

Steven Seagal e Chuck Norris
A Guerra de Logan: Em Nome da Honra (Logan's War: Bound By Honor)
Nacionalidade: Americana
Ano de Produção: 1998
Direção: Michael Preece
Elenco: Chuck Norris, Eddie Cibrian, Joe Spano, Jeff Kober, James Gammon, Brendon Ryan Barrett
Quanto custa a dor de uma perda? Não consigo dormir. Choro a dor do menino. Aí ligo a TV e vejo Chuck Norris e um belo rapaz fazendo justiça com as próprias mãos.
Um juiz e toda a sua família é assassinada às vésperas do julgamento de um mafioso. O filho do casal, único sobrevivente, jura matar os assassinos de sua família e prepara-se durante 15 anos para fazê-lo.
No seu caminho, ainda encontra uma mulher que apanha do marido, juntamente com o filho, que não é filho do homem. E ele mais uma vez faz justiça: como dispõe de muito dinheiro deixado de herança pelos pais, Logan aconselha a mulher a mudar de vida e a ajuda para tanto.
Depois, segue o seu intento, infiltrando-se na máfia como atirador, para cumprir o que determinou aos 10 anos de idade: matar os assassinos de sua família. E ele ainda avisa ao FBI de seus intentos.
Ao final, a policial, alerta ao investigador que os sobreviventes mafiosos, não podem ser testemunhas contra Logan, até porque, eram assassinos e mataram a família de Logan. A policial sugere ao investigador, fazer vista grossa já que foi Logan que resolveu um caso de mais de 15 anos. Aí, a frase que eu não sei se aplaudo ou se cuspo no chão com tanta hipocrisia. O investigador, que aceitou de bom grado receber ajuda de Logan, olha o infinito, faz cara de homem da lei e diz que isso não dá o direito a ele de ser justiceiro, e portanto, vai à caça de Logan.
O filme termina e eu continuo angustiada com a morte do amigo do menino. E aí eu choro. Quando eu era criança tinha um terrível medo de policiais por um episódio específico com a minha mãe. Como em todas as categorias, há os bons e os maus. E fico imaginando as chacinas realizadas por policiais. E nos inocentes. Nas pessoas que morrem todos os dias e a gente não se importa, porque eram pobres e a mídia estampa: traficantes, ou marginais. Qualquer pobre que morre é traficante.
E penso também nas esposas de policiais que não possuem paz e esperam aflitas os seus maridos chegarem todos as noites sãos e salvos. E fico pensando na policial que estava no seu dia de folga e morreu na saída do túnel em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, quando parava no sinal vermelho e ao ser abordada por assaltantes, resolveu dar partida no carro, já que deve ter pensado no seu filho que estava com ela. Atiraram nela.
Fico pensando na criança dentro do carro vendo a sua mãe morrer. E eu choro. Não os conheço. Nunca os vi. Mas eu choro. E não consigo dormir. E são duas da manhã e a Tv continua ligada e fico pensando no que fazer para conseguir parar de pensar no menino e na sua dor da perda do amigo.
E aí, dá-me um desespero tão grande por me lembrar de Daniel que foi morto há 15 dias atrás e seus assassinos continuam foragidos e a polícia e a justiça não conseguem resolver o caso. E a mãe de Daniel chora. E os seus amigos ainda choram. E eu choro e não consigo dormir.
Infelizmente não temos Chuck Norris, nem Charles Bronson, ou Van Dame, ou Homem Aranha, ou o Superman (ah, esse último morreu), para que venham em nosso socorro e façam o que a justiça não possui forças para fazer.
Há um álibi para tudo. Há um habbeas corpus guardado na manga e o sistema penitenciário brasileiro está falido e não comporta mais tanta gente. O que vamos fazer? Coleção de presos? As escolas estão vazias, os semáforos repletos de pedintes, crianças, malabaristas, ladrões de mulheres sozinhas.
E eu não consigo dormir porque ainda não descobri o esconderijo secreto do Batman, e o Homem Aranha que ouvi falar é um bandido que escala prédios no Recife para roubar apartamentos. Alguém me diz onde mora Steven Seagal?
