
(Clique na Foto ou no nome para ir à Página que a originou)
* Para Eva Armán e Marco Santos
Salto alto, batom clarinho, não queria chamar a atenção como se fosse turista. Era uma bela visão quando Madalena andava. Corpo esguio, quadris largos, cabelos pretos caindo sobre os ombros, levemente ondulados, andava deslizando em seus sapatos sempre tão belos. Vestido azul estampado, soltinho, acompanhava suas curvas, decotando os seios, como ela mais gostava. Deixava que os seios fizessem aquele volume no decote, puxava-os para cima, para parecerem maiores do que realmente são. O seu olhar era meio morto, eu costumava brincar com ela que aquele olhar de peixe morto era fatal para quem olhava. Olhos de sereia que pediam beijo. Um perigo encarar aqueles olhos e aquela boca com o batom sempre retocado.
Estava nervosa. Ia vê-lo depois de anos. Ainda lembrava aquela boca carnuda. Sua voz máscula falando ao seu ouvido. Sua Madeleine, como ele a chamava carinhosamente. Longa espera desde o dia que o viu pela primeira vez naquela rua do Ouvidor. Estava chovendo, eles marcaram para o fim da tarde. Madalena colocou sua melhor veste, não pôs perfume, pois sabia que ele era alérgico. Passou o dia no salão, fazia as unhas, ondulava os cabelos, preparava-se para vê-lo, o seu menino, o seu homem. No horário marcado, Madalena atrasara-se, ficou presa no trânsito, num daqueles congestionamentos infernais da Presidente Vargas. Quando o ônibus dobrou a esquina, o céu estava completamente tomado por densas nuvens. Madalena desceu correndo e atravessou, rumo as braços do desconhecido.
As pessoas passavam apressadas para irem para casa. Algumas gotas de chuva começava a cair e o seu belo penteado começava a dar sinais de que não duraria nem mais um minuto lindo, como saíra do salão. Ele não estava. Certamente cansara de esperar. A dor que se instalara em seu peito era tão absurda, que ela procurou um banquinho para sentar. Madalena perdera o bonde do amor, ele não a esperou. Quando rumava para uma parada de ônibus mais perto foi levemente tocada pelo seu moço de pele morena, cigarro na mão, jaqueta amarrada à cintura. Era ele. Sim. O seu menino. Não foi preciso dizer nada. Nem desculpas pediu. Ele tinha todas as respostas. Segurou o seu braço e o tocou à face, para enxugar a tempestade que começara a cair. Foi pensando nesse dia que voltara ao Rio de Janeiro. O dia de chuva, o primeiro beijo trocado no meio da rua com todo mundo olhando. Correram tanto tentando escapar do banho que ela nem lembrava como perdera a sandália. A chuva ajudou. O amor envolveu os dois no meio da tempestade, e fizeram esquecer de todos os limites. Ela nem acreditava em contos de fadas, mas ali estava o príncipe que fumava cigarros e gostava de rock inglês.
Enquanto refazia todas essas lembranças como um filme que se passava lentamente na sua cabeça, o tempo passara, e Madalena não percebia que o moço não viria, porque talvez havia escolhido uma outra estação de metrô, não aquela, onde ela tinha certeza, ele viria depois das 14 horas, como era seu costume ao vir do trabalho no centro. Com o batom manchando apenas a borda da boca, e uma desilusão manchando a sua alma azul de esperas, Madalena fingiu que existia, pela milionésima vez, e resolveu voltar.
Pensou em ligar para ele. Mas não teria coragem. Sentia-se frágil ao falar com ele ao telefone. Era como se mostrar transparente, nua. Sabia que ele a tinha, até quando tímida, não sabia dizer a ele o que queria.
Apertou a bolsa pequena entre as mãos, amarrou os cabelos com uma liga que tinha amarrada no pulso e passou as costas da mão nos lábios. Estava cansada de ter esperado a tarde inteira. Nem mais o sol insistia nas ruas. Madalena estava só na cidade grande. E o seu amor, aquele moço que ela adorava como a um santo, em devoção, não passara por ali, no horário combinado, naquela estação.
