Sob os lençóis...

Foto: www.jodirichfieldphoto.com/ Print-Misc.htm

 

Fez menção de dizer o nome dele no exato momento em que suspirava em outra cama que não a dele naquela noite. Respirou fundo, talvez para não sentir o prazer que o corpo merecia e precisava. Assim não valia. Suely estava cansada dos fados, da música que cantarolava enquanto gozava, para fingir que o corpo não sentia o que na verdade explodia entre as suas pernas. Ok. Ela gozava. Mas não porque queria. O corpo, aquela máquina hodienta que ela por tantas vezes sufocara, agora deu para sentir tesão. Bastava ouvir o nome dele, a voz, a poesia, o rastro dele na rua sombria. Pronto. Era o estopim. Estava cruzando as pernas em via pública, mordendo os lábios, respirando pesadamente.

 

Poderia dizer o nome dele publicamente? Certamente que o mundo romperia em dois e cairia sobre a sua cabeça. Doida. De pedra. Era assim que Suely se xingava ao espelho. Culpando até a última geração pelos calafrios que sentia toda vez que pensava nele. E como ele era perfeito.

 

(Eu diria o teu nome diante da platéia de salteadores. Gritaria mil vezes se preciso fosse quando a palavra que não ousava dizer viesse em minha boca. Sim, te amo. Te amo. Pouco importa se esse amor dura uma hora, meio dia, o momento exato da tua boca tocar o céu da minha. Com a língua. Sim. A língua poética de tua fala discreta que diz o que na verdade não ousa ouvir).

 

Suely se ajeitara no travesseiro. Engolia a agonia do sangue quente correndo entre os dedos e deixou-se morrer lentamente sobre a cama macia. Fazia silêncio na noite. O outro dormia ao lado depois de vomitar por mais de meia hora morto de bêbado. Baixou o som do televisor. Deixou a luz tênue do abajur acesa e tentou dormir, enquanto ouvia conversas de camareiras, arrumadeiras e outras serviçais daquele motel. Tentou fechar os olhos. Apertou os ouvidos com o travesseiro. Ouviu gritinhos quando faltou luz. E ficou com medo de assaltos naquele momento. É, ultimamente há assaltos por todos os lados, tinha medo de adormecer e ser surpreendida.

 

Quando já sentia o corpo pesar e adormecer, e as células se acalmarem lentamente, a energia do apartamento voltou. Suely acordou com o barulho ensurdecedor de um casal fazendo sexo meio gutural. Não aguentou. Era demais. O corpo cansado, dava sinais de que estava vivo. Sim. Vivo. Procurou o celular. Não poderia deixar de ligar para ele. Era impossível conseguir dormir sem ao menos ouví-lo dizer boa noite. Bendito aparelhinho aquele. Era só discar o número e do outro lado, a razão de todos os seus maremotos diários.

 

Discou. Uma voz grave e atenciosa a atendeu na madrugada. Era do seu Sidney. Só podia ser. Disse que precisava dele. Para um dia anterior àquele. Ele riu e provocou-a mais. Ela chorava, e ria enquanto o outro dormia roncando mais alto que as camareiras no corredor do motel. Quero você, ela disse várias vezes compulsivamente. Eu também diria se sofresse daquela ausência que Suely sentia nos seus dias de completa solidão. Ele disfarçava, contornava o pote, sugeria, insinuava, deixava-a mais doidinha. Enquanto ele falava, Suely não se conteve e passou a tocar-se por baixo do lençol freneticamente. Era o seu Sidney alí, pertinho dela, em voz, pelo aparelhinho, o tal celular. 

 

Sussurrando, Suely relatava o que estava fazendo sob os lençóis enquanto o seu parceiro jazia desmaiado no vômito ao lado. Descrevia seus desejos, a intensidade da manipulação do seu sexo e do que queria que ele fizesse com ela nesse momento. Sidney apenas ouvia, educamente, até em certo ponto, demonstrando a voz pesada, demorada. Aflito por fim, diante do relato erótico que Suely fazia, o homem do outro lado apenas dizia: minha senhora, minha senhora! Enquanto ela já dava sinais de gozo completo. Amor, fale, fale tudo o que quiser, mas fale.

 

Quase entrando em transe também, sentindo-se impotente para sufocar tamanha fúria de desejo e prazer, o homem do outro lado apenas dizia, Senhora, Minha senhora, aqui quem fala é o taxista, um cliente meu acabou de deixar o aparelho dentro do meu taxi. A senhora deseja que eu vá até aí? Suely desligou o celular estupefata, envergonhada, e com os dedos exalando o cheiro forte de sexo. Merda! Vociferou dentro do apartamento, enquanto aumentava o som da televisão para abafar sua vergonha e as vozes das camareiras do lado de fora do quarto. Agora é que não dormiria mesmo. Dira Vieira

Nem tanto, nem tão quanto...

Pintura: Cacilda (mulher sentada)

Fora de Órbita

Devia estar fora de órbita naquele dia. Como em todos os dias em que esteve apaixonada por aquele moço. Foi uma eternidade idolatrá-lo todos os dias. Primeiro namorado. As primeiras cartas de amor, as mais ridículas, as mais centradas e o carinho dele como um tapete para ela pudesse passar.

O coração, quando sai de órbita, transita na contra-mão da razão e começa a fazer besteira. Parece que ele não pode crescer em demasia, senão perde o prumo e se solta ladeira abaixo, corredeiras de muitas pedras e acaba por se estrepar no fim do seu curso. Há de se dar rédeas ao coração quando ele desembesta como cão sem dono, sangria, dor que desata a doer quando o outro não aparece, não telefona, não manda cartas e nem sinal de fumaça.

Naquele dia, Rebeca iria encontrá-lo. Depois de um tempo separados, quando ele esteve provando outras bocas. Amava-o por tanto tempo, protegendo, cuidando, zelando, que finalmente teria-o aos seus pés para tocá-la, beijá-la, trocar juras de amor (?) até que os pais dela a chamasse para dentro. É que justamente nesse dia ele lhe mostraria o seu carro novo: um fusquinha azul, do seu pai, bem verdade, mas o qual ele podia desfrutar à vontade.

Vinte horas e ele chegara fazendo o maior barulho na buzina. Correu até o portão para vê-lo. O pai lembrou-lhe a hora de entrar. A mãe fez uma cara meio esquisita. Eram três anos de namoro e de paixão. Um único beijo. E um amor que aguentava a distância quando ele namorava outras, de beijos, abraços e outros amassos. Ela sabia que ele sempre voltava. E voltaria. Sempre. E ela estaria alí, Amélia para todo o sempre.

