Imagem: Mulher que chora (Cândido Portinari)
Eu te amo...
Letícia teve medo de dizer essa palavra achando que era cedo demais. Mas o sentimento era mais forte que ela. Algo sobrenatural. Parecia que o esperava desde o princípio das dores. Ele tinha tudo o que ela sempre idealizara em um homem. Era inteligente, tinha os olhos miúdos onde ela ancorava o seu barco e tomava banho no brilho daquelas janelinhas abertas. Quando ele chegava, a sua alma fazia planos e festas e armava um banquete de sonhos para viver.
Corria riscos. Corria tempestades para vê-lo. Vivia nas nuvens, mas disfarçava do mundo e dele, com medo que o amor fosse uma corredeira de pedras soltas numa ladeira íngreme. Mas não, ele correspondia, parecia que a amava também.
Quando os dias se davam ao tempo das horas, Letícia se perfumava a esperar por ele. Ele tinha o corpo de uma cor que nunca vira. Mãos fortes, dedos a contornar a sua boca sempre semi-aberta aos seus beijos. Faziam planos. Imaginavam-se correndo na praia. Lendo versos um ao outro. Ela se deixou levar pelos contos de fada e não agüentou mais conter a palavra que ardia na boca e na alma. Sim, eu te amo. Perdoa-me por te amar, assim, de repente, como num furacão. Como um temporal que não pede licença e sai devastando tudo, ele era a sua promessa messiânica. A salvação dos dias maus, dos dias onde o tempo se arrastava na contra-mão das boas intenções.
Antes que o tempo se ressinta. Antes que o nada se aproxime e as suas promessas virem pó na estrada – Letícia sabia que promessas vazias são doses homeopáticas de mentiras diárias, e ela queria como a própria vida, que fossem verdade. Antes de o dia vire noite e a lua se transforme em espelho de mágoas, eu te amo - dizia a ele - antes do meio e do fim de nós dois. Sabia que o amor não morre. O que morre é o espelho da mágoa no coração de quem espera.
Quando menos esperava, recebeu a carta de dores. O seu anjo, o prometido, havia ido embora, como sempre vem a calmaria depois da paixão. Letícia não creu. Esperou-o sair do trabalho, viu quando despediu-se do porteiro do prédio e encaminhou-se para o ponto de ônibus.
Com o coração ferido de morte e de abandono, Letícia avançou sobre o moço, desferiu-lhe um golpe certeiro de faca junto ao coração, levando-o ao chão. Caído, olhos estupefatos, o moço a olhava abrir sua braguilha com pressa, antes que ele se fosse pra sempre. Tomou o sexo dele entre as mãos, beijou-o. Abriu a camisa dele onde os pelos se misturavam ao sangue gosmento e beijou seus mamilos com sofreguidão e desespero enquanto o moço nada disse, tamanha a dor que sentia. Ele não, ela era a vítima que o estuprara.
Letícia o beijou. Lambeu sua boca, tomou do sangue que jorrava do peito do seu moço, enquanto soluçava palavras de amor e paixão. O moço, a muito custo, balbuciava as últimas palavras, "perdoa, Letícia por não te amar como queria".
Letícia perdera o seu moço. E o sangue dele e o gosto de seu sexo, eram dela agora, para sempre. Letícia violentava a sua alma, e a dele, e bebia o sangue do desespero. Ainda assim seriam, até que o círculo que os unia finalmente se completasse, como a última profecia. Letícia morria ali, balbuciando a morte em “eu te amo” que repetia como se fosse uma ladainha. Letícia era dele, ao entardecer, no sangue, na Ave-Maria. E as pessoas que passavam ao redor nem percebiam.
R: Madame Bovary de Flaubert, pela busca desenfreada de Emma de ser feliz. Eu morreria queimada e feliz por arriscar viver. Mas também seria sem pestanejar, para combinar com Flaubert, seria o Ser e o Nada de Sartre, aí sim, morreria feliz.
Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
R: Tive que pensar bem sobre o que seria "apanhadinho" e uma vez descoberto, diria que inúmeras vezes. Capitu me seduzia, Dulcinéia me dava enjôos , Dom Quixote, meu sonho de moinho, a mulher mais linda da cidade de Charles Bukowski e tantos outros. Talvez eu ainda sonhe com Dorian Gray...
Qual foi o último livro que compraste?
