Outra coqueluche da Net

O Felipe me indicou para responder à nova enquete da Internet. Aguentem aí, é o que estou ouvindo.

 

Volume total de músicas em meu computador:
O último apagão que meu PC sofreu, foi-se boa parte de minhas músicas. Outras, estão em CD.


O último CD que comprei foi:
Estou procurando Vander Lee. Mas tenho mais a prática de "baixar" músicas individualmente.


Música tocando no momento:
Nalgum Lugar (Poema de E.E. Cummings; Tradução: Augusto de Campos; mus: Zeca Baleiro) - Simplesmente amo essa música.

Cantores que ultimamente tenho gostado muito de ouvir:
Nana Caymmi, Débora Vieira, Caetano Veloso, Vander Lee (culpa da Dequinh@), Zeca Beleiro, Rita Ribeiro, Adriana Calcanhoto, Chico César, Madredeus, Pink Floyd... ouço a música que toca, quando venho do trabalho e minha alma canta, na rádio oficial.

 
Músicas que, de alguma forma, significaram muito pra mim:

Quebra Nozes e a Tempestade (Tchaikovsky), Aids de Mim (Oficina Literária), Nalgum Lugar (Zeca Baleiro), Proibida pra Mim (Zeca Baleiro), Légua Tirana (Luiz Gonzaga), Ne me quit pas (Maysa cantando), e principalmente Prelúdio, cantando por Zé Ramalho (Raul Seixas).


Cinco pessoas pra quem eu passo a "Batuta Musical":
Manoel, Linaldo Guedes, Claire, Cherry, Dora Vilela
 


A luta continua, clique na tarja e assine a Carta ao Presidente. Continue divulgando

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Feche o seu BLOG no dia 29/06

 

Obs. Clique nas tarjas pretas e assine a Carta ao Presidente 

 

Chovendo em papel crepom

Chove muito, enquanto uma fogueira ardente insiste em queimar os teus azuis no meu abraço ao longe, de um tempo em que eu corria pelo vento, ao obedecer um coração que tinha as cores completas em agonia. Era uma tarde, sim, bem lembrastes. Uma tarde de um sol que ardia em mim deixando marcas na minha fala entrecortada. Não há palavra que salve a imagem que ficou do abraço bom na estação das partidas.

 

Você vai embora. Não houve tempo para as despedidas fúnebres e sempre achamos que em algum lugar zumbis fazem festa e sonham. Chove muito, sim, choro muito aqui. Como se a água de fora e água aqui dentro, pudessem revelar a última máscara. Eu poderia ser covarde e mentir. Ao invés de disso, a outra face. E a alma ao espancamento das letras e das maldições dos versos que nunca mais me trouxeram a luz que o primeiro e último abraço me contornou.

 

Em algum lugar o teu azul é o meu olho vesgo em ruas que entras e sais e nada muda. A tua alma colou na minha e ficou ali, no ônibus que não pegamos juntos. Nas malas que não trocamos no embarque. No cheiro do seu pescoço da cor dos índios. Era guerra. Vestíamos peles vermelhas, almas acesas, bocas que queriam o meio dia em ponto. Vem agora. Não posso. E o olhar não precisava de palavras pesadas e imprecisas que com certeza atrapalhariam a confidência das estrelas. Não fale. Não se solte de meus braços. Toque aqui, sinta como o poema moderno, das palavras que contornam a alma e umedece a retina. O meu olho ficou colado ao seu. E nunca mais fui sozinha, nem quando na travessia contasses os passos, as cidades, as casas, as pessoas que passavam na janela do ônibus. Os teus versos ensinaram outros tons musicais e outras dores das notas musicais que eu desconhecia. Sei apenas que quando me soltei dos teus braços, o amor desafinou a olhos vistos. Talvez, ilusão de ótica.  

 

Somos inocentes quando amamos. E a traição, é o cálice embebido na madrugada em que não encontramos o outro, e ele chora em outros braços que não os nossos. Era amor o canto da andorinha. O primeiro amor azul que me deu nojo. Embebido de vinagre, entornei o copo da cumplicidade e descobri-me sozinha adormecida em suas maldizentes palavras cruas.

 

O tempero é o tempo que corre. Panela nova, nova verduras. E as palavras que vão ficando gastas, infelizes e malcriadas. Não se esquece um amor procurando outro. Mas curando um para receber o outro de casa limpa e quintal novo. Você abraça outros azuis e experimenta outras cores.

 

Tire-me para dançar, indiozinho, tire-me. Aproveite a música em alto som no meio da rua, a quadrilha, a fogueira e o meu coração procurando o alívio de dias azuis escurecidos.