Quando chegou ao portão, ele já estava no carro. Pediu que ela entrasse. Ela não o viu, mas outro homem. A imagem que talvez permanecesse para sempre. O moço fechou os vidros do carro, ligou um pequeno toca fitas, disse que a amava e a abraçou, metendo a mão por dentro de sua blusa. Era a primeira vez de tudo. Da mão, do carro, do toca fitas, e do estranho que naquele dia foi sepultado para sempre.

Quando acabou, ele ainda disse: Achei que você enlouqueceria com isso. Ela não conseguiu ouvir a voz dele, o enjôo e a vontade de vomitar era maior que o desejo guardado a vida toda pela boca dele.

O príncipe estava sem máscara. O sonho era a novela das seis. E o fusquinha era um carro de mão de construção. Rebeca estava naquele dia fora de órbita. Abriu a porta do carro e caminhou para a calçada, mas lembra de ouví-lo repetir que ela era frígida. Nem deixou seu sapatinho cair na escada, já que a cegueira natural do sapinho, jamais distinguiria o que era sapato e o que era argueiro no olho de sua megalomania. Antes só e frígida que acompanhada de sapinhos da lagoa.

Há de se ter outros sonhos por aí. E outras mãos a provocarem outras ânsias que não sejam de vômitos. Onde será que Rebeca perdeu a rota? 

Soube que o moço havia vendido o fusca por um conversível último tipo no mesmo ano que morreu afogado num copo dágua, quando distraidamente curvou-se para olhar-se na imagem narcísica que se refletia na água. Pobre menino. E nem foi praga de bruxa.

Dira Vieira

Durante o beijo, pode dizer que me ama?

Foto: Anne Brigman

 

Primeiro encontro. Eles pouco se conheciam. Houve uma certa sintonia. A pele dela arrepiou. Os olhos dele ficaram mortos, com aquela cara de bobo que todo homem fica quando se encanta com uma mulher. Ela sentiu alguma coisa mudar dentro dela. As mulheres sempre acham que nesse primeiro olhar a vida delas mudará para sempre: “síndrome do homem da minha vida”.

 

Saíram juntos. Conversaram banalidades. Por ela, ele teria sido cafajeste. Beijado-a assim, no primeiro momento. Depois, teria seduzido o tempo inteiro. Mas ele foi gentil. Cavaleiro. Mulheres são tão complicadas... Se ele fosse cafajeste, ela iria desprezá-lo. Mas afinal, não era uma dança de acasalamento? Pois bem.

 

Fim da noite. Ela o deixou na porta de casa. O carro era dela. Tempos modernos. Disseram boa noite. Ela arrancou irada. Chamou-o de viado. No mínimo. Foi xingando-o até metade do caminho. Até que o celular tocou. Era ele. Não sabia o que dizer. Nem ela. Mas estava com raiva. Ora, quem inventou que a iniciativa deve ser do homem? É. Ela de besta acreditou. Podia ter sido ela a dar o primeiro passo. Ele correria do mesmo jeito. Homem morre de medo quando as mulheres dão o primeiro passo. Gostam de se sentir o macho total, com todo o seu poder fálico nas mãos. Daí, confiar que eles vão agir na hora que queremos.

 

- Oi. Disse o moço do outro lado, tímido.

- Oi, há quanto tempo, não? Respondeu ironicamente.

Ele: Não consigo dormir.

Ela: Acabei de sair daí.

Ele: Sim. Sei lá... to confuso.

(Ela pensando: Bem feito, ta confuso porque desperdiçou uma noite inteira. Podia ter me agarrado e... ah).

Silêncio.

Ela: Achei que me beijaria.

Ele: Achei que não deveria.

Ela: Pois... Tô puta.

Ele: Percebi. Volta, vai. Amanhã o mundo acaba, uma Tsunami invade a cidade, algum de nós morre. E aí? Não vou ter provado o seu beijo. Volta. Por favor.

Ela desliga o celular e retorna meia hora de viagem de carro até a casa dele. Quando estaciona, ele já a espera na calçada. Bastou entrar, o beijo foi inevitável e avassalador. Hummm, faltava fôlego aos dois.  

 

Mais de quarenta minutos depois de muitos beijos e amassos, ela: te amo. Silêncio. Diz que me ama também. (Ele pensa: Por que será que as mulheres têm necessidade de ouvir e dizer essa frase?) Por fim, responde: Não vou mentir. Não amo você.

 

Cacete! Pensou ela. De que são feitos os homens que nem nessa hora tão romântica podem ser ao menos gentis?

 

Ele se despediu. Ela o deixou novamente na porta de casa, onde a mãe dele já o esperava preocupada. Ela seguiu caminho sozinha. Guardou o beijo doce na boca, as mãos dele dentro de sua blusa e o cheirinho doce do hálito dele ao redor de sua boca. Nada disso se compara com a frase que ele não quis dizer.

 

Ela queria que ele dissesse eu te amo, para justificar a loucura que fez: deu dez voltas ao redor da lua para desafiar o mundo e tocar as estrelas por aquela boca. Homem é tudo confuso mesmo. Mas ao menos depois desse beijo, morreria feliz.  

 

Dira Vieira

O Egoístosão...

 

Combinamos o acampamento para 15, mas eu tinha aula até as 16 horas. Corri, peguei as bagagens e segui para Jacumã, litoral-sul de João Pessoa, onde o grupo me aguardaria no mesmo lugar de sempre.

 

O ônibus demorou. Era o último da tarde que saía às 17 horas. Deveria estar chegando as 18 e iria procurar a turma toda. Mamãe não sabia que eu iria sozinha sem o grupo, achava que iríamos todos juntos, mas eu tinha compromisso e não podia deixar de cumprir. No caminho, ia contando os minutos para estar ao lado de Max. A gente se gostava há quase um ano sem que nenhum tivesse a ousadia de dizer ao outro. Esse acampamento prometia. Separaram uma barraca para nós dois. Mamãe também não sabia. Eu tinha apenas 16 anos.

