Ou quem sabe, para ajudar a mãe a bater na outra. Mas ali, enquanto espera o homem sair de dentro daquela casa, ela repassa a cena, talvez para criar coragem de interpretar o mesmo papel da mulher que varria a calçada.

 

O tempo, estacionado no relógio, aperta o seu pulso, grita em sua garganta uma voz que não é sua. As mãos, frias e engelhadas pela ansiedade e o medo do que virá, segura a direção do carro, como se pudesse segurar a vida que lhe escapa por entre os dedos. O tempo é outro, a rua, o ano. Mas Madalena é sua mãe, que desce do carro para bater na outra mulher que agora não dirige a bicicleta do seu marido, mas dirige a vida deles, naquele momento, para o caos.

 

O portão se abre, o homem sai com o carro, a moça o beija ternamente. E a mulher que varre a calçada, cansada de um dia de trabalho, assume a cena e parte em direção dos novos personagens. Ela grita, ela chora. Ela sacode as mãos e voa na moça de short curto e de surpresa nos olhos. A mulher que varre a calçada em 1978, avança para a outra, em um replay tão perfeito, que os vizinhos aplaudirão ao final, ávidos de sangue e de desgraça, enquanto o sangue da outra adorna as suas unhas, num ritual secular.

 

As mulheres continuarão se matando. E os homens, pobres e indefesos, continuarão com a carne fraca de pecados e de falta de vergonha. À mulher, nunca será permitido enfraquecer, nem ceder ao prazer, porque o seu fim será sempre, o da mulher que varre a calçada enquanto a outra, dirige a vida do homem que dividem na cama. E eles nunca serão capazes de compartilhar a dor que elas sentem. Porque jamais serão forte como a morte que as rodeia desde o dia em que nasceram e debutaram para a vida. A madrastra é sempre mulher e a vida.

 

Madalena apenas lamenta. E chora. Do lado de fora da casa, é apenas coadjuvante e platéia de uma cena antiga, mas que ainda junta expectador. Ninguém será capaz de entender quando os pagantes, de pé, pedirem mais sangue ao realismo da dor que ela finge sentir. Nunca entenderia a profissão de puta particular e de horas vagas. O seu amor sempre foi, incondicional, até na hora da dor. Pensa nisso, enquanto o sangue da outra escorre entre seus dedos. Quem sabe agora estaria mais lívida?

 

Dira. 

Entre laçados
 
Fotoimagem: http://darthur.multiply.com/ *

Quando todos os silêncios se fizeram gritos, eu não mais resisti. Sentei calmamente no tapete da sala, puxei o teclado para mais perto, abri uma garrafa de vinho, do porto, como ele gostaria e escrevi-lhe uma canção.

Comecei pelo ritual de tocar a sua pele. Era uma pele morena, com os lábios que faziam um certo bico quando sorriam. O seu nome, e talvez aí eu tenha esbarrado quando o observava, era o que mais travava na boca. Eu não conseguia chamar e a canção ia estancando nessa parte: o nome dele.

Não me lembro de quantas rimas eu tentei. O violão, a perna dele que tocava a minha, a inspiração. Toquei-lhe em seus medos, e as suas reservas estavam todas descobertas. Mas um segundo e ele ficaria à mercê da minha boca, ávida de seus dedos grossos a limpar o resto de vinho que teimava em escorrer pelo canto da boca.

O nome, esse que eu não conseguia dizer, porque não encontrava a rima ideal, jogava o corpo para trás, esperando que eu terminasse a canção, para dar o seu veredicto. Termine logo. Pediu suavemente. O dedo que espancava o teclado, pousou-se sobre os seus lábios, tocando a sua saliva e bebendo daqueles olhos que à minha mão acompanhava e obedecia.

Gosta de violão? Perguntava com a voz rouca, pausada. Terceira intenção de quem quer seduzir antes que o dia se vá. Quer mais vinho? Sim, a inspiração ainda corre solta. Só mais uma taça. Tocava a garrafa com uma sensualidade gritante. Segurava as pernas para parar de tremer, jogava o cabelo para trás, fingia timidez. E o teclado continuava sofrendo forte pressão para conseguir dizer: eu quero você.

Quando o vinho deslizou para dentro da taça, a mão do homem que eu não consigo dizer o nome também deslizou entre as minhas pernas, silenciosamente enquanto o corpo pendia para trás e a cabeça girava com um estoque de rimas e deduções. Por que tentamos traduzir o que não tem tradução?

