Presente de Natal

Óleo sobre tela: Magdalena (Angel Astorga)

Não foram poucas as vezes que vi Madalena apaixonar-se. Seus romances eram mais numerosos que os grãos de areia na praia. Ríamos disso quando recordávamos um a um dos seus amores. A maioria era romances infantis, platônicos, mas muito reais.

Um deles, lembro bem, era o menino mais lindo do colégio, Madalena apaixonou-se perdidamente. Usou todas as armas que as mulheres usam quando querem seduzir os homens, pobres presas em suas garras. Ela sempre foi poderosa. Sem atrativos físicos de uma beleza estética, Madalena tinha a sedução como marca registrada. Deixava os moços aos seus pés, todos perdidamente apaixonados. O moço Daniel, era franzino, pele morena, sobrancelhas grossas, corpo de adolescente, sem espinhas, boca cuidadosamente desenhada pela natureza. Era um belo exemplar masculino. No bairro, era o melhor partido, de família boa, de posses, tinha Madalena a seduzí-lo todos os dias, em doses homeopáticas.

A maioria de seus amores, a fez sofrer. Até que eles se derramassem aos seus pés, ela tinha que penar. Era uma luta, precisava vencer a concorrência (sempre as mais belas meninas), as dificuldades financeiras, entre outros muros que encontrava pela frente. Madalena ganhava todas. Eu a admirava e queria ser ela todos os dias.

Um dia chegou de bochechas coradas, imaginei que havia aprontado. Ela sorria escancaradamente. Sorriso solto, alto, cabelos longos que voavam em suas gargalhadas. O que você fez dessa vez? Perguntei já imaginando a resposta. Nada. Respondeu sorrindo. Eu sabia que se tratava de mais uma vítima. Vítima de seus encantos. Ela não me disse. Fez segredo. Noite de São João, fogueiras na rua enchendo os nossos olhos de fuligem e fumaça, vi o vulto de Madalena na esquina do bairro, entre a fumaça das fogueiras. Linda. Vestido azul, tomara que caia, colado ao seu corpo de adolescente. Cabelos cacheados nas pontas, encostada em um hidrante. Vi que um homem estava ao seu lado, mas não pude ver quem era. Vi-a gesticular, e ouvi a sua gargalhada inconfundível.

Era a minha Madalena dançando para o outro a sua dança fatal de sedução. Por instantes, tive dó do moço que a contemplava, mais do que conversava e aproximei-me para descobrir seu rosto. Era Marcelo, 10 anos mais velho, recém casado, com cara de bobo, a segurar-lhe as mãos. Quis chamá-la para dar bronca. Cidadezinha pequena, onde as pessoas eram vigiadas e percebidas e onde todos os dias escolhiam-se um para a fogueira das fofocas. Achei um perigo para a minha pequena. Mas ela sorria e nem ligava para quem passava. Fazia questão de ser o centro de todas as atenções.

Olhei de mais perto. Ouvi Marcelo a implorar-lhe um beijo. Eu sorri por alguns instantes. Lembrei do seu segredo de poucas horas atrás. Era Marcelo. O moço mais cobiçado da rua, o recém casado. Madalena gostava de provocar os homens e conseguia escravizá-los como bem entendia. Senti uma ponta de inveja. Eu queria aquele homem, e também queria Madalena, para brincar de dona e de senhora. E Madalena sempre chegava primeiro.

Lembro-me de ter visto um cartão de Natal que recebera do Daniel, aquele da boca cuidadosamente esculpida pela natureza, o qual ela escondera entre os seus segredos e eu, maliciosamente,  roubara. Dizia em letras desenhadas, de adolescente apaixonado, em um cartão tradicional com rosas desenhadas a gliter: Minha Madalena dos meus desejos, queria que nessa noite você fosse, o meu presente de Natal.

E Madalena nunca se culpou em toda a vida, por não ter sido, de verdade, presente de Natal de ninguém.

Dira Vieira


Sandoval Fagundes é um artista multimídia aqui de João Pessoa e do mundo, ele fez um poema para mim, claro, eu amei, quero que o visitem e a todo o trabalho desse grande arteiro. http://bussolapoetica.zip.net/

Raízes

Foto: Bernard Besozzi

Não gosto do chão que me toca, e um calafrio me alcança os tímpanos mordendo a paisagem. Há um quê de destroços no teu olhar que sussurra em mim desespero. Sei que no minuto final eu recuei e abri a guarda. Não há silêncios que me confundam a fala. Sou sempre o osso que fica ao fundo e vem à tona quando chega ao poço e a luz que pisca no fim do túnel. É sempre outono enquanto amo. Sinto isso quando te olho e tremo. Preciso reapreender em ti, a reagrupar os planetas, tirar saturno para dançar moldar a minha boca no mercúrio do teu olhar. Eu perco o rumo dos dias, quando ele canta She na voz de Aznavour.

Dira Vieira

no limite...

