Pelo atalho

Foto: Frederic Gaillard

 Para Claire

 

          Todos os dias, saia de casa com o gosto de dias mornos na boca. Tempos de luta, de guerra. Pintava o rosto com as tintas que amargavam a boca. A sua mãe chorava escondido e Madalena via, escondida em algum canto da casa. Caminhava querendo ser gente grande, entre as responsabilidades diárias e a vontade de mostrar para a mãe que já era adulta e poderia entender tranquilarmente quando nas refeições a mesa estava limpa de pratos e talheres. Podia contornar a casa e daria para ver a mãe, sentada na calçada, chorando em silêncio.

         Eram esses silêncios de angústias que mais ardia na boca. Sua mãe costumava conversar com as plantas. As roseiras chegavam a balançar quando ela chegava do trabalho. As avencas, penduradas no terraço, no jardim, ressentiam-se quando a mãe dobrava o plantão e não vinha para casa. Elas murchavam e ficavam tristes. Bastava o portão fazer o seu barulho característico de falta de óleo e ferrugem nas dobradiças que elas ficavam saltitando. Madalena e o irmão gostavam de olhar as avencas, quando a mãe entrava em casa.

        Quando amanhecia nublado, em tempos adolescentes, sentia na boca o gosto do ontem em silêncio, a pele ardia pelo beijo quase dado, areia da praia de Jacumã, litoral sul de João Pessoa, em noites de acampamentos ao luar. Já podia sentir-se gente grande, por todos aqueles desejos “esquisitos” que agora invadiam o céu da boca. Era assim que ela sentia o mundo, pela boca, pelo olfato, por todos os seus sentidos de forma intensa. O cheiro do dia entrava pelo nariz como um ar quente, os olhos brilhavam, sorriam. E nem sempre o amargo da língua eram dos dias difíceis.

        Um dia, bastou a mãe sair para o plantão no hospital, que se arrumou para ir ao colégio sem que ela visse o batom vermelho, pecado mortal nessa idade, inda mais para ela, nascida em família religiosa e rigorosa. Colocou batom, encurtou a barra da saia, passou óleo de comida nas pernas – Madalena ainda não sabia o que eram cremes hidratantes e similares, mas achava bonito ver as pernas brilharem – e saiu.

       Passava todos os dias pela mesma rua, onde esbarrava num rapaz amigo da família, (ele devia ser mais velho uns 20 anos). Todos os dias, enquanto desfilava seus atrativos infantis pela mesma rua, no mesmo horário, via Zaqueu olhar e dizer palavras inaudíveis, incompreensíveis talvez para os seus azulados 12 anos.  Nesse dia, batom vermelho dos sonhos de mulher adulta, Zaqueu a chamou para mostrar uma foto. Ela parou, mesmo sabendo que isso lhe custaria correr desesperadamente para chegar ao colégio antes que o portão principal fechasse, impedindo que os atrasados tivessem acesso ao interior do Externato.

        Zaqueu esperou que ela chegasse perto, se curvasse sobre as suas mãos em concha, para jogá-la na parede e roubar-lhe um beijo. A língua daquele homem invadiu seu castelo numa violência de pimenta em comida quente. Ele cheirava mal. A boca, o suor, a barba por fazer. A camisa aberta, a calça baixada até os joelhos, uma baba descendo pelo canto da boca, tentava tocar Madalena por dentro de suas roupas.Naquele momento, era apenas um homem velho, com mãos e dedos posseiros de seu corpo, latifúndio que nem a ela pertencia. Ela não podia gritar, respeitava o carinho que sua mãe tinha por ele, espécie de ajudante para trabalhos de encanamento, eletricidade, pequenos serviços domésticos. Ela não podia gritar, era apenas uma menina de 12 anos contra um velho de dedos e mãos nojentas. A força dele era a espada aguda que a imolava e a tosquiava para a vida toda.

       Em questão de segundos chorou, enquanto se debatia nas mãos de Zaqueu e conseguiu dizer a ele que o pai, invisível em responsabilidade e graça, estava na esquina esperando-a passar. Ele teve medo. Segurou as próprias mãos, como cobras prontas para o bote, a língua de jiló e empurrou-a para fora do beco. Madalena caiu no chão com a boca amargando a pimenta da vergonha e o hálito de fim do mundo que ficou empregnado em sua pele, por um bom tempo, dias e anos, pela eternidade. Do chão ela se sentia lívida, mesmo que faltasse o seu melhor pedaço. 

       Nos dias que se seguiram, odiava o batom vermelho, a saia curta, e a meiguice própria da idade.Endureceu a face e culpou-se a vida toda, por achar que ser bonita era um atentado violento contra os homens bons e pais de familia do bairro onde morava.