O verso seguinte da canção que escrevia não saia. E o corpo que antes só compreendia do silêncio apavorante no quarto dos fundos, agora tremia nas mãos dele. E a canção, modulada àquele tremor, mudava de cor, e de notas musicais, cada vez que ele extraia de mim, um cântico novo.

Eu queria terminar a canção antes que você entendesse que a melodia era o seu nome que eu não ousava dizer. E foi assim que respondi ao seu olhar, fingindo-me de santa, quando tudo em mim, era orquestra em Sábado de Aleluia. Quando você se cala, eu ouço daqui a sua explosão. Não é tão fácil assim ser profana.

Dira Vieira


* Arthur Feitosa Petrola - Um dos artistas da palavra e da imagem que eu mais admiro. Vale a pena conhecer. (a foto que deu nome a esse conto).

(balada para a mãe)

 

(Imagem colhida na net, mas não descobri quem é o autor)

 

Mãe,

 

Quando você saia para trabalhar de manhã cedinho e nos dava beijinhos ainda na cama, eu achava quentinha a sua boca. Ouvia você mexer as panelas na cozinha, o sol acabara de nascer e você competia com ele para ver quem saia primeiro. Ele sempre ganhava porque você sempre se atrasava na tentativa de ver se havia deixado tudo em ordem.

 

Não tive tempo para ser criança, e quando você saia recomendava-nos a casa, a comida, os estudos, nunca brincar na rua, nunca sair de casa, nunca ver televisão até tarde, nunca abrir a porta para estranhos, nunca demonstrar que estávamos sozinhos. A gente inventava de chamar o nome do pai sempre que ouvia barulhos estranhos do lado de fora. Nossa casa não tinha muros, nem portões. A gente morria de medo quando a noite recolhia as pessoas em suas casas e a rua ia ficando muito silenciosa. Era como se a noite possuísse garras que assustavam criancinhas. Qualquer barulho era motivo para tremermos em cima da cama. Ninguém por nós. E você longe, dando plantões em hospitais.

 

Lembra do dia que juramos que alguém subiu o telhado na sua ausência? Você se pendurou nos caibros da casa para nos provar que o peso de um adulto fazia aquele barulho. Você não acreditou. No dia seguinte, você armou uma arapulca para o guarda da rua, e descobriu que era ele quem rodeava nossa casa, sabe Deus com que intenções. Você o enfrentou, mamãe, lembra? E no dia que pegamos um ônibus para uma festa infantil na cidade vizinha e o cobrador pediu a sua carteira de estudante quando você entregou o passe estudantil. Você havia esquecido. Andava com três filhos, não podia levar mais nada, apenas os passes de ida e volta. Você disse a ele que havia esquecido. Ele não aceitou. Nós, que já havíamos passado para a parte da frente, vimos a nossa mãe segurar-se nos ferros de cima e pular a roleta. Era a nossa mãe. Ouvimos você dizer ao cobrador que todos os dias pegava aquele mesmo ônibus, e que ele sabia que você estudava. Ele reclamou. Você também. Nós descemos na nossa parada e você entregou o passe ao motorista. Nós admirávamos a sua coragem.

 

Lembra do dia que um homem tentou arrombar a porta dos fundos? Nossa casa pequenina, papai nos deixara recentemente. Um amigo dele encheu a cara e resolveu nos visitar às três da madrugada. Você ouviu o barulho, levantou-se, pôs a mesa, as cadeiras e todas as panelas da cozinha na porta para ele não entrar. A gente chorava e você, valente nos dizia: chamem o nome do pai e ele vai saber que o pai de vocês está em casa. Nós chamávamos o nome do meu pai, e mesmo assim o homem empurrava a frágil porta para dentro. Ele sabia que papai já não morava conosco. Vimos você gritar socorro pelo vizinho. Não lembro o nome dele, mãezinha, mas sei que ele nos socorreu com uma enxada na mão. Foi a nossa sorte.

 

Nessa madrugada, iríamos para a casa da vovó, que era no outro quarteirão, onde papai estava morando para implorar para que ele viesse dormir conosco. Eu nunca esqueci a sua fúria no outro dia, indo para a delegacia denunciar o tal homem. Ele jurou se vingar de você, mas nunca mais ousou passar na nossa rua. Nesse tempo, o poder policial ainda era respeitado.