A frase do agente do FBI grita no meu ouvido. A dor do outro não lhe dá o direito de fazer justiça com as próprias mãos. Está certo. Ele está certo. Mas nesse caso, passaram-se 15 anos e a Máfia tinha vários álibis e bons advogados. E a polícia, mesmo sabendo quem eram os assassinos não tinha forças para colocá-los na cadeia. É a lei. Em qualquer país. Todos têm direito à defesa. É certo. E ganha quem tiver o melhor argumento de convencimento. É a cena, o show.
Eu votei em um presidente que acreditei, ao menos, seria o sonho subindo o planalto. Não era um sonho. Era a continuação de um pesadelo. Só mudam os atores, a cena é a mesma. A novela, a mesma, como a dos nossos pais, e avós e tataravôs.
O mundo não mudou. Quero dormir e não consigo. E choro. Fico pensando aqui com meus botões, onde será que mora Chuck Norris? E eu não consigo esquecer o olhar confortante dele quando coloca a arma na cintura e se lança na frente de um carro em movimento para matar o chefão da máfia. Tento não esquecer que os heróis justiceiros estão apenas nos filmes americanos. E daqui há pouco preciso estar acordada para trabalhar. E não consigo parar de chorar. Filmes americanos me fazem chorar.
Eu só queria adormecer e acordar nos braços de Steven Seagal.
Dira Vieira
Estátua de sal
figuro na lista dos mortos, estátua de sal no centro da cidade. soldado anônimo, sem honra nenhuma. traidor. séquito do amor que não vingou. agenda não cumprida, espera do beijo prometido e sonhado. destino que a palma da mão não mostrou. linhas tortas, toda metade. passagem vencida, trem que partiu e não me levou.
figuro na lista dos vivos mortos, poeira com tempo certo e hora marcada à dor. minha vida, flanco aberto na minha própria tirania, escorre os cacos pelo que sobrou. não serei nunca mais a mesma. nem há voltas aonde existe dor. e eu me despeço de todos. quando o que tenho em mim, é o que me negou. quisera ter o controle dos riscos e domínio sobre a imensidão. era a tua boca meu alvo primeiro. braços que me apertam silenciando o amor. sou coragem à deriva, soprada pelo vento, zumbi de partida. estou indo embora, para sempre. levando o que nunca tive, metade do que sou. sou tua, como herança. a parte que te cabe, parcela maldita. era o sonho do pesadelo mítico. bruxas à solta no coração do poeta.
sem ti, sou o moleque no sinal que fecha, manada em disparada, poesia sem rima ou rumo, telefone que não toca, nem por engano, voz que não decifrarei, encontro ao acaso. minha alma que jamais desconhecerá a tua, mesmo nos esbarrar das estrelas.
éramos azuis. metade verdade, metade mentira. o amor não tem volta, mas tem agonia fria, do que ainda não findou. telegrama fonado, estágios sublimes de encantamento. um dia desfaço-me, e sou. como quem abre a porta e aporta no paraíso. correr na praia, ler um bom livro, recitar poemas, ver um filme, sentar numa mesa de bar, rabiscar teu nome no guardanapo e fazermos juntos barquinhos de papel. enquanto as mãos brincam de tocar o fundo, das margens. o amor que ficou é bebê de colo, tateou o que não conhecia e se ferrou. não suporta a mudança dos ares. só eras paisagem nas ventanias. Em tempestades, companhia fria.
após sombrias tentativas, é difícil. O amor é retrato de lambe-lambe em preto e branco. e eu, vazio de palavras que não tecem nem fiam:
quem me dera ser poeta como aquele que restou.
Dira Vieira
Ele desligou o telefone e eu procurei o chão debaixo dos pés. A pele, antes ouriçada pelo pensamento de estar com ele, agora recolhia-se como se o tempo tivesse castigado-a sutil e pacientemente. Ele era da rua, como os gatos em noite de lua cheia que faziam festa no telhado, uivando como desesperados pelas suas amantes. E a minha pele agora, estava encolhida, como a ressentir-se dessa falta.
