Imagem: Fernando Botero, Il bagno -1939-
É segunda-feira. Letícia devora uma bandeja de batatinhas fritas com coca-cola e eu a observo do sofá, sem que ela note a minha presença. Está nervosa. E eu não ouso perguntar o motivo de sua ansiedade. Eu poderia fechar os olhos e imaginar. O último relacionamento “avassalador” destruía Letícia pouco a pouco. Era imperceptível aos transeuntes. Ela disfarçava que era uma beleza. Mas não para mim que acompanhava o seu olhar a discorrer um fevereiro longínquo de um calendário que caminhava para trás. Ela parecia contar de trás para frente. Dia 28, 27, 26, e Letícia risca os números um a um como se fosse náufraga em uma ilha deserta.
Põe as batatinhas na boca de três em três, como se à medida que comesse, fosse esquecendo o moço, ou no mínimo aumentando o nível de serotonina no cérebro. Abusava do verbo chorar, do verbo engordar, do verbo incapaz de seguir adiante sozinho. Engraçado. Quando estava com ele, vi-a experimentar inúmeros regimes. O da lua, o das estrelas, o ortomolecular, o dos líquidos, a dieta dos carboidratos. Tudo Letícia tentava. Sem muito resultado, é bem verdade. Mas ao menos não a via engordar. Ela mantinha o peso, dentro da ousadia do amor que nem liga os quilinhos a mais de quem ama. Ela esquecia de comer, era bem verdade, quando contava os dias em que se enfeitava para ele. Por que a imagem é a que vende a alma? Ela nunca alcançou estrelas assim. Por mais que o salto fosse 15.
Se ao menos, ela tivesse sido forte naquele dia. Foi só um olhar de nada. Olhar bobo, daquele moço. Barba cuidadosamente bem feita, dentinhos miúdos, cabelo cortado rende à cabeça. Mãos enormes que a tocavam silenciosamente. Maõs brancas com pintinhas de idade. Tinha que olhar para Medusa? Não era mais fácil deixa-lo bem ali na rua e partir sem olhar para trás? Será que era a única a não perceber a serpente daquele olhar? Pois sim. Como se Letícia soubesse computar o medo. Não, Letícia tinha que beirar o despenhadeiro. Aliás, nisso temos algo de comum.
Se eu pudesse evitar alguns dos despenhadeiros que me aconteceram, bem que... bem que... nada. Eu bem que mergulharia tudo de novo. É como se aquele prazer de fechar os olhos e sentir-se triturada por aquele primeiro beijo, fosse o princípio das dores mais desejadas do mundo. Que importa o rasgo quando tocasse o chão? Acaso quem ousa voar, pensa em derreter as asas? Não. Loucura é evitar o fogo eterno. Quem ama ao que não se pertence, tem parte com a solidão. Quantas vezes não ouvi pessoas se arrependerem de não ter feito algo? Eu me arrependo dos precipícios em que não me joguei. Tivesse eu a idade de Letícia, faria outras loucuras, agora sim, de caso pensado. Bem pensado.
Letícia come batatinhas fritas e coca-cola. Nem percebe a minha presença da penumbra da sala onde eu tento entender a sua ansiedade. Daqui a alguns minutos, correrá para vomitar. Sei que tem feito isso todos os dias. Talvez pense que vomitando vai expulsar de dentro de si, os fevereiros passados, o beijo trocado na frente do hotel, onde Letícia trocou mais que saliva. Talvez tenha dado de si, o que ela agora tenta vomitar, como se assim, resgatasse os pedaços da auto-estima que o moço levou com ele, na bagagem que era toda dela.