 

Você me ensinou a não depender dos homens, a estudar, a lutar pela vida. Você me ensinou a ser forte, a ser guerreira, a enfrentar os meus próprios medos. Mas você não saberia tudo, mãezinha. Você me ensinou a ser heroína, mas esqueceu de dizer que não somos heroínas o tempo inteiro. Que a heroína, também sofre e chora, e tem medo do escuro. Você não nos disse que podíamos sonhar. Ensinou que não confiasse em estranhos, mas não nos disse que os que amamos também podem ser nossos algozes.

 

Um dia, bem lembro, você me contou que Papai Noel era produto do comércio. E eu fingi que acreditei, até o dia que descobri sozinha que você tinha razão. Lembra? Eu chorei uma semana inteira. E nos dias que se seguiram, fui descobrindo sozinha, o quanto o mundo tinha tonalidades de dores e ainda assim, eu a contrariei, mãezinha, porque continuei pintando de todas as cores, as dores que você conheceu.

Madalena rascunha Brasília...

Foto: Mariane Sant'anna (do Orkut)

Andei de um lado para o outro durante toda a noite. Queria chorar, queria entoar palavrões como cânticos de ira pela casa toda. Estava com fome e minha alma ardia, queimava como palavras engasgadas no peito. Queria abrir a boca como um dragão ferido e soltar todos os bichos. Tenho esse direito. Inclusive o de acordar a rua inteira com a minha fome noturna. Isso parece não ter fim. Penso na Mel tentando descrever todos os meus passos dentro de casa. Os seus freios me põem numa jaula fechada à prova do mundo lá fora. Será que ela já percebeu do altar que me coloca? O que diria em ver-me gritando palavrões? E os vizinhos? E as crianças? Eu sou Madalena de outras esperas, de todas as cores, do riso fácil, da paixão cega. Não adianta, somos diferentes como o verbo e o som das angústias em nosso peito. Eu sou o noturno do silêncio, a chuva lá fora cantando em minha janela.

O dia ensaiava amanhecer nos céus de Brasília, e eu abri as janelas de uma cidade de braços abertos, vi uma Brasília alaranjada, escapando pela janela da moça do  sorriso doce. Dentro de mim, outros ardis compunham um poema de verso livre e rima quebrada. Era a fogueira dessa noite que chorava em amarelo, abrindo os braços de avenidas para que eu chorasse em paz, fazendo o sinal da cruz contra os meus próprios temores. Estive em ti, no centro o tempo inteiro e não percebi os mergulhos precisam de coragem. Bastava fechar os olhos e aceitar aquela mão doce sobre a minha face. Ele me disse que tinha um vinho guardado à minha espera na sua casa. E eu era nau desgovernada, deitada no tapete de sua sala. Como Mel entenderia essa minha fome?   

O que há com você moça? As saudades injustificadas de coisas que não vivemos ainda mexe aqui dentro e joga-me na fogueira desse amanhecer amarelo. Era a sua voz de barítono, dedilhando uma música suave enquanto eu adormecia ao lado. Qual o tom de sua voz? Que parte dessa pele me arrepia e me joga contra a parede? Para que mergulhar no que não conheço? E se você veio para ficar por que será que não consigo segurá-la entre os braços?   

Sim. Eu tenho o medo do dia que amanhece.  Não sei o que me espera quando todos os rostos amassados da noite resolverem ler de mim o que escrevestes sobre o meu corpo ontem, quando você chegou daquele café com os amigos e me encontrou aflita e cheia de ciúmes. O que eu faço para quebrar esse espelho e esconder a minha face das perguntas que nos acordam todos os dias?

O dia é o conjunto de expectativas vãs. Vou visitar você, para ficar algumas horas, mas vou implorar para que não me deixes ir. Há em mim algumas faltas perigosas e inconseqüentes. Por que você não vem aqui e desmonta essa teoria da liquidez e do juízo final?

Em mim, todas as traças fazem festa, e eu observo a mim mesma como animal encarcerado de um lado para o outro, esperando a sentença final. Acha que vou estar aqui quando você quiser me ver? Pois sim. Quem chega muito perto corre o risco de se confundir ao espelho. Eu mergulho, como Alice que se lança ao fundo do espelho e não teme nada. A não ser a perda do outro dentro de sim.    Haveria alguém normal nesse perto, Madalena? Pergunto-me isso todos os dias.

