Imagem: Túnel em Pernambuco, indo para Gravatá (a foto é minha mesma)
Quando o dia amanhece e as dores a acompanham até o banheiro para lavar o rosto inchado da noite inquieta, Lucila aperta o peito com as mãos e chora. Como pode alguém acordar chorando? Não foi a noite um momento de descanso? E não foi o colchão macio para o relaxamento?
Não. Lucila não entende. Quando se deitou ontem, a sua cabeça estava numa quilometragem acima do esperado. Não se estaciona no acostamento com o carro a 180Km por hora. Foi assim que foi ontem para a cama. Caiu, como se no meio da velocidade, faltasse gasolina, ou se quebrasse a barra da direção. Talvez tenha sido isso: a barra da direção! Como não pensara nisso antes?
O corpo não obedece ao comando da voz, dos braços, das pernas. Precisa parar de pensar nisso, precisa reagir. Precisa pensar em descansar, precisa aprender a dizer não. Mas nunca consegue, quando todos os dias, aquele homem, barrigudo, gordo, barba sempre por fazer, suado, com a camisa sempre mal engomada entra em sua salinha no fim do corredor, ao térmido do expediente, tranca a porta, empurra-a contra a parede e a violenta ali mesmo, em pé no canto de seu escritório. Quando ele sai, beija a sua mão docemente, depois de fechar a calça que nem chegou a descer até as pernas, limpa o sexo com o lenço que devolve ao bolso e depois sai, deixando sobre a mesinha uma nota de dez.
Todos os dias a mesma coisa. Todos os dias. Quando os funcionários saem, Lucila tem ordens para não sair. O rosto pesado, o corpo perfeito, mas maltrado, a alma cansada, a boca seca de sonhos, o coração que nem tem mais lugar certo. A volta no metrô lotado, os olhares perdidos das pessoas sem rosto. O cheiro do homem que odeia impregnado em sua alma. Em casa, os meninos que a esperam trancados, correm para saber se trouxera pão para o jantar.
Lucila sempre traz, todas as noites, os dez reais que compram o pão e o almoço do outro dia.
Lucila é um zumbi, não tem gosto, nem vontades, nem sonha com novelas, nem com roupas novas, é apenas a copeira de um escritório de contabilidade da zona sul, completamente invisível. Ela imagina que quando morrer, sua alma será levada para o céu, com os anjinhos que vê quando vai dormir, aos fins de semana, quando cheira o pó de quinta, consumido com meia garrafa de pinga para comemorar o descanso de dois dias. Lucila cansa, mas não pode parar. Lá fora, e na canção, o Rio continua lindo e navegar vai ser preciso.
Dira.
Para Claire, Marco, Zeca, Loba, Josie, Cherry e Camila
Alguma coisa me incomoda por esses dias. Não sei bem o que é. E ao mesmo tempo, eu sei de cor e salteado onde o pé aperta e uma dor invisível me queima por dentro. Preciso falar de amor. Amor sim. Não exatamente esse carnal. Esse de pele que provoca profundas confusões no seio (opa!) da sociedade.
Motivada por um texto no Blog da Claire* (não tem jeito, bebo nessa fonte e algo muda aqui dentro) fiquei pensando sobre o que chamamos de amor. O amor espiritual, o carnal, o apocalíptico, o de amigo, o de parentes, e tantos outras modalidades de “amor”. As pessoas se dividem em sentimento, como se pudessem catalogar o que sentem: “não, por você, sinto só uma atração”, “ah, eu amo você como amiga (irmã, companheira, etc)”; ou, “não sei o que sinto por você, sei que precisamos estar juntos, que sinto a sua falta, que na cama você me realiza, mas isso não é amor”.
Ok. Está posto o mundo moderno. Ou chegamos na pós-modernidade, já? Alguém me diz que não devo andar com certas amizades. Mas eu digo, eu amo, fulano. Mas esse fulano te atrapalha, descarta-o, dizem. É. Atrapalha mesmo. Andando na companhia dele, eu sou mal-visto, eu não arrumo emprego, eu não terei uma boa “reputação”. Mas se a tal companhia de algum modo te oferecer vantagens, quem sabe com um jeitinho, uma maquiagenzinha, uma máscarazinha aqui, outra ali. Há “jeitinhos” para tudo.
