Foto: Luis Ferreira (Sim, é o teu!)
Quando o teu olhar encostar na minha alma no meio da rua, sentirei os teus arrepios a provocar-me espasmos, curto-circuito de sintonia. Será como abrir os céus, beirar os sacrifícios, fechar os olhos, e abraçar a vida. Será esse encontro, como a abertura do sétimo selo, acordará o meio da noite, grávido de tuas esperas e faltas. O teu olhar me percebe nos vácuos provocando-me enjôos de parturiente. Há um azul piscina estendido sobre a tua fala. Menino doce, menino mau. A mentira que nos farta de estrelas falantes e nuvens carregadas de saliva e sonhos. Não apague as estrelas, ainda não. Deixe-as falarem um pouco mais, deixe!
Eu te preciso, como corpos em queda que se esbarram na esquina. Faíscas que se completam um barril de pólvora. Nunca entendi o amor que não provoca brilhos, nem a calmaria das ondas que não provoca tesão de encantamento. Há que se adornar a lua para ver o nosso amor passar. Ah, se esta rua, se esta rua que passas todos os dias fosse a nossa rua, eu te esbarrava ventania, acordando essa tua boca lilás de faltas sobre a minha pele.
Ainda espero, sob o amarelo real do sol que se põe em ravel, o teu sorriso no meu divã. Homem que se deita no veludo das horas corridas. Tempo que se esgarça, panela vazia, mal entendido nas impossibilidades dos desvarios. Amantes que não souberam voar. Não, não esperarei mais os fevereiros de outrora, nem o rouge do meu batom de lágrimas. Eis-me sem maquiagem, mas de que adianta? Ninguém suporta a verdade. Só mentimos porque a verdade pesa e afasta. Fere e desnuda, o que antes era a fantasia e máscara. Quem será o primeiro a atirar a pedra sacrificial? Atire, vamos!
Venha até aqui, amor. Perdoe o lamento, sente-se nessa cadeira de frente ao rádio que toca a nossa música. Lembra dela? Ouço os seus passos sobre a varanda da casa, chove aqui perto e vejo as nossas almas saírem de mãos dadas, bêbedas e lívidas, fartas de sonhos em busca do beijo que nunca demos. Será que a tua boca ainda guarda o meu calor? Guardei-te entre as pernas, no quente da paisagem e cheiros, a saudade fermentando toda a sorte de buscas e dedos senis. Se não me dispo, sou sombra por trás das grades da burca. Entre pela porta fechada mesmo, entre. Já não te dei as chaves? Não as dei?
Tire a roupa, ande, com pressa. No dia que saíres para jogar sinuca, os meus olhos te vigiarão como espadas de ciúmes, dramas e comédia dessa cidade louca. Mar de Cabo Branco com ressaca moral. Se não vens eu me parto, em maré alta, sobre as pedras, aqui, no Porto de Capim.
Em alguns dias cinzas, como esses, meu coração é mangue, escorregando-me em lágrimas que eu tento fingir que são rios, caldalosos. Uma tristeza tão grande se esparrama em mim, pois meu coração, hoje, é câmara de gás, diário de Auschwitz.
Dira Vieira

Foto: Ricardo T. Alves (Blue Power)
O longe
a vertigem azul que me completa
tem o teu nome em braile
sobre a minha pele.
Dira Vieira

Porta aberta
Ele beijou a minha boca acordando-me de um pesadelo. Olhei os seus olhos miúdos olhando de cima, deitado sobre o meu peito e suspirei. Isso lá é jeito de acordar alguém?
Esperei-o vir me buscar na saída do supermercado. Seu sorriso tinha um quê de primeiro encontro, de hora marcada, de carruagem de abóbora esperando lá fora. Atravessei a rua esvoaçando os cabelos. Queria impressionar o meu príncipe. Ele esperava dentro do carro do outro lado da rua com olhos de espera, apaixonada. Os mais belos de toda a minha maturidade.
Enquanto ele me olhava manso naquela manhã, refiz todo o nosso caminho, até estarmos alí, íntimos, nus, ele fazendo carinho na minha alma, essa tão cansada de tantas marteladas. Contornou minha boca com o indicador, sorriu levemente enquanto eu via o sol entrando pela janela do quarto, através do seu corpo sobre o meu. Não consegui dizer uma palavra. Estado de graça.