Eu ainda o esperaria, nos dias que aquietam a pele e resseca a nossa mocidade dos desejos perenes... o céu era o limite daquele desejo que por tanto tempo eu tentei decifrar e nunca consegui traduzir-me nele. Tão diferentes e próximos que a distância geofísica só intensificava essa transparência mística. Se ele dissesse estar doente, certamente eu adoeceria junto. Na apoteose, todo amor é carne e unha, até que venha a primeira desilusão, na dispersão das fantasias.
Agora ele desligara o telefone e eu ainda sentia o seu hálito quente no meu pescoço, contando de suas viagens e das pessoas interessantes que ia conhecendo em cada cidade. Anita, uma senhora gorda que conhecera em São Luiz, no Maranhão, lera a sua mão. Ele me disse que ela vira em suas linhas uma mulher pequena no seu destino. Ele se negava a aceitar essas coisas místicas e eu só ouvia, torcendo os dedos para que a senhora lesse a verdade nas suas mãos.
Só sei que o queria. O caixeiro viajante da modernidade, trazendo um livro de Rimbaud em sua bagagem e recitando versos de Clarice. Não sabia que os homens gostavam de Clarice. Ele respirava Clarice com o seu jeito delicado, de quem gostava de cuidar da pele, do cabelo, da aparência, e adorava ler Clarice. E Rimbaud, de quem não se desgrudara nunca.
Sei que ontem quando desligou o telefone, percebi que a distância era um osso duro de roer. Uma ponte entre o que sentimos e o que imaginamos ser. A realidade é sempre uma faca de dois gumes. Presente, precisava tocar mais, beijar mais, senti-lo dentro mais vezes, na intenção de fazer reservas dos seus carinhos e de sua presença, para não morrer de inanição quando ele tinha que viajar novamente. Da última vez que o toquei, lembro de morder sem querer os seus lábios. Queria o seu sangue misturado à minha saliva. Ao menos se ele beijasse outra por aí, ia lembrar de mim, quando machucasse a boca. Era minha vingança.
Dessa vez, após desligar esse último telefonema, sabia que Luiz não voltaria para mim. Vi isso em seus olhos, mesmo quando eu ainda tentava abastecer meus reservatórios de carinhos. Ele me deu tudo. O que tinha. E o que não tinha. Sei que dei tudo. Principalmente o que nunca tive. E Luiz ia me deixando no deserto das esperas e da distância que perpetua o cheiro, mas que também calcifica o desejo.
Mocinha, eu volto. Ele disse quase murmurando. E eu respondi, até logo. Sabendo que os véus que rasgamos na conquista um do outro, faca na barriga das resistências, tinham sido a chave certa para nunca mais. O meu amor tem a dimensão autoritária da sua voz que me chama, quando os meus pés me levam para longe. Ninguém ama tanto assim impunemente. Luiz era um menino grande. E eu depositava em suas mãos a incumbência de tomar conta de mim, uma menina eternamente assustada dos perigos da noite. Isso nunca poderia dar certo. O armário do outro é inviolável... e o secreto dele, era a minha boca ávida de seus pesadelos.
Mocinha, eu volto. Ele dizia enquanto eu apenas chorava, tentando organizar as reservas no meu peito. Aqui, um beijo, alí, uma palavra, desse lado o cheiro dele, desse outro os olhinhos fechados enquanto gozava... Só a sua voz que repetia o meu nome enquanto me amava, ficou como eco por toda a sala, enquanto eu mutilava minha dor, fazendo em pedacinhos a sua foto nua. Se tem que ir, que vá de uma vez.
* em homenagem ao texto do César, do post de (23/05/05).
Dira Vieira
Foto: http://felinos.com.sapo.pt/leao.html
Eis-me aqui
Nunca entendi a posição passiva das pessoas de esperarem que os milagres caiam do céu. Sempre fui muito metida. Pelo fôlego, pelas narinas. Com a coragem saindo pelos poros, apesar de uma timidez fora do comum. Fiz até teatro para conseguir sociabilizar-me no mundo. Aprendi com a minha mãe e depois com os movimentos secundaristas, na canção de Geraldo Vandré: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer...".