Quando finalmente pegou um ônibus de volta para Vila Isabel, jogou-se na poltrona nas primeiras cadeiras da frente. Sentou-se como se largasse ao chão, tentou aliviar a dor nos pés de sua espera dolorida, colocou o vestido entre as pernas e jogou a cabeça para trás em completo abandono. Ele não fora. Ele não iria, e os seus dias no Rio de Janeiro, seriam como dias que se arrastam ralando a sua alma sobre o asfalto quente de Copacabana.
Mesmo assim, pensara nele. Lia as suas mensagens no celular e em meio ao cansaço, tocou os seios pelo decote do vestido, sem perceber-se em público, lembrando a tempestade que os tomara na Rua do Ouvidor e de como a tocara, acidentalmente, fazendo-os beijarem-se em público com as mãos dele espalmadas sobre o que ele chamava de “meu pão de açúcar preferido”. Era tarde. Sua cabeça dava voltas e o olhar do motorista se deleitava enquanto Madalena sonhava, largada sobre o assento, tentando recompor a sua esperança.
Dira Vieira
Tributo ao Rio de Janeiro: http://www.marcillio.com/rio/ Excelente site de onde capturei essa foto acima. Vale a pena ser visto. Colocarei em meus favoritos.
Foto: Kama Sutra - Ricardo Laske
- Você gozou?
- Ah?
- Tô perguntando... gozou?
- O que você acha?
- Não senti. Por isso perguntei.
- Jura? Em nenhum momento?
- Talvez em um.
- Qual?
- Não sei. Quero ouvir você. Diz. Fiquei curioso e preocupado.
- Isso incomoda você?
- Sim. Muito. Eu me importo. Quero te dar o mesmo que recebo.
- É uma troca?
- Claro que não. É respeito.
- Ãh?
- Não enrola. Responde.
- E se eu não “pareço” gozar afeta a sua virilidade? Ou...
- Não vou pensar que sou um fiasco na cama. Não é isso. Por que você tem sempre a preocupação de “analisar” os papéis?
- Ai ai, parece papo de intelectual.
- Custava responder se sim ou não?
- Isso não se diz, amor.
- Não? E por que?
- Ora, você deveria sentir.
- Eu não senti. Seria óbvio?
- Talvez.
- Sim, mas e aí?
- Não, não gozei.
Silêncio. E mais silêncio.
[continua no post abaixo...]
- Sim...
- Ficou chateado?
- Não, não sei.
- Ao menos não fingi.
- É, obrigado. Poderia.
- Sim. Faria aquelas caras e bocas dos filmes, xingaria você com palavras obscenas, faria contorcionismos, gritaria, você ficaria com aquela cara de macho satisfeito.
- É o que pensa?
- Sim. Eu gozar ou não, não altera o seu prazer.
- Talvez não fisicamente. Por que então estou preocupado?
- Não sei. Como eu disse... Talvez afete sua virilidade.
- É isso que realmente pensa?
- Talvez. Agora fiquei confusa.
- Hummm. [Silêncio. E mais silêncio].
- Amor?
- Oi.
- Ta chateada?
- Não.
- Eu amo você.
Silêncio e mais um pouco. Ela agora não tinha mais certeza de nada. A cama agora se tornara apertada demais para todos os egos.
[Dira Vieira]

Já em terra pouco firme, caminha como se os pés pertencessem a uma outra dimensão da luz. Lembrou de ter visto pela minúscula janela, pequenos blocos de algodão escurecido rasgados pelos feixes de luz incandescente dos relâmpagos. Eram espadas de fogo cortando o dia que amanhecia. Se estendesse as mãos para fora da janela, certamente que tocaria suas impossibilidades molhadas em formas de asas.