Nunca imaginei estar assim tão pertinho dele. Sentindo seu cheiro, o hálito quente, quase me tocando. Com o cabelo de quem acorda de manhã, sem escova, sem chapinha, meu Deus. Ainda com o rosto amassado, sem escovar os dentes (minha mãe diz que minha boca fica linda quando eu acordo) e ainda mais, com aquele moço tão lindo a rir de minha pele à mostra. Era o sonho? Ou um pesadelo? Deixa eu levantar? Pedi. Ele sorria. E eu imaginava o porquê das moças da televisão acordarem de batom, maquiagem e fazerem amor alí, sem nenhuma "preparação". Ele sorria, para desespero meu. Invadiu a cozinha, encontrando a porta aberta logo cedinho e encontrou-me ainda dormindo.
Eu bem que quis fingir que dormia, desviar sua atenção, correr para o banheiro, tomar banho, escovar os cabelos, os dentes, a língua – ai meu Deus, a língua – e deslizar cinderela para a cama, eternizando o nosso encantamento. Ele parecia invencível com aquele sorriso de "meu bem, me ame". Quem haveria de desviar aquele caminho? Fechei os olhos. Seja o que Deus quiser. Senti as suas mãos me procurando nua por baixo do lençol e eu pensei, agora não tem mais volta, estaria mergulhando na minha maior loucura. Eu era dele, agora, como nunca fora de ninguém. E a vizinhança ainda adormecia o dia.
Enquanto ele me tocava mansamente, o meu corpo ia respondendo como uma maré que magicamente vai subindo na praia com o movimento do vento. Suas mãos, como estradas em que eu percorria, descalça, eram como pára-raios que suportavam os meus tremores e pequenos choques, ao esbarrar em pontos estratégicos das minhas entradas. Difícil falar a sensação de beirar o paraíso e o precipício ao mesmo tempo. Sei que voei sem asas, sei que senti o vento invadir o quarto, tomar nossos corpos como de assalto. Ele dizia o meu nome várias vezes, como quem fizesse questão de memorizar aquele instante.
Foi bem pouco tempo, até que o relógio nos retornou aos nossos cárceres privados, onde minha vida de borralheira nos esperava, sem sapatinhos de cristal, sem cor, sem fantasia, sem dias azuis, cheios de impedimentos e de sinais vermelhos. Fiz a maquiagem para sair do quarto, avental de mãe para disfarçar o cheiro de desejo no corpo, e lenço branco para dar adeus por aqueles dias.
Ele era apenas um homem e eu o aceno meigo que pensou: foi bom enquanto durou. Viro a página, termino de arrumar a cozinha, ouço o menino chorando no berço, o carro do gás cantando aquela musiquinha insuportável, enquanto eu mordo os lábios e imagino-o tocando os meus seios como um cântaro, onde mata sua sede, transformando-me em cinderela toda sexta feira. Nunca mais fechei a porta da cozinha nos dias de lua cheia.
Dira Vieira
P.S. Infelizmente, não sei o autor dessa foto, achei-a perdida na net. Se alguém souber, avise-me para que os créditos sejam dados.
Foto: Gonçalo Borges Dias (Corvo)*
Conversando com o azul
"e se eu fosse...
a palavra presa na garganta, o pássaro preso na gaiola, o verbo fazendo volume no meu peito, o que você faria?"
Amor, acordei sufocado com as tuas cartas. Inúmeras cartas que guardei para chorar sozinho quando tu te fostes. Há horas que estou a lê-las com as promessas e promessas do que fomos no espelho sem o sabermos. Não era mentira a palavra que ouvistes de mim naqueles dias.
Era azul o teu batom e o teu vestido quando me aparecias alí, ao alcance de minha mão. Podia tocar a tua face. Podia tocar o teu cabelo, lamber o teu sorriso, e contornar os teus seios que pulavam no monitor sem que a minha boca os provasse, nas nossas tardes virtuais.
Era vermelha a tua boca naquelas ondas de calor quando estávamos juntos, formando o mapa dos nossos encontros e das declarações de amor. E se fostes a lua eu seria a tua escuridão nos goles de moet chandon enquanto nos embriagávamos de amor e desejo. Quero ainda o menino em que tu me transformavas quando me chamavas amorzinho ao telefone.
A tua voz infantil, quase sussurrada, alimentava os meus fios e protestos, máscaras de minhas fomes e delírios, praga de mãe bem ao contrário. "Me liga". Eu te pedia quase implorando quando via a corrida das horas contrárias trazendo a noite e a tua dispersão.