 

Tire-me para dançar, tire-me. Enfio a faca no tronco da bananeira e espalho bandeirinhas no teu coração só para dizer que as saudades não são proibidas, ao contrário, são tecidas na tinta vermelha que espalho no seu rosto de esperas, homem das matas, que me estende as mãos e me ensina caminhos de pedras duras, com o beijo prometido no fim do túnel, segredo que sorri e sonha.

 

O mistério é o segredo do longe, das promessas dos dias da conversa na calçada, a fogueira queimando e meu coração ardendo na palavra que pressenti, estava morta.  Ainda tenho o fôlego dos mortos vivos. De idade avançada, de cabelos embranquecendo que diz eu amo e amo e todas as palavras ditas são proibidas, mas nunca o poema lido no teu olhar de cinema novo. Ali, na tela, acenando para mim, no meio do Shopping Center.  

Tire-me para dançar, indiozinho, tire-me e me livre dessa prisão, grilhões do tempo, lugares e cartões de crédito. O meu amor, é mercadoria, divido em mil prestações a longo prazo. E não desisto nunca do prenúncio de famílias felizes no meu paraíso zodiacal. Teu signo não combina com o meu e mesmo assim, poeto-me. Dira

Luto

Imagem: Hannah com o espelho '89 (Wayne Forte)

Espelho, espelho meu

por vezes, olho-me no espelho a procurar quem sou. tenho um espelho grande no quarto. ele toma quase uma parede inteira. quando saio do banheiro, correndo para experimentar a roupa do dia, vejo que ele me olha com o olhar crítico. é a mãe que eu procuro nele. é a mulher. é a adolescente assustada com as alterações no corpo, agora adulto. É a mulher que foi dormir menina, e nem acordou... para ser adulta.

a boca, ainda carnuda, amanhece de um vermelhidão bonito. o batom vermelho realça o desejo de dias de chuva. e a menina observa a mulher a vestir-se para ir ao trabalho. põe sobre a cama a roupa íntima... os apetrechos internos. a bolsa e a menina observa a chuva cair no beco fazendo um estardalhaço de água caindo em alumínio.

a menina em mim corre para a janela... põe a mão na chuva... a mulher avisa que o horário se adianta... o espelho me acusa de coisas que não compreendo. o corpo não condiz com a minha cabeça e a nem a boca, carnuda com o batom vermelho que se ressente do beijo não dado.

como se tivesse mãos o espelho me puxa... toca o meu corpo, tenta mostrar o que eu não vejo. o corpo de mulher que sonha com o barco ancorado do outro lado do mundo, como se fosse a calda de um cometa, de onde ela caiu, por imprudência do destino.

ergo-me um altar diante do espelho. narciso. espelho ingrato. cara de poucos amigos, grita-me os ouvidos. a menina se assusta e solta-se de minha mão. eu a vejo abrir a porta, seminua e correr para a chuva. é apenas uma menina. uma linda menina, sentindo o toque da chuva sobre o corpo como se fosse as mãos do moço. a chuva tem o azul das promessas. o azul do primeiro amor. azul dos desejos que afogueava as regiões onde ela não ousava tocar com medo dos castigos maternos.

o azul do amor entre as mãos, tão natural quanto o seu sorriso brincando na chuva, banho nas biqueiras... sonho do primeiro beijo no menino mais lindo do colégio. e o espelho, como mãe que ralha na porta da cozinha, chamando do quarto. já vou! já vou! você vai gripar, menina! tô indo, mãe!

A mulher vira estátua na frente do espelho inimigo...sem a alma. a boca vermelha tem o azul dos dias passados, dos beijos roubados, das portas em que bateu e encontrou trancada. como a sua vida eternamente frágil, nas mãos de ventos contrários e inimigos.

a menina sorri para a chuva. a chuva redime a menina de todos os seus pecados. e eu a observo feliz, com pena da mulher agarrada ao espelho, tentando fingir que tem asas mas nunca aprendeu a voar.

em mim, o gozo do dia que chove e das muitas mulheres que me traduzem. a mulher que restou, órfã da menina, é apenas a quem muito se amou e por isso mesmo, muito se perdoou em mim, até a consumação dos séculos e das marcas de dentes nas ancas que o espelho denuncia.

Dira Vieira


* Aos amigos novos que visitam o meu blog (os do CDB, cujo link está ao lado), as minhas boas vindas e o meu carinho.

* E ao barquinho na outra margem, a promessa do dia azul claro, com chuva de esperança, no sol da nossa espera.