R: A Sociedade Informática (Schaff), Modernidade e Ambivalência (Bauman), O mal-estar da pós-modernidade (Bauman), Elogio da Razão Sensível (Maffesoli).
Qual o último livro que leste?
R: O livro de poema de João Andrade (Por sobre as cabeças). Janelas do Ciberespaço (André Lemos e Marcos Palácios), Comunidade (Bauman), A galáxia da Internet (M. Castells), Comunidade Virtual de Rheingold e um monte de Pierre Levy por ocasião de minha dissertação.
Que livro estás a ler?
R: Perdoem, mas leio vários ao mesmo tempo, e podem ter certeza, eu entendo um a um...rs COM-CASO (Marco di Aurélio), Modernidade Líquida (Bauman), Notas sobre a pós-modernidade: o lugar faz o elo de Michel Maffesoli e Cibercultura (André Lemos), porque ainda acho que não terminei o mestrado, e tenho a sensação de que esqueci algo que não sei o que é.
Que livros (5) levaria para uma ilha deserta?
R: Só cinco? Tem certeza? Certamente morreria se não levasse a Bíblia e um Quintana, Amor Líquido (Bauman), Macunaíma (M.Andrade), Dom Casmurro (li e reli e releio) de Machado de Assis. Bukowski ia dentro da meia...eu dava um jeito. Mas com certeza, outros iriam escondidos entre a bagagem, a menos que a companhia fosse um verdadeiro tratado de poesia clássica. Aí, eu nem ia ler, só escrever...rs
A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e por que?
Será que a Claire (Blog da Loba) já fez? Quero saber o que essa mocinha que me instiga a ser do bem, lê.
César, do Avesso. Quero saber o que minha cara metade lê... quem sabe assim eu não peço logo ele em casamento?
Minha terceira vítima é o Felipe (La vie en Blues), quero saber o que ele apronta pra escrever tão bem daquele jeito.
"raptei" essa pintura da página: http://www.info-antike.de/ovid-amores.htm
Não há outros entre nós
Olhou-a com uma paixão infinda. Fechou a porta atrás de si sem se tocar que empurrou com força. Caminhou até ela sem que seus olhos fixasse outra coisa senão os dela. A cada passo, imaginava-se entrando num templo, trazendo a sua oferta de expiação, e entregando-se a ela, como prêmio a ela e a si mesmo.
Ele era dela. Ela, era sua desde a fundação do mundo. Tinha a firmeza no olhar e as decisões no canto da boca quando a tocou pela primeira vez. Foi como tocar as estrelas e perceber que Deus virou o rosto para não interromper o momento. Ele não disse nada. Ela tremia em cima da cama, enrolada em muitos lençóis. Ela temia o olhos do corpo e não os do coração. Mas ele sentou perto dela. Foi tirando lentamente cada parte do lençol que a cobria. Cada parte do corpo que ia aparecendo, era como se retirasse os véus da vergonha, do pecado, e de toda a mundaneidade que tanto abominaram. “Não há outros entre nós” ele disse quase sussurrando, enquanto contornava os seios dela com as mãos.
Do lado de fora, houve um silêncio de vida. Nenhum pássaro voava, nenhuma árvore balançava, até o mar conteve suas ondas por um instante. Ele por fim a viu nua. Sem os véus, sem as culpas. Além de todos os medos e entregou-se a ela em seu altar. A palavra uma vez proferida não volta vazia. Nem o sentimento verdadeiro mente pra voltar atrás. Estavam ambos no paraíso, há poucos minutos de seu inferno astral. Que importava? O amor varou a madrugada, singrou os mares, e pularam juntos no precipício. A próxima parada era a vida diária, como Adão e Eva, expulsos do paraíso e ainda assim, eles se queriam. Felizes e enclausurados até a consumação dos séculos. Ela Maria, ele ventania de suas mãos.
Dira
Foto: Nelio Freitas (LEARNING TO FLY)
Eram 8 horas da manhã. Uma criança de 6 anos agarra-se aos pés do pai chorando e pedindo para ele não ir. O homem, aparentemente frio, tenta afastar o menino e encaminha-se para a rua indo embora daquela casa. As outras duas crianças, uma de 7 e outra de 9 anos, apenas olham a muvuca que se forma na rua. A mãe grita. O menino chora. Vizinhos saem às portas. O homem não esboça nenhuma reação e vai.