Sabe aquele cara negro? Viu o cabelo dele? Que coisa feia. Eu ando com um cara daquele!?. Nunca - e vamos colecionando preconceitos. E aquele teu amigo, viu que ele tem um “jeitinho delicado?” Sai fora, está me estranhando? Sou espada. Quero papo não. Viu como a Clarinha é gorda? Que minhas amigas vão dizer ao me ver com ela? E essa amiga tua que tem tatuagens, vai mesmo andar com ela? Endoidou?
Um dia eu ouvi falar de amor incondicional. Não sei se isso é receita de bolo. Ou algum chá emagrecedor. Quem sabe uma sopa? Sei que um dia, em algum lugar, disseram que o amor não possui endereço certo, nem raça, nem cor, nem peso, nem estado civil, nem hábito, nem sangue, nem território, nem fronteira, nem espaço, nem tempo, nem manual, nem bula de orientação medicamentosa. O amor, é o respeito ao outro, é preocupar-se com o outro, é amar o outro, além das aparências e do que os outros pensam a respeito. Sei que ao vê-lo, algo em mim brilha, modifica-se, muda de cor.
Se alguém se droga, e eu, de uma forma ou de outra, puder ajudar, eu não me nego a isso. Se ele não quiser mudar, eu saio fora. E assim, em todas as outras atividades suicidas. Mas não amar o outro, isso sim é pecado mortal.
Dói em mim, quando as pessoas escolhem a máscara que o mundo quer ver em seus rostos. O menino bonzinho, a mocinha educada, a esposa submissa, o marido crápula (pode ser o contrário, ok.), o pastor santo, o padre acima de qualquer suspeita, e a ovelha perdida no aprisco, vai continuar, sem saber mais em quem confiar.
Desconfio d(a)o amiga(o), irmã(o), marido, esposa, colega de trabalho, que precisa do outro, apenas quando lhe convém. Eu tenho pavor a essas relações do “toma-lá-dá-cá”. Aí eu me lembro de uma pessoa a quem eu amo muito que certa vez, sob a ameaça de morte por cuidar de cães de rua, e diante de minha preocupação por sua segurança, quando falei para que essa pessoa parasse por um tempo de ajudar esses animais, respondeu-me assim: “Melzinha, não se abandona um amigo”. Essa frase nunca saiu da minha cabeça. E eu tive vergonha naquele momento de ter pensado na segurança apenas dele.
Fico aqui pensando, quantas vezes eu perdi pessoas que amava, porque não me enquadrava no que eles esperavam de mim: o retorno em garantias de trocas. E isso tem me entristecido muito nesses dias. E quantas vezes, perdi grandes amores, porque não me enquadrava nos padrões de beleza que a maioria exigia. Talvez nem fossem grandes amores, hoje, nem lembranças ficaram.
Ainda não consigo entender o tal “amor incondicional”. Porque as relações sociais viraram um mercado de troca. “Eu te amo, se for conveniente pra mim. Eu te ‘linko’, se me ‘linkares’, eu te visito, se me visitares, eu vou passar a comentar no seu blog, porque ele é muito visitado, quem sabe eu não atraio visitas ao meu também?”
Hoje, consegui a liberdade de amar quem eu quero, sem que minha mãe me diga que é uma péssima companhia para mim. Mas aí, vem o outro, o patrulhador ideológico, religioso, etc, querendo dizer a quem devo amar e como amar. Eu prefiro ser expulsa das sinagogas, dos templos, do seio das famílias, ser jurada de morte, queimada em fogueiras. Mas eu quero e preciso aprender a amar INCONDICIONALMENTE, como Jesus amou.
Amigos, hoje, estou no CDB, quem puder, vá me visitar por lá e por favor, deixem seu recado. Adoraria vê-los por perto. Beijos... Dira
O moço das Ternuras
Queria muito encontrar o Marco (Antigas Ternuras). Tão pouco tempo de contato, e já íamos fazer o que normalmente dura uma eternidade para acontecer na Internet: encontrar o outro, face a face. Eu tinha receios, confesso. Mas num último momento, acabei tendo problemas e não pude ir, Madalena foi. Ela sempre faz isso comigo. Toma a frente das minhas coisas, rouba os meus sonhos, vive as minhas cenas e quando termina a peça, quem recebe os aplausos é ela. Mas tudo bem. Eu não tinha como ir.