* PESSOAS, NA COMUNIDADE DO BLOG (SELO AO LADO) EU ESTOU NA VOTAÇÃO DO BLOG DA SEMANA. Portanto, visitem nossa comunidade e aproveitem e votem. É uma enquete em janela de pop up. Valeu!

Mariana, cabeça de papelão...

Foto:João Freitas (Miss Piggy)

Mariana tinha o peito povoado por buracos negros e dúvidas e uma alma faminta de todas as respostas. se ao menos não tivesse ambição, estaria na vida perfeita, de casa a calçada, e no outro dia, uma pequena variação, da calçada para casa, comida quentinha no fogão, marido perfeito, filhos perfeitos. e todos os dias o marido perfeito declamando-lhe quanto custa os seus sonhos para o bolso dele. era a vida perfeita, se Mariana esquecesse esses sonhos tolos de gozar a vida e ser feliz.

ela era o próprio buraco negro em dias de chuva, quando o cinza de seus olhos se confundia com a paisagem mórbida. era só ensaiar um aboio na sala de jantar que a empregada vinha correndo perguntar o que ela tinha. nada. Madalena não tinha nada. tinha a vida perfeita, e o marido perfeito e os filhos perfeitos e agora, uma empregada perfeita. e ela não precisaria nem cantar. nem que fosse apenas um aboio triste e imperfeito, naquela manhã de um janeiro qualquer.

sua alma, vazia de todas as cores, era um grande barco ancorado em alguma margem à mercê das piranhas do rio. e nem isso a intimidava, pois todos os dias Mariana ousava amar, contra as corredeiras, contra os dias tortos, contra os ritos de passagem perfeitos e completos que ela fazia questão de driblar. aprendeu a cantar e a conversar com as estrelas, já que os perfeitos ao seu redor falavam em línguas estranhas e desconexas. Mariana tinha desejos profanos e o sexo em brasa, querendo coisas imperfeitas, quem compreenderia?

até que um dia, depois de tomar o café da manhã perfeito. e de beijar os filhos perfeitos. e de dar bom dia a empregada perfeita. e de trepar com o marido perfeito. e de cruzar os muros da casa perfeita. e de beijar o cão perfeito. e cumprimentar os vizinhos perfeitos. e de cantarolar não os aboios, mas a música perfeita. Mariana tomou destino incerto na rua, sem sandálias nos pés, sem bolsa, sem documentos, foi ser imperfeita com a lua.

nunca mais se teve notícias dela. era uma louca. os filhos perfeitos a esqueceram. o marido perfeito casou com outra. o seu cão, não suportou e morreu de tristeza. e a empregada perfeita continuou perfeita porque o salário era muito bom.

Mariana virou uma estrela perfeita e um poema processo em sua lápide no Céu, o cemitério mais próximo do seu bairro. e ainda teve a sorte, de ter sua foto adorada todos os dias, pelo coveiro mais perfeito de que se tinha notícias.

Dira Vieira


P.S. Não acho que fotos ou textos se expliquem. Acho que eles falam por si. Por favor, só não confudam autor e obra. E quanto a foto, ela é chocante. Mas tem tudo a ver com a mulher perfeita do texto. E se quiser ler as explicações do autor da foto, cliquem nela. Eu a achei perfeita. O mundo ainda vê a mulher exatamente assim: um prato, um objeto, um quadro de curvas perfeitas.
Olhando a chuva cair...

Foto: Cidade dos Anjos

"Os teus seios serão, para mim, como cachos de uvas, e o perfume da tua boca como o das maçãs". (Cânticos dos Cânticos de Salomão)

Rebeca estava na porta esperando o dia findar por completo para, enfim, recolher-se dentro de casa. Chovia muito. Podia ainda sentir os pingos que entravam pela porta e tocava o seu corpo ainda úmido dele. Nesse momento de letargia, bem que poderia aprender a fumar. Daí, teria algo o que fazer alí da porta, onde esperava o moço voltar.

Como não suportava cigarros, jamais poderia fumar. Fechou os olhos e sentia as mãos dele a tocar os seus seios delicadamente, como se tocasse a uma santa num altar, com muito medo que ela se assustasse e o renegasse. Lembrou do primeiro dia.

Era meio dia. Eles não tinham mais que 15 anos, os dois, não a idade física, mas pela paixão que emanava de dentro deles. Ele a tocara como a uma santa. Delicadamente, segurando a boca miúda para beijar. Quase seus corpos não se tocavam verticalmente. Havia um campo de força que os guardava e os isolava da maldade do mundo.