É uma cena comum no universo das famílias brasileiras. A mulher tem 31 anos, nunca trabalhou. Tem apenas até a terceira série do primeiro grau. Agora o seu homem estava indo embora. E ela, com três filhos, herdava o desespero de não saber o que fazer de sua vida. O menino nunca se recuperou, e morreria aos 31 anos de idade vítima de um tumor malígno, que segundo os médicos tinha mais de 15 anos. As outras duas crianças, tornaram-se adultas, perderam a infância e em seguida, a adolescência. A mãe foi servir cafezinho no primeiro emprego, enquanto estudava à noite para recuperar o tempo perdido. Fez curso de enfermagem, segundo grau. Até que se tornou uma enfermeira. A melhor delas, diga-se de passagem. Dividia a luta diária da vida com os três filhos. Como se fossem sozinhos no mundo. E eram.
Mas aonde quero chegar com esse arrodeio todo? No tempo. No tempo, que ensina, que molda, que cura, e que também petrifica. Eu era a do meio desses três irmãos. Era o equilíbrio dos três. O menino, cresceu amargurado, sentindo a falta do pai, abandonado por ele, auto-estima baixíssima, apesar de ser um belo rapaz, mas com uma depressão que lhe causou um tumor no estômago. Um tumor de rejeição. Um tumor de carência, de ausências. De necessidades. Uma mãe nunca preencheria o espaço de um pai que ele necessitava. E eu nunca precisei de um. Talvez porque meus exemplos de pai fossem terríveis. Pai, só aquele lá de cima. Esse nunca me desamparou, nem nos longos anos que fingi ser atéia. É. Eu brinquei de não acreditar em Deus para suplantar a dor diária de ver o sofrimento da minha mãe. A minha irmã era a escritora da família, a rebelde, a comunista, a minha referência de tudo. E a filhinha do papai. Eu queria ser igual a ela. Mas éramos tão diferentes...
E voltando ao tempo, esse carrasco impiedoso que nos marca a pele, a alma, o coração, mas ao mesmo tempo, possibilita esse olhar para trás e visualizar que a dor não foi eterna. Um dia a ferida pára de sangrar, a gente deixa de amar, e passa a odiar, a desprezar, e o coração fica endurecido. Eu nunca deixo que o meu coração petrifique. Ultimamente, minhas lágrimas secaram. Acho que porque já chorei muito na vida. Mas sinto uma falta enorme de ter o rosto molhado por elas. Peço a Deus o dom das lágrimas para tomar banho de renascimento.
Aprendi que chorar é bom, evita câncer, tumores, mágoas, e feridas maiores. A gente chora e adormece soluçando. Mas no dia seguinte, acorda levinho, levinho. Pronto para outros baques. É a vida. E quando o amor levanta a barraca, arruma as malas, para que impedí-lo de ir? Deixe. Quem parte nunca olha para trás. E quem fica, vê o outro indo e sente-se nada, incapaz de voar. Até que se consiga a razão necessária para reagir, lá se foi um tempo precioso. Mas o amor sempre se levanta e caminha de novo, a gente só tem que vencer o medo.
Não me arrependo do que fiz. Senhor, me perdoa, por não me arrepender de amar demais, de ousar demais, de não ceder ao medo e de meter a cara na parede. Perdoa-me Senhor, talvez eu nem saiba o que digo. Mas dentro de minha bolha de segurança, eu ouso sonhar, mesmo que timidamente, ferindo-me, machucando-me, mas, sonhando. Sonhando. Estou errada? Talvez. Foi assim a vida inteira. Não tive infância, adolescência, fui adulta aos 11 anos de idade. E não me arrependo. Também nem tive escolha. Mas hoje, juntando os pedacinhos de mim pela estrada, tenho a convicção do perdão ao meu pai. Perdão porque ele era um sonhador. Um fraco, porque escondeu-se debaixo da cama para não enfrentar a vida e nunca, nunca, lembrou que já havia colocado três crianças no mundo. Ao contrário, colocou mais outras e outras.