 

A viagem ganhava estradas, mato, BR e eu ia pensando nele, no seu carinhoso jeito de ignorar-me e esnobar, quando eu sabia que o que ele mais queria era entregar-se a esse amor, que eu sei, sentia por mim. Os olhos diziam do quanto me queria e desejava nas reuniões literárias e do teatro. Ele era o melhor ator de João Pessoa. Sempre tive a infeliz tendência de amar quem se fingia não me querer. Parecia uma concorrência. Bastava o carinha esnobar que eu ia lá, conquistava, deixava aos meus pés depois, desistia. Mas não era assim com ele. Ficamos fingindo não querer o outro por quase dois anos. E esse acampamento parecia ser proposital. Grandes amores meus começaram em acampamento. O calor da fogueira, a lua nascendo, o sol se pondo, tudo era motivo para ativar os hormônios. E se o moço tocasse violão e tivesse barba, pronto. Era o escolhido. Ele só tinha que ser perfeito. Nada mais. Max não tinha barba, apenas uns pelinhos fingindo um cavanhaque.

 

O ônibus chegou ao seu destino, depois que me ouviu suspirar inúmeras vezes olhando pela janela. Ele era o melhor contista da cidade. E eu o queria. Mesmo que nosso amor fosse ridicularizado por alguns do grupo. Não o grupo do acampamento, o grupo do cotidiano. Eu amava Max. E ele, sei, também.

 

Fui direto ao lugar combinado. Não os achei. E a noite vinha chegando com uma velocidade assustadora. Nessa época, Jacumã era quase deserta e servia essencialmente para acampamentos. Procurei por toda a orla, até bem mais distante do combinado. Mas não achei ninguém. Perguntei, chamei. Nada. Nessa época, nada de celular. Nada de telefone em casa. Minha irmã achava que eu não tivesse vindo. Mamãe achava que eu já estaria na praia. E não havia mais ônibus de volta para a cidade. Vim no último ônibus.

 

De tanto caminhar e já desistindo, com muito medo, acabei dentro de uma construção com 15 pedreiros que se preparavam para jantar. Falei com um deles. Expliquei o problema. Era muito tarde. Eles ofereceram-se para procurar no dia seguinte. Por essa noite, o melhor seria eu dormir por lá. Eu tinha 16 anos, e eles eram 15 homens distantes de suas famílias morando na praia para construção de um edifício de veraneio. Senti um calafrio invadir-me naquele momento. Mas eu não tinha saída. O mestre de obras, chamou um deles (o que se prontificara a ajudar-me) em um canto, cochicharam e por fim, trouxeram o veredicto. Disse-me que o que me “achou” perdida na praia, levaria-me a uma casa de amigos deles, um casal de idosos, na saída da cidade onde eu deveria dormir “segura” lá até o outro dia, quando me levariam ao meu grupo. Aceitei. Também não estava em situação de escolha.

 

Fomos numa escuridão terrível para fora da cidade. Caminhando. Ele, o pedreiro, e eu, a perdida. Fui recebida por um casal simpático que me acolheu, até o dia amanhecer. Dormi com os olhos bem abertos, ouvi todas as histórias do casal, como haviam se conhecido, e dos filhos que moravam em Campina Grande e da felicidade deles de morarem no mato, sozinhos, olhando o mar. Eu não entendia nada. Eu só pensava em Max.

 

Quando o dia amanheceu, o moço protetor já estava na porta da casinha me esperando. Tomei um banho rápido, olhando para todas as frestas da porta do banheiro e tremendo de frio e medo e descemos a ladeira de volta à praia.

continuando...

O moço já não era O pedreiro, era um rapaz de fala simples, tentando ser gentil, derretendo-se em amabilidades, que agora me perguntava se eu tinha namorado, se eu era muito paquerada e essas coisas mais pessoais. Foi assim que fomos procurar o meu grupo à beira-mar. Vim achá-los 40 minutos depois, no mesmo lugar onde disseram estar. E eu não havia visto devido à escuridão da noite. Os olhos de Max pareciam sem brilho, sem alegrar-se com a minha chegada. E nem acreditaram quando contei o ocorrido. Minha irmã me dizia que eu havia nascido de novo. Meu cunhado, só me abraçava feliz. E Max, fingia não dizer nada, enquanto se escondia na barraca com ciúmes do moço que me acompanhara. Quanto ao moço, tive que dizer que aquele era meu "namorado" já que o rapaz estava encantado comigo. Ainda o vi nos dias de acampamento, caminhando pela praia à minha procura.

 

Quando a noite chegou. Velas acesas na barraca. Seria a hora do “vamos ver”. Esperei que todos se recolhessem, retoquei o batom de tutti frutti, ajeitei o vestido curtinho no corpo e esperei Max para dormir na barraca. Quando ele entrou, fingi que lia Kafka, seria uma boa impressão. Fiquei de costas, achava que ele me chamaria, conversaríamos e por fim, seriamos namorados no outro dia. Max entrou silenciosamente na barraca enquanto eu pulava de felicidade. Tremia tanto, que achava que quem estivesse lá fora percebesse a barraca pulando. Max deitou silenciosamente na ponta dos pés. Puxou um lençol para si e adormeceu.

 

E eu? Não preguei o olho a noite inteira. Pensei em acordá-lo, beijá-lo, gritar, esmurrá-lo. Max era um príncipe desses que nunca, nunca invadem a porta, com ela estando fechada. Na cabeça dele, eu havia fechado a porta, quando dei as costas para ler um livro.

 

O que eu queria era que ele fosse o homem do mato, e me beijasse, e apagasse a luz, e mostrasse-me como se acende estrelas. Naquela noite eu queria ter sido o seu tudo, o seu primeiro de tudo. Mas ele teve tanto medo quanto eu. No outro dia, os risinhos, as piadinhas, as cobranças, todos achavam que tivessemos tido uma noite fabulosa. E tivemos, contei carneirinhos gordinhos a noite inteira.

 

Enquanto nos arrumávamos para vir embora, Max segurou minha mão, olhou-me no olho e disse baixinho: você é a mulher da minha vida. Mas não somos circo, nem marionetes, nem bonequinhos. A vida nos unirá um dia, é só esperar o nosso dia.

 

Ainda ouço-o cantar para mim. Ainda ouço-o ler seus contos em voz alta e a cantar Vampiro, enquanto espanca o seu violão no meio da sala da Oficina Literária. Ele vinha de azul celeste enquanto eu vinha de vermelho fogo. Éramos carne e unha encravada. Nosso amor, era doído, mas um conto de fadas às avessas.   

 

Ainda lembro o Egoístosão subindo por uma corda no cenário do teatro. Era seu personagem infantil. Enquanto ele assustava a molecada, eu me encantava com o vilão dos meus contos reais.