Namoro infantil. Namoro de crianças. Dois adultos já bem vividos, e a meninice deles nos pequenos gestos de delicadeza um com o outro. Não havia necessidade de tocarem-se. Havia uma magia entre eles que traduziam todos os sentimentos... até os mais sensuais.

Até um dia, em que Rebeca, percebeu-se bêbada, como se houvesse comido da maçã, e coabitou com o moço. Era uma manhã quase tarde. Rebeca ria solto, seu moço a admirava como uma raposa à espreita das uvas saborosas. Rebeca era o sol do meio dia, seios pequenos, corpo cheio de curvas e ondas que a diferenciava das outras mulheres. Era de uma sensualidade infantil.

Havia entre eles uma cumplicidade de culpas e desejos. E Rebeca se deixou levar pelas mãos que a conduziam ao paraíso. Tocaram-se como se não houvera proibições. Mesmo que o dia não anoitecesse, e eles morressem alí mesmo, pelo veneno de tanto amar, morreriam felizes.

O moço, como um anjo pálido, de boca pequena, era como uma aparição, surgindo em pele nua diante dela. Tinha as mãos cheias de dedos e palavras mudas. Uma poesia de encantamento com asas que se curvavam sobre si. E ele se perguntava, como poderia ser pecado tocar aquele corpo de fada? Como poderiam ser açoitados em praça pública por se quererem daquele jeito? Rebeca e o moço desconheciam o perigo das luas. E habitariam seguros dentro um do outro.

Tocaram-se lentamente. Rebeca entreabriu a boca e a alma para ele e descobriu que o mundo possuía mais cores do que via, seus olhinhos de menina-mulher.

Enquanto espera a chuva passar, Rebeca fecha os olhos e mergulha em si, recitando o Cântico dos Cânticos, ainda úmida do moço, trazendo em suas mãos o formato dele, anjo de suas vontades tolhidas, ainda ereto dos desejos mal resolvidos, alí na porta, vendo os vizinhos passarem, enquanto se contorcia de prazer e dor, na espera que o céu se partisse ao meio e desse-lhe a onipotência dos deuses e a saciedade daquela boca que lhe traduzia os pêlos.

Ainda era uma menina, quando o moço soprou em suas narinas, a vida. E toda a sua pele se arrepiou de festa, farfalhando de gozo em sua boca. Por isso que hoje, toda a espera, é uma estação de prazer, onde ela se enche de graça a esperar o seu anjo, do fundo de suas quimeras.

Dira Vieira


P.S.1. Agradeço a visita da turma da Comunidade dos Blogs. Valeu Fadinha, Gil e todos os outros.

P.S.2. Cherry, ai lovi iu.

P.S.3. O meu sorriso se veste de azul e envia sinal de fumaça à Belém. Saudades são pedras lodosas às margens do rio em que tocas os pés. Em rítmo de São João, lá vai: "olha pro céu meu amor, vê como ele está lindo, olha pra aquele balão multicor que já no céu vai subindo..."

voando...

A imagem foi presente da Val (Pensar é um ato)

 

Ensinando o amor a voar

 

Ele era lindo. Tinha o azul do mar nos olhos. Era o garoto mais lindo da cidade. E sonho de toda menina da redondeza. Era o alvo de competição de todas. Coloquei na cabeça que o teria. Todas riram de mim. Onde já se viu, uma garota da cidade “grande”, feiinha (eu me achava), baixinha (ai que os apelidos eram muitos) e metida a revolucionária. Pois sim. Eu me achava. Parti para a conquista. Ele era um troféu lindíssimo. Uma bela imagem na parede. Morta. Eu diria depois.

Passei um mês na sedução. Mandava músicas pelo rádio da cidade (cidadezinha do interior tem essa vantagem), dedicando ao menino mais lindo da cidade. Roberto. As músicas eram sempre as mais “politicamente corretas”: Chico Buarque, Fagner, Gilberto Gil, Vinicius de Morais, Bossa Nova (ai como eu era metida). Lembro que um dia enlouqueci o pessoal da Rádio local, pedi Edu Lobo. Eles não tinham. Ofereceram-me as músicas mais populares, mais absurdas. E eu irredutível: Edu Lobo. Optei por Rita Lee. Mania de Você. Era o auge. A cidade veio à baixo. Que pouca vergonha. E eu, no microfone da rádio, forçando uma voz rouca dizia: Para Roberto, com carinho, de sua fã. Era o máximo.