Ela foi mais cedo, a meu pedido. Chegou e pediu ao garçom da Pizzaria uma mesa para dois. Estava esperando um amigo. Sentou-se propositadamente à porta e esperou Marco. Vestia um vestido solto, seu habitual, cabelos soltos, colar combinando com o vestido, saltos altos, boca vermelha. Queria impressionar. Imaginava que o meu amigo fosse um senhor de idade, acima do peso, cabelos grisalhos, sorriso largo, meio “bonachão”. Imaginava que quando ele entrasse na pizzaria ela o reconheceria de pronto, já que eu vivia falando sobre ele dentro de casa.
Nem cinco minutos e um rapaz alto, magro, cabelos pretos, curtinhos, simpático, vivo, entra e pede uma mesa para dois. Madalena viu que ele olhou uma outra mulher sozinha no lado contrário em que estava. Fez que não o reconheceu, baixou a cabeça e mexeu no meu celular que havia levado para comunicar-se com ele. O rapaz passou por sua mesa, sentou-se atrás e discou o meu número. Madalena sorriu e atendeu. Ouvia a voz em eco, no celular e no ambiente.
Olá, já estou aqui. Disse o moço ao celular. Madalena vira-se e responde: Eu também. Os garçons riram. Os dois se abraçaram com alegria. Madalena é meio louca. Parece que sente as coisas por mim. Vive por mim, ama por mim, se fossemos gêmeas idênticas não teríamos tanta sintonia. Sei que aquele abraço era de nós duas, de uma admiração crescente por aquele moço.
Ele a abraçou. Ela não disse nada. Observava o homem sentado à sua frente. Tentava ler os olhos do Marco, o que estava por trás, o que não se diz, o que fica no ar. Ele tinha dedos. Talvez medo. Por um momento, tomei o olhar de Madalena sobre ele e o observei. O rosto bonito, sorriso largo, olhar expressivo, acompanhava a fala de Madalena e intercalava-se com fatos de sua vida. Madalena quis contar para ele toda a sua vida. O moço à sua frente inspirava uma intimidade tão grande, um carinho, ela quis chorar, quis pedir socorro. Quis contar-lhe do seu encontro frustrado no Rio. Falar das horas na frente do metrô e do quanto esperou o moço da chuva aparecer. Madalena quis ser rio, mas acabou falando coisas sem a menor importância. Quanto mais ele falava, mais Madalena o admirava. E eu, via tudo através dos olhos dela, o contorno do rosto dele, de como olhava para a mesa quando ela falava, as curvas da boca, das mãos. Eu via tudo, das janelas dela. Imaginava como ela se continha em não tocar o moço, dada a um modo carinhoso de tratar as pessoas. Por ela, vivia esabarrando na pele das pessoas, sempre com muito respeito e carinho, por entender que o outro é ponte que nos leva ao paraíso.
(Continua...)
Moço dado a antigas ternuras, talvez compreendesse de gaiolas. E ele entendia. Observou-o falar das coisas comuns aos dois, dos livros, dos discos, das expressões antigas, dos hábitos, e Madalena nunca observou tanto, sem ter a menor intenção de seduzir. Estava em casa e talvez por isso, tenha ficado tão impressionada. Tive medo que Marco pensasse algo errado sobre ela. Era apenas uma menina assustada e querendo colo. Nada mais. Mas enquanto eles falavam percebi que Marco se mantinha à distância, muito embora, o comum dos dois fosse a gostosa sintonia do encontro.
O moço das ternuras tem a paciência no falar, o olhar, em como se conduz na conversa deixando Madalena falar. Sabia que ela estava em boas mãos, apesar da impulsividade de Madalena de querer sentir-se a mulher mais linda do pedaço. Sei que ela se sentiu bem em ser apenas os meus olhos a observar o Marco, passando a mim suas impressões.
Ao voltar, observei seu sorriso sereno. Perguntei como tinha sido. Ela disse que o moço era um “gentleman”, bem diferente dos homens atuais. Alguém que se pode conversar, até o dia amanhecer, sem a menor intenção de impressionar. Dificilmente a Madalena gosta dos amigos que tenho. Vê-la feliz, com o sorriso de canto a canto, elogiando Marco foi para mim o meu maior prazer. Tamanho prazer que combinamos um cinema, os três. Mas aí, é assunto para outra crônica. Quem quiser saber, posso até contar.
Dira
A moça dos brownies
Tenho fama de chegar cedo em todos os meus compromissos. Isso me dá uma certa segurança sobre o lugar, momento, situação. Nos concursos públicos, sou sempre a primeira a chegar. Mas também a primeira a sair. Não sei ficar enrolando a prova e procurando no céu ou nas pessoas que levantam as respostas às questões. O que sei, vou respondendo. O que não sei, vai no chute mesmo.