Imagino que hoje ele deve pagar o preço dessa sua covardia com a sua solidão. Talvez eu pague o preço pela minha, amanhã. Talvez esteja pagando hoje. Tudo tem um preço. Nossas escolhas não são fáceis. Só há dois caminhos. Não mais. Ai de nós, se erramos nessa escolha. Seja qual for, há um preço. O ruim disso, é pagar o preço errado. Hoje eu amo. Que importa se amo? Ou a quem importa se amo? Sei que amo. Minha mãe diz que meu defeito mortal é sonhar demais. Desde criança que sonho. O amor me cativou. E todos os dias, enfrento as minhas impossibilidades, e me atiro ao pecado de amar demais. Mesmo que isso tenha um preço o qual eu não possa pagar. Eu amo o amor. E a idealização desse amor que não vê defeitos no outro. Mas que acima de tudo, tem certeza que o outro, é perfeito, acima de todas as suas falhas. Esse é o saldo de um filme que vi ontem, na Rede Globo. Era um filme bobo. Uma xaropada, sei. Mas é o que penso sobre o amor, a paixão, o outro visto no espelho que nos vemos todos os dias. Minhas atitudes têm o tamanho exato da grandeza ou pequenez da minha alma. Tudo vale a pena, se a alma não é pequena, disse o poeta. Eu assino embaixo, e confesso-me culpada de amar demais.
O meu amor se atira de olho fechado e pensa depois. Mas crianças, não tentem fazer isso em casa, foi a vida que me capacitou a desafiar o medo, e as circunstâncias, e sonhar.
1. Missa de 7º Dia do Poeta Lúcio Lins será nessa sexta-feira, dia 22/04 às 19:00 horas, na igreja da Paróquia São Pedro e São Paulo, situada no bairro Jardim Luna (João Pessoa), onde o poeta morava. O padre abrirá mão da homilia, para homenagens através de seus poemas, canções e outras manifestações sentimentais dos presentes.
2. Belíssima a foto do 1000 Imagens. Parabéns, Nelio Freitas.
Foto retirada do site: http://homepage.oninet.pt/341mjp
sacrificial
no primeiro golpe
ele me beijou.
no segundo,
ele se foi.
desde o começo
eu sabia
que um abismo chamava outro.
amar se restringe a atos
encenação
não carece aplauso final.
Dira Vieira

Sentada diante do computador, ensaiei diversas vezes algum resquício de texto guardado dentro da cabeça para usar num momento como esse. Momento de hibernação intelectual. O sangue quente, que ferve 24 horas, parece que o gás acabou, e percebo-me dispersa. Sem vida. E nesse momento, isso é fatal. Tendo em vista estar matriculada numa disciplina pesadíssima, precisando estar com o corpo quente, literalmente. Mas não estou.
Leio um e-mail que me vem de longe. Talvez a injeção que me caiba nesse momento de letargia e vou bebendo, como num cálice, palavra por palavra dessa carta que me acende alguns compartimentos trancados dentro de mim.
Estou numa fase de letargia tão grande que nada quero fazer, até quero escrever, mas não consigo. É como se os dedos estivessem amordaçados e decepados por uma guilhotina de dores anteriores que me deixam esquisita. Dentro de mim, nada. Fora de mim, palhaçada no sentido pejorativo da palavra. Parei o regime. Não me importo de não passar mais na porta, de chamarem-me de gorda. Não me importo se o meu rosto mudar a boca miúda, e sorriso de pirralha que dizem que tenho. Se eu fosse dada a palavrões, eu diria foda-se o mundo. Mas não vou dizer foda-se de jeito nenhum, porque senhoras comportadas não dizem palavrões, não possuem secreções nem cospem na rua. Foda-se então a minha letargia e vontade de dizer palavrões.
Uma coca-cola gelada. Um papo bom na lanchonete de Dona Socorro, lá na UFPb e a dor corroendo o estômago. O peito, parece uma bomba-relógio tiquetaqueando o tempo todo. Passa um, passa outro. Jovens lindos. Garotas de barriguinha de fora, roupa de hippie (ainda existe isso, creiam), garotos com suas barbas ralas com camisa de Che Guevara (acreditem, ainda existe isso), e eu observo que não sou mais a menina do Decom, que sonhava com cartas e sonhos de papelão. Mamãe não sabia, mas eu era a trotskista mais feliz daqueles dias, pelos idos de 84 e ainda era garota, não mulher. A gente tem mania de crescer por fora e não crescer por dentro. Por que?