Não deu outra. Fiquei com o rapaz. Foi apenas uma noite (eu não conseguiria mais, o coitado era um tapado, só pensava em... digamos, humm, deixa pra lá). Foi uma noite, na pracinha do bairro, sentados em um banquinho, com as meninas da cidade olhando pelas frestas das janelas e portas das casas vizinhas. O tempo? Das 19 às 21 horas. Não, eu não agüentaria mais que isso, pelo amor de Deus! O moço beijava que era uma loucura. Para um rapaz do interior, eu achava isso demais. Mas a gente não conseguia trocar duas palavras. E olha que até futebol havia aprendido para ter papo. Nada. Política? Eu era petista roxa (era, por favor, era). E ele? Não sabia nem o que era Jornal Nacional. Não tínhamos muita saída, senão os beijos, ah e como o moço beijava bem. Meu pai-do-céu!

Quando eu não agüentava mais beijar e segurar as mãos perigosas do moço, resolvi ir embora. Ele ainda pediu, pediu. Mas eu tinha mil desculpas. Precisava receber o lucro de minhas apostas. E precisava conversar com alguém sobre a vida. Ah, por algumas horas, ele conseguiu me deixar muda. Mesmo que os meus lábios tenham saído bem machucados. Putz, e como o moço beijava bem. Eu até renunciaria falar de política, e de futebol. E dava tempo? Ele não me deixava a boca em paz. E como beijava bem o rapaz!

No outro dia, era o assunto da cidade. As meninas me reverenciavam, queriam saber detalhes. E eu, desesperadamente, queria mais era esquecer aqueles olhos lindos, pedacinhos do céu, mas aquela mente que não conseguia entender nem quem era Edu Lobo, quem merecia isso?

Fui namorar o vizinho do meu tio. É, aquele barbudo, irreverente, mal falado, que fumava, usava moleton, bebia, tinha 1.90 e também beijava que era uma loucura (ainda quis saber se naquela cidadezinha, os homens faziam algum curso para beijar, poxa vida!). Namoramos alguns meses. Ele vinha a João Pessoa uma semana, na outra eu ia. A cidade não entendia o nosso namoro por sermos muito diferentes. Inda mais aquele maluco, que a cidade inteira implodia, eu conseguia falar de poesia, da vida, de política e ele a tudo ouvia, dizendo que eu era a menina mais pequenina que ele havia namorado, a menorzinha, e dona completa do seu coração. Para me beijar, ele tinha tanta delicadeza que me derretia. Tinha medo de machucar-me. Era alguém que além de beijar bem (e como também beijava esse moço), sabia dos segredos do meu coração. Nesse caso, em alguns momentos, as palavras eram completamente desnecessárias, nossos olhos se entendiam, nossas almas eram gêmeas de placentas diferente. Quando a mão dele tocava a minha, acho que ouvia sinos, e um silêncio absurdo ao nosso redor. Ele era um homem lindo. Por fora. Por dentro.

Pena que fomos cada um para um lado. Porque o amor tem dessas coisas, atrai, junta, revela, cria, aprende e ensina o outro a voar. Não foram poucas as vezes, que o amor me fez voar sem nenhum cinto de segurança. Sou meio suicida, sou meio culpada. Não acho que o amor seja loteria, é 100% atitude. A atitude de querer voar, mesmo que em alguns momentos se tenha que voar sozinho para que o outro aprenda a caminhar.

O amor não morre. Nunca. Ele só muda o brilho dos olhos. Hoje o nosso coração pula pela boca quando vemos "alguém" diferente. Amanhã, ele salta o coração por outro e outro e outro. Ele se renova, rejuvenesce e é o melhor creme para deixar a pele linda, saudável e com um brilho ótimo. O amor, não escolhe seus pares, ele é. E não está nem aí para o que virá depois, que quase sempre é um mistério do dia seguinte. Que importa? Só podemos viver um dia de cada vez. E o amanhã, se houver dores, o amor também encarregarar-se de levantar-nos do chão e enxugar nossas lágrimas. Quero a pele sempre limpa, e os olhos sempre brilhando de alegria e não de lágrimas.


Obs. Perdoem a ausência, além da falta de inspiração, tive momentos de caos tecnológico, meu pc foi invadido por um ser de outro planeta e teve seu sistema operacional completamente abduzido. Peço perdão pela ausência involuntária (deve ter sido praga de Cherry que andou elogiando a atualização quase que diária desse blog).
velhos diários rotos...

Foto retirada do site: http://www.vanet.com.br/users/to/gemeos.htm

desfio os laços de nós dentro de mim, como se fosse desfiando as dores, uma a uma. Vou arrancando os fios, descortinando os sonhos, repaginando  os dias com sede de sobrevivência. As marcas no espelho, são palavras tortas ditas e ouvidas, ciclos que não fecharam e outros fechados pelos fios... os fios tecidos na tensão dos dias e das esperas.

