Prece
Livra-me ó Deus dos dedos do poeta amargo que destila seu ódio entre os dentes e me deixa marcas quando sorri. Livra-me ó Deus do cálice do meu sangue que mata a sua sede e o faz vomitar versos de ódio e rancor, sobre a mesa do jantar. Livra-me ó Deus do amor tão grande que sinto por ele, que me deixa manca, vazando dos olhos e derramando tristezas no café da manhã e nas refeições que me enchem de angústia e dor. Livra-me ó Deus, do amargor dos dias do outro, e das teias que me prendem a um dia seguinte do passado, revirando em mim a pele morta dos medos. Livra-me ó Deus de mim mesma e de minhas desafinadas notas quando tento sorrir e apenas choro.
Transforma-me ó Deus, na moça do batom vermelho que desfila diante de mim com a sua nudez transparente, e que se transforma em andorinha nos finais de tarde, sorrindo na minha janela, zombando de minhas asas cortadas. Transforma-me ó Deus, em asas de águias e faça-me deslizar sobre a pele dela, desenhando cores nos meus dias de nuvens carregadas, até que sejamos uma só. Desfaz, ó Deus, os meus pensamentos bons e dá-me a ousadia dessa moça, que brinca com as nuvens repartindo raios entre os seus azuis, sem se importar com as tempestades que provoca.
Dira Vieira
E eu? Ando sumida não. Apenas estudando. Perdoem a ausência. Querem saber da Madalena? Então vão aqui, olhem o que o Isaque escreveu para ela...rs

Foto: O fantasma da ópera
Desafinado
- “acautelai-vos para que ninguém vos engane” -
que tu finjas o nome e sobrenome
até consinto
(a arte, a cena, o ator)
que vires a página profana
até permito
(cínico: o cenário, o aplauso, a dor)
mas não aceito
a nota na última escala
do que desafinas, esgrimas e claves
(mortos: o choro, a letra, o verso)
no meu peito, o gozo é egoísta e só
jamais amor tão grande
me fez
da lírica o nó
e as pernas cruzadas
de público.
Dira Vieira
Foto de Goreth, paraibana, clique sobre a foto e vá ao excelente blog dessa moça
ou clique no endereço: http://fuleiragem.typepad.com/
Noite de Lua
A janela aberta. A lua invadindo o quarto com um branco tão branco que abri os olhos sorrateiramente para não assombrar o momento. Fiquei olhando-a da cama pensando no longe e no quanto esse vácuo me acometeu esses dias paralisando-me. Que feitiço estaria sobre mim? Algum índio? Ou alguma fadinha insossa e mal-amada?
- Está acordada? Madalena como sempre, olhando-me em silêncio.
- Sim. Faça silêncio, senão a lua se ressente.
- Chamaram-me para o círculo dos tambores, na praia. É lua cheia. Vamos?
Silêncio.
- Não sei. Precisa me avisar com antecedência dos seus vôos. Não posso decidir sozinha. Você sabe.
- Não sei. Sei que é adulta e ainda não ficou gagá, pode respondoer por seus atos.
Hoje não é um dia bom para discutir com Madalena. Essa daí acha que tudo se resolve assim, com o querer. Eu quero ir, eu vou. Como se o mundo inteiro se curvasse ao nosso desejo.
- Não me venha com desculpas, Mel. Novamente ela. Parece que lê os meus pensamentos, que saco! Onde já se viu isso???
No quintal, Bidu, o cão, late desesperadamente. Levanto, vou tocá-lo. Fica quieto, mas me aponta a rua, late com um desespero tão profundo que eu abro o portão para ver. Uma cadela, segura pelo pulso do dono, está parada na minha calçada. É lua cheia. Os animais querem ser livres. Eu também.
De onde estou, esparramada com um livro na mão no sofá da sala e longe, bem longe e segura da lua, tento fingir que não existo. Finjo que a leitura é interessante. O cheiro de perfume invade a sala. Ela está linda, com um vestido de tecido cru, cheio de detalhes, parece uma hippie. Cabelos soltos, um batom que eu amo. Ela sabe disso. Brincos de pena, sandálias de couro. Bolsa leve com o celular na mão.
- Você vai? Pergunta óbvia que irrita Madalena.
- É lua cheia! Não vês? Tudo em mim grita, a pele, o coração, o sexo, a cabeça, os hormônios, tudo. Não vou te fazer companhia hoje. Não hoje, por favor, não me peça isso! Eu vou ver o mar. Eu vou para o círculo dos tambores, na praia.
Continua no post abaixo...
Madalena grita. Se a minha mãe a visse agora, diria que está no cio. Toda mulher que grita por liberdade, é cio, segundo ela. Ela mexe o cabelo, retoca o batom. Olha-se no espelho. Mostra-se para mim. Ignoro. Dentro de mim, o vácuo. O não da vida. O não mais severo é o que vem de mim. E esse silêncio maldito que me tira a inspiração me faz companhia e separa-me da lua. A lua cheia que põe Madalena no cio. Ainda bem que ela ainda tem cio. Senão, estaríamos mortas. Eu e ela. Uma valida a outra. É nossa sorte. Ou azar?
Abro a porta. Mando Madalena embora. Peço que se divirta. Ela me pede o vinho chileno que eu guardo a sete chaves para o dia de vê-lo, frente a frente. Ela sabe disso.
- Mas logo o chileno? Pergunto desolada.
- Para que guarda? Se não tem coragem de voar, terá para abrir o vinho? Deixe que eu tomo. É lua cheia. Não vês? Não mereço? Por favor. Pediu quase implorando, como era próprio dela.
- Leve-o. Beba por mim. Abra o portão. Solte o cão. Mas volte cedo, que não vou ficar a noite inteira esperando.
- Vá dormir, Mel. Se conseguir... Não tenho hora para voltar.
Madalena bateu a porta e ganhou as ruas, linda demais para ficar comigo. Enquanto a vejo dobrar a esquina, choro. Em mim, um deserto de palavras e de amor me algemam contra a parede. Amores perfeitos são muito certinhos.Vou tomar água para voltar ao livro. Ah, o livro. Ia esquecendo. Passo pela janela e vejo-a linda no céu. Que bruxa sou eu que desisti de sonhar? E que paixão é essa que tira férias de mim para trabalhar?
Fecho o livro. Não vou conseguir mesmo concentrar-me. Vou pro quarto e vejo a porta bater. É Madalena com o vinho na mão. – Vim tomar com você. Ela disse olhando pro chão. Eu chorei. Madalena sabe o que me prende no chão. Fico feliz com ela. Corre à cozinha, abre o vinho, enche duas taças, me dá uma e diz calmamente: "Se os teus silêncios te jogaram no vácuo, eu me faço prisioneira contigo. Se voarmos, voaremos juntas. E se morrermos, morreremos juntas. Mas estarei contigo, no vácuo de gentes ao teu redor. Porque sei que o silêncio dói. Dói mais em mim que em ti". Abracei Madalena e chorei. Finalmente chorei por todos esses dias. Dias de cativeiros consentidos.

Hoje é aniversário do indiozinho. Feliz aniversário, Nélio, mesmo no lugar comum, saiba que lhe quero um bem enorme e daqui, torço por tudo que diz você. E todas as vezes que você vem, dá-me um pouco da mata, da natureza e faz carinho no meu coração. Beijo, em concha, no seu coração. (Dira)

Minha Mulher Nua: Dali
Dia a dia
Há um bom tempo parada, escuto a voz dele suavemente me contar seu dia. Que caminhou, que fez a comida que gosta, que passeou com o filho, que tomou sol, que terminou aquela música que estava fazendo, e que se cuidou e tomou direitinho o remédio que eu indiquei. Ouço-o falar, com atenção. Continua num fôlego só, a dizer o que fez sem mim o dia inteiro. Que caminhou no parque, que viu macacos, e riu das travessuras destes. Que rolou no chão com o filho, que cantou beatles, que sussurrou meu nome.
Respirei fundo para sentir o coração dele pulando. Tomou sorvete e melou toda a camisa. Riu de si mesmo e sua felicidade. Abriu os braços ao sol, deu bom dia à lua á tardinha, em uma prece, pediu a Deus por minhas asas.
Quando caminhava para casa, pensou em mim. E eu sabia que seria assim, porque por todo o dia senti que ele me atraia para si, como um imã. E sentia a sua emoção tatuada sobre a minha pele. Tatuagem definitiva. Enquanto ele cansava de falar eu não tirava os olhos de sua ansiedade em contar suas "aventuras" sem mim.
Depois, parou, viu que eu ainda o observava. Fingiu uma timidez que ele não tem, baixou os olhos e corou de vergonha. Toquei o seu cabelo embranquecendo, toquei a sua boca miúda, vi os seus olhinhos brilharem e penetrarem em mim, como raios e trovões em noites de tempestade. Perguntei a Deus porque a vida brinca tanto com o destino da gente. Ele ficou em silêncio. Nossos silêncios consentidos. Finalmente ele levantou o olhar e eu ainda o esperava com a fogueira do desejo ardendo nos olhos. Os meus olhos só esperavam os dele. Fechei-os para não olhar fixamente a parte alguma de seu corpo. E revi, pernas dentro do barco, o colar que deveria ter sido feito por índios e braços abertos para a vida que pediu a Deus. Quando abri novamente os olhos, ele sorria. Chamou-me de amiga. "Minha querida amiga", disse esquivando-se de meus segredos.
Fechei novamente os olhos, coloquei sua foto na gaveta e tudo voltou ao anormal dos dias. Os amigos a gente guarda para as fantasias. Os amores, a gente faz silêncio até tocar-lhes a alma, quando a alma deles encosta na gente. Viu esse barulho, o tremer das pernas e o coração pulsando descompassado? Não me lembro de sentir isso pelos amigos. Ao pronunciar o seu nome, volto a ser menina e o primeiro amor desabrocha no meu peito e entre as pernas. Química perfeita. Quero ser a rua, a calçada, o muro da frente de casa, onde sento para vê-lo passar. As ruas lotadas de pessoas ausentes e a imagem dele em cada rosto. Para onde olho, vejo-o sorrindo para mim.
O meu amor pensa em mim, naquela foto pregada na porta do guarda-roupa, como ídolo de novela. E quase sempre, vem contar dos seus dias... os seus dias sem mim. Dias de ostra, dias de seca, dias na concha, dias em mata fechada. E em todos os seus sinais de fumaça, eu sou com ele, debaixo da língua, como medicamento para aliviar a pressão. Ele fica calminho, enquanto eu, viro lençol, viro fronha e morro de amores e de vergonha.
Dira
PESSOAL, Eu e o Zeca (http://j.cb.blog.uol.com.br/index.html) fizemos um texto a quatro mãos. Amo trabalhar com ele. Esse menino, além de escrever muito bem, tem um astral e uma energia que me contagiam. Amo muito esse moço. Ele tem sido um belo par de asas quando eu mais preciso, e grande amigo em minhas constantes depressões. Por isso, peço que vocês vão lá, ver o nosso filho e conhecer essa pessoa humana, maravilhosamente bela que é o Zeca, do Janelas Abertas. Amo esse menino. Esse não é nosso primeiro trabalho, já ousamos outras vezes, com a Mariza Lourenço. Então, espero vocês lá. Beijo, de mãe orgulhosa com o rebento.
Foto retirada do site: www.radio.usp.br
Talvez eu precisasse de asas hoje. Abri o armário, tentei passar um pano úmido naquelas do ano passado. Limpei, poli, passei um produto para tirar o mofo, fiquei horas a conversar com elas para ver se como as plantas, as minhas asas reagiam e tornavam a ser viçosas e belas. Sol alto. Os pés, com medo da terra quente, escondem-se por trás da minha sombra. Ando com a sombra grande demais. Quando ando, sinto que ela vai na frente e eu atrás.
As horas passando. As pessoas passando. O vai e vem de gente ao telefone. E o olhar sobre o móvel da sala. E aquele par de asas do começo do ano? E aquele outro que me veio de longe? O que fazer quando o corpo pesa, e as portas se fecham e por mais que você se coloque no altar e por mais que coloque os outros no altar, você continuará sozinho porque o mundo e os problemas e os deveres e as contas, e o dinheiro e isso e aquilo sempre será mais importante que tocar o outro. Eu não consigo entender e nem Madalena, que me olha de longe, lê minhas indagações, descreve o meu silêncio como sinais de fogo.
- Quer companhia? Ela me pergunta com a voz baixinha.
- Não querida. Os pensamentos são tantos, que estou em multidão hoje.
- Sonhei com você ontem.
- Foi? E foi bom?
- Acho que não. Vi você sofrendo.
- Vem cá. Isso não é preciso sonhar. Não vê que há tempos estou tentando ressuscitar minhas asas?
- Ah. É diferente.
- Sei. (Silêncio na sala).
- Posso te dizer uma coisa? Madalena interrompeu o nascimento de um poema, por pouco não me irritei.
- Sim, querida, diga. (Disse querendo despachar Madalena e voltar para o silêncio).
- Por que perguntamos sempre como vai uma pessoa, se quando ela vai responder, sinceramente, a gente não quer saber?
Silêncio. Mais silêncio.
Olho Madalena nos olhos. Tantos dias ali, querendo me dizer alguma coisa. E eu perdida a procurar as minhas asas.
- São convenções, querida. Convenções sociais. Como vai, tudo bem, boa tarde, noite, dia, essas coisas que as pessoas dizem para livrar-se do incômodo do outro.
- Eu realmente queria saber, o que há com você. E não é convenção. Sei que a minha alma se importa com a tua. E quando você fecha a porta da sua, eu vejo suas asas encolherem, enquanto você, despercebidamente, procura outras.
Silêncio. Mais silêncio. Sepulcral. Em mim tudo dói, de forma trágica. Sempre. Até o não saber dizer o que preciso.
Por fim, cortei o gelo, era a minha fala naquele momento, a vida tinha o script.
- Madalena, amar dói demais. Sonhar dói demais. Viver é pesado demais, quando se vive sozinho.
- Eu sei. (Respondeu, Madalena como um anjo) Por isso estou sempre aqui, esperando a multidão dos teus silêncios fazerem barulho para dizer que o teu olhar é o meu par de asas. E é com ele que eu vôo, todos os dias, já que você é meu espelho. E sempre será.
Calei. Mais silêncio. Madalena saiu da sala. Voltei para o armário e toquei fogo nas asas antigas. Ainda preciso de um milagre. Um não. Agora eu preciso de dois. Um pra mim, outro para Madalena. Porque ela precisa de asas próprias e muito mal tiramos os pés do chão com as nossas. Dira
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