Marquei de encontrar a Claire (Claire Insone) na Livraria Saraiva. Cheguei primeiro. Lógico. Fiquei posicionada estrategicamente na entrada da livraria. Observei o lugar, dei uma voltinha pelo ambiente e toquei para o celular dela. Estou aqui, falei com uma emoção contida na voz. Eu iria abraçar aquela mocinha que de forma tão especial vinha tocando o meu coração dia após dia. Eu nem acreditava. Disse estar chegando. Posicionei-me à entrada.
- Há um momento, no virtual, que vamos além das palavras tecladas e impressões imaginárias. Eu queria abraçar essa moça e estava contando os minutos para isso.
Nem cinco minutos e ela entrou. Tinha o andar delicado, a mão segurando com firmeza e feminilidade a bolsinha preta pendurada no braço. Vestia-se com um conjunto sóbrio, creme, como seria o natural para a pessoa dessa moça delicada e pequenininha, a Claire. Parecia uma japonesinha. Linda. Lembrava-me a minha tia, a Alzerina (diga-se de passagem, a que mais amo). Observei-a de longe. Ela me buscava, ao mesmo tempo em que olhava os livros ao redor. Tentei traçar um perfil, daquela moça delicada que se movimentava calmamente e de gestos tão sutis. Era a minha doce Claire. Aproximei-me. Não lembro o que disse, mas brinquei com ela. E foi o abraço mais esperado dessa minha viagem ao Rio. As horas em que passamos juntas (das 9:30 as 15:30), foram poucas, ficamos nos devendo tempo, abraços e muito carinho.
A Claire é de uma impressionante educação e delicadeza. Quando ela fala quase não gesticula muito. Parece que as palavras se curvam ao comando dela. Ela é real, tem cheiro de gente, tem um sorriso doce, consentido, mãos que nos tocam com carinho e olha nos olhos quando fala e quando nos ouve. Em momento algum desviou seu olhar para o mundo ao redor. A Claire tem o péssimo hábito de deixar a Mel falar. Como essa Mel fala. Às vezes em que parava para respirar ou mastigar os alimentos, observava-a esperar-me terminar o raciocínio. Ela me olhava como se eu fosse do outro mundo. Logo eu, uma nordestina, baixinha, metida a alta e tão tagarela, que acho ter assustado a moça delicada, que mais parecia uma fadinha em forma de gente.
Ao fim do nosso encontro, caminhar de braços dados com ela em pleno centro do Rio de Janeiro, fez-me imaginar, que o paraíso era ali, e a gente nem se dava conta.
Foto: Ricardo Frantz(1000 Imagens)*
Eu não direi mais o quanto te amo. Resistirei às tuas investidas de tentar explicar o que sinto. As palavras não cabem em meus atos quando a minha boca saliva de prazer ao vê-la caminhando doce aos meus braços. Não, não direi mais que o meu sentimento tem um significado, uma terminologia, ou seja lá o que for. Não. O que sinto, deixarei de classificar e ficarei horas a te olhar por debaixo dessas nuvens de incertezas tuas. O que me vale mesmo, é esse prazer que me deixa escravo de tua boca e tuas mãos que esmiuçam o que sentimos. Sim, meu anjo, és tu que me deixas passivo quando me olhas com essa boca que me chama querido...vem meu querido, e eu vou de olhos bem fechados para não acordar.
Para que passar horas te perguntando se me amas? E ver a confusão que se forma no que podes e no que gostarias de dizer. Teus olhos reviram, ficas muda, tentas entender, talvez explicar. E nada. Não podes. Não estamos ali e não pulamos todas as fogueiras e todas as inquisições? Acaso não amaria aquele corpo que se prepara a mim, como um jardim de rosas vermelhas e de cravos macerados e cheirosos? Não seria amor o teu poema que meu corpo toca em riste e desfalece quando bebemos da mesma fonte? E não seria para mim o teu medo de sair dos limites, de dar bandeira, de molhar a roupa, de babar o travesseiro cada vez que lembra de nós?
O que seria então o que te faz pousar os olhos semi-serrados sobre o vácuo e ter o mundo inteiro buzinando atrás do carro. O sinal abriu, o sinal abriu! E o teu pensamento está onde estivemos horas antes, uma cama, um precipício e a tua fantasia abrindo as portas e me mandando entrar. "Olha a hora, amor, acorda, vamos atrasar".