Madalena se recolhia em si mesma e lançava-se na plataforma de desembarque como náufraga de um navio que não afundou. Olhava para os lados. Outros sobreviventes abraçavam os que esperavam. Ninguém a esperava senão suas ansiedades latentes. A esperança de vê-lo de braços abertos, era sua única bagagem de mão. Precisava vê-lo. Precisava beber daquela boca os ingredientes que de uma vida inteira. Lembra do primeiro beijo na chuva? Camisa branca, juventude fazendo covinhas no rosto adolescente dele, cheio de espinhas. Ela, mais velha, blusa decotada, molhada no corpo, mostrava os contornos dos seios. Ele tremia ante a visão do corpo dela. Madalena bailava em seus braços numa cena típica hollywoodiana. Eles sabiam que precisam de pouco da vida para a felicidade.
Madalena é o outro, e o outro sou eu que a observo perplexa, perdida no saguão do aeroporto. Parecia tão tímida, tão sozinha, carregando uma mala média que puxava por uma mão e tinha a outra ocupada por livros que nem chegou a ler na viagem, tamanho o esforço que fez para ficar invisível. A cada passo, refazia os pedidos dos que ficaram: a bola oficial do Flamengo para Rafael, a boneca da Clarinha, um relógio para Antonio.
Eu podia ler em seus olhos naquela manhã que ela cumpria o que talvez fosse seu último ritual. Sempre que abria a gaiola vez ou outra, voava tontinha pela paisagem. Era menina demais para que fosse livre. Era pássaro demais para que pisasse o chão. Sempre temi essa fragilidade dela. Sempre foi alvo fácil de estilingadas.
Sei que hoje à tarde, depois de ver a cidade, irá espera-lo na saída do metrô para algum bairro mais afastado. Será hoje, ela marcara essa data para sempre em seu coração. Às 14 horas, na entrada do Metrô, Madalena o esperará passar. Sabia que quando chegasse o momento, ele seria como a aparição do sagrado, o esperado, a imagem do que já conhecia, a estrada sem volta, o caminho estreito. O amor, descoberto na volta.
Dira Vieira

Decolando
Enquanto o avião decola, o princípio da ansiedade assombra Madalena. Há pássaros por toda a parte. Invisíveis pássaros, invisíveis ordas celestes de anjos de todas as cores que sobrevoam o corpo dela. Parece que pousam todos sobre o seu estômago. Várias portas ensaiam uma plataforma diante dela, quando o comandante anuncia que o avião está em pleno vôo.
Sem entender bem, aperta os olhos contra as pálpebras, abraça-se a si mesma, com medo que se perca e junta os pés como se o corpo tentasse falar uma linguagem que ela nào soubesse traduzir.
O avião levantou vôo e ela não abre os olhos. O coração aperta. Não acredita no que está acontecendo. Ontem, era ele que ia, enqanto ela se esvaia em dores na plataforma. A dor era a mesma com todas os sintomas anteriores.
De olhos ainda fechados e com um zumbido sinistro nos ouvidos, tenta pensar em outras coisas, comidas, livros, música, mas parece que a cabeça não obedece. Madalena comprime as mãos que guardam a sua bagagem de mão contra o ventre, logo as luzes se apagam. O silêncio toma conta de suas fases, as cheias, as novas, as minguantes. Madalena mingua como as tempestades fora de hora. E ainda assim não se compreende. Não doma a si mesma. Nem as mãos que antes buscavam prazer, agora a machucam. Apertam. Estala os dedos, cantarola uma canção que desconhece a letra. E sua alma transparente parece sair voando pela janelinha minúscula do avião. Estava pesada demais para ir junto. Quem sabe voasse em solo seguro? Quem disse que seguro é o chão, no princípio dos desejos? Talvez pudesse organizar-se em quebra-cabeças.
O amor tem esse poder sinistro sobre ela. Causa um rebuliço, devasta suas certezas, deixa-a à mostra, com suas vísceras exalando transparência. Ela é apenas espelho, teto de vidro em suas vitrines.