       Quando virou uma “mocinha”, e o vermelho que lhe acompanharia por grande parte da vida, desceu-lhe as pernas, manchando o lençol branco de suas vergonhas, teve nojo do mundo. Sabia que dalí em diante, seria mais culpada ainda de ser mulher, ter seios bonitos e uma bunda que chamava atenção por onde passava. Zaqueu acabara por mutilar a mulher que nasceria nela e deu-lhe a experimentar o cálice amargo do poder masculino e dos dias em preto e branco. Madalena sabia que era mais que um brinquedinho apetitoso. Sua boca amargaria aquele cheiro ácido, imundo, dos pensamentos dele sobre ela, a Madalena dos meus amores. (Dira Vieira)

Abrindo uma clareira para dançar...
 

Foto: Mario Cales

 

Estou em pleno trabalho e penso nela. Fecho os olhos e imagino-a dançando Santana. O cabelo vai de um lado a outro, o suor desce, o corpo se deixa embalar pelo ritmo da música e ela dança no meio da sala...

Sozinha e a multidão dos seus silêncios compondo a cena, o vestido molhado de suor. Ele, sempre ele. O nome. O sobrenome. O ritmo. A música. Recria o nome no papel crepom. Embala cada letrinha, uma a uma enquanto dança e mexe o corpo de um lado para o outro. Última garrafa de vinho jogada no tapete da sala. Precisamos de outra.

O nome dele tem o cheiro da mata, o cio da terra, o pão dormido sobre a mesa, o café quentinho, vizinha pedindo açúcar numa xícara, cheiro de vida entrando pela janela aberta... O nome dele em letras garrafais no outdoor da cidade, abre a sua caixa de Pandora, para todo mundo ler o que ela guarda em clareiras, na mata. O seu nome, manchado de vinho do porto, tinto, como o escalarte tatuado no tornozelo transparece em pelo. Madalena é o meu desejo.

Ela dança. Esquece que a idade é apenas um detalhe, quando fala da boca dele, ainda púbere, carnuda, afoita, a vasculhar o seu terreno, ainda úmido. Ele é apenas um menino, com as loucuras de menino, adolescente que mata aula para vê-la. Santana toca. Eu a admiro. O desejo diria as contas de um terço a criar, sob a melodia, as escamas em formato de asas arrastando-a noite adentro, correndo a pés descalços pela mata, no tapete da sala. E ela voa, quando bem entende. Mas se reparte em duas, quando sofre e quando agora, na minha mão, na palma, no centro de mim. Eu diria que nua, ela sou eu, e eu, a menina dela. O seio, a mata, a vida, as mãos que gritam, o cio latente, a vontade de chorar sem razão aparente, a vida toda. Deixa ela dançar, deixa, eu continuo a narrar a sua pose nessa cena solitária. Ela dança, eu quero desistir de tudo. Eu quero chorar.

Não existe mais nada. Nem dor. Nem sofrimento algum. Só ela e a música. Põe as mãos no próprio corpo para experimentar ser apenas sua, de si mesma. E o cheiro, e o suor, e a pele molhada, o som alto. A música que chama. E ela dança, janela aberta, lua invadindo a noitinha que chega. Desejo. No prédio vizinho, o outro vê e realiza os seus sonhos de pássaros enquanto Madalena dança.

A música alta toma toda a sala de almofadas pelo chão, tapete, revistas, livros, uma rede, um cinzeiro que nunca foi usado, quadros de uma pintura sutil, abstrata. Na parede invisível, nenhuma textura, senão as suas mãos molhadas de suor que de vez em quando esbarra e marca. Suor de mulher. Mulher que dança. Corpo solto, camisa decotada, short curto, cabelo molhado de água e suor. Madalena precisa de pouca coisa para viver. O beijo, a boca, as mãos cuidadosas e o ritmo indígena, fazendo Madalena flutuar ao som dos atabaques, como se sua sala fosse a tribo, a mata, o mato, e o olhar dele sentado ao redor da fogueira orquestrando o seu desejo.

No chão, o celular que esqueceu ligado na última ligação registrava de baixo para cima, as pernas suadas dessa mulher de asas. Madalena dança, sozinha, no palco de si mesma, e eu vejo tudo em transe. O som da guitarra orquestra cada centímetro do seu corpo. Quando estou triste, como hoje, eu vejo Madalena dançar todos os ritmos enquanto eu tento acompanhar e suar, como se chorasse.