 

Dira Vieira

Foto: Manuel Moura Galrinho

enluarada

 

vou inaugurar um setembro nas minhas noites de lua cheia enclausurada, como se a noite não me metesse medo. o medo é o que carrego comigo desses dias sujos. sem você tenho medo de sair na rua. e me viro em pedra, pó, terra, poeira na estrada. quase nada, sem brilho. onda sem mar, pedra de lôdo. 

 

desligo a televisão, aumento a minha ânsia de vômito. preciso pensar em você, parar, ir à rua, ver o mar, desenhar a lua cheia, tocar o teu cabelo, rir, vestir-me de azul e dançar nas ruas mãos abertas, espalmadas sobre o meu seio nu.

 

queria te inventar inteiro, setembro, fevereiro, verde onde a tua boca fosse passaporte de línguas e traduções aramaicas: templo de todas as notas musicais das tuas mãos dedilhadas em minhas costas.

 

quero a poesia rouca em tua voz de alfabeto invisível e tua pele tatuada entre os meus dedos. estou com medo da noite que me prende em casa. e é lua cheia, amor, é lua. meu cio é de bicho, margaridas silvestres, pleno de tempestades de brancos e pétalas espalhadas pela calçada. Ah, saudade, saudade... nunca me senti tão assim, tão pertinho de mim... minha, eu, completamente minha. à mercê de minhas mãos, ávidas de meus silêncios...

 

e assim inventar o teu inverno em mim, casca de árvore, casaco de pele, íntimo que se cola à minha boca, compondo a pressa dos dias negros e noites brancas de luas sozinhas te contando os pelos sobre o peito, enquanto dormes. quero nessa noite esquisita, em que grito na janela, uma luz, um fio, o pedaço do cordão de Ariadne, a tua mão, a esperança... quero te inventar criança, primeiro amor, primeiro dezembro, em que dissemos mentiras verdadeiras um ao outro. nunca mais disseram mentiras tão lindas para mim.

 

quero o teu julho, prometidos fevereiros, um filho teu, em  mim, enquanto te espero prenha de tanto desejo enluarado e pleno, noite a dentro e fora, quase bem perto do sim.

 

será quase dia, nessa noite, quando te provar o gozo, de quem ama sozinho, olhando o retrovisor dos dias.

 

Dira Vieira   

 

Foto: André Coelho

Algumas considerações sobre o amor

Ou entre a cruz, a espada e o desejo

Para Claire e Nélio*

O amor me abre as portas todos os dias e empurra-me para a rua, quando eu apenas queria recolher-me num lençol macio e dormir o dia inteiro, longe do mundo, longe do perigo que é viver. Já disse e repito: ninguém vive impunemente. Há que se pagar um preço.

Quando dei a entrevista à Loba (excelente entrevistadora, essa moça) eu não imaginava receber tantos emails, visitas e comentários. Em alguns dias, acordo com o sentimento de que mundo é simplesmente maravilhoso, no outro tenho vergonha de ser chamada humana. Já disse que a culpa é toda de Eva. Não me reputem mais pecado. Não aguento tanto peso sobre os ombros.

O fato é que, vivemos pelas conveniências. Vivemos para responder por atos, por palavras, por permissões, pelo nosso silêncio. Temos a nossa vida assinada em cartório o tempo inteiro. Tudo o que dissermos será usado contra nós um dia. Em juízo. Não sei se estou preparada ainda para o julgamento. Portanto, peguem leve. Sou gente que deseja e ama e tem suores noturnos e fica maluca quando a pele é tocada em algum lugar especificamente. Não sou uma boneca, sou de carne, pele, e ossos. E não digo mamá, quando apertam minha barriga, muito pelo contrário.

Tenho algumas concepções esquisitas do mundo. Reconheço. Tudo culpa de uma educação com muitas obrigações, deveres e nada de prazeres. Os mais velhos exigiam de nós, o que eles nunca foram capazes de dar. Praguejo e renego a velha frase: "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço". Ela é hipócrita e absurda.

Os padres são obrigados ao celibato. E nos dias atuais, não são mais raros os que não conseguem cumprir a vida unicamente para Deus. Não vou julgar o fato das aberrações que alguns cometem (sexo com crianças, com adolescentes, com mulheres, com freiras – ui, freiras são mulheres também). Julgo os meus sentimentos, a mulher que há em mim, com sede de amor, de sexo, como a pele ardendo, com os desejos à flor da idade e dos dias que vão embora escorrendo entre os dedos, sem que eu tenha nenhum controle sobre eles.

Eu disse que o sexo sem amor não tem muito atrativo para mim. E vamos entender essa minha frase. Ninguém em sã consciência (levando-se em consideração os perigos atuais) vai sair por aí e transar o primeiro(a) que aparecer. Certo? Errado. Vai sim. Nós sabemos que o que pode acontecer no primeiro encontro, é terra que ninguém investiga porque o corpo humano é uma tocha acesa e o outro, puro querosene. Dependendo do que acontecer nesse momento, só Deus salva o pobre miserável apaixonado. Apaixonado? Sim. Os vocês podem escolher outro sinônimo, encantado, enternecido, hipnotizado, sei lá. Qualquer coisa menos, amor. Ora. É assim?

Faz-se sexo por várias razões. Sexo por atração, sexo por compaixão, sexo por agradecimento, sexo por amizade, sexo por puro tesão, sexo por obrigação. Sexo para viver em paz. Ouvia de uma vizinha que fazia sexo com o marido para ele adormecer logo e ela livrar-se da cara dele. Nos dias que queria morrer, fazia sexo com ele, fingia orgasmos, fazia piruetas (e como os homens nesse ponto são muito desligados) ele dormia feliz e ela saia com as amigas para fazer sexo por desejo. Ela me confessava com a maior naturalidade que o sexo com o marido era instituicional, por amor à família. E o que fazia fora era para não enlouquecer e continuar aguentando a vida de mentira.

Vou julgar uma pessoa dessa? Com que direito? Atirar pedras? Criticar? O íntimo da gente, é terra que ninguém anda devidamente descalço. Há que se calçar e evitar ver os argueiros nos olhos dos outros, para que não sejamos obrigados a admitir nossas traves óticas diárias.