A minha vida inteira eu fui muito afoita. Tomei a iniciativa em tudo. Até nos beijos roubados na escola e depois na universidade. Quem importava se o garoto saltasse fora depois do primeiro beijo? Ao menos eu ia ter dado o primeiro passo, o seguinte não me pertencia.
Não vou dizer que sou 100% corajosa. Alguém é? Mas sempre travei uma grande batalha comigo mesma para conseguir ser verdadeira ao menos para mim. Sou transparente até quando penso que minto. Entrego-me toda. Sem reservas, ainda mais quando sinto que o terreno ao lado, pode ser (não necessariamente é) seguro. Talvez por isso que as decepções sejam tão constantes em minha vida. Por acaso me omitiria de lutar? Ou de recuar no campo de batalha com o inimigo disposto a tomar minha cabeça numa bandeja?
Adolescente, nunca possuí a beleza padrão das adolescentes de minha época. Então eu tinha que "aparecer" pela inteligência, pelos movimentos sociais, pelo teatro e pela literatura. Os meninos se encantavam comigo... mas sempre ficavam com as mais bonitas. Nunca entendi. Hoje até que entendo. Mas eu sempre era a primeira. Primeira a tomar as iniciativas, a roubar beijos, e a sumir do mapa quando eles ficavam "apaixonados". Quando o amor é via de mão única é um fardo pesado. Quem o suporta?
Hoje, não entendo a passividade das pessoas, esperando um milagre dos céus: "Se Deus quiser... se Deus permitir, se isso, se aquilo..." E os dias passam. E vamos mergulhando num marasmo depressivo que fecham todas as portas de nossa sanidade. Eu me recuso a esperar os dias que se arrastam sobre a minha impaciência. Aí, as minhas irmãzinhas cristãs me olham com uma certa cautela quando eu falo o que tenho que falar. Ah, o marido de fulana a abandonou, ore, querida, ele vai voltar. Aí, a moça, fica passando fome com uma penca de filho, esperando que Deus toque o coração do dito cujo e ele volte para casa ou ao menos, alimente as crias. Ah, me poupe. Não sou contrária à dependência de Deus. Sou dependente desse amor, e dessa misericórdia dia após dia. Só não me conformo com a passividade. O bom combate precisa de armas. Quem vai pegar nas armas? Quem vai às trincheiras? Quem vai derramar o seu sangue pelas suas conquistas? Deus? Ele não precisa lutar. Deus é vencedor. Quem precisa brigar e lutar somos nós. Ele é ajudador. Não aquele paizão que faz todas as nossas vontades sem que nós derramemos um pingo de suor possível. Ora, "abre a tua boca, que te encherei".
Em cada versículo e página bíblica, vejo as bençãos só vêm precedidas de lutas e muita disposição dos abençoados em serem merecedores das vitórias. O que seria de David e de seu povo, se ele não tivesse enfrentado a Golias? Jacó lutou com um anjo para ter a sua bênção. Por que em pleno século XXI as pessoas ainda esperam sentadinhas o milagre de Deus?
Amar é uma decisão. Não sou uma fortaleza. Sei que meus últimos dias têm sido uma sucessão de dores particulares e secretas. Preciso de Deus. Mas não há médico que me cure, se eu me negar a tomar os remédios receitados. Eu preciso decidir fazer a MINHA parte.
E a minha parte, é decidir, derramar lágrimas e suor para conquistar o meu alvo, o meu milagre de Deus. Ainda que o céu escureça, e não faça luz no meu quintal, sei que Ele estará ao meu lado, mesmo quando eu não consigo realizar os meus desejos. Tomara que nunca me falte a vontade de resistir à minha preguiça, cansaço, apatia, letargia, e falta de fé. Precisamos apenas matar um leão da passividade por dia. E manter minhas feras internas bem alimentadas e devidamente presas.
Dira Vieira

Foto do site: Fotos, Viecher und Wasser
Apenas um terço
não teço mais comentários sobre os dias que me arrastam como folhas secas no chão. e nem estamos no outono.
só digo de mim dos dias quentes. e a tua falta que arde e queima, mas não mata, como bala de festim.
antes, quem dera, o chão abrisse e dividisse-me em duas. duas bandas, quatro palavras cruas, não quero não amo.