Hoje, andando pelo Restaurante Universitário, Centro de Vivências, tento descobrir, onde enterrei a minha vida por lá. Tateando entre as árvores frondosas, uma mulher que caminha devagar, conversando, com o coração pela boca, de saltos altos, bolsa enorme (tenho mania de malas) e um coração adolescente. Ao meu lado, um amigo que amo. A minha sombra, aquele que diz que sou a irmãzinha dele, a amiga, a parceira, a mãe (?) epa. Aí percebo que não sou mais a jovenzinha do Decom. E mergulho numa letargia que me deixa assustada. Agora sou A mãe e não apenas A filha.
A menina ainda mora em mim, com os seus sonhos sempre desencontrados e as minhas bonecas de papel. A adolescente e jovem socialista sente saudades das blusas de Che e da boina do PT e das saias longas de barriguinha de fora. Hoje, a Biblioteca perdeu a magia de estudar pensando nele. Abrir um livro para estudar para uma prova e escrever poemas para a boca dele. Sempre tive essa fascinação por boca e pés. Mas hoje, descobri que a Universidade é o estrangeiro de mim e eu, a mascote que cresceu e que perdeu a magia de chorar, quando tudo não vai bem.
Os dias raptaram as minhas lágrimas e o peso do mundo entornou minha coluna, parece que falo o idioma do silêncio, e as pessoas ao meu lado, como se fossem de outro planeta, ou eu, de outro mundo. Vejo a camisa de uma garota, com o nome atrás Fera 2004 (sim, ainda existe isso) organizando uma mesinha para eleições no DCE, como antigamente. Aí eu me pergunto, para onde volto agora? Há quanto tempo estou hibernando?
Dou a volta. Entro no carro. Deixo a coca-cola pela metade. Perdi a graça. E as palavras se recolhem insatisfeitas. Peço ao mundo para parar e empurro o pé no acelerador. Antigamente, depois de pensar nisso, eu certamente, choraria dentro do ônibus no trajeto da Universidade para a minha casa, em um bairro da periferia, como fiz tantas vezes. Hoje, mesmo querendo não choro, os mares que se alojaram em mim por tantos anos, evaporaram por dias sem chuva. Sou hibernação, sou seca, sou estrangeiro dentro de mim mesma. Acelero mais. E me perco na multidão de carros que voltam para casa. Talvez lá, eu possa acordar. Viver, é mesmo uma aventura sem volta.

Inquisição
Os meus dias
são guilhotinas afiadas
na ponta dos dedos.
O meu dia
a te olhar no espelho
são beijos e beijos e beijos
de outra boca no tiro da culatra
pelas esquinas de minhas ausências.
distraio-me desses dias
onde a cabeça e o corpo não pensam
nem fazem parte do mesmo espelho
: pago o preço do silêncio
nos meus porões...
a angústia toma tua forma
e escrevo cartas de papel e solidão.
a quem interessar possa:
meu amor
é barquinho de papel crepom
ladainha, jogral, missa de sétimo dia
procissão de perdidos...
todos os dias chove
- em mim -
todos os dias eu morro
nos desatados nós no meu peito.
Dira Vieira
Vazia...
Chovendo...
recolho as lagrimas da tua ausência
e te imagino paisagem viva
água escorrendo pela rua
poema que te grita e some
vontade de te ter em mim
quando a chuva passar
O poema
é teu
a vontade é verbo em riste
me abrindo as pernas
dando-te o direito de passar
A saudade é veneno aplicado na veia
tela de ontem
poema antigo
marcas de batom na camisa azul
nem um soneto me resgataria o sorriso
nem alegria... nem gozo.
O que me deste eu não devolvo
e o que era pouco
a tempestade acabou....
Prefiro recolher o brilho
da minha boca esperando a tua
o tempo é doutor sem piedade
ele nos enterra vivos,
ainda o verso escorrendo pelo canto da boca.