Sou teu escravo, Madalena, diz-me então como se escreve o meu nome sem o teu por perto? Por que classificar a palpitação, a taquicardia, o suor frio, o beijo que roubamos debaixo do sinal vermelho, a voz no telefone que provoca outras tantas teses e hipóteses que tentas administrar sem a menor chance de chegar ao fim? Por que tentaríamos dizer se é amor, ou outro tipo de nome essa vontade de estar junto o dia inteiro, enquanto todas as catástrofes acontecem lá fora e apenas o que nos importa é o escurinho do cinema, a bala, a pipoca, as pernas entrelaçadas, os beijos (quem se importa com o que passa na tela?), quero mais é te puxar a blusa, deslizar o sutiã para baixo, sorrir do teu sorriso malicioso e te morder a orelha carinhosamente enquanto observo o teu desfalecimento completo ao meu calor. Diz, Madalena, que é isso que eu sinto em mim?
Seria amor a sua carinha esgotada em cima da cama, que me olha dar voltas pelo quarto procurando chão para pisar depois de flutuar ao teu lado? Seria amor, ou teria um outro nome mais profundo esse meu deslumbre de ver-te dormir, cansada sobre as minhas roupas e as tuas arrancadas desde o terraço, e espalhadas peça a peça pela casa, caindo outras no banheiro e esse desejo esparramado sobre nós dois em anos e anos de encontros nas nuvens? Seria amor esse desespero a olhar para o telefone nas noites longas de fim de semana quando não podemos estar juntos? Seria amor esse teu jeito babado toda vez que me pega de olhar longe e faz uma ceninha de ciúme querendo o meu olhar mais doce e exclusivo? E como eu chamo esse desespero, quando voltas para ele e eu me sinto um tolo, um lixo, um abandonado, sabendo que àquele exato momento estarás a servir ao teu homem e eu sou apenas um sentimento que tu não consegues classificar e eu esperarei todos os dias que tu possas dar a mim os teus melhores ais e o teu sorriso que diz, eu sou tua, quando eu sei que tu me mentes e eu bem que finjo acreditar...
Ah, Madalena minha...Madalena... como posso classificar o que sinto por ti? Não é mentira, é ausência, é tudo, um vocabulário moderno, uma metáfora, um soneto, uma rima perfeita. O que eu sinto pode ser tudo, até o que traduzo quando te vejo sumir. Só sei que quando abro o guarda-roupa, onde guardo roupas tuas, que só eu verei vestidas no teu corpo(e quando te visto, como um devoto que adorna a sua santa), me dá uma tontura, e eu me sinto frágil, um homem do meu tamanho, frágil e dependente do que eu não consigo explicar nem dimensionar no meu peito.
Quando a noite chega, cansado do amor compartilhado, descanso sobre a cama e te vejo vestir a roupa com pressa. Escova os dentes, seca o cabelo no penteado anterior, pega as compras largadas sobre o sofá e me beija com essa boca que ao invés de dar adeus, joga-me na cama para outros sonhos. E lá vamos nós, desarrumando o teu cabelo, manchando o teu batom, misturando os nossos cheiros para que saias daqui exausta e não pertenças a mais ninguém. Ah, Madalena, que nome dou a isso, e como classifico esse meu desejo por teu jeito, teu cheiro, teu batom vermelho e teu sorriso que me deixa aqui, deitado nessa cama, como se o mundo parasse quando tu fechas a porta atrás de ti e és de outro, bem ali, pertinho, milhões de carinhos daqui.
Se não é amor, que nome eu dou ao que sinto por ti e que me deixa assim, frágil, sensível, carente de tudo, pernas trêmulas, querendo que o mundo inteiro se compadeça de mim? Ah, por que tu vais quando o que eu mais preciso é que me trates como filho e me ponhas no colo e me deixes ser o teu único amor, para sempre. O que faço para dar nome aos meus sentimentos mais febris por ti?
Como posso dar um nome a isso, como se pudesse fronteirizar a minha febre, o meu desespero, e a minha sede por ti? Como defino em mim, onde começo e onde terminas, onde és paisagem e onde és tempestade, meus dias frios, os quentes, os que anseio, a esperar-te no portão nas tardes em que és minha, o meu corpo, teu único estacionamento seguro para o amor. "Me diz então, com que pernas, hei de partir?"