Hoje te vejo pela fechadura. Minha musa, recitando os poemas que um dia deitastes sobre a minha pele, nua de azul só para mim, deixando o mundo morto de inveja, escandalizado. Era para mim teu primeiro pensamento, teu primeiro e-mail, e teus versos, quando ligavas tua alma à minha e colavas a tua boca pequenina, no que pensei de ti, contrariando o mundo, e as intenções do verbo, o mesmo verbo que nos uniu. A tua sombra, quando passas por mim, ainda me arrepia. O seu cheiro de cabelo lavado com cremes, deixando-os sedosos de azul, ainda rodopia a minha visão do Olimpo.
Quando passas, ainda levas contigo o meu melhor poema e o meu abismo que se abre em ti, como o apocalipse e me deixa explícito em tua paixão. Bem que eu disfarço, minha lua, bem que eu disfarço. Mas é sempre essa minha palavra em riste que me denuncia nos teus ocasos. Quem te mandou passar com esse sorriso sobre mim?
Dira Vieira
* Foto do Site 1000Imagens, primeiro link ao lado. Você também pode clicar sobre a imagem e ir para a página.

Pintura: Mulher que chora - Portinari
Saio cedinho de casa. Enquanto espero o sinal vermelho esverdear, faço as contas:
Sapato Scarpin: R$ 200,00
Calça Gang: R$ 150,00
Blusa Dzarm: R$ 190,00
Soutiã e Calcinha Duloren: 80,00
Corsa Sedan Zero: R$ 31.000,00
O sinal abre, o celular com câmera e vídeo toca a música do momento. Um homem bravo grita do outro lado: onde você está? Venha para casa, agora! Desligo. Acelero. Ninguém reclama. Olho por cima das grifes. Dane-se. Esqueceram que eu não tenho preço.
Dira Vieira
Novamente não consigo dormir. Culpa de um texto que insiste em não sair de minha cabeça atormentando-me o dia inteiro. Sabia que se não saísse durante o dia, ele me daria trabalho para sair de madrugada. Os meus textos de parto fóceps são assim, sempre precisam ser arrancados de mim durante a madrugada.
Ando pela casa, como se alguma coisa me perfurasse o íntimo e a palavra fica dentro da unha misturando-se ao resto de pinha que acabei de comer. Coisa esquisita. Enquanto ela não sai, o pensamento não se materializa
Ligo o computador. Ainda bem. Imagine o que é teclar em uma máquina daquelas bem antigas às duas horas da manhã. Seria um desespero. Antigamente eu ia dormir com um lápis (geralmente de tinta lilás) e um rascunho ao lado da cama para o caso de acordar à noite com um poema me tirando o sono. Ai, e o pior é quando o poema é erótico. Acordo em brasa, olhinhos brilhosos na madrugada tocando o lápis como se fosse minha própria pele. A pele que por tantas vezes se deixa tocar pela palavra viva.
Pego o lápis, aproveito a luz da tevê para rascunhar a idéia e vou moldando o meu desejo no papel, como se traduzisse um bilhete secreto desses que você recebe e imagina de quem seja, mas ele não vem assinado. Quem dorme ao lado nem sonha onde o pensamento vai nesse momento, na madrugada. O corpo parece um sobrevivente único de um naufrágio, onde os desejos se misturam às ondas e flutuamos em cima de alguma tábua, eu, náufraga, te leio e tento reconstruir-me.
Outro dia fui para a cama sem o menor sinal de sono. Mas apertei os olhos com força para contar as letrinhas pulando uma cerca em busca da vontade de dormir. Não deu outra. As letras que pulavam a cerca iam caindo em cima do meu lençol e formando um poema. Não um poema comum. Desses arrumadinhos e bem comportados que daria inveja ao melhor crítico literário. Não. Era uma prosa poética. Meus poemas esticam as pernas, tocam quem precisa de toque e acabam virando prosas. É o meu desejo incontrolável pelo toque de pele que acaba por estender seus tentáculos e virar cobertor. Mas eu queria ser poeta. E ter a minha língua como cobertor de tuas fases de lua. Ah, e o teu sorriso lindo, é o meu verso concreto...
Um dia, perguntei ao melhor poeta que já conheci: como se faz um poema, ensina? Ele bem que tentou explicar. Falou do lapidar, do trabalhar a palavra e eu, não conseguia mesmo era tirar os olhos dos olhos dele e derramar idéias enquanto ele tentava ensinar a arte de encantar. Eu já estava encantada e propensa à fogueira. Se tivesse beijado a minha boca como eu desejara, juro que teria feito ali o meu melhor poema. Não houve tempo, o apocalipse veio
Mas o que eu queria mesmo, era parir esse desejo, esse poema-prosa instalado no meu peito. Se ele não nasce eu não durmo. E se vou dormir sem que ele tenha nascido, então, corro o risco de desencantar e acordar pálida de letras e de versos, com o ventre seco, de quem sonha o impossível. Desde criança minha mãe dizia que meu defeito era sonhar demais. Minha mãe nunca entendeu as minhas marés altas e baixas e o meu peito em brasas sobre as minhas mãos. Se ela tivesse tocado minhas palavras veria porque é tão bom ouvir as estrelas.