Fosforo.jpg

Imagem captada no blog:Alvitrando

 

A dor é um monstro escondido no armário. Um buraco negro que não se conhece, mas se sabe de perto. É o chão que se reconhece sem estrelas, quando tudo muda e corre em contrário.

A minha é passageira. E o ar me respira até a última gota. Viver é um risco. Então, eu solto a corda e pulo. O beco é a fome. O fundo do poço é um osso duro de soltar. Por isso, aposto tudo. E perco. De vez em quando.

Quando os pés escorregam, corro para a onda e mergulho. Ando com frio e só durmo agora no escuro. Evito encontrar-me em meus sonhos. Talvez em algum pesadelo. E os meus temores do armário, dormem na cama comigo, quando as minhas faltas gritam rebobinando o filme em preto e branco.

A cena de ontem, é o que me assusta. O vídeo clip do fim do mundo. Se eu gritar, você me socorre? E se eu chorar, navego outros mares? O fim do ano me toma em cálice de vinho. E as minhas lágrimas de sangue são as suas de crocodilo (mas quem disse que crocodilos não choram?). Na minha cena, relaxe. Eu a repetirei para a posteridade.

A minha dor é escura e sangra. Os meus pés têm, o lodo, o mapa da sorte, ao avesso eu grito e arrepio a própria pele.

(no momento que esqueço, o amor me arrepia a pele e os meus olhinhos reviram, por nada, por nada não.)

Dira
e na véspera...

Foto: Fernando Ladeira

 

Na vitrine

 

Exponho-me na vitrine à visitação dos homens. No meio das regras, sinto que já não sou o artigo da última moda. O último cliente que veio, pediu à vendedora da loja para me tocar, e o fez de uma forma absurda e impura. Tocou os meus seios por cima da roupa. Encostou por trás, desenhando-me uma protuberância sobre os meus quadris. Estranhamente, senti um arrepio quando ele me pegou a bunda. Com a mão cheia. Mão de homem que já ousou na vida. E eu arrepiei os cabelos de manequim de vitrine. Não sei explicar. Nem conseguiria. A moça, coitada, a vendedora, não entendeu nada, quando o homem estranho sussurrou no meu ouvido palavras obscenas. Sei que estremeci nas mesmas palavras que sempre abominei ouvir. E gostei. Disse algumas outras que não ouvi direito e saiu, rindo. Ainda me olhou pelo lado de fora do vidro. Ficou a mandar beijinhos com as mãos em concha e foi-se, perdido, no meio dos transeuntes do Shopping.

 

Esqueceram-me aqui. E os dias passam atravessados contra a parede, como fantasmas em liquidação. Já viu isso? O corpo não mexe, a tinta que simula o batom, tem a marca do tempo, e do que não vivi. O corpo frio, o olho sem brilho, a umidade de antes, virou suor, saliva cuspida na calçada. A vida não anda, e eu, estranhamente, provo da invisibilidade de todos os meus dias, desde que o último visitante me tocou a bunda, como se apalpa alguém de carne e osso. Por um momento eu achei mesmo que fosse real. Se ele soubesse, quando me tocou, inventou uma nova cena e um outro cenário me possuiu as carnes rígidas de sonhos destorcidos. Era apenas o hálito, aquela umidade de sua voz, fingindo-se deus. 

 

Tenho os meus dias contados nessa vitrine. A parte de cima da roupa já tiraram, a de baixo, ainda me guarda os segredos e eu continuo exposta, úmida na vitrine. O homem, que trajava um azul intenso e tinha as mãos grandes de um mar navegado nos dedos, não voltou mais. 


Dira Vieira

"...comida é pasto, você tem fome de que?"

Os dias se passam e uma idade a mais na minha vida, pega-me de surpresa. Talvez por isso a angústia me visita nesses dias. Mas tudo começou mesmo quando um amigo insistiu para que eu comprasse uma webcam. Comprei. Nunca mais vi meu amigo. Ele sumiu de repente. A Internet tem essas armadilhas que todos caímos. Você conhece alguém e bastou apegar-se, pumba! Esse alguém some entre os bits e bytes. E nós, para onde navegamos o nosso mouse? É a tal liquidez de que fala Z. Bauman.

Um outro amigo, disse que estava viajando e com muitos afazeres e até o fim do ano estaria longe da Internet e, portanto, ficaríamos distantes. Ok. Sem problemas. A vida anda mesmo corrida. Para todo mundo. Eu digo isso o dia inteiro para mim quando me olho no espelho e vejo-me de olhar distante, cansado e sem brilho, aí, ele dobra a esquina e eu me recolho na concha. Outro amigo, desses que tocam a gente alí, lá no âmago, no início de tudo, aonde as borboletas costumam voar, diz que se encheu de trabalho, e vai sumir por uns dias para dar conta de tanto trabalho. E eu, mais uma vez, educadamente digo que está tudo bem. E democraticamente, falo que todo mundo tem seus dias de correria pelo vil metal, e blá, blá, blá. Viro a página. Os amigos também são suas próprias conchas e afazeres. E os nossos dedos nem sempre alcançam o outro, tendo que tocar a própria pele para sentir-se vivo. Belisca aqui, quero ver se estou viva, ainda.  