Culpa de Eva, já disse. Tomo banhos quentes, enrolo-me em toalhas frias, conto até 1000, conto carneirinhos, mas o que mais fazer quando o amor te toca alí, ó, no lugar onde ninguém toca. Nem todo o sexo do mundo pode tocar, aonde apenas o amor vai, delicadamente, retirando os seus véus, as suas vergonhas, retirando as suas amarras, os seus freios, os seus recuos de segurança. Como fingir que não deseja, se a pele acusa, sabota, agride, entrega? As mulheres fingem, os homens se delatam. As mulheres domam, os homem soltam os freios e amam.

As mulheres pagam grandes preços, os homens fecham os olhos e amam. Não vamos separar a humanidade em gênero. Que bom que há homens mulheres e mulheres que são homens, aí não poderemos dizer que somos preconceituosos. Ora, para que impor regras, ao amor, se ele quando vem nos deixa completamente desprovidos de razão? Culpa de Eva que descobriu sua nudez e fez Adão sentir tesão. Ora, já fomos expulsos do paraíso, para que fingir que não tenho desejo? Senão, nasceríamos das cegonhas e seríamos eunucos, graças a Deus.

O que eu queria mesmo era não ter que dar satisfações a ninguém e só me entregar como bicho que sou, aos meus desejos, exatamente, como Deus me criou. Quem inventou firma reconhecida em cartório?

Ainda vou perguntar à minha mãe a quem se deve servir: ao amor, ou à razão?

Você saberia responder?


*E se a intensidade da palavra muito não for suficiente para expor o que eu sinto, deixem que eu formule novamente a frase: Claire e Nélio, eu amo muito, muito, muito, muito vocês.

Ele não morreu, apenas subiu no telhado...

Foto capturada no site: www.fotonostra.com/.../ macrofotografiaflores.htm

 

Após estacionar na frente de casa, ajudei-o a sair do carro lentamente. Sua mão, de uma delicadeza até feminina, agarrava-se à minha trazendo o olhar nesse gesto. Entramos em casa e já fui acomodando-o no sofá da sala, com uma almofada, lençóis e ligando a televisão para quem ele assistisse alguma coisa.

 

Tinha o olhar distante, triste. Mas gostava do carinho que o cercava por todos da casa. Tinha câncer. Todos sabiam. Menos ele. Acabara de voltar do hospital após uma cirurgia violentíssima, onde foi-lhe retirado boa parte dos órgãos. Ele estava bem magrinho, evitávamos falar de coisas tristes com ele. Mantínhamos sempre alegres e sorridentes. Eu cria no que não podia ver, no invisível que se reveste em pele, ossos e sangue novo e recria a palavra vida dentro de nós. Era assim que esperávamos os dias que viriam pela frente. 

 

Depois de acomoda-lo no sofá, ele me disse: - Vá à locadora. Pegue filmes para vermos. E eu lá tinha cabeça para escolher algum filme? O coração amordaçado em dores, fingia que sorria, fingia que cantava, mas fechava-me em conchas para que ele não visse a minha tristeza. Minhas lágrimas eu as bebia delicamente, amargando o sal dos dias sombrios e desesperadores.

 

Quando ele começava a sentir dores no estômago, chegava a olhar para gente com a carinha de cachorro que perdeu o caminhão da mudança e não ousava gritar para não chamar a atenção, muito embora soubéssemos que suas dores eram insuportáveis. Ele nos chamava baixinho e dizia: Ta doendo... pede a mamãe o meu medicamento. Quem ousava demorar atendê-lo? Não sabíamos a sua reação. Ele não sabia que era portador de um câncer, um dos mais violentos. Ou se sabia, também não ousava comentar sobre isso. Nossa casa sempre foi freqüentada pelos parentes doentes do interior. E a maioria com câncer. Então, todos sabíamos como tudo começava e quando terminava. Ele sabia. Mas não dizia nada. Fingia-se de morto. Acho que no fundo ele achava que era um pesadelo e que se não comentasse, logo, logo, tudo passaria.

 

Aceitei sua sugestão de pegar uns filmes para vermos e dirigi-me à locadora. Perdida. Desorientada. Cheguei à locadora como se fosse um zumbi. Olhei as prateleiras procurando algo que o fizesse esquecer que estava doente. Tinha apenas 30 anos de idade, não era justo. A vida nem sempre é justa. A atendente sugeriu alguns filmes. Eu a tudo olhava mecanicamente. Estava preocupada por ter deixado-o sozinho em casa. Escolhi três, correndo desesperadamente para casa.

 

Ele me recebeu na porta de casa. Estava de pé, fraquinho, tremendo, tentando  equilibrar-se em cima das pernas apoiando-se nas paredes. Você demorou! Disse-me com os olhos de quem pede socorro. E eu estava ali, pronta para dar-lhe a minha vida se preciso fosse. Claro que não! Respondi abrindo os sacos dos filmes e pedindo que ele escolhesse um. Acompanhando todos os meus passos inseguros pela sala, como se a esperar um passo em falso que lhe fizesse ter a verdade nos meus olhos, ele não dizia uma palavra.

 

Abri a sacola. Tirei um dos filmes. Nem li o título. Nem li o resumo. Nem vi a capa. Eu pedira à atendente algo interessante para sorrir e esquecer da vida. Sentamos à frente da televisão. O filme começou com um homem de frente para uma filmadora narrando uma carta para um filho. O homem dizia: Filho, daqui há 6 meses você vai nascer. E eu não estarei mais aqui... E aí, a cena corta para o homem gritando de dores no estômago por conta de um tumor. Todas as cenas retratavam essa via-crucis desse homem. Eu fiquei paralizada na frente da TV. Ele também. Sabíamos que o filme era sobre ele. Exatamente. Sem tirar e nem por um detalhe. Mecanicamente, levantei e retirei a fita, sem cruzar o meu olhar de mar no dele. Ele não disse uma palavra. Acho que até a respiração conteve dentro de si por alguns eternos minutos.

 

Retirei a fita. Falei algo como: Ah, chega de dores, quero algo mais leve. E ele permaneceu mudo no sofá. Vimos outro filme. Mais alegre, mais dinâmico. Mas ele já havia lido todas as verdades no meu silêncio.

 

No dia que o sepultamos, parte de mim, sepultei com ele. Angustiava-me ver os seus olhos no dia do filme. Odiei aquele filme. Não me perguntem quem era o ator. Nem o título. Apaguei da memória aquela dor tão grande.