Em pleno vôo, tenta aquietar-se. Fita a imagem dos alheios. Dá as mãos ao que desconhece e desde do avião para outras plataformas sem tirar os pés do céus.
Dira Vieira
Estou viajando, amigos, tenham paciência. Eu volto logo. Beijos.
Dira.
Dira: Claro que não. Casar é bom. Compre uma casa antes, como solteiro, compre um carro antes, como solteiro, se tiver bens, tenha-os como solteiro. Depois, case com separação de bens. E seja feliz para sempre...hehehe
Mariana: Poxa, então o casamento é apenas uma relação de poder, e dinheiro?
Eleonor: Mariana linda, quando separar você saberá que sim. Mas é claro, há casamentos que duram a vida toda. Porque alguém certamente cedeu mais que o outro. Ou ambos cederam e muito. Ora, se é difícil morar na mesma casa com parentes, imagine dividir uma vida inteira com quem acabou de conhecer?
Mariana: A minha solidão me é cara. E eu amo em alguns momentos ser sozinha. Já imaginou?
(O dia já começa a despontar e as meninas nem percebem que passaram a noite inteira conversando. A fogueira é constantemente alimentada por Mariana, com gravetos que fica catando em volta do grupo).
Eleonor: Queria um amor sim. Quem não quer? Um homem diferente do meu pai (alcoólatra, mulherengo e bruto), mas também, nunca seria morta como a minha mãe. Calada, tímida, sofredora. Acho que na verdade minha mãe nunca gozou realmente. Acho que ela desconhece até o que é isso.
Claire: Mas é verdade. O sentimento religioso de que o corpo é algo intocável, desobrigado a dar prazer, cria uma barreira entre nós e nossa pele. Lembram da campanha contra o câncer de mama? Quem faz o auto-exame entre as camadas mais baixas. E não estou apenas falando em falta de informação, ignorância, to falando no medo que as pessoas têm de conhecerem a si mesmas.
Mariana: É. Eu sempre me toco quando vou tomar banho, para fazer a prevenção do câncer. Mas confesso que é algo que me inibe e constrange.
Dira: Mas não deveria. O nosso corpo é dotado de zonas de prazer. Ora, acreditam que Deus nos faria assexuados? Então porque nos fez em dois? Eu toco o meu corpo sim. Se ele é meu templo, é a minha casa, a minha morada. E dentro de minha casa eu ando descalça sem o menor risco de cortas os pés.
Eleonor: Ebaaaa, viva Dira!!!
Dira: Não precisa bater palmas não, mocinha. Chegar até aqui não foi fácil. Conhecer o nosso corpo não é tarefa das mais fáceis. É romper lacres e lacres de preconceito, ignorância e doutrinas religiosas que culturalmente nos atrofiam a mente pela vida toda. Não fomos feitas para ter prazer, mas para dar. Não é isso que nos ensinam? De uma forma ou de outra, ainda somos mutiladas no mundo inteiro, pelas religiões, pelos costumes, e pelo preconceito.
Mariana: Sim. É sim. Tenho uma amiga cristã que foge do marido para não fazer sexo porque diz que é pecado e ela não pode mais ter filhos pela idade, então, vive fingindo dor de cabeça, quando não inventa outros argumentos para não fazer amor com o marido, coitado.
Eleonor: Isso quando eles não exigem que cumpramos o nosso papel de “esposa”.
Claire: Ai ai, novamente o bendito casamento... Perceberam que o dia está amanhecendo? Alguém cansado por aqui?
Mariana: Amanheceu, gente...
Eleonor: Foi a conversa. Ninguém percebeu.
Dira : Sinal de que estava boa.
[Risos e sorrisos gerais. Claire levanta-se, ergue os braços, espreguiçando-se]
Claire: Humm. Agora que já demolimos a sociedade contemporânea, podemos dormir.
Mariana: Será? Ainda me sinto tão acordada...
Eleonor: Efeito da discussão. Despertou todo mundo.
Dira : Verdade. Mas estou cansada mesmo assim. Estou “alerta”, porém cansada.