Ainda sem sentir as dores do parto, como o profeta, antes de receber a revelação de Deus, tento dormir e acalmar uma azia grande que queima dentro de mim. Arde tanto, e queima tanto, que eu não sei se amanhã acordo sem poema, ou sem estômago. Como sei que por hoje, não farei nada de interessante, vou pra cama, pedindo desculpas aos corajosos que insistem em vir aqui achando que hoje eu terei escrito algo que preste. Eu digo, leio o poema do outro, e respiro, nunca serei poeta como ele. O melhor a fazer é ir dormir e ver se amanhã, o grito na garganta consegue sair, antes que imploda em mim.
Às vezes, e só as vezes, eu penso no que não fiz. E choro. Queria ter ousado mais antes do fim do mundo, antes do toque da trombeta. Eu descobri uma coisa: o ser humano adora amar quem não presta. Ou, ama não ser correspondido. Será que somos eternos sádicos e masoquistas? Por que o amor é essa eterna via de mão única? Alguém aí pode vir aqui na contramão? Que saco! Loba, socorro, preciso de inspiração!
Dira Vieira

não lido com as perdas. os vácuos que se formam em minhas mãos tem a dimensão do meu desespero. por hoje
um copo me bastaria, vazio.
para entender, eu queria tocar o fundo, o alto. o inatingível. queria saber porque Deus brinca de castigar (menina que chora, hoje, sobre o parapeito da ponte).
era gibraltar quando as luzes apagaram. não vi tua mão e precisei chorar alto. onde estavas, onde? quando disseste que o oculto era o nosso nome? e o mistério era o nosso azul? não vi seus olhos quando umedeci a boca para te receber mar mergulhando sobre mim.
há um fio me ligando ao mundo. como um precipício eu me atiro e sobro. não são os espelhos nossas únicas companhias. achei que te acharia quando meus pés tocassem o vale da morte.
era gibraltar a minha sorte. e um Egito que vestido de pães amargos que me vestiam de ouro nas tuas faltas. se o beijo não precisa de vermelhos, por que tu beijas a boca de quem não te acende a íris?
em mim algumas estrelas se apagam e eu choro, como criança desmamada, a dor de desertos e oásis áridos. os meus olhos te viam perto de mim mas era um fantasma da minha mentira. era mentira a minha vontade. era uma farsa o presente. não existias, eu sei. o menino que te possuía era um personagem de gibi.
e se eu te dissesse, vida. tu seria a morte de meus sentidos sãos. beija logo a minha boca crua, porque ando farta desses ventos que apenas levantam os meus azuis, mas não removem os tecidos mortos da minha ansiedade. eu tenho fome, e um longo caminho na desconstrução do nada. sou caos. sou falta. sou sorriso que se vai na ira desse fardo pesado demais.
finge que não vês. eu sei. e por muito menos, eu chorei, quando o farol que te guiava virou cabanas de índio. eu quero chorar todos os meus mares apenas hoje. porque estou cansada de eternizar perdas.
embrulho o peito e recolho as mãos que te acenavam. já não me interessa o boletim metereológico. por mim, que chova, enquanto eu me derramo de dor.
Dira Vieira
P.S.1. Desconheço o autor da imagem, quem souber, favor me avisar.
P.S.2. Não estou comentando os comentários porque ainda não aprendi como. Mas prometo comentá-los.
Eu estou participando da e-indignação, a caminhada virtual rumo a Brasília contra a corrupção. Serão 506 mil pessoas chegando ao Planalto Central para registrar a indignação dos brasileiros com o cenário político atual. Participe do maior manifesto on-line contra a corrupção do Brasil.
Acesse www.e-indignacao.com.br.
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Disfarce
desculpe, se às vezes
pareço fera
sobre a tua carcaça
em ponto estático
visão dos deuses sobre a mesa
a verdade
é meu alimento em banho-maria:
erétil, volátil, vivo
antropofágico em conta-gotas.
Incisiva
melhor que tu cases
com a outra
e tenhas com ela
filhos barrigudinhos e de nariz escorrendo
porque mais vale
o amor da outra
que esse meu amor
de puta
(cansei de lavar, passar e parir poemas inúteis)
Dira Vieira
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