 

Enquanto caminhavámos em procissão para sepultá-lo, eu ia pedindo-lhe perdão por ter dito, sem querer o que ele sabia e se negava a crer. O meu amor, estava sentado no banco do cemitério, a olhar-me a espalhar cacos de mim pelo jardim do lugar sagrado. Ele era morto. Eu era a sua vida, vindo embora, numa manhã de sol extremamente forte. A vida não tem misericórdia dos mortos-vivos que retornam dos velórios. Acho que nunca o deixei sair de mim.  

No destaque: Carpinejar

AMOR VIRTUAL
Pintura de Miró

Fabrício Carpinejar
(http://www.carpinejar.blogger.com.br

 


Acredito em amor virtual. Não adianta se valer do ceticismo da carne e dizer que a distância engana, que as pessoas não se conhecem, que pode haver desfeita e desilusão. Acredito em amor virtual. Pois nada é mais expansivo e verdadeiro do que se conhecer pela linguagem. Nada é mais íntimo e pessoal do que se doar pela linguagem.

Não serei convencido da frieza do relacionamento na web, da articulação de fachadas e pseudônimos, da ironia e dos subterfúgios denunciados nos chats. O que acontece na internet reproduz a vida com seus defeitos e virtudes, não se pode exagerar na desconfiança. O amor virtual é tão real quanto o sangue. Não preciso enxergar o sangue para verificar se ele corre. O amor virtual trabalha com a expectativa e a ansiedade. Como um teatro que se faz de improviso, com a ardência de ser aceito aos poucos, sem o temor e os avisos em falso do rosto.

Na correspondência, há a esperança de ser amado e de entreter as dores. A esperança aceita tudo, transforma todo troco em investimento. Um gesto de redobrada atenção, uma resposta alentada, uma frase diferente, um cuidado excessivo, a cordialidade do eco e o amor se instala.

Não há o julgamento pelas aparências (que se assemelha a uma execução sumária), mas o julgamento em função do que se imagina ser, do que se deseja, do que se acredita. São raros os momentos em que se pode fechar os olhos para adivinhar. Adivinhar é delicioso - é se dedicar com intensidade às impressões mais do que aos fatos. Alguns dirão que é alienação permanecer horas e horas teclando ou diante de uma câmera e do computador. Mas é envolvimento, amizade, compromisso. É pressentir o cheiro, formigar os ouvidos, seduzir devagar. Não conheço paixão que não ofereça mais do que foi pedido.

Quem reclamava da ausência de preliminares deve comemorar o amor virtual? Nunca se teve tanta preliminar nas relações, rodeios, educação. Fica-se excitado por falar. Devolve-se à fala seu poder encantatório de persuadir. Afora o espaço democrático: um conversa e o outro responde. Findou o temporal de um perguntar para outro fingir que está ouvindo. No amor virtual, a linguagem é o corpo. Dar a linguagem é entregar o que se tem de mais valioso. É esquecer as roupas na corda para escutar a chuva. É recordar de memórias imprevistas como do tempo em que se ajudava à mãe a contornar com o garfo a massa do capeletti. Conversa-se da infância, dos fundos do pátio, do que ainda não se tinha noção, sem ficar ridículo ou catártico. Abre-se a guarda para olhares demorados nos próprios hábitos. A autocrítica se converte em humor; a compreensão, em cumplicidade. É uma distração para concentrar. Uma distração para dentro. Vive-se com mais clareza para contar e se narrar.

Amor virtual é conhecer primeiro a letra, para depois conhecer a voz. A letra é o quarto da voz.


Autorizado pelo autor para publicação nesse espaço. Copiei do mesmo jeito que está em seu blog. Ao Carpinejar, meu agradecimento.

Agora, vem o cinema

Corrente Cinema

A Claire me colocou nessa fria. Não sou cinéfila, sou internéfila (ui, tem isso? hehehe) mas vou tentar dizer daquilo que gosto e amei ver na telona e na telinha.

1) Qual o seu filme favorito?

O favorito mesmo? Rachomon (1950), de Kurosawa. Mas A Letra Escarlate e A Vida é Bela eu já vi inúmeras vezes e não me canso.

2) Qual o último DVD que você comprou?

Não compro DVDs. Pego os do meu chefe. Ele compra e me empresta...rs

3) Quais os 5 últimos filmes que você viu?

Justiça Vermelha (Richard Gere e Bai Ling), O pagamento (Bem Affleck e Uma Thurman), O Pacificador Clooney e Kidman), Closer (Júlia Roberts), Sexo, amor e Traição. Aliás, convido os meus visitantes a darem uma olhadinha no Porta Curtas da Petrobrás que é demais! Gosto demais deles.  

4) Qual o melhor filme brasileiro de todos os tempos?

Se fosse minisérie eu diria: Hoje é dia de Maria, simplesmente, o melhor de todos os tempos. Mas você quer filme, então, Gosto dos brasileiros, eu poderia citar os que eu não gostei, é mais fácil. Mas Central do Brasil me emocionou demais.

5) Qual o seu diretor/ator/atriz e seu gênero favoritos?

Diretor: Woody Allen, Walter Salles, Lais Bodanski.

Ator: Al Pacino, Robert de Niro.

Atriz: Bom, gosto muito da Júlia Roberts (a eterna Linda Mulher). Mas duas são perfeitas: Zeta Jones e Angelina Jolie.

Gênero: Gosto de dramas, suspense, existencial, policial e épico. Adoro os épicos.

6) Escolha 5 pessoas para passar a corrente...

Bom, não sei se os meus indicados vão responder. Quero muito saber os filmes do Felipe (La Vie en Blues), do César (avesso do avesso), Maria Borges, Valéria (pensar é um ato) e Manoel Meireles (e eu poderia deixar de cutucá-lo?).

Hoje é o dia....

 

Ao meu bebê, com amor

Passei a noite ensaiando o que eu diria para ela nesse dia. Olhava-me no espelho, dizia: te amo. Fingia que sorria, fingia que chorava. Mas eu não consegui escrever um texto para ela. Nesse blog, onde tem um bebê olhando o mar (não lembro a data) foi o texto que lhe fiz um dia. Hoje, às 16 horas e 20 min. ela completará 18 anos. Puxa! Foi ontem. A minha homenagem, fiz no fotolog dela. Coisa muito simples de "casa de ferreiro, espeto de pau" rs.O que eu conseguiria escrever para o meu melhor poema? 