Eu não digo nada. Espero o carnaval passar para ousar o verbo, e renovar o calor sobre a minha pele, em outros meses que virão com promessas ou com recordações, Letícia saberá de mim na poesia dela. Sim. Quando come batatinha, sua poesia se transforma em gordura ruim e ela chora baixinho toda noite, quando finalmente resolve dormir. Letícia terá que aprender a ser ruim, e vir atrás de mim, pois não vou ficar aqui, a chorar com ela. Esse ano não comemoraremos mais um aniversário do primeiro beijo, e sim, o funeral dos vivos - eu a convenci a isso. Não choraremos desaparecidos - para que acender velas aos vivos? Nem reclamaremos missas e nem incensos nos cemitérios. Que os vivos morram em paz, em seus castelos de brinquedo. Eu e Letícia, levaremos flores ao mar, e daremos adeus ao amor, que não viu março chegar. E só assim, será quarta-feira de cinzas e logo mais, outro sábado de Aleluia. (Dira Vieira)
Imagem do Baixaki (clique na foto)
Uma saudade me parte ao meio. Meio de uma manhã de domingo. Meio do mundo, onde os astros nos contemplam rindo das nossas idiossincrasias. Sempre tive medo de escrever em primeira pessoa. E de suspirar alto dentro do ônibus e de acordar os vizinhos com os gritos de gozo. Eu aprendi a silenciar as tempestades que me acordam todas as noites e desfilo as minhas mulheres, as muitas delas, que aprenderam a ser completamente diferentes de mim. Elas sim, possuem a si mesmas enquanto podem.
Madalena, Clarisse, Letícia, Maria, todas elas conversam comigo quando o sono não vem e os filmes na tevê não pegam a minha mão. De mim, as personagens lançam sortes, cada uma delas quer ser a atriz principal de minhas letras. Outro dia, quis falar de Clarisse e seu amor pelo poeta morto. Madalena reclamou atenção. Achei meio infantil de sua parte. Coisa que ela insiste em esconder, a sua infantilidade latente. Acho que Madalena, mesmo sendo a mulher linda e fatal, não passa de uma criança assustada com o assédio do amor constantemente batendo à sua porta, não passa um dia sem que ame. Madalena é amor.
Clarisse é mais adulta. Mas não menos inocente. Clarisse cuida de si, vive fazendo chapinha nos cachos que descem pelo seu rosto. Boca carnuda, quase sempre de batom (nunca vi Clarisse sem os lábios pintados, segundo ela, é como estar nua), as mãos de unhas grandes, cuidadosamente bem tratadas, disputa com Madalena o primeiro lugar de cuidado com pés e mãos. Um dia a peguei trancada no quarto, querendo morrer. Uma de suas unhas acabara de quebrar bem na raiz. Quis ralhar com ela. Como pode, algo tão banal. Não era. Clarisse roeu unhas a vida toda. Ter agora, adulta, as unhas grandes atingiam em cheio a sua feminilidade. Era o poder de Clarisse, o controle sobre o ato. O vício controlado. O seu espinho na carne. Eu entendi e nunca mais chamei sua atenção por isso.
Letícia é mais reservada. Quando ama, faz silêncio, não alardeia aos quatro ventos. Se fosse mineira, eu dizia que está de bom tamanho. Segundo ela, o amor exposto atrai olhos grandes e gulosos. Ela prefere guardar para si o prazer. Difícil encontrar um ponto fraco dela. É blindada. Guarda tanto as dores, quanto alegrias. E só quando se derrama em dores, é que vem a mim, para que lhe dê colo. Letícia se esconde na minha sombra. E mesmo que eu esqueça de um ou outro rasgo na pele, ela sabe que as feridas saram, e me consola, com o seu olhar azul que me cobre os espaços.
Mas eu ia falando dessa manhã aos pedaços. As necessidades de escrever esbarrando no silêncio das mãos que se ressentem de tocar estrelas. É como se tirasse férias dos impossíveis. Os olhos ardem quando caminham as ruas em busca de dias e arrastam-se quando dobram uma esquina de feriados e fins de semana intermináveis. Parece que quando resolvo descansar, eis que o corpo inteiro desobedece. E caminho, o olhar perdido nas ruas da cidade que fica deserta enquanto as minhas mãos foliãs se despedem do nada. Ontem encontrei a minha mente navegando em águas limpas. Quase tive um susto de me ver ali, perdida de mim. Senti inveja, confesso. Tenho inveja quando eu saio de mim e mando o mundo às favas.
Eu sempre tive medo de abrir os botões do meu peito. Tive-os bem alinhavados e cuidadosamente amparados quando um ou outro soltava uma linhazinha e ameaçava cair. É engraçado como algumas pessoas não conseguem sair da sala de visita de nossa vida. E como outras que apenas me visitaram na calçada, tiraram a minha paz e me desalojaram de dentro de mim, como se eu fosse apenas inquilina de meu corpo.