Madalena só precisava naquele momento apagar os temores, cair de tanto dançar, deixar que o cheiro forte de vinho (sim, vinho e Santana combinam, quem disse que não?) incense a sala, inunde tudo, como cheiro suave de seu desejo. Nem sabia que aquela noite de lua cheia traria o ontem e o seu avesso, na modalidade que ela desconhecia e seria apenas ela, Santana e eu.

Terminaria a música e eu voltaria a chorar tudo para lavar a sala, tocar a pele dela e depois, deitar a vida no mesmo travesseiro de todos os dias.  Volto ao trabalho, pedindo a Deus para encontrar as ruas desertas e ônibus vazios, para pensar em paz, enquanto caminho para casa, onde Madalena me espera, sentada na calçada e contando as horas para me ver sorrir e dançar com ela.

Imagem: http://fabianperez.com/

Musical

 

nos dias em que me sinto azul

você me orquestra

por controle remoto.

Dira Vieira

Vestindo o silêncio...

Foto: Eva Armán

A tarde caía amarelada sobre a cidade coberta pelas mangueiras. Madalena saiu do banho ainda com o cabelo molhado, cheirinho de Mate Verde, sabonete preferido, e preparou-se para estar sozinha. Sentou-se à varanda que dava para a praça principal da cidade. Vestido longo, solto, largo, sem nada por dentro. Moet & Chandon numa mão, a taça predileta na outra. Pôs Santana pra tocar e sentiu o corpo estremecer fazendo-a sorrir maliciosamente pensando nele.

Os pés sobre a varanda, as pernas abertas, a cidade lá embaixo a observá-la emudecida. Praça principal de Belém. O clima da tarde propiciava esse alívio de um dia de trabalho intenso. Chandon na taça, a garrafa envolta no gelo, pés tratados, limpos. Enquanto o champagne fazia efeito, Madalena sorria cadenciado, olhando o céu de Belém, tentando trazer à tona o rosto dele e o olhar malicioso sobre as suas ancas largas cada vez que ela lhe dava as costas. Era um cafajeste. Não por admirar as suas ancas. Mas porque a tomava de jeito, até quando era apenas em palavras, nas cartas que enviava, religiosamente às quartas-feiras. Como ninguém, ele sabia tocá-la. E isso não tem perdão. 

Era sagrado e tão rotineiro estar com ele às quartas, que faltava o trabalho, trancava-se no apartamento, pegava o vinho e esperava a campanhia tocar. Era ele. O carteiro. Ainda mantinham o velho hábito de escrever cartas. Longas cartas sensuais e eróticas. Madalena talvez o amasse. Talvez apenas se sentisse dele. Ou dela mesma em cada vez que lia suas cartas e sorria alto na varanda. Talvez Madalena não sentisse nada. Porque sentir era estar presa e isso, ela se recusava terminantemente.

Nesse dia, acordara com uma vontade esquisita. Queria fumar um cigarro, tomar champagne, bolinar seu corpo até desfalecer de gozo e pensar nele, no quanto esperá-lo dava-lhe um prazer incontrolável. Soube que naquela tarde ele estaria casando. Com a outra, claro, que Madalena não era de casamentos. Ela sempre foi a outra, não era a de casar.

(os homens separam as mulheres em prateleiras diferentes: as que são para casar, as comportadinhas, as enjoadinhas, as moças de família, as que talvez nem gozem. E uma outra estante, separada do olhar público, guardam as sacanas, as putas, as cachorras, as que urram enquanto gozam, as escandalosas, as que os fazem ver estrelas e para onde correm quando não suportam a rotina dos dias. Madalena certamente estava nessa última estante).

Enquanto pensava nisso, dava gargalhadas cada vez mais ousadas. Solta. Lembrando de Roberto com o seu olhar sacana sobre a suas ancas enquanto ela fazia gato e sapato dele.

(continua embaixo...)

continuando...

Dia desses encontraram-se em um restaurante da cidade. Ele estava com ela. A escolhida para casar. Observou de cima abaixo. Quis comparar. Olhou que a moça escolhida era tipo mignon, pálida, aparelho nos dentes – ultimamente todo mundo usava aparelhos, parecia febre – roupas comportadas, cabelos na chapinha, batom claro quase transparente.

Riu da comparação que ela mesma tentava fazer de si mesmo e da outra, já que possuía seios fartos, saias esvoaçantes, cabelos com os cachos deliciosamente caindo sobre as costas. Passou por eles, sentou-se numa mesa em frente ao casal de pombinhos que trocava beijinhos e carícias inocentes e chamou o garçon.  Pediu um cinzeiro e fogo, enquanto mirava Roberto que já estava nervoso diante do olhar ferino de Madalena. Cruzou as pernas sensualmente, mexeu com o olhar dos homens do restaurante inteiro. Deixou que o garçon acendesse o seu cigarro e sensualmente, deixou que o seio esquerdo ficasse levemente à mostra. Roberto tremeu de raiva, puxando a noiva para si, que nada percebeu da ira do rapaz.

