Antes de dormir, quero a tua benção. Sim. Tua bênção. Então me coloco ao alcance de tua mão, desfaço-me dos nós, e de todos eles, dos laços, e solto meus pássaros. Abro a blusa, a águia que me habita, exponho as dúvidas, o colo macio, o que há por dentro, e o que só tu consegues ler. Antes de dormir, e já é adiantada as horas, peço-te a bênção, o cálice do amor, do entorpecimento, e exponho-me crua em tuas mãos, silenciosamente tua. Toque aquela música. Cante alto, preciso! Beba-me em última gota, suores noturnos, e liberte-me para todo o sempre. Porque te amar, assim, que seja o sempre, enquanto durar essa sinfonia lúdica.
Dira

Foto: By Min (Sapatos de Bruxa, os meus preferidos)
Madalena hoje pediu para sair. É noite. Uma noite sem nuvens no céu. Ruas agitadas. Não sei o que ela quer fazer no dia em que tudo deu errado. Tentam de todo jeito incriminar o presidente. E se Cuba quis mesmo ajudar, o que tem de mais? Fidel não é amigo dele? Que país é esse onde denúncias já vêm precedidas de julgamento e condenação? Mas Madalena não está nem aí para política. E eu me ressinto disso. Tanto que lutei. Ela estava comigo na fundação do PT. Tudo bem que os tempos mudaram. Agora se fala em caixa 2, caixa 3, tráfico de influências, o escambau. Enquanto tento entender isso tudo, Madalena me arrasta para o banho, eu cansada, com vontade de dormir. Tomamos banho juntas e enquanto eu procurava uma camisola fresquinha, Madalena escolhia calcinhas vermelhas para sair à rua. Madalena às vezes não pensa, enquanto eu estudo, trabalho, e sofro, ela se apaixona e desapaixona na velocidade de um acender e apagar de lâmpadas. Madalena é uma graça.
Sentei à beira da cama, perguntei aonde ela ia. Sorrindo, disse que ia tomar vinho, ver gente, beijar na boca, sorrir para todo mundo. Não me contive e ri da loucura de Madalena.Melhor vê-la assim que a reler cartas passadas e a chorar por noites a fio. Um dia eu solto Madalena, mas enquanto isso, convivo com essa loucura dela e vitalidade de quem tem a adolescência madura de 40 anos. É uma menina sempre e docemente apaixonada.
Sem argumentos que a fizesse recuar, puxei Madalena para a cama. Expliquei-lhe que os tempos são difícieis, secas na Amazônia, quem diria, tráfico, Maluf, querem cassar de todo jeito o único presidente que escolhemos por amor, por paixão, por pura esperança. Mas Madalena está farta disso. Vejo-a vestir um vestido de saia rodada, calcinha vermelha, batom lilás (ela fica linda de batom lilás) e seca os cabelos nas mãos. Linda, levemente linda. Digo que vou com ela, ela nem acredita. A custo, levanto cansada, e tento encontrar alguma roupa que me deixe melhor. Inútil. O meu pensamento está longe. No homem que toca violão e tem a voz que me sussurra em sonhos. Madalena ri. O que ela entende, é daquele amor que ela esperava passar todos os dias na esquina, de braços dados com aquela moça importante, a quem ela deu tudo de si, e ele pisou com botas de aço. Mas Madalena hoje, queria era ser feliz. Nada de amor que machuca e prende num calabouço.
Fingi que iria por vontade própria. Mas o que eu queria mesmo, era esvaziar a casa, pegar o telefone e ligar para ele, deitada na cama, e ouví-lo falar, falar enquanto o meu coração ficaria querendo sair pela boca. Ah, a boca. Qual seria o formato da dele, e que tamanho teria as mãos dele que me tocam enquanto eu durmo e me acompanham dos pés à cabeça, contornando-me como uma fruta madura. As mãos dele sabem o contorno da minha alma. Mas naquele momento, eu iria acompanhar a doce Madalena às ruas. O que fazer?
Troco de roupa, enquanto Madalena cantarola uma música. Ah, Madalena está certa. Esse beijo derretido na boca, os líquidos, essa vontade de ver os azuis da rua, das pessoas, ouvir o silêncio do outro. Tocar, sentir o cheiro, brincar de dizer obscenidades no ouvido... Também coloco a melhor roupa, e uns véus, quero que ele tire no exato momento. Deixo as máscaras em casa, quero ver a rua. Quero ser a menina, a criança madura, quero estender minhas mãos e tocar as dele, assim, enquanto interrompo-o ao violão, quero que ele me toque as cordas, os fios que nos ligam, o tecido, quero que ele me cante como sua canção. Visto a ousadia e puxo Madalena pelo braço. Tiro o meu coração do armário, e o lanço ao laço à imensidão das curvas e das chuvas temporãs.