Algumas pessoas fecharam o meu peito por dentro, e engoliram os cadeados e chaves e senhas. Nem o melhor hacker conseguiria invadir o meu sistema de segurança e abrir-me de novo. Há alguns armários de mim que não me pertecem.
O meu tempo de Cinderela é curto. A meia noite nunca chegou para mim, melhor aumentar o tempo de chapinha quente, retocar a maquiagem e voltar para a varanda, a conversar com as mulheres que são muitas de mim até que o dia por fim amanheça.
Em alguns dias, daria tudo para chamar palavrões. Rir de minha mãe a proibir e sentir a sonoridade no desejo de chamar um palavrão bem cabeludo. Daqueles que em outros tempos, seria meu passaporte para o inferno. Por mim, hoje eu chamava um palavrão bem grande e riria de minha mãe que não pode mais proibir. Assim, fingiria que cresci e que meu nariz tem dona certa.
Dira
Imagem do site: www.xadrezgigante.com.br/ espec_tecnicas.htm
a estrada é a letra na mão que toca o aceno. o homem passa e seus olhos estáticos produzem veneno - arrepio. o mesmo olho que brilha é o que ejeta ódio. é na volta que acelero o passo. e se mergulho, desconto as digitais do dia no cansaço. o amor tem essa marca infalível, e é ela que me arranha a pele nua. a cabeça da rainha no tabuleiro. quantas vezes direi que te amo? e quantas vezes isso será um segredo? na cena do bar, o homem toca o que está mais próximo. eu levanto (espectador) e beiro o abismo mudando de canal. com quantas peças o xeque é mais íntimo? em quantas notas te faço um barulho? o olho do peixe é a minha agonia. ele olha de lado, finge que não lê os sinais do meu trânsito.
sim, apaga, deleta, exclui, apaga essa luz no corredor. o tempo passa de olhos abertos deixando o sangue coagulado no canto da boca. ele continuará no tabuleiro, rei, soberano e mau. tudo gira em contrário, relógio britânico às avessas. a felicidade em cores, estampa a coluna social, peças em alto relevo. em algum lugar eu devo ter uma sorte na manga. enquanto giro, a rainha louca pede minha cabeça, e eu quase resisto a um xeque final. E se eu gritasse, reconheceria meu eco?
Dira Vieira
Imagem do Site Olhares - Autor: sweetcharade
Sim eu amo. E mato um leão por dia, de fome. Eu sei dos meus passos, nunca ando sozinha. Só sei que amo o azul que se abre em mim, como flor que nunca murcha. Eu amo. E isso me tira do fundo, quando nenhuma outra mão me alcança. Eu sei que amo. E o amor, é assim: azul celeste, carmesim. Abro os braços e salto. O abismo me reconhece e expele. E esse dia que amanhece me entende e veste minhas novas vestes. Eu fecho os olhos e pulo, calçando os pés com a tempestade. Mesmo que você volte, mergulho fora. Porque mais vale o medo que enfrenta a covardia que fecha a porta. E se você fosse a melodia eu seria o tom, o botão do replay e o gol na trave, nosso desejo. Quando me amas, sou esse azul expandido, sorriso, tela de amianto, close em companhia. Smyles na tela sorrindo. Sintomas de uma única vertigem.
Sim, eu amo. E o meu amor alarga a cama, canta, acaricia o céu e aborve o cálice de minha culpa. Sim, eu amo. Aqui, agora e para sempre. O eterno pra sempre salve, salve a pátria-mãe-gentil. E ele jamais saberá com quantos gritos matarei a imobilidade dos dias. Mato um cão e um leão por dia e faço dos dentes a minha melodia. Quando não estais, eu pulo e ainda esculpo a noite para ver você chegar em senhas e cartões de crédito.
Eu te disse que seria assim, no final, no outro dia. Quando chegássemos nessa tonalidade
Do sim.
Dira Vieira
Só quando a noite cai, é que ela baixa a guarda, descalça os sapatos vermelhos, salto 15 e vai despedindo-se do dia cansado. Passa o lencinho bordado no batom, deixando “boquinhas” em ambos os lados.