é essa fome que me deixa nua que te chama. feito larvas de paixão incandescente escorrendo como beijos ladeira abaixo.
o amor que nos negamos, nunca sorverei de ti. já te sou condenada ao vazio das horas mortas.
ata-me a ti. antes que o sim seja um não de revolta. não sou mais eu, minha sombra fala por mim. não como, não ouço, não falo, não vejo. ata-me, a ti.
Camila recebeu a notícia bombasticamente. Seu amigo de colégio fora assaltado na rua de casa, e como não possuía nenhum valor consigo, foi espancado. Sua idade: 16 anos. Ainda caminhando, foi para casa. Teve medo que os pais não acreditassem, resolveu dormir. Acordou com dores. Baço, fígado destruídos e costelas quebradas. Danielzinho foi levado ao hospital, de onde não saiu com vida. Melhor aluno do colégio, melhor tudo para os seus pais. Danielzinho faleceu sábado após passar alguns dias em coma no Hospital de Traumas.
Seus amigos se revoltaram. Sua família se indignou. O cortejo fúnebre arrastou dores, onde passava, choramos a mesma dor. A família de Danielzinho doou suas córneas. Suas janelas abrirão outros moinhos.
A indignação dessa tragédia, logo, logo será esquecida. Não há consolo para sua mãe. Quem perde um filho perde metade de si. Eu não o conhecia. Mas a dor de minha filha é dor minha também.
Danielzinho era um bom menino. E bons meninos vão morar no céu. Criou asas e voou. E como já banalizamos a dor, brevemente será esquecido, e os seus assassinos irão ao cinema no Domingo. Quem precisa de meninos bons?
* Imagem retirada do site: Porto do Céu: Arte e Simbolismo
foto: Tonel (Antonio Eligio Fernández)
El vómito es la cultura (Vomit is Culture), 1998
Meus pêsames à política brasileira que me dá nojo e ânsias de vômito. Nunca tive tanta vergonha da raça humana na figura dos políticos brasileiros. Os últimos escândalos me deixaram com muito nojo.
Resumo da Ópera
não, nada vai bem.... e o fundo do abismo, tem as minhas mãos espalmadas em sacrifício. em quantas luas aportarei meu quilombo?
Dira Vieira
Foto encontrada no blog:A los que buscan
desabafo
quando me vi sem chão sabia que o meio era mais embaixo da curva dos dias nas esperança das horas, ponto cardeal do centro do mundo: hemisfério sul em chamas. não consigo dormir sem você.
quando me vi sem pão, sabia que tua carne era o espinho da tempestade, vendavais dos meus copos d’água, ilusões de quem sonha. Riso, medo, insônia elixir na boca da noite, tua boca intencionando a vida e morte.
viver é um risco sem volta, meio do caminho andado, meridianos... Se parar afunda - mergulhar escapa. E o mundo continua girando ao contrário, espelho de almas em alto mar, ancoradouro de palavras tortas.
quando te vi, sabia-me náufraga. Ambiguidades. Apaixonados correndo na areia da praia. Céu virando manto de noite e as andorinhas fazendo festa no papel crepom. Duas bocas. Dois abismos. As mãos que tocam um instrumento, são as mesmas que tocam a minha ânsia. De vômito. Preciso de ti. Como adoradores dos deuses de barro. Que não falam, não ouvem, não vêem. Imagem bonita que pensa, numa redoma, onde mortais não alcançam. Féretro em cortejo fúnebre. Ninguém ultrapassa esses muros. Senão os escolhidos para o aplauso sem troca. Tomates frescos. Riso falso. "Oi, querida, saudades". E os vermes fazendo festa na infantilidade do medo de abrir as pernas do mundo e exorcizar demônios. somos covardes.