Eu não sei se sou a mãe dela, tenho minhas desconfianças de que sou filha. Sempre me recusei a crescer. Ela insistiu a vida toda para ser gente grande apesar de meus severos protestos. Ela cresceu! O meu poema, que não cabe em livro, que não cabe numa enciclopédia, tem o sorriso doce. Tem os olhos de mares que me inundam. Tem uma forma de dar bronca, como se eu, a moleca, vivesse aprontando travessuras. Ela é meu freio. Ao mesmo tempo, que me dá asas para voar. Ela já foi miudinha. Cabia numa caixa de sapatos. Nasceu pequenininha, e por causa dela, quase morri de pré-eclampsia. Mas ela veio, quando eu não queria ser gente grande, mas sendo a vida inteira. Prometi que com ela seria diferente. Mas não pude dar-lhe uma infância de Papai Noel, e henas. Eu nunca acreditei nisso. Mas ela cresceu adulta, naturalmente. Sem que nunca tenha pedido algo que eu não pudesse dar. Sempre entendeu meus choros, meus silêncios, e meus vácuos. Eu nunca precisei falar. Ela me lê, quando o meu silêncio faz barulho grande. Ainda me chama para colocá-la na cama. Ainda me chama para orar por ela enquanto adormece. Ela ainda me pede colo. E eu, a coloco no colo, uma menina maior que eu em estatura, linda, perfeita. E eu é que me sinto menina nos seus braços. Estou me sentindo uma boba de tanta homenagem. Mas sei que ela me entende.

Lembro de dar o primeiro banho. Ninguém me ensinou. Ficamos sozinhas no quarto. Aquele pedacinho de gente que mal cabia na minha mão. Lutamos para adaptarmos uma à outra. Era o nosso desafio. Duas aprendizes da vida. Quando saiu de mim, senti muito. Eu a queria na barriga. Mas me contentei em amamentá-la. Quando aos sete meses, enjoou o peito e não comia nada, nem tomava água, quase enlouqueci. Brigamos juntas para que ela provasse outra comida. E como tinha gênio forte essa menina.

Aos 15 dias, ela tinha muita secreção, e eu, marinheira de primeira viagem, perguntei à vizinha o que poderia fazer por ela. A vizinha disse: compre redoxon e coloque algumas. Mas não me disse onde. O pai trouxe o tal remédio. Após o banho, ela cheia de secreção, li a bula do remédio, vi o nome oral, mas entendi nasal, já imaginando que a vizinha havia sugerido pela minha queixa sobre ela não conseguir respirar. Lá vamos nós. Limpei suas narinas e coloquei em cada uma gotinhas do bendito medicamento. Em segundos, o bebê estava roxinho, espumando como se eu tivesse colocado sabão no nariz... ela nem chorava mais. Nos meus braços, eu só gritava pelo pai dela: Corre, corre, matei minha filha, matei minha filha! Ele chegou providencial e sugou o nariz dela, com a boca. Eu só chorava. Em poucos segundos, ela voltava a respirar e fomos ler a tal bula direitinho. O medicamento era ORAL, mas eu estava sugestionada a pensar nasal. Não sei o que seria de mim, se ela tivesse me deixado alí.

Essa mocinha já viveu grandes aventuras comigo. Ela é mais que filha. É amiga. É mãe, é parceira, é cúmplice. E hoje, ela completa mais um ano. E eu queria escrever-lhe um poema, mas não posso. O meu melhor poema é ela e eu não sou poeta de letras. Se eu tivesse minhas melhores palavras, daria para ela. Se eu tivesse o poder de protegê-la na vida, eu a protegeria. Mas não posso. O que ela já sabe, que eu pude ensinar, deve ser suficiente para que ela entenda que a vida apenas começa. E o aprendizado é para a vida toda. Ela teve uma vida melhor que a minha, apesar de muitas coisas. E a vida vai cobrar isso dela. Quando tiver que repartir o que tem, para que outros sejam felizes também. Eu a amo muito. Não caberia nesse texto simples e apaixonado dizer o quanto ela me faz bem. Eu queria dar mais. Sei que ela precisa. Mas sei que é importante ela conquistar por si mesma, que encontrar tudo pronto.

Não sei se é ela ou eu que faz aniversário hoje. Eu, por ter escrito em meu ventre poesia tão bela (por dentro e por fora). Se ela, por estar mais velhinha e próxima de conquistar o que tem sonhado. Peço a Deus, o co-autor dessa poesia (na verdade, Ele me tomou a mão para escrevê-la), que a proteja dos perigos do mundo, e que conserve essa pureza em seu coração, fortalecendo esse grande amor que ela tem pelas pessoas que não conhecem ainda a esse Deus tão grande.

A Deus, minha gratidão. Ao meu bebê, que ela cresça, mas que nunca deixe de ser a filhinha, a maezinha que eu tanto amo. Essa menina que chora pelas injustiças do mundo, essa menina que se compadece das dores alheias, essa menina que não se conforma com esse mundo, e vive para tentar modificá-lo no amor de Cristo. Essa minha moleca se parece muito comigo. E quando andamos juntas, ninguém sabe quem é filha de quem, porque somos duas amigas olhando o mundo pelos olhos do amor.

*Quem quiser conhecê-la, clique aí no link nesse texto, e vejam a tietagem que fiz no flog dela enquanto ela viaja... mãe é tudo assim... meio coruja, meio babona, meio deslumbrada. Sou tiete sim. Mas não deixo de ser dura, quando o momento merece. Ela sabe disso. Ser amigo é chamar o outro às falas, quando o outro também comete besteiras. Ela e eu, somos assim. Uma puxa a orelha da outra, quando cometemos nossas bobagens diárias. Não há disciplina sem amor. Nem há amor que não puxe orelhas quando é preciso.


E por falar em homenagem, o Leônidas, um amiguinho muito especial, fez-me uma linda homenagem. Imaginem vocês que ele publicou um poema meu no seu site. Então, poxa, mais um pedido, vai lá, veja o que ele fez comigo e se puder, assina o livro de visitas dele. Vou ficar feliz com isso. O poema está no "melhores brasileiros", pode? Mas todo o site é belíssimo. O endereço é: http://www.leonidasarruda.adv.br quero vê-los lá.

Confissão...

Foto: Ricardo Tavares

Tenho para mim que a solidão é a minha boca salivando o medo de quem olha o abismo abaixo dos pés. Era um quase outono, e te vi sobrevoando o céu da minha boca, como águia que espreita a presa deitada sobre a grama tomando sol. O sol de um outono qualquer, numa rua qualquer de um outubro cinza.