 

a noite chega correndo nos dias de chuva, e eu sento numa cadeira da cozinha enquanto escolho os feijões que irão para a panela no outro dia. a vida me conta os dias e eu conto os feijões que me sustentarão as mãos de dúvidas, de risos que não dei, de bocas que entrecortaram minha fala e tocaram fundo o meu coração.

 

tua alma conhece os detalhes do meu corpo quando apago a luz e te conduzo pelas minhas mãos, abrindo os caminhos que só a palavra tem poder de caminhar. e é esse verbo latente que me arrepia a pele, desde o olhar doce que me chegou de mansinho como uma onda gigante... silencioso e devastador.

 

estavas ali no espelho. com sete vidas, sete toques, sete chamados, enquanto eu desfiava a mim de tantos zelos e mentiras. desfio-me agora de minhas faltas, como se a tua ausência não me desse lindas palavras, mas frases incompletas, rimas mortas, poema triste que se joga do telhado. como será o contorno de tua boca? e com quantas naus te direi que não posso ir mais fundo do que já fui?

 

desfio de mim o medo de te ver chegar de repente, encher-me de mimos, olhar perdido, uma poção mágica, uma idéia louca e um sorriso que me farta. e depois, como gato que limpa as patas após farta-se de brincar com o rato, vai embora, sem olhar para trás.

 

algumas partidas são fios soltos, desfiados pelas minhas lágrimas salgadas, levadas na correnteza das ambigüidades. Foi assim que me olhei insistentemente no espelho e vi apenas imagens rotas de tuas mãos que deslizaram em meus seios e depois sangraram sozinhas. mãos que tocam o fuso. rosa de espinhos. boca de dentes bem à mostra. o teu amor me doi, mas prefiro-o, à falta.

 

é tarde. faz frio. de todas as vezes que te mandei embora, um dia tinhas que acertar o caminho da porta. e eu continuo a desfiar os pêlos, e a espalhar fios de Ariadne, antes que a chuva me desfaça os passos e deixe-me à mostra em outras tempestades.

 

a minha vida é um livro aberto e frágil, diário de saudades amarrados com fitas coloridas. tranco as folhas com as pernas que fecho e dou a chave a quem pode comigo decifrar os códigos: páginas criptografadas. ensaios de vida e morte, tubarões à espreita de carne fresca.

 

tenho a boca tesa e a esperança se equilibrando nas intenções das minhas mãos de faquir. quanto mais me furas os olhos, mais te desejo, vontades de camarim. feche as cortinas, cansei desses espetáculo de falas sóbrias. quero a intimidade das coxias e a tua voz que sussurra palavrões no meu ouvido, como ponto, quando esquecer minhas falas. ensaio outros folhetins e os dias de chuvas me ensinam a conversar com a rua.

 

meu nome, é diário antigo. fotografias recortadas, papel de bombom, beijo de batom, sorriso amarelo nos sonhos amarrados em fita vermelha. não sou mais ausências, tu vais, sobrevivo de lembranças.     

Prazer, Madame Min

 

Muita gente tem perguntado aqui o porquê Madame Min. Para quem não lê os posts antigos, vou tentar explicar. Começo por onde? Por 1965? Então tá. Agüentem o tranco. O ano é o da publicação das primeiras aventuras da personagem atrapalhada, amiga, parceira da Maga Patalógica. As duas, inimigas do Tio Patinhas. Pois bem, cliquem na imagem e encontrarão a história dessas duas. Limitar-me-ei à minha história. Combinado?

Meu pais eram evangélicos. Sou a segunda filha de três de um casal de missionários. Mas meu pai, contrariando as orientações da Igreja, gostava sim de estórias em quadrinhos, Rex, Tio Patinhas e todos os outros, Zé Carioca, Chico Bento, Luluzinha, e por aí vai. Devo a ele nosso gosto por literatura. Desde muito cedo ele nos ensinou a ler.

 

Era fascinado por Walt Disney, tinha gibis e livros pela casa toda. Autodidata, um dia resolveu aprender inglês sozinho. Comprou um dicionário, revistas afins e fitas cassete, assinou a revista TIME e passou a comprar gibis em inglês os quais lia para nós. Era muito engraçado. A gente ficava quietinho ouvindo o pai ler em inglês com um dicionário na mão e um caderninho de lado. Foi assim que ficamos também fascinados por Walt Disney.