Enquanto isso, ela abriu a bolsa, atendeu a uma ligação, riu alto, provocando ainda mais Roberto que morria de ciúmes do assédio dos outros homens. Sabia que ele a desejava, ainda mais quando ela o provocava, sorriso solto de dentes branquinhos e boca carnuda de um lilás estonteante. Madalena sabia provocar. Mas isso era apenas cena.

Relembrava isso e ria solto, chegando a gargalhar enquanto o sol amarelava no céu de Belém fazendo um tapete mágico de nuvens e raios amarelos aumentando a alegria de Madalena. O correio não viera nesse dia. Claro, ele estava casando. Madalena, porém não estava triste. Nem poderia. Ela não nascera para casar. Estava na outra estante.

Cruzou os pés sobre a varanda, vestido amassado entre as pernas, cigarro queimando no cinzeiro, ela não fumava mesmo. Enquanto a bebida diminuía na garrafa, Madalena tocava o próprio corpo enquanto pensava nas mãos grosseiras e pesadas de Roberto. O álcool leve tomando a sua razão, a vontade de chorar e nem ao menos sabia porque. Sabia que Roberto ainda beberia no seu cálice, como vinha fazendo há longos e ternos quatro anos. Mesmo que ela nunca tivesse sido a escolhida para casar. Preferia tê-lo assim, como em doses de um bom vinho, eventualmente, quando o desejo lhe partia as entranhas em duas. Uma que nasceu puta e outra, que chorava de solidão e talvez no fundo, quisesse ser a escolhida também.

Era um momento ímpar, nesse crime, nenhuma testemunha, só Madalena dedilhando sozinha a sua imensidão.

Enquanto ensaiava um choro tímido, o celular tocou. Era o noivo, da outra. Disse palavras obscenas, chamou-a de sua mulher. Disse que seria dela. E que jamais outra o faria mais feliz. Madalena o xingou. Mandou para o inferno. E para desespero do amante, avisou-o que precisava desligar e sair pelas ruas de Belém. E seria feliz, sim, porque tinha a si mesma. E ele sabia no que isso resultaria. Seria a lua de mel mais fria do mundo, mesmo armando a sua própria cama sobre o inferno do paraíso. E Belém satisfeita, comemoraria seu aniversário, tendo os pés deliciosos de Madalena a acariciar suas ruas, delicadamente acompanhadas pelo silêncio. 

Dira Vieira

Aniversário do meu bebê...

 

Danilo, minha vida é para você!

Para nós eles nunca crescem, nem quando chegam na fase que nos carregam nos braços. Serão sempre os nossos bebês. Aqueles a quem amamos, a quem guardamos e por quem vivemos pedindo a Deus, incansavelmente pela sua felicidade. Esse moleque é meu parceiro. A gente é amigo que mãe e filho naquela relação tradicional e chata que são as relações conflituosas entre pais e filhos. Ele dá trabalho, e como dá. Ainda mais quando me enche de beijos o tempo inteiro, irritando e provocando a minha ira. Vive grudado em mim, quando estou em casa, beijando, abraçando, apertando aqui, alí, mexendo, beliscando, e puxando o meu cabelo. Acho que ele me ama, deve amar. Nenhum cristão irrita mais que ele quando quer fazer carinho. É o meu filhote. O meu caçula. O meu bebê. A quem eu olho de baixo e dou bronca, puxo as orelhas, chamo às falas, pego no pé, vigio as amizades, ralho quando precisa. Mas é o meu filhinho que amo tanto.  É o meu escudeiro, o meu parceiro, o meu amigo, o ciumento, o que cuida de mim, e que completa hoje, 17 anos, achando que já é gente grande, mas que eu ainda lembro do dia em que trocava as suas fraldas e ele me sorria solto. O meu bebê mais lindo.

Dira Vieira

já é ano novo?

perdroso sao paolo

Angelica Pedroso (Dona Flor)

 

Invisível, para todos os fins

Para Dôra Limeira

Antes que ficasse mais tarde, Beatriz fechou as janelas da sala, passou o cadeado no portão que dava para a varanda. O apartamento no primeiro andar ficava à mercê de ladrões. Já quem embaixo ficavam os pilotis do prédio muito próximos da escada de incêndio, facilitando ainda mais o acesso à sua janela. Tomara banho, estava de camisola, nada a impedia de ir dormir, mesmo com ele ausente. Foi ao quarto das crianças, uma por uma, e deu-lhes o costumeiro beijo de boa noite, encaminhando-se ritualísticamente para a cama, corpo pesado, olhar distante.