Estendi os braços recebendo os azuis de um contraste negro que brilhava no meu espelho em todas as cores. Era a imagem de um homem, a águia que me lambia os pés e a atenção. Tinha a vida na boca carnuda que me chamava, menina, uma águia de bico forte e garras poéticas. Quando falava, desembocava em meus rios, suas águas serenas do amor apressado e tardio. Era eu, bandeira tremulando mediante o toque das suas asas provocando-me o frio das esperas.  

Não era azul a minha tez e nem tão inocente as minhas intenções. Nunca somos tão puros, culpa de Eva que quis mais que a vida, queria a paixão dos corpos em brasas e do corpo suando mediante a tensão. O trabalho de te amar, era o meu maior castigo. Dias arando a terra, a espera da tua semente que viria antes do inverno prometido.

Não entendo como nos prometemos janeiros e fevereiros se morremos antes que o sol nos redima de todos os pecados. Era azul a tua pele, e os teus segredos. E a minha vontade de correr aos teus braços era a minha penitência diária. A visão do olimpo de um amor que jamais existirá, contrariando as possibilidades do que é possível. Quem disse que amor assim é novela das seis?

Tenho para mim que as distâncias perpetuam o amor que morre frente a frente. Todo amor é covarde para existir na manhã seguinte. Pensei nisso e entendi a tua boca a vomitar palavras duras e perversas de quem tem a alma de águia, alheia a dor de todas as presas.

Não era azul a minha tez. E nem inocente as minhas intenções quando te despi naquela manhã de outono cheio de cor. Era o teu corpo a minha aquarela e a minha boca o teu cálice de descontentamento. Nunca desejo tão louco me deu tudo o que me tirastes ao fim da tempestade.

Era um outono de fim de ano dentro de mim, onde as esperanças de dias melhores já adormeciam cheias de ilusões entre as minhas pernas. Engraçado, como armazenamos a vida entre as pernas e não no coração, órgão cheio de veias e passagens para a desilusão. Culpa de Eva que também queria experimentar as tuas mãos doces de poeta em pleno vôo entre as pernas dela. E depois, o juízo final. A dor eterna. O castigo. As pedras. E o amor que nasceu torto, morreria torto, sem nenhuma chance de absolvição: atire a primeira pedra quem nunca desejou romper barreiras dos silêncios perfeitos.

Nossa perfeição é o espinho na virilha, para nunca esquecer que quem ama demais, geralmente ama sozinho, merecendo o fogo final, espelhos diários das sombras. A tua imagem ainda vive em mim, cálice do esquecimento, como natureza morta, sem brilho, pregada na sala de estar. Vou ficar sem você até que o dia morra e eu me vá, ao esquecimento.  

Não te culpo pelos meus brancos de memória. Mas te culpo pela secura dos dias, e pelo meu amor pegando o pau de arara, subindo a serra, exilando-se em desespero de uma dor tão grande que por pouco não atravessou o mar e enforcou-se ao meio dia. Era você o salvador e o verdugo, a condenação e espiação. A palavra doce e a amarga, a ambiguidade das relações. Era tão doce tua voz ao fim da tarde. Uma canção nordestina, um canto de liberdade.

Hoje já não sangra o peito, o vôo da águia bem pertinho de mim, já não produz o vento das horas boas. Tenho os olhos de antídotos de serpentes e o veneno de quem trilhou o caminho das pedras. O meu coração é que não aprende a lição, vive sempre em constante mutação.


P.S. Quero voar, alguém me empresta asas? Minha vassoura está em manutenção.

Espelhos...

 

 

Disse-me para ir ao encontro de mim. Falou isso quando me olhou nos olhos e perguntou com um riso de amigo nos lábios: não gosto de ver seus olhos assim. Eu olhei para o chão. Era um estranho. Quem disse que a estranhos abrimos a porta da alma? Ele disse baixinho e suavemente. Onde está sua alma? O que aconteceu com o seu olhar moleque que brilha o tempo inteiro? Não respondi. Não adiantaria. Ele sabia. Alguma coisa o fazia ter intimidade comigo. E eu não reagia.

 

Olhei para o outro lado. Ensaiei justificativas. Cansaço. Dia de chuva. Os estudos. A loja. Os filhos doentes na noite anterior. O carro que bateu o motor. O trânsito louco e as esperas que nunca acabam. Ele olhava o chão e brincava de riscar a areia com a ponta do sapato.

 

Sabia que eu estava mentindo. Mais que eu. Olhou-me com olhos de pai. E perguntou sobre o meu. Foi que percebi. Eu era órfã dos sonhos e nem sabia.

 

O ônibus chegou. Corri para apanhá-lo. Ele não disse uma palavra. Apenas manteve o olhar ciente, a calmaria das mãos cruzadas sobre a pasta de trabalho. E o sorriso de boca fechada, olhando-me cruzar a rua e entrar no ônibus.

 

Enquanto o ônibus partia. Vi que ele sorriu mostrando os dentes moderadamente. Vi o meu pai no outro canto da rua, e a minha alma sentou perto de mim no ônibus. Caminhamos em silêncio até o fim da linha. Ela me tocou a mão, sorriu para mim com uma palidez da ausência das letras e das palavras que complicam todas as coisas. Nunca mais invente desculpas. Nunca mais. Os estranhos costumam ver mais que os pertinhos do coração.

 

Pedi parada. O ônibus parou bruscamente e eu limpei as lágrimas que caíram sem que eu sentisse. Naquela casa da esquina, uma mulher, magrinha, que mal consegue ergue-se sobre os pés está morrendo. Os carcereiros a impediram de ir a uma igreja. E eram todos cristãos, graças a Deus.

 

Olhei de longe. Fechei os olhos. Morri com ela. E não tenho mais desculpas para o homem estranho. Ele vê mais do que os meus olhos conseguem chorar. Nunca mais direi desculpas. Ele disse: vá procurar a si mesma. Caminhe sozinha. E a alma me disse:

Procurar-me onde? Ficou doida? Desce do ônibus, pega a minha mão, atravessa a rua, console a mulher, chore. Chore. O silêncio é o maior carcereiro de todos os medos. Reaja. Grite. Mas não venha com essa de procurar-me que ando farta das vias orais.

 

Feche o caderno. Recolha as letras, desligue o computador. Vá ver se estou na esquina, mas trate de colocar óculos escuros enquanto a alma passear por aí. 

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