Mariana: Canção de ninar então. Alguém se habilita?
Claire [fingindo seriedade]: Ah, não. Agora vamos avaliar a conversa. Devíamos ter feito a ata... [Olhares sobre ela, entre atônitos e apavorados. Claire ri] To brincando, pessoal. Mas que foi uma boa conversa, foi.
Eleonor : Depois você pode escrevê-la.
Claire : Será que vou me lembrar de tudo? [Olha para Dira. Pensa que o melhor de estarem na ilha é conhecer essa amiga “à distância”, agora não tão distante.] Você me ajuda, Dirazinha? Escreve comigo?
Dira [Sorrindo] Claro, claro. Mas eu vou viajando, vou pelos meus mares, você sabe... Pode não ficar muito exato.
Claire : Ótimo. Exatidão é para matemáticos. A gente cuida é de Literatura.
Eleonor: Como assim? Vocês vão mentir?
Mariana: “Enfeitar” um pouco a verdade?
Claire : Não. Vamos poetizar...
Dira : Talvez...
Claire : Talvez...
Dira : Vamos dizer o que vocês não disseram. Afinal [olha para Eleonor, para Mariana, os olhos cheios de carinho] Vocês são nossas queridas, saídas de nós. Habitam na gente, em mim e na Claire.
[Claire também olha para Eleonor e Mariana. Aos poucos, à luz suave da manhã, as duas vão sumindo, deixando apenas duas mulheres diante da fogueira agonizante].
Lembrando aos visitantes, que esse texto foi feito por mim e a Claire, e que os capítulos (5 ao todo) estão lá e aqui. O endereço é: http://claireinsone.zip.net/ Obrigada, Claire, pela paciência em aturar-me durante o tempo em que escrevemos juntas. Amo vc.
Mariana : Entrevista exclusiva: Claire fala dos horrores do casamento!
Claire [Rindo mais ainda]: Mas como eu poderia falar disso se nunca fui casada?
Mariana: Não sei se quero me casar. Tem coisas que eu não aturo.
Claire: Mas você me disse que não é feminista.
Mariana: E não sou. Porém tem coisas que não aturo assim mesmo.
Dira: Ser solteira é tudo de bom, não é , Claire?
Claire: Não exageremos. As duas condições, casada e solteira, têm seu altos e baixos. Acho que não existe estado civil perfeito. Você acha mesmo que ser solteira é melhor?
Dira: Não, não acho. Mas casamento é complicado...
Claire: Algo político?
Eleonor: Mais complicado porque você tem de levar outra pessoa em consideração?
Mariana: Monótono?
Dira: Depende do parceiro, Leonor. Há casamentos que funcionam como propriedade privada. E calma, não estou fazendo apologia aos relacionamentos abertos. Mas aquele velho papo: “Casei, ela/ele é meu. De hoje em diante, não existe você e eu, mas nós”. Ninguém deixa de ser individual e passa a ser par só porque casou. A paixão inicial pode até dar essa sensação. Abrindo aspas aqui, queridas, eu sei o que ele/ela está pensando, somos um. Isso não funciona no dia a dia.
Mariana: Ué. Não funciona e tem tanta gente casando. Não entendo.
Eleonor: Ô Mariana, mas a gente sempre quer o que não conhece.
Dira: Acho que não é bem assim, mocinha.
Claire: O casamento é uma instituição secular. Está enraizado na cultura mundial. Mesmo mudando de metodologia de cultura para cultura, é o mesmo bom e velho casamento instituidor da família.
(Todas batem palmas e numa só voz: êeeeeeeeee!!!!)
Eleonor: Muito bem, Claire. É isso aí. Eu mesma quando casei da primeira vez, achava que seria aquele tremor no corpo todos os dias... (rindo). E quando comecei a esperá-lo todas as noites voltar do trabalho com cheiro de bebida e perfume esquisito na roupa, achei que não podia reclamar.