 

Sua paixão era tão grande, que cada parente era um personagem. Ele achava uma característica em cada um de nós e lá vinha o apelido. Por exemplo, nós temos um tio que tem  muita sorte: era o tio Gastão, e a esposa dele: Margarida. Os filhos de minha tia, eram Luizinho, Zezinho e Huguinho (sobrinhos do Pato Donald). Minha avó, mãe de meu pai, tinha a sorte de enquadrar-se em dois personagens: ela era a doce Vovó Donalda e o Tio Patinhas (porque era avarenta como ninguém). Então, ora a chamávamos de vovó Donalda, ora de Patinhas. Meu irmão, era muito atrapalhado, meu pai logo o apelidou de Pateta (em segredo, para ele não ficar com raiva), mas oficialmente papai queria que ele fosse Pardal. Mas de inventor e inteligente ele não tinha nada, hehehe.

 

Meu pai, era o Professor Ludovico, autoridade de Patópolis, em noites de lua cheia, era o grilo falante (parceiro do Ludovico). A gente se divertia e ele aproveitava os personagens para nos ensinar outras histórias na literatura. Era muito esperto, esse meu pai.

 

E as duas meninas do papai? Ora, não podiam deixar de ser a Maga e a Min. O que tínhamos dessas duas loucas? A Maga, minha irmã e chamada assim até hoje, era (e é) ardilosa, engenhosa, danada, mas nunca teve sucesso em seus planos mirabolantes. E a Min? Ora, a Madame, era eu. Eu era gordinha (a maga não), desajeitada, apaixonada, vivia fazendo besteiras, e imitando a Maga. Essa era eu (ainda sou?). E o Manchinha Negra? Ah, todas as trapalhadas da Min eram por causa dele. Como ela se arrastava pelo Manchinha e ele nem dava bola. Ao contrário, usava-a para roubar dinheiro do Patinhas.

 

Algumas pessoas questionam o fato de eu usar uma bruxa como referência. Sinceramente? Nunca vi maldade na Madame Min. Até hoje quem me conhece sabe que sou do bem e chamam-me de bruxa, bruxinha, e sei que é carinhoso. Nunca vi onde isso pode ter maldade no meio. Tenho certeza que meu pai, não via mal nisso, apesar de ser religioso. Mais de 90% de minha família (lado do pai) é de evangélicos. E eles nunca repreenderam meu pai. Ao contrário. Tenho uma tia (a que chamamos Margarida) que quando me liga diz: oi bruxinha, como vai o seu Manchinha. E por aí vai.

 

Daí, o nome, que ficou na minha vida: Madame Min, a bruxinha, apaixonada e trapalhona. Ela, sem querer, já mandou seus amigos, os irmãos metralhas, para a cadeia. Daí, que ela não é má, apenas atrapalhada. E eu, apaixonada por essa bruxinha, não consigo ver maldade nela, nem quando é cúmplice da Maga para tomar a moedinha nº 1 do Tio Patinhas. A Madame sempre fez as maiores loucuras pelo amor do Manchinha (aliás, onde andará o meu Manchinha?). E para não ser rejeitada, bem que tentou ser má e diabólica.  

 

Aos mais radicais, perdoem-me. Penso que o mal, é o que sai da boca do homem, não o que entra. Não sou adepta do mal, nem de bruxarias. Creio em Deus, acima de todas as coisas. Mas dou boas e sonoras gargalhadas com essa bruxinha que simboliza bem o que foi minha infância. Sou amarrada nesse cabelo desgrenhado dela. E nesse corpo escultural e sexy. Não amo pelo que vejo, amo, principalmente o que não consigo ver. Acho que foi essa lição que meu pai me ensinou, quando escolheu para mim, uma figurinha desengonçada para representar sua filhinha. Ainda sou meio bobona, apaixonada, voadora, meio ET, meio louca, mas nunca fiz distinção entre as pessoas, como as que deveria amar e as que não. Aprendi a amar as pessoas pelo invisível delas.

talvez eu seja mesmo um ET...

Imagem: Edouard Manet

Do sono dela
 
 
Observo o anjo a dormir sobre o meu lençol branco. Tem um sorriso nos lábios, as pernas levemente cruzadas e sorri no canto da boca. Fico a mirá-la aqui do sofá e peço a Deus para essa noite não acabar nunca e ela ter que ir.
 
Enquanto dorme, velo o seu sonho, vejo que ela sonha, talvez imaginando que eu a olho, corpo despido, ombros que me convidam a tocá-la. Como é linda a menina que amo. Como sorri docemente pra mim. Nos nossos espelhos, tão diferentes, eu penso que sou ela, ela pensa que sou eu. Sou adorador. Nela, minha procissão. Vendo-a assim em minha cama, sei dos altares daquele colo que me possui.
 