quando me vi, eu já era nada. Entregue. Exército descompassado. Vintém, cruzados novos. Trocas, trocas, trocas. Mercado negro de interesses escusos, sujos. Preciso, preciso, preciso. Quebrar os totens, embandeirar entradas e desvirginar o meu pensamento puro de que todas as pessoas são anjos azuis. Não são. Nem todas as cores possuem o vermelho das tuas intenções. Penso todos os palavrões para te dizer, mas não consigo e só repito a mim e aos ventos, com os pés no movediço dos dias: te amo, como quem ama a contramão do ódio e se arrepende de ter amado. Nunca mais deixarei minhas vísceras à mostra, para que estranhos contem meus ossos. Em mim, fica essa inclinação rebelada pelo perigo, renovando células pela paixão de ser, desacreditar e crer, acima de todas as estrelas, para sempre depender da fé.
Dira.
P.S. Ando ausente dos blogs amigos por estar no estaleiro, tratando a saúde. Mas logo, logo, estarei sã e salva de volta.
Foto retirada do site: Rádio das Nações Unidas
No dia em que virei do avesso
Eram sete horas da manhã quando o relógio me acordou. Percebi que meu lado de dentro dos braços estava diferente. Como uma blusa que vestimos pelo avesso, as costuras da pele estava pelo lado de fora. Achei que eram confusões de imagens de quem acorda. Olhos turvos, remelequentos, poderiam enganar-se facilmente pela névoa dos dias anteriores. Mas não, a costura alí, cerzida com linha vermelha, quase lilás. Percebi nos meus seios, um vermelhidão de veias perpassadas, cruzadas como sinais de trânsito em fotos que se tiram do alto à noite. Eram veiaszinhas que se cruzavam e piscavam para mim como luzes pequeninas. Engraçado que não me assustei. Esfreguei os olhos, limpei o nariz, escovei os dentes (que dentes?) Dentro de minha boca havia um oco, com o nariz por dentro, e quando eu tentava colocar a escova dentro da boca, era fora que ela aparecia. E eu ri muito, mas o riso saia dentro de mim.
Lembrei de tocar o resto do corpo, e com a cara meio enojada, saí contando as vísceras e tocando os órgãos, que estavam todos cobertos por uma película azul piscina. Piscina??? Nunca me senti tão ridícula. E até engraçada, se não fosse ter dado fé do local do coração onde havia um grande buraco. Em seu lugar, alguns versos, algumas poesias esquisitas molhadas de sangue, pingavam no chão do banheiro. Era uma poesia de ausências e de recados sutis. Para quem ele escrevia, seria para mim ou para o seu ódio?
Eu estava pelo avesso, como todos os dias de minha vida, desde o dia em que acordei cinza sentindo a falta dele na minha cama. Olhei para os lados para entender. Sabia que o vazio alí, naquele lugar tinha a exata dimensão daquele verbo, e da palavra maldita tantas vezes e exaustivamente recitada ao telefone enquanto sussurrávamos paixão e desespero. Comigo, o amor é sempre um desespero sem causa de quem não tem mais tempo, só a pressa dos dias na vontade de viver. O coração, agora faltando. Não apenas um pedaço, como deveria ser pela ausência do moço, mas todo o órgão. O meu corpo, antes templo, era agora ruínas de um amor que não vingou na semente. Onde andará o meu amor?
Nesse dia, procurei uma blusa que coubesse a alma, e tratei de cobrir a pele da saudade, para que ninguém percebesse que sem ele, eu era o avesso da solidão e falta. Por mais que me catasse os pedaços, nunca mais poderia ser a mesma. Porque em mim, ainda ardia o desejo por ele. A vontade de vê-lo nos sinais de trânsito, nas ruas cheias, nos temporais que inundam as ruas do centro da cidade. Ainda espero que os dias cinzas nos esbarre um no outro, com guarda-chuvas coloridos, a minha boca de batom vermelho-puta e eu possa vencer o medo e desejá-lo às luas contrariando a prudência e os roteiros de bons comportamento. Quem se importa se a paixão usa batom vermelho-puta?