Dira: (Rindo alto) Doce ilusão. Mariana e Claire, calma, não fiquem tristes, a gente não está aqui seduzindo vocês a desistirem de casar. Não é isso. Não é, Eleonor? Até porque, há todo um apelo cultural para que isso ocorra. Não vamos nem falar de outras culturas, vamos ficar apenas na nossa. O que se questiona muito é: “eles casaram, ou vivem juntos?” Como se assinar um papel fosse atestado para se viver bem.
Mariana: Ai ai. E a falta de privacidade? Leram a última Veja, sobre os casais que participam do Orkut ou teclam com terceiros no msn? Achei um absurdo!
Claire: Sim. Eu li. As pessoas perderam a noção de sua individualidade. Elas querem vigiar o outro para não serem traídas. Em resumo, trair é ter amigo, pensar diferente. Ser feliz sem o outro junto. Segue o isolamento do par até que a primeira briga os separe.
Eleonor: Ou acorde. (rindo)
Dira: Ora, por isso que os casamentos fracassam. Há por trás um código de poder subtendido. Crianças, não se enganem, não há felicidade onde não há liberdade.
Eleonor: Epa. O que está querendo dizer com isso?
Mariana: Calma, essa eu entendi.
Eleonor: É, sabidona. Então explica ai.
(Claire ri da cara de Mariana. Um grunhido de uma coruja é ouvido estrondosamente. Todas se assustam).
Mariana: Sacanagem não é? Quem pode ser feliz onde há a falta de liberdade de ser a si mesmo? Isso pode até durar por um tempo, mas depois, quando o amor for se acomodando no sofá da sala, ele não vai mais suportar ser apenas um. Isso com os casamentos contemporâneos. Os mais antigos se sujeitavam por uma série de razões.
(Todas aplaudem Mariana, é uma gargalhada só)
A Claire (do Claire Insone), teve a idéia de um conto para homenagear mulheres. Daí, começamos a trabalhar juntas. O conto possui mais páginas que imaginávamos, por isso vamos dividí-lo em capítulos. Um aqui, outro lá e assim por diante. Gostaríamos muito que nossos leitores nos dessem o prazer de acompanhá-lo inteiro. Fizemos juntas, pensamos juntas, e por fim, o resultado para homenagear todas as mulheres que na vida, são mais do que figurantes, mas atrizes principais, ao lado dos homens da novela vida. À vocês, mulheres, nosso carinho. Leiam abaixo. Tive que dividir em três partes o primeiro capítulo, para que o uol publicasse.
Agradeço a Deus, de joelhos, pela vida de Claire e por Ele ter me dado essa incrível pessoa como amiga e parceira.
(Com a participação de Eleonor e Mariana)

[Cenário: uma ilha deserta em qualquer oceano da escolha do leitor. Vê-se uma meia dúzia de árvores em primeiro plano. Debaixo de uma delas, uma seqüência de malas. Debaixo de outra, três mulheres estão sentadas enquanto uma quarta, de pé, examina o tentador espaço entre duas das árvores]
Claire: O que você está olhando?
Dira: Humm... dá pra colocar uma rede.
Eleonor e Mariana [em uníssono]: uma rede!
Dira [Virando-se]: vocês não gostam não?
Eleonor: Que nada, estamos nessa. Onde tem pregos? E martelo?
Mariana: Eu sei! [Levanta-se e vai fuçar as malas]
[Dira se abre num imenso sorriso. Depois, olha para a sua companheira que permaneceu sentada, nariz enfiado num livro]
Dira : Claire, se você ler tudo agora não vai sobrar nada pra depois...
Claire [Despertando]: Hã?
Dira [num frouxo de riso] : Deixa de ser gulosa, Claire.
Eleonor e Mariana [ Retornando com martelo e pregos] : O que foi?
Dira : A nossa Claire já está atacando os livros e nesse ritmo não vai sobrar nada até o final da semana.
Eleonor [Rindo e fingindo seriedade]: Claire...
Mariana [o mesmo]: Modere-se, vamos!