Abro a boca, te ensino a ousar todas as cores. Eu não mordo, percebes? Solto esse verbo que arde entre os dentes e vou à luta. Preciso entender que o som Barítono que vem daquela sala é o que faz falta aqui, quando a chuva cai, quando as ruas esvaziam, quando o vinho na estante já não tem mais serventia e nem motivos para comemorar. Tu me disseste que voltava logo, mas não era verdade.  Abrirei bem as janelas, deixarei que o verbo seja a palavra de ordem. Quem disse que o silêncio não grita? Mais um pouco e acendo o último fósforo. O dia amanhece aqui e eu sinto falta do pouco de mim que acorda a cidade.

 

(Para Luis Fragoso, Para Mariane Sant'anna)

(Para Serginho (PS), que faz aniversário HOJE)

Imagem: Magritte

Em piloto automático

Nos dias que se apertam na sala e na casa inteira, como uma força esmagadora que entra pela porta fechando os espaços e comprimindo o peito, Madalena senta na poltrona da sala deixando um cartaz pregado no abajur de piso: Me deixem sozinha, TPM. É o prenúncio de dias ruins.

Letícia passa correndo, Beatriz pensa em chegar perto, dar colo, tocar-lhe a cabeça, beijar-lhe o rosto. Mas não se atreve. Eu, nem de longe olho. Madalena com depressão fica incomunicável. Uma irritação fora do comum. Cuspe o dia inteiro, correndo ao banheiro como se estivesse grávida. Não admite som alto. Nem ver-nos rindo. Fica sozinha na sala... escrevendo em seu maldito caderno e chorando, chorando. O que me parte o coração.

Enquanto isso o telefone não pára. É o outro. Não me pergunte qual. Talvez o que ela não queira atender. Era sempre assim. Madalena era irritantemente sem sorte. Possui um séqüito de fãs. Mas o que ela deseja, fazia-a de trouxa. Seria castigo? Ontem nesses dias, acordou quieta, com dores no ventre. Quis ajudar, ela já espalmou a mão no ar fazendo sinal para ficar longe. Cólicas menstruais e ainda a TPM? Mas que diabos! Contorcia-se na cama, chorava, gritava abafando-se no travesseiro. Eu sabia que sua dor era outra. Não as cólicas. Não a maldita menstruação que ela sabia, viria todos os dias. Madalena sangrava outras dores que ela não contava para ninguém. Eu a observava enquanto me arrumava para sair.

Deitada em posição fetal, soluça abafada no travesseiro. Ontem ela o viu. Ele estava irritado. Ela se sentia mal. Ele sempre dava um jeito de irritá-la. E por mais que ela suportasse esse constrangimento, ficava exausta das dores dele. A poesia que carrega nos braços, no corpo esquio, nos seios volumosos sempre à mostra, na boca pintada sempre tão bem contornada, nos olhos negros, densos, pequenos, sufoca quando Augusto sai lá de casa. Não sei que prazer ele tem de humilhá-la. Ela gosta de pop, ele de rock. Ela curte filme francês, ele americano. Ela fala inglês, ele só sonha em português. E quando ele se vai, Madalena liga para Roberto. Sorri alto, chora, dança com ele ao ouvido, toma vinho, tranca-se no quarto e ouço-a chorar contando para ele as suas dores.

Ontem, até que tentei fazer uma redoma em sua volta. Saí pescando as suas fragilidades como se fossem as minhas. Toquei os seus medos, cobri o seu corpo com os meus cuidados, chorei o seu choro, entoei cantigas de ninar para acalmá-la, invoquei a voz de Roberto para adormecê-la na cama, ninei os seus monstros, domei os seus demônios, acariciei a sua boca como se eu fora a moça do espelho desejada por Roberto. E só assim, quando ela estava calma, como uma ninfa esparramada sobre a cama, foi que percebi o quanto aquele moço era essencial em sua vida.

Saí do quarto na ponta do pé. Pedi às meninas que fizessem silêncio para não acordar Madalena e fui direto fazer um café. Quando a porta do quarto se fechou atrás de mim, percebi como eu era refém dessa moça. O cheiro dela em minhas mãos, o desejo dela que agora eu sentia pelo moço, os seus monstros, ao meu redor, puxando pela minha saia, dando-me a sensação que eu já nem tinha identidade, porque agora, eu queria ser dele, como ela era e nem percebia. Minha alma agora, era a borra de café, como bola de cristal dentro da xícara. Eu não decifrava mais nada.

Dira Vieira

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