Dira Vieira
Aí, Mariza Lourenço, do Proseando com Mariza, cujo link está ao lado, não aguentou e fez a Madalena dela responder ao texto de baixo. Vejam só o escândalo:
Foto: http://www.studiobobs.com.br/0085.htm (excelente site)

A mulher na janela (Salvador Dali)
"Põe-me como selo sobre o teu coração,
como selo sobre o teu braço,
porque o amor é forte como a morte,
e duro como a sepultura o ciúme."(Cantares 7:6)
Acordei indiferente. O cheiro de Madalena na sala está me deixando perturbado. Talvez eu esteja sonhando demais com o amor. Talvez esse amor forte como a morte não exista. Talvez eu seja um romântico. Ontem, vi quando Madalena escreveu uma carta para ele. Ela lhe contou o seu dia, de como os dias eram esperas frias e de como morte era a única certeza que tinha. Bobagem. Não se deve ter certeza de nada. O amor nasce azul e morre na indiferença cinza de quem milhares de vezes disse "eu te amo" de forma eufórica e leviana. Madalena é boba. E eu, um idiota a esperar que o seu olhar deslize para mim, como migalhas que caem da mesa aos porcos. Minha única certeza, é tecer os dias como quem fia a falta de esperança em uma colcha de retalhos. Sou uma teia de multidões dentro de mim. Caminhos sem volta. Sem ela, sou a ausência na sua presença mórbida. É inútil. Madalena venera o moço e reza o terço todos os dias em adoração. Penso tecer outras colchas, em retalhos de sonhos, e talvez, tecer asas e povoar os sonhos da moça. Quem sabe assim ela não me perceba e veja? Serei imagem, e sacrifício em seu altar. Eu a sei e a tenho em silêncio, imagem fria que não fede, nem cheira. De que me adianta a fantasia? O meu deserto é andor de barro, e Madalena minha única tentação.
Minha Madalena das madrugadas frias
Gosto das madrugadas. É quando acalento os meus temores e os coloco para dormir, um a um, como pai amoroso e presente. É o horário que Madalena me acorda para sussurrar-me as suas decepções. Senta à beira da cama, desliga a televisão que passa a noite ligada, como se fosse abajur e põe a me contar o seu dia. Com sono, apenas a ouço baixinho, contando-me do moço que a faz chorar. Nunca entendi esse apego de Madalena às dores. Parece que ela se alimenta disso. Fala de Ter ficado o dia inteiro na esquina da casa dele, de vê-lo passar, camisa azul, cabelo molhado com cheirinho de shampoo de capim. Ele é dado a essas naturebas.
Tenho o pressentimento que Madalena gosta de sofrer. Vejo-a todas as noites, quando não consegue me acordar, abrindo carta por carta e ler chorando copiosamente, será que não entende que isso não o trará de volta? Parece um ritual, senta à minha cama, fala do moço, relê cartas antigas, lastima-se, acaricia os seios, aperta as cartas entre as pernas e achando que eu já peguei no sono, sei que se toca, como se ela fosse ele e como se ele, a palavra ávida que lhe abre as pernas e como páginas, escreve-se sobre ela como uma carta que esconde de mim para ler depois em sua umidade condenada.
Quando o dia amanhece, Madalena não está mais alí, mas não vejo vestígios de sua passagem, ela é discreta. Sei que se correr, ainda a descubro escondida nas ruas por onde passa o moço, a suspirar com o cheiro dele impregnado no ar, como o prenúncio de que na madrugada seguinte, eu ouvirei todo o seu relatório de dor.
Ontem à noite, quando a madrugada me tocou o corpo e adormeceu-me, vi Madalena chegar de mansinho. Blusa aberta nos seios, saia azul de pregas muito bem plinsadas, batom vermelho, cabelo enrolado. Tinha às mãos um véu cor de rosa. Colocou-o sobre o cabelo, pegou uns cremes na penteadeira e pôs-se a olhar-se no espelho, como se fosse eu.
Enquanto deslizava os cremes sobre as pernas brancas, Madalena me encheu de ternura. Era uma menina, apenas uma menina que não cresceu, vestindo as roupas da mãe para se sentir mulher. Sandália alta vermelha, cinta-liga, brincos grandes. Nada disso seria preciso, se Madalena percebesse o tempo perdido, ao esperar o moço de outras moças, pedaço de sonho que não lhe merecia. Ela, a poesia invisível e solitária, seria dele, a vida toda, mas ele, indiferente, cantava em outra janela, mostrando ao mundo que Madalena já não era ela, e a outra, uma Maria como todas as outras marias, jamais seria a promessa do azul explodindo em êxtase, o verbo latente e em riste, que Madalena viu, ser dela, para sempre. Morreriam assim. O moço, de outras moças singelas e fúteis e ela, a minha Madalena, a solidão farta de todas as cores, olhando o espelho tentando se ver pelo avesso abandonada por