Beatriz sabia que seria mais uma noite longa. Por isso, preparou-se para enfrentá-la. Pegou Baudelaire pela orelha, na estante da sala, riu de sua audácia em aceitar um livro daquele rapaz bonito que sempre encontrava na parada de ônibus, quando ia pegar as crianças na escola. Levou-o para a cama, não o rapaz, o livro, que ela não era desses desfrutes. Era uma senhora casada e mãe de filhos. Sorriu de si mesma e deitou-se silenciosamente. Um calafrio subiu-lhe pelo ventre e ela sorriu timidamente escondendo de si mesma o desejo furtivo. Onde já se viu, uma senhora de 50 anos e casada?

Quando João Filho chegou, já era muito tarde, viu quando ele abriu a porta fazendo barulho e questão de mostrar que chegara. Beatriz olhou o relógio da parede do quarto que sinalizava três da manhã, colocou o livro de lado, calmamente e não disse uma palavra. João não fez silêncio algum. Era o macho da casa, o provedor, biblicamente o cabeça, podia todas as coisas, inclusive ser o senhor absoluto dos desejos dela.

Sem tomar banho, sujo da rua, e o cheiro de bebida de Quinta invadindo o quarto, João deitou na cama ao lado dela, meteu a mão em seus seios, enfiou a outra entre as suas pernas com a autoridade de seu dono e disse que estava com fome, como se aquele gesto fosse um arrumar o travesseiro sobre a cama. Nada mais automático e frio. Beatriz levanta, ainda arrumando a calcinha que ele tirou do lugar com as mãos imundas e encaminha-se à cozinha. João baba, limpa a boca com as costas da mão e sorri pensando na mulher que acabara de comer. Mas uma vadiazinha do bar em frente à fábrica. Gostosa, ainda por cima.

Beatriz vai até a cozinha, esquenta a comida que tirou da parte debaixo do fogão, põe sobre a mesa e o chama, docemente. O homem, visivelmente sujo e embriagado, aproxima-se da mesa, toca a comida com desdém e levanta-se, empurrando o prato para o centro da mesa. Chama-a para a cama, para os minutos intermináveis enquanto durar os cinco minutos de sua lucidez. Beatriz deita na cama, levanta a camisola, pensa no moço na parada do ônibus. Tira a calcinha, o homem abre a calça suja e malcheirosa e sobe sobre ela, tropeçando em si mesmo, quase não encontrando a entrada no corpo dela.

Após os longos cinco minutos, usando de sua invisibilidade diária na vida de João, Beatriz olha-o enquanto jaz imundo sobre a cama, e corre ao banheiro, para, antes que seja tarde, livrar-se do nojo que a cobriu.

No dia seguinte, ainda gozando de sua invisibilidade, Beatriz arruma a mesa para o café, as crianças para a escola, despede-se do marido no portão de casa.

Ao passar em frente ao espelho, viu que possuía um belo corpo, aos 50, Beatriz guardava na pele a maciez das crianças, as ancas largas, o sorriso de dentes perfeitos e os seios que já fizeram João andar de joelhos por ela, quando estudavam no mesmo colégio. Voltou. Tocou-se. Estremeceu. Percebeu que não era invisível. Tocava e ardia. Resolveu que aquele dia seria diferente. Olhou o rapaz da parada do ônibus, deixou-se tocar por um desconhecido dentro do ônibus e finalmente, ao chegar em casa, descobriu que os olhos reviravam quando ela resolveu tocar onde o invisível lhe concedia a graça de ser real, onde os sinos agora tocavam.

Mas era mais um fim de semana. João chegaria como todos os outros dias, sujo, bêbado, faminto e nojento. E a invadiria em todos os seus segredos. Seguindo o mesmo ritual, João chegou. Beatriz fechou as pernas, não aceitou as mãos sujas sobre os seios, não beijou a boca suja fedendo a cachaça e batom de Quinta, disse que não tinha comida e disse não, à visibilidade turva de João. Estava cansada. Ao lado da cama, do seu lado, o último livro de Dôra Limeira.

O outro dia, o boletim médico diria que Beatriz teve uma crise epilética, caíra no chão provocando escoriações graves e profundas por todo o corpo. Foi o que João relatou, fingindo pesar, aos médicos de plantão, enquanto Beatriz, inerte em seus braços, vertia em sangue sua ousadia em dizer não.

Dira Vieira

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