Dira
Belíssima Foto de: Guilherme Limas
Não fechei a porta, há um temporal lá fora
Não importa o que estejas fazendo, se sumido, se à mostra, se na soleira da porta, ou na janela acenando, e dando conta de afazeres domésticos e sociais, lavando, passando, engomando ilusões, cantarolando uns versos que lhe fiz, enquanto aninha os desejos entre as mãos – saudade de suas mãos a contornar meus tremores insanos.
Não me dê mais explicação, nem justificativas, nem me conte das horas que me esqueces, dentro ou fora de sua ostra. O que tem que ser rompe barreiras do impossível. O que não tem que ser se acomoda no sofá da sala e assiste aos jornais e telenovelas. O que não tem pressa se acomoda no meu peito e espera. Cantinho que construí, altar de acasalamento, de leituras, de sonhos, de imagens que tatuasses no meu peito nu. E o que eu espero, isso sempre existirá... Porque sei que abrir o armário ao outro não é prenuncio de um futuro feliz. Há pedras no caminho, já disse o poeta. E elas só impedem de passar, o rio que não possui força em si mesmo. E isso, eu estou gagá de sentir na pele... é esse meu borrão azul, na pele e vida.
Não justifique nunca sua ausência, porque a comida tem a constância da fome e algumas coisas são mais urgentes que o coração, esse hóspede mal acostumado e abusado. Sou abusada, eu sei. Mas no meu peito, ainda o cantinho em uma suíte de cobertura com uma cama quentinha esperando o seu retorno. O livro que prometi, numa banqueta, junto a ele um copo de vinho. Sim, uma taça apenas para um, já que não bebes, uma reportagem de um jornal antigo, e um poema novo para lermos juntos, antes que tenhas que voar novamente. Guardo tudo para quando voltares à terra.
Não importa que os dias, e o tempo que nunca nos obedecem, deixem marcas na saudade, e arranhem os pelos no nosso corpo. Eu saberei estar, cálice a postos esperando o meu amor, que foi ali e volta já. Meu beijo. E outro. Cuida dos que amas e também de você que me é caro amar e desejar. Cuida sim. Outro beijo, para deixar a página marcada com o meu batom. Guarda a minha marca sobre o seu coração e na sua boca.
Se não se importar, deixei a janela aberta para entrar sol em meu peito, porque enquanto demoras, adubo meus pés nessas caminhadas cruas e deixo-me viva em sua memória. Ontem, sem perceber esbarrei na sua sombra em mim e morri de rir. A sua voz, assustada ainda quis dizer alguma coisa, mas eu não deixei. Dizer o que, não é? As palavras ditas em excesso perdem a textura, e eu preciso o arranhar da sua calma, essa aparente distância... És-me aqui, eu sei. Toquei em mim enquanto dormia e achei-o nas dobras da minha pele. Não há como perdê-lo de vista. Não há, vá sem pressa, demore lá o tempo que precisar.
O tempo passa, folheio as suas cartas, alimento os passarinhos e ensaio versos para esperá-lo. Já é tão tarde, acalmo o mar de tê-lo em mim, dia após dia, silenciosamente são e tento dormir, enquanto seu lobo não vem.
Dira.

Foto extraída do site Guia Geo
Wilma
o olho do furacão
está no centro
da minha boca
- soda cáustica -
grita e ninguém ouve
destrói tudo
e ninguém há que possa socorrer.
o centro de minha boca
é o alvo
o risco do peixe e a espinha
dorsal
a decepção é o que assombra
natureza em fúria
minha vida no ontem me atropela
olho miúdo na tela
- salvo-conduto -
sorriso enquadrando as minhas feras
não toque o fio
do filho do meu amor
viro o bicho que me guarda
e o monstro de tudo o que sou.
hoje sou o centro do furacão
e o não do passado
pelo avesso
:
o que prezo
é o que me devasta.