E vai se despindo lentamente, primeiro tira aquela saudade que amargurou o dia inteiro no bolso da calça. O olho dele que a acompanhou em silêncio, as recaídas ao ouvir o nome do seu amor, o encontro por acaso na calçada do prédio, o ônibus lotado que deixou aquele cheiro de suor impregnado na roupa lilás, os desejos de beijar aquela boca que passou na tela do jornal da tarde e que ela dissimuladamente disfarçou da platéia incômoda de estranhos ao redor.
Poderia despir o sexo molhado quando atendeu ao telefone ao meio dia, mas esse, ela guardava como souvenir para não esquecer dos momentos de insanidade latente, de boca molhada e de blusas com decotes provocantes. Gostava de saber que os pensamentos não eram públicos, senão, pobre de nós, pecadores.
Despia-se calmamente do que podia e do que era simples de despir, sem o menor risco de ferir a pele, ou causar danos irreparáveis no que sobrasse para o dia seguinte. Despia-se do que não podia traduzir de si, dos outros.
Despia-se da vontade de comer algodão doce, leite com açúcar na sessão da tarde, ler fotonovelas, chorar com a morte da mocinha, ler Adelaide Carraro escondido da mãe. Era ela, o ontem em falsete que ninguém conseguia traduzir.
Sentia a falta dele. E a ninguém confessava aquele amor oculto. Eram os dias longos, carcereiros de suas horas íntimas. Ficava vagando pelas ruas quando o dia se findava no circulo do relógio mudo. Contava um, dois, três carros que passavam por si, fazendo algum sinal. Também precisava despir essa peça, a de abandonada em dias sombrios. Porque nem mesmo nesses dias de aparente embranquecimento conseguia ficar triste. Era o “bicho-grilo” mais lindo da rua onde morava.
Cansada, tira peça por peça. A roupa, as regras, as notas musicais que ele tocou em seu corpo, a saudade, o violão, o vinho, a conversa solta, o olhar dele, o sintoma de saudade que se instalara em seu peito, a voz dele trêmula ao telefone na primeira vez, a carta dizendo que ia embora, a saudade de não ter tido a roupa dele jogada ao chão no quarto, e a tolha molhada esquecida em cima da cama. Era preciso tirar lentamente, tudo o que aquele dia havia marcado nela. Mas, ainda que necessário fosse, não mentiria o desejo, não negaria a página desenhada de todas as cores que pintou o corpo dele. Seria sempre o azul, escancarado, abusado, o mesmo daquela ilha deserta, onde se entregou, folha branca em linhas retas e recebeu-se escrita em letras escarlates para todo o sempre.
Seria sempre assim, quando se despisse, a página tingida, o corpo nu, as unhas dele, o amasso, a poesia cravada, erótica, a pintura envelhecida, poema escrito no guadanapo e colado em suas linhas. O amor escrito no papel crepom. E ela, fez pacto de sangue com a solidão. Seria página virada, sim. Mas a página tocada, escrita e lida em voz alta nos seus instantes de gozo com aquele moço.
Essa seria a última peça que ela não despiria, porque essa parte já estava correndo na veia, tendo o seu corpo como hospedeiro natural. Não havia mais perigo de morte. Quando as tempestades passam, é natural juntar os pedaços, as peças de roupas espalhadas pelo meio da casa, os livros que precisam ser devolvidos, os elogios, as piscadelas, os encontros na biblioteca, no meio das estantes, o toque na pele descascando feito cobra. É natural procurar o outro no próprio corpo, e isso, Madalena queria tirar, enquanto despia o fim do dia, para dormir plena, possuidora de si mesma, clorofila dando cor ao que sobrou. Dira Vieira
AMIGOS, o Voando está completando dois anos amanhã (05/02) estou feliz por estar esse tempo todo com você e mais ainda, pelo número de amigos, parceiros, confidentes, irmãos, que fiz por causa dele. Sintam-se todos abraçados, apertados e muuito beijados. Divido o bolo dele com todos vocês. É por vocês que o blog ainda está resistindo. Meu beijo a cada um. A primeira fatia do bolo vai para... NÓS!!!!!

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