Hoje, visto roupas pesadas, escondo as marcas dos avessos, disfarço a falta do coração, uso as máscaras de um Gibraltar desbravado, Dulcinéia sem esperanças, Dom Quixote pessimista, Peter Pan traiçoeiro e machista, fadas e bruxas ao contrário, meninos maus com notas baixas. Agora, sou choro ressecado na ponta da língua: febre alta e colesterol a mil, marcas de um tempo carrasco que me ensina com todas as letras, que não somos nada, até o pôr do sol. Na pressa dos dias, voltaremos ao pó, de onde saímos e seremos apenas palavras bonitas sobre a lápide fria.
Ao fim do dia, escondo as costuras, esqueço guarda-chuvas nos banheiros públicos, onde vou de vez em quando renovar a maquiagem, escondendo a alma e as marcas do que estás em mim, na voz mansa e apaixonada que ainda ressoa em meus ouvidos como heavy metal. Dói aqui. Dói tudo em mim. De herança, guardo a esperança do beijo que não me alcançou o céu da boca, mas que me estralhaçou a alma e me deixou pobre de jó, perdida num canto, como os guarda-chuvas em dias de sol.
Dira.
Ritual
Nas minhas estações
Tu és um ciclo
- interrompido –
de um tempo quando
me traduzias ao pé da letra
O que me toca
são outonos febris
de temporais que me assolam
em canções de dormir
Em mim, teu fogo,
a minha pele morna
onde o que é áspero é espera
verões e rios de faltas
desembocaduras de mim que vão embora:
como num ritual
bebo o teu ódio
- sumariamente -
embalada pelas tuas ausências.
Dira Vieira

Foto: www.charges.com.br
Inversão de valores, eis o mote da "modernidade"
Fico imaginando o que faz as pessoas serem politicamente incorretas e se acharem o máximo em sê-lo.
Cena 1: Sete horas da manhã, pais deixam filho na porta do colégio, todo mundo está atrasado. Pais param em filas duplas, triplas, e os filhos saem desviando das motos e das bicicletas que passam entre os carros. Caos.
Sinal da paciência fecha. Respiro fundo e calo. Estou errada.
Cena 2: Horário de pique. Faixa de pedestre. Uma senhora e uma garotinha tentam sem sucesso atravessar a faixa. Vejo de longe. Vou diminuindo a velocidade e pisando no freio para que os colegas percebam que vou parar. Páro na faixa, coloco a mão fora da janela pedindo aos que vêm atrás que façam o mesmo. Ouço buzinadas, gritos, xingamentos. Por pouco a senhora e a criança não são atropeladas. Diálogo que se constrói em seguida:
Fiquei me perguntando sem conseguir as respostas: Será que fiz o curso errado? Pensei que pedestre em faixa de segurança tivesse sempre razão. Constatação: sou mulher, e mulheres não sabem dirigir. A senhora sorriu para mim, agradecendo. A garotinha me deu o sorriso mais lindo do mundo, com dentes faltando na boca. E eu saí, me sentindo a pessoa mais estranha do mundo.
Cena 2: Dirijo-me ao próximo sinal vermelho. E paro. Vontade de chorar. Parece que vivo num mundo onde as pessoas se sentem mal sendo corretas. Outro dia exultei de felicidade e orgulho ao ver um motorista parar numa faixa de segurança a fim de que um rapaz pudesse passar. Eu o aplaudi no trânsito. Ele não entendeu nada. Mas sorriu pra mim. Ele só fez a parte dele. Mas eu aplaudi. Dificilmente somos civilizados no trânsito. Escuto um imbecil buzinar insistentemente, roubando-me de meus devaneios. O sinal abriu. Dá uma vonta de ser politicamente incorreta e mostrar o dedo profano para ele. Mas Deus me dá calma. Sorrio, saio devagar e agradeço a Deus o sol belíssimo e a minha vida para adorá-lo.
Cena 3: Celular toca, procuro um local para estacionar. É a cobrar. Aceito. E se for urgente? "Alô?" Diz uma voz autoritária do outro lado. Eu só escuto. "Quem está falando?" Eu calmamente respondo: até agora, só ouvi, quem está falando é a senhora. E ela: "De quem é esse telefone?" Eu desliguei. Continuo no mundo errado. Será que nem o telefone me pertence? O dia está perfeito.
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