Ontem quando chegou estava agitada. Tinha a voz entrecortada de palavras que não me diria se tivesse ao menos um pouco de juízo. Eu a chamo de macuxi, porque parece uma indiazinha dessa tribo, e quando ela fala, ou sorri, vejo a floresta virgem na sua face, erva aromática em seu hálito, incenso que me inebria de paixão, mãos pequenas de rainha má. Gesticulava como uma criança. Chorava como um anjo, e dizia-me cheia de entusiasmo do seu amor entalado na garganta, e sufocado na corrida do relógio contra o tempo e contra a nossa alegria. Que importa o mundo imperfeito lá fora?
 
A minha macuxi, com os lábios quase finos, e o inferior um pouco mais grosso, gosta de chamar-me meu anjo, quando na verdade, é ela a razão dos meus dias tão loucos. Basta sentir sua presença, e sei que todos os meus hormônios masculinos se agitam dentro de mim. Preciso desligar o ar-condicionado da sala para ouvir a música que meu coração canta pro anjo, como uma sinfonia de Bach. Tum, tum, tum. Descompassado, sei que a tradução tem um nome: macuxi. Minha indiazinha que sonha e ri.
 
Enquanto a olho dormir sobre a minha cama, depois de termos conversado até tarde, depois de fazer amor e sonhar, sinto que se ela for, vai me partir em mil, como se rasgássemos um livro de mil páginas, espalhando suas letras ao vento. Sei que sou seu escravo. Desde o primeiro dia em que ela derramou café quente sobre o meu peito em uma livraria no centro da cidade. Desculpe. Disse o anjo com a carinha mais linda do mundo. E eu, inusitadamente disse sem entender o que dizia: obrigado. Ela riu. Eu ri. O café quente queimando o peito. O coração ardendo de uma forma incompreensível. Era a minha macuxi, tomando posse das terras sem dono do meu coração. A única posseira a quem eu daria sem pestanejar a escritura de doação para sempre. Ela fincou em mim sua bandeira de descobrimento.  
 
Eu a olho dormir. Lábios vermelhos. Lábios que me amam. Braços fortes de quem manda embora antes que seja ela a abandonada. Ela me disse dos sonhos não realizados. Dos seus desejos de menina inocente. Dos beijos que não deu, das bocas que mandou embora. Dos homens seus, das lágrimas tortas. Contava tão inocentemente que eu não conseguia ter mais que um leve ciúme, senão a vontade de embalá-la como criança. Quisera eu ser dono desse anjo que dorme sobre o meu travesseiro. Ser seu homem, seu pão e vinho. Ser o seu cálice de contentamento. Suas maçãs na palma da mão e seus seios como candeias.  
 
Logo o sol vai nascer. Vou abrir a janela para acordá-la. Não consigo dormir com medo de vê-la voar pela janela. Ela dorme e eu vago, como zumbi de mim mesmo, atônito, completamente apaixonado. Uma mulher sobre o meu travesseiro. Uma menina, que goza como mulher feita. Toma as rédeas do amor, me doma, me deixa aprendiz em suas mãos de fada. Mas que ainda assim, me chama para brincar de esconde esconde sobre a grama do jardim. Quando dorme é tão frágil, sou eu seu tutor, seu dono. Sou eu que velo seu sono. Mas é ela que toma conta de mim.
 
Não sei bem o momento em que não fui seu. Antes que houvesse vida sobre a face da terra, e quando o vazio se movia na escuridão de minhas dores, eu era dela, minha macuxi dos lábios de mel, meu anjinho dormindo sobre o meu travesseiro.
 
Ela se mexe. Sorri. Tripudia do amor que sinto, finge dormir. Sei que sabe que a olho, pois faz poses sensuais e eu me derramo na sinfonia de Bach. Sou dela, desde a fundação das estrelas. Seremos nós, ainda que estejamos longe até um dia. É a minha promessa de vida, e de agonia.  
 
Dira Vieira 
é preciso parar de chorar...e caminhar

Foto: Rita Silva

Macuxi

 

nos dias de tempestades

o que sei de ti

é o que me acalma

e desnuda a pele

 

não há frio

no escuro dessas horas

e já não há motivo

de sobra para chorar.

 

o teu beijo

é o sinônimo do tempo fértil

- na minha tez -

daquele que nasceu na terra

 

há um silêncio

entre o que sei de ti

e o que me completas

 

sou tuas falas breves

flauta doce na floresta

segredos que ninguém vê

 

sei que quando vens

é prenúncio de paz

                     e guerra.

Dira Vieira 

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