Retalhos
O gosto amargo dessa manhã que não desperta, tem as faltas, pêndulo parado na vida que se enrosca no lençol com medo do mundo. Por mim, eu não veria o sol, a rua, as pessoas, nem os gritos do está por vir, antes que o sol se ponha. Hoje estou com as páginas em branco. Não tente escrever, a marca dágua é a fome que aniquila sinais e fogo. Apague a luz, feche a porta do quarto. Vá ver se estou na esquina, vá. Envie a mim o valor do resgate. Enquanto isso, deixo em branco o que sobrou de mim. Melhor assim. Quando casar passa. Tudo passa. E como diz a minha princesa: até uva passa. O que dirá esse borrão azul sobre a minha pele? A vida passa.
Dira Vieira
Úmida
“você me roubou um beijo e eu que fui para a prisão...” (Marcelo / Jim Capaldi)
Ontem eu mergulhei no moço, quando disse que ia sair, ver o sol, andar por aí, tocar a vida com a ponta dos dedos. No princípio, quis abrir a janela e ver se o sol realmente estava lá. E vi quando dobrou a esquina, camisa verde neon. O meu amor, acossado, entrou na ostra, cobriu-se de medo, e calçou as pantufas da solidão. Era azul o sorriso dele e quando dobrou esquina eu sabia que seria para sempre, as dúvidas que chutamos como garrafas vazias no meio da rua, agora pareciam pedras no nosso caminho.
Só quem provou do silêncio entende o barulho causado pelo pensamento que sai voando pela janela. Dentro do peito, fica um peso, o barulho cortando a madrugada dentro da gente e o nó na garganta aumenta. As mãos inquietas, tateando as palavras que sobram quando o outro nos vira do avesso, parecem que manipulam o mapa astral das cores certas. O amor me revira pelo contrário e contraria a razão. Sou insana nessas horas. Afoita, mergulho de cara nos desafios, como quando criança que morre de medo das ondas do mar, mas não perde a oportunidade de correr atrás delas quando elas recuam. Tateamos o outro no escuro e é tão bom tê-lo em gotas medicinais...tão bom!
Querer assim... foi tão rápido. A palavra instala em nós suas garras, como uma espada, transpassando o coração. O ritual de acasalamento mais doce, mais coerente, sou aí, esqueceu? Não somos bichos, somos poetas. E o amor se veste de preliminares e sons para explodir na lua cheia. Quem disse que o amor não se veste do platônico e ri das nossas incertezas?
Produz uma tremedeira aqui dentro, e a gente não entende bem o porque, mas sabe-se, estamos vivos. E quem está vivo, molha as mãos, molha as calças, molha o azul, molha a imensidão do outro que se tatua na nossa alma. Terra úmida, isso que sou. E as palavras que me tocam, molham em mim o antes seco de imaginação. Toco o outro em mim, e as mãos suam desesperadamente. O olhar que ouso de ti me saliva o tempo todo. É justo querer?
E de tão doce, mergulha tatuagem no corpo molhado ainda de outras chuvas. Eu disse sim, todas as vezes que o sinal ficou verde aqui nos meus dedos. Eu digo sim, quando o "querida" da sua voz me acorda em minhas crises. Eu vou lá no fundo, e volto à tona com mais vida. Vontade de desenhar em ti as curvas e entrâncias do teu melhor livro. Como se tocasses a mim, folheias as nossas páginas com uma delicadeza de quem contempla o invisível dos outros. O amor não carece de sacrifícios, nem de registros, nem de compromissos, nem de fotografias amareladas na parede. Ele é livre como a minha boca que precisa da tua. Úmida de mim.
Abro a gaveta do criado-mudo e obediente, pego o teu bilhete. Vou ler no banheiro. Estarás ausente nas próximas horas e eu sinto que não foi parte de mim que foi junto. Na verdade, o corpo todo se bandeou para debaixo da cama e fiquei a ver navios. Então enviarei mensagens em garrafas e soprarei aos teus ouvidos, amo-te, marinheiro, amo. Faça em mim, pois seu próximo porto. Faça! Ancore em mim sua profecia do silêncio que nos denuncia.
E nas horas seguintes, contarei os abraços não dados, as promessas interrompidas, e lerei os acenos, amor plantando varandas e violetas e colhendo as palavras da ousadia de ser no mundo das intenções nada modestas. Não demore, volte logo! O meu amor se arruma batom, olha-se no espelho e contempla a carícia da tua presença em mim. Pele na horta do cultivo da palavra. Em ti, ergo um altar para nós dois. Carícias na pele da palavra viva que se dobra e desdobra em dois. Eu sou em ti e tu em mim, ainda que distante e mudo.