Dira Vieira
*Giambologna, exposta na Loggia dei Lanzi, Florença
Foto: Dira (Do alto do Pão de Açúcar)
A Teimosia
Pedi tanto para ela não ir. – Não adianta, eu vou. Ela foi incisiva. Disse com raiva e saiu batendo a porta do apartamento. Eu tive ódio nesse dia. Odeio quem faz isso, bate as portas, desligam o telefone enquanto ainda falamos, olha o número que está chamando para decidir se vai atender ou não. Sai do msn sem dizer até logo. Mas Madalena fazia isso comigo quando se irritava com a minha presença.
Ora, eu nunca me incomodei que ela fizesse o que quisesse de sua vida. Não era maior? Não era adulta? Precisava agir desse jeito? Infantil, criançona! Depois não vem chorando as pitangas no meu ombro que não vou dar a mínima. Quero mais é que se exploda. Quem manda ser tão ridícula? Ridícula sim, faz de mim gato e sapato e quer que eu ature suas birras infantil. Ora, faça-me um favor. Não sou capacho dela.
Quando voltou à noite, sem batom, cabelos assanhados, sandálias na mão, vestido semi-aberto, deixando as pernas ficarem à mostra, imaginei o que acontecera. Certamente ele não aparecera como ela sonhara desde o século passado. Parecia uma louca. Como ele cumpriria algo que prometera há quatro anos atrás? Enlouqueceu? E se ele tivesse casado? E se tivesse filhos, uma dúzia deles, todos barrigudinhos, e uma mulher cansada cuidando da casa enquanto ele trabalha de Office boy em algum escritório chique da Zona Sul? Pois sim. Só essa tonta mesmo para acreditar em gatas borralheiras em pleno século XXI.
Perguntei se queria comer alguma coisa. Tive dó do seu estado catatônico. Parecia uma múmia. Pedi que sentasse, eu traria água quente para os seus pés, e ouviria o relato do dia. Sentou no sofá. Eu peguei água quente, fui tirando os seus sapatos lentamente enquanto observava o seu semblante. Ele foi? – Perguntei já sabendo a resposta. Não. Você sabia. Não sabia? Silenciei. Não respondi. Ela sabia também.
Enquanto massageava lentamente, porém com firmeza os seus pés, Madalena olhava fixamente para o teto, as mãos espalmadas sobre a cabeça, observava uma víbora que se movia em busca de mosquitos na parede. A vida é assim, não é? Perguntou p a u s a d a m e n te. Ãh? Eu não entendi o que ela queria dizer. Sei que em seguida, ela abriu o peito, rasgando o vestido, mostrando os seus seios de onde saiam uns pássaros de todas as cores. Tive medo. Achei que estava tendo alucinações, mas era Madalena chorando. Chorou muito. O vizinho bateu na porta para saber se estava tudo bem. E ela disse: deixe que eles voem, deixe, preciso esvaziar os meus secretos para enfrentar o mundo amanhã. Deixe. Abra as janelas – pediu quase implorando. Abra.
Levantei com muito esforço, estava paralisada com tamanha beleza e dor. Os pássaros voavam atordoados dentro do apartamento, mas logo perceberam a janela aberta. Do lado de fora, os moradores do Morro do Macaco observavam a cena tocante. Eram pássaros voando pelas janelas. As crianças que passavam, gritavam, acenavam, sorriam para os pássaros e eu colhia os versos de Madalena que caiam sem dó no meio da sala. Ela urrava. Eu não sabia o que fazer. Senti-me impotente diante de sua dor. Quando chorou tudo e não havia mais pássaros para voar, Madalena calmamente fechou o vestido, selou os meus lábios com um ‘boa noite’ e silenciosamente avisou que ia dormir. Os amores de Madalena eram assim, só terminavam de forma brusca, grosseira, estúpida, com muito ódio. Não conheço um dos seus grandes amores que tenham terminado equilibradamente. Ela colecionava cartas e e-mails de términos de romances. Cada um mais duro que o outro. Passava séculos chorando um a um, depois, apaixonava-se novamente e eu pensava, lá vem mais dores...
Quando ia dormir o celular dela tocou. Era ele. Eu vi. Uma mensagem. ‘Não estou no Rio. Felizmente a vida não para’. Deletei a mensagem. Nem respondi. Eu não daria a ela esse desgosto.
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