Claire [Vermelha, fecha o livro com óbvia relutância]: Tá bom... e aí, cadê a rede?
Dira surge com a rede. É incrivelmente bonita, de cor creme, com franjas matizadas entre o branco, o amarelo e o dourado. Depois de armada segue-se a discussão de quem - só cabem duas - irá estreá-la]
Dira : Não, eu vou cozinhar também. Você e a Claire desfrutam, depois trocamos: vocês lavam a louça. Ou você prefere cozinhar, Claire?
Claire: Moi? Se nem fritar ovo eu sei...quando muito, esquentar água.
Dira [Fingindo choque]: O quê??? A blogueira do Claire Insone, a fã de chocolate... não cozinha nada???
Claire [Muito sem graça]: Não... [Sorriso amarelo]: Mas sou ótima pra comer.
Eleonor [Mãos nas cadeiras, rindo] : A gente imagina... Vem, Dira, sobrou para nós.
[As duas se afastam. Claire e Mariana pulam na rede. Mariana coloca os fones de ouvido, discman no colo pra ouvir U2. Claire agarrou-se outra vez com o livro, uma biografia de Graciliano escrita pela filha deste, Clara.]
[Anoiteceu. Ruídos estranhos ressoam pelas árvores e pelo acampamento das mulheres.]
Dira [Abraçando-se]: Alguém precisa me hipnotizar...Com esses barulhos todos eu nunca vou dormir...A noite sempre me assustou.
Claire [levantando a cabeça do livro. Marca entre as páginas 110-111]: Junte-se ao clube.
Mariana : Você não dorme nunca?
Claire : Às vezes...
Eleonor : E se alguém contasse uma história? [Novos sons que parecem vir das árvores mais distantes. Todas estão assustadas.] Claire?
Claire: Não sou boa para contar histórias, só para lê-las. Conte uma você, Dirazinha.
Dira: Tô morta de medo...
Eleonor: Bom, enquanto você falar distrai...
Dira: Quem sabe, né? (procura um lugar perto da fogueira para sentar. Rabisca o chão e tenta segurar a emoção).
Dira: (Risca o chão com um graveto) Estava lembrando aqui de cenas da minha infância. O medo de dormir no escuro. Meu pai, eletricista, costumava colocar uma lâmpada pequena no corredor, para que iluminasse em penumbra a sala. Se por acaso, essa lâmpada apagasse durante a noite, os três filhos acordavam aos berros. Era um desespero. Sinto falta desse cuidado do meu pai. De cuidado dele, é a única coisa de que lembro, enquanto figura paterna.
Enquanto Eleonor coloca água para um chá na fogueira rusticamente improvisada no meio do grupo, Claire tenta mudar o rumo da conversa para poupar as lembranças de Dira.
Claire: Ei, páre de escrever no chão, não cansa não é? Conte aí como você concebe as mulheres de seu blog. Sempre tive curiosidade em saber.
Dira: Ora, Claire. São apenas personagens. Já ouviu falar em amigos invisíveis? Acho que elas povoam cada uma de nós.
Mariana: Ei, péra lá, nenhuma mulher me povoa senão eu mesma...
Claire: Você que pensa. Já ouviu falar nas muitas máscaras que a gente tem que usar todos os dias? Quem nunca teve que se fingir de forte ao atravessar uma rua deserta? Quem nunca precisou fingir-se de morta diante do assédio de um colega de trabalho? Quem nunca quis ser a dama do lotação em alguma época da vida? Corre sangue em nossas veias.
Eleonor: Ah, por Deus, mas isso não quer dizer que sejamos outras mulheres em nós mesmas. Somos guerreiras. Você mesma Claire, lembra do seu último namorado?
Silêncio. Eleonor, constrangida por ter tocado em algo delicado, pede desculpas. Os barulhos noturnos se intensificam e um clima pesado paira sobre elas. É Mariana quem corta o silêncio com uma adaga na língua.
|
|
|
|
|
|
|