Dira

E o sono não vem
o desejo
é uma porta batendo
insistentemente
- corpo em chamas -
enquanto a vida
insiste em dormir em linha reta
e a favor dos ventos.
Dira Vieira
Foto: http://www.leffa-arviot.com/arvostelut/d/dracula
Você é um vampiro?
Um dia, caminhando pela universidade, encontrei um colega de aula. Ele me deu a mão, eu toquei e no mesmo instante comecei a ter vertigens. Soltei a sua mão instintivamente e procurei um lugar para sentar. Lembra aquela sua amiga que só traz problemas, está sempre para baixo e passa todo o seu peso para você e sempre que se despede você está esgotado? E aquela pessoa que sempre te agride, sem motivo aparente?. Ou que, sem saber, está sempre te cansando? Você passa horas ouvindo, aconselhando, tomando conta. E ela nem sabe que você existe. Nem ao menos sabe a cor que você mais gosta. Já esteve nessa situação? E aquela que você faz de tudo para agradar?. Está sempre disponível para ela, mas na primeira impossibilidade sua de ajudá-la, ouvi-la, ou fazer o que quer, ela simplesmente solta os cachorros em cima de você.
E aquela pessoa-problema, por mais que você se esforce nunca vai estar bem? E a que vive dizendo que quer ajudar e está sempre te presenteando, mas ao final das contas, só atrapalha? E quando ela torce por você, você fica mal?
É. São os vampiros. Li isso numa revista na primeira vez que me senti esgotada com uma amizade. Quis saber por que aquela pessoa (que para mim parecia "pesada") me deixava assim, toda vez que nos encontrávamos. Quis saber, porque sou especialista em levar porrada dos que juram me amar eternamente. Eu atraio os vampiros. Meu sangue é doce. Sou uma idiota completa. Eles sugam meu sangue, me agridem, me amam, e quando vão embora, deixam-me esgotada. Basta um telefonema fútil, e pronto, estou eu no chão.
Pessoas que você passa anos e anos cuidando, ouvindo, levando porrada e sempre repetem que “naquele dia em especial, elas não estão bem” e nem percebem que você está de olheiras porque chorou a noite toda. Não esgotam?
É. São os vampiros. Andam entre a gente. Às vezes são tão inocentes...
Fazem isso por pura ignorância, carência ou pura sacanagem. Mas são perigosos. Lembro de uma vez ler na Bíblia que não podemos impor as mãos sobre qualquer pessoa. Há um risco. O outro é armário fechado, como costuma dizer minha linda Simoninha (Jardins de Coral). A gente nunca sabe o que nos espera no passo seguinte. Se Deus não autorizar, guarde suas mãozinhas para outra ocasião. Não se brinca com Deus. Nem se brinca de Deus. Não costumo orar de olhos fechados em terreno alheio. Não ofereço a minha mão de palma para cima para qualquer pessoa. É um sinal de doação. Não me dôo a qualquer pessoa. Senão corro o risco de sair esgotada, vampirizada. É, vampirismo existe. E não tem alho que dê jeito. Vá por mim.
(Um dia eu abracei alguém que eu não conhecia senão pela internet. Claro que abraçar e beijar para mim é algo normalíssimo. Mas esse abraço não foi normal. Foi o primeiro abraço apertado que já dei na minha vida. Foi um abraço em que senti a alma do outro, apertando os meus ossos e o mundo ao redor deixou de existir por milésimos de segundos. A pessoa não era um vampiro. Ou fui vampira eu, porque saí dali, renovada, viva, com todos os hormônios em perfeito estado de existência. Separei a minha vida em dois momentos: antes e depois desse abraço. E a pessoa nem percebeu que me doou vida, nesse toque. Um dia, escrevo uma crônica sobre esse abraço).
Cuidado com os vampiros. E com as nossas atitudes vampíricas diárias. Quem ama ouve, entende, respeita os limites, não sai por aí atirando para todos os lados, nem se apressa em condenar os outros. Coisa boa é provar do amor que não joga pedras, antes, acolhe alimenta e ama.
Gálatas 5:13 Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor.
I Pedro 4:8 Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados.