 

E assim, mais um e outros. E eu começo a desconfiar que há algo errado comigo. Só pode ser. Não há outra explicação para o fato. Ora, todos resolveram cuidar de suas próprias vidas e abandonaram-me? Isso é justo? É. Penso, reflito, paro tudo, grito no meio do trânsito. Penso no número de amigos eu tenho, quer ver? No Orkut: 229 amigos. Uau! E fãs? 125. E uma comunidade só para mim. Uau. Todos lembraram do meu aniversário. Está lá escrito no Orkut e eles não esqueceriam. Mas. E aqueles que se foram pelos afazeres da vida? O que eu faço do pedaço que levaram de mim?

 

Lembram da parábola do filho pródigo? Quem é mais importante, quem volta, ou quem nunca saiu? Ando cansada. Penso nos amigos que eu queria ter perto de mim. Para dividir boas gargalhadas, para tomar um bom vinho, para fazer uma oração, para chorar no seu ombro, para dizer que o amo, para ter com quem contar a vida, para beijar na boca (às vezes um amigo ou outro vai dar um beijo no rosto e escorrega, não pode? Oba.)  Amo meus amigos e os inimigos (que eu saiba, só tenho um). E que não gosto dos blogueiros que me visitam apenas quando eu os visito, apesar de ser uma prática e até um código de interação determinado na blogsfera. Não gosto de ter a amizade forçada. Mas amo visitar quem eu quero, quando eu posso, e amar, sem nenhuma cobrança. Amor não se cobra. Nem amizade. Queria hoje dizer a algumas pessoas o quanto elas me fazem falta. O quanto as amo. Aquelas que sei, nutrem por mim, um tipo de ódio, e àquelas que me amam também.

 

Alguns amigos, vejo pouco. Quase nunca. Mas parecem que sentem a minha respiração. E no mesmo tempo em que sinto a falta, eles já estão vindo, sentindo a minha falta também. Um exemplo disso é Eva. Ela parece que sente no ar quando eu preciso dela, e eu sinto quando ela parece estar na concha. Eva me completa, de todos os amigos internautas que tenho.

 

Gosto do amor que é de graça. Sem intenções. Aquele que tanto faz, passe o tempo que passar, sempre será como o dia, o primeiro, em que a gente tocou o outro pela primeira vez. Amigo assim, não se deixam moldar pelos dias corridos, pelo vil metal, pelo apocalipse. Somos sempre no outro. Assim, ardendo na pele, tocando a alma, fazendo um buraco no coração. Na verdade, queria ser amada, como eu amo. Mesmo quando amamos sem querer nada em troca, é bom sentir o outro alí, mesmo que fisicamente ele esteja em outra dimensão.

 

Dói em mim saber que as pessoas tratam a amizade como algo descartável segundo seus interesses. Dói, quando eu me sinto líquida no coração de outros que amo. Dói saber que alguém me odeia, justamente a quem eu mais amei na vida. E aqui, minha saudade e meu amor aos que se/me liquidificaram no mundo virtual. E os quais, a amizade não foi forte o bastante para existir além dos dias corridos e da falta de espaço nos tempos modernos.

Para ouvir com você

("born to touch your feelings" Scorpions - Klaus Meine)

 

no atalho do poema

a boca que me aporta

lânguida

úmida de um sal azul

tem um vermelho incandescente

lábios que me moldam

imolam o mais perfeito de mim

fecho os olhos para te parir assim.

 

o outro se fecha em mim

em círculos e contornos

no amor que conjugamos em outra dimensão

não há religião no gozo, no animal

tu me ensinas como se ama

no ontem e modificamos o sempre

contrariando o que virá 

alterando a rota de nossos planetas

e signos, somos nosso caos

inventamos outros uivos e canções matinais

 

nem quero saber

onde o ontem

atravessou-me ao meio

que se dane

 

sou flecha que tuas mãos moldam

a palavra que rodopia

nua e me orquestra uníssono

menino que treme e sorri

 

meu amor, meu amor

sua boca me chama faquir - não consigo parar de tremer

 

quero decifrar quantos decibéis

tem o teu silêncio que me toma o todo

e goza comigo, ao espelho.

 

meu amor, meu amor

o azul tem o nome do filho

o rosto enrubescido

o sexo aflito o sorriso no futuro

o meu tímido se recolhe diante de ti.

 

um dia eu vôo para marte

nas tuas mãos - meu escravo

o que eu quero nos escala montanhas

em silêncio

desfalecendo em tuas entranhas

 

meu amor, meu amor

o intocável, brilha no teu rosto

retoca o meu batom

dança para mim

o ventre o colo o teu amor ensina

doutor de minhas histórias

de todos os fal(a)os

há uma rua secreta na tua voz quando sorri,

meu amor, meu amor.

- Dira Vieira -

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