Silente
toco o mundo com a palma da mão e ele nem sente. sei que me toca enquanto durmo com os seus coturnos em transe. inútil. quem dera houvesse poesia na falta. pois a palavra que calo é a que me apavora e aflora aqui dentro de mim. antes do sim, nego todas as ostras. teu amor sussurra em mim e sopra: prefiro gritar enquanto tu gozas e choras. tímida, a lua no céu esconde as garras, guardo meu ódio pras luas cheias. amarelinha na calçada verde. que me importa se não me entendes? sei que é tarde, é tarde! o risco que me comporta é a pele que suporta. quem disse que a falta revigora? chova, chova. eu imploro. aproveite as águas que escorrem de mim, furtivamente. e lave as calçadas, as alas, os versos que caíram debaixo da cama.
em tempestades, durmo cedo acoçada debaixo das cobertas. sacio o sono, cansaço. estrado dos teus pés. a solidão me olhou da janela, acenou suavemente e encolheu entre as minhas pernas. é sempre assim monaliza, tu me atiças e some.
Dira
Essa foto é minha, de Março, em Carapibus
O amor me acende os azuis
Vi que o azul tinha o seu nome escrito naquela palavra que disse. Como o mar que não contive entre as mãos, o seu amor me tocou e seguiu adiante, sem dó, nem piedade, derrubando os meus muros, desnudando-me de tudo, inclusive das mentiras que criei para o azul ficar mais azul. Quanto engano, quanto sofrimento inútil. O seu coração de surfista aprendiz, jamais conterias os meus desejos em ondas de mar bravio. O amor é um cego tateando a pele, no medo de encontrar o que não perdeu.
Foi aí que percebi que teria que lhe deixar ir. E deixar de ler seus azuis, fechando as portas trás, colocar sacos de areia na calçada e fechar os olhos para sua alegria que me tirava a paz. Era apenas um menino, eu devia saber quando o toquei naquela tarde cinza de medos e desejos. Devia saber ali que ele era moleque aprendendo a andar, com o andajá. E como ele era lindo, sentado no chão, olhando as pessoas passarem. Num flash back, o amor abriu os braços e eu mergulhei ávida de vida e de esperanças. E era tudo o meu espelho de cores e mágoas. Poucos minutos depois, viria a procissão de dores.
Hoje percebo das voltas. E dos cabelos soltos na velocidade do carro que corria pela estrada estranha ao ouvir a voz do outro me chamando. Vem, mocinha, vem andorinha. E as minhas vestes azuis se contorciam no sangue de minhas culpas e mesmo assim eu ia, de olhos fechados, ultrapassando todos os sinais. A paixão cega não respeita leis, nem sinais fechados, nem avisos metereológicos, nem pressentimentos, nem conselhos de mãe-madrasta. A paixão desata o peito, solta as mãos e os segredos, desata o cinto, solta os cadarços do sapato e cegos, nos atiramos no abraço. É o abraço o princípio dos ais.
A paixão é insana e eu desconheço o amor que não molha, nem agita o peito, nem provoca calafrios, nem medo das perdas. Todas as perdas. Levante-se, não me olhe de baixo. Que o amor não pede desculpas, nem se humilha, nem se ressente das angústias. O meu amor, era o meu desespero. Casamento dos signos, paixão avassaladora, andando sobre o pelo nu do cavalo sem cela. Foi assim que abri as pernas para a dúvida e deixei que o amor me invadisse a praia levando com ele todas as minhas reservas. Bastou que ele sorrisse para que eu morresse. E nunca mais o meu medo me fará refém do que não conheço.
Por fim, preferi sorrir. Como criança acossada pelo pai bravo, engoli o choro, fingi-me de morta e finjo não ver que o outro aquele a quem ela deu o seu melhor azul passa na rua ao lado da moça por quem os seus olhos não brilham, mas a quem ele estende um tapete de esmeralda e joga suas pérolas às ruas desertas. Foi então que abri o último selo, contemplei o sorriso dele como calmaria ali, desenhado na areia e pude sentir que ele era um holograma doce, ao mesmo tempo cacto que feriu a minha alma e o qual eu quero afundar nos meus guardados, o fundo do mar do esquecimento, soltando as feras do que sofri para brilhar em outras tempestades. Porque desconfio do amor que não me toca a pele assim, no primeiro toque senil. Não acredito em amor do dia seguinte.
Sou livre. Soltando as amarras, pegando na mão da menininha que ficou no cais, morrendo de medo de mergulhar de novo e de novo sonhar que é Alice no país dos segredos. A fera que me habita tem a sua ausência e eu a alimento diariamente para que nunca mais traduza-me para estranhos que atravessam a praça. Nunca o amor me engoliu assim, de carne e osso e de forma gentil
Não é você, meu amor, não é você. Eu só preciso aprender a domar as bestas-feras. Ninguém mais. E deixar que os meus azuis sejam apenas azuis inofensivos e infantis longe da poluição de olhos e corações como o seu. Porque o amor, é ventania suave, que nos acolhe feito tempestades e transforma o pouco do que resta de nós, em poemas tolos. De repente, cansei de adolescer para sempre.

Foto by Min (Pés exaustos da Marcha, fugindo para Campina Grande)
Marcha para Jesus
Eram 15 horas, aproximei-me do meio fio da Epitácio Pessoa que corta toda a cidade até a praia e fiquei esperando que a Igreja Batista passasse para eu ir junto. Nunca fiz caminhadas desse tipo, e em multidões só nos primeiros comícios do PT daqui. Fora isso, dei pra ter fobias de multidão. Entro em pânico. Mas eu disse: eu vou para a passeata.
As pessoas vão para as paradas gays, vão para caminhadas pela paz. Fazem protestos, vão às ruas, correm atrás de um trio elétrico como se fossem loucos pulando com roupas padronizadas e regados a muita cerveja e outras coisitas mais. Eu determinei que ia para a marcha. E fui.
Fiquei esperando as igrejas passarem uma a uma. Aquele povo que cantava, pulava e distribuía planfletos contagiava-me. Quem disse que eu pensava em depressão? Tava ousando vencer a mim mesma. Não agüento dar dois passos na rua. Ando de carro para cima e para baixo e a única coisa que piloto é a sua direção e o meu teclado do computador.
As pessoas iam passando e eu arrepiando. Coisa mais linda. Contagiante. Trios elétricos, cores, gente bonita (dizem que crentes são feios e chatos), jovens, senhoras, crianças, idosos. Povo lindo na rua. Mais de 60 mil pessoas, numa caminhada de mais ou menos 6 quilômetros. A multidão era fantástica.
Quando o trio da Primeira Igreja Batista foi-se aproximando, fui carregada para o meio da multidão. E lá estava eu, de tênis, bermuda, cabelos amarrados, no meio da multidão. Não tive pânico. Não tive pensamento algum contrário. Ainda me disseram, você vai cansar, você não vai agüentar. Eu precisava ir. Precisava de cheiro de gente, de suor, de lágrimas, de pessoas nas sacadas dos prédios, de gente caminhando pela vida. Eu precisava beliscar minha pele e revirar meus guardados. Eu precisava encontrar-me com o asfalto, com a rua, com as pesosas azuis.
Das 15 às 19:30, eu pulei, dancei e cantei de mãos pra cima. A sensação era de prazer, alegria, paz, e nenhum desgaste físico. Quem pensava nos pés apertados no tênis? Os adolescentes da PIB são festeiros, amigos, maravilhosos. Senti-me em casa. Eu gritei e pulei tanto, que até esqueci o cansaço. Inicialmente na “ala de senhoras” (eu não sou disso, acreditem...) escapei no meio da multidão e fui ser adolescente também.
Engraçado que a Marcha era para Jesus, mas ali mesmo apenas os evangélicos. Não sei porque as pessoas pregam tanto religião e quando se fala numa marcha dessas, as pessoas se omitem de participar. Eu odeio religiões. Mas amo o que me fez sair ontem. Eu abracei muito, eu cantei muito, eu pulei e dancei muito. E saí dali com a responsabilidade de ser feliz e fazer outras pessoas felizes. Porque aquela alegria de ontem não acabou quando a música do Trio chegou ao fim. Essa alegria é o que me contagia hoje.
É. Eu sobrevivi à Marcha para Jesus. E saí de lá, sentindo o amor me tocar a pele, tatuar a minha alma, deixando-me levinha para atravessar o rio de piranhas. Quem disse que os cristãos são infelizes, tristes e não sambam no pé?
Ainda ouço Segundinho (o puxador do trio em que eu estava) gritando: “E tira o pé do chão, tira o pé do chão”. Eu quero tirar o pé do chão para aprender a voar com o amor. “sai do chão, sai do chão”, ouvia essa ordem e já não conseguia tirar o calcanhar do asfalto. A marcha chegando ao fim e o meu coração renovado de esperança e amor. Preciso ir mais vezes para a rua, para as multidões. Preciso ensinar os vizinhos a cantarem nas manhãs de outubro.
Meu beijo aos que me deram injeções durante toda a semana. A vida é assim. Nada como levar a cruz dos outros, que aparentemente é sempre mais leve que a nossa.
Ah, e tirem o pé do chão! Tirem o pé do chão e vamos continuar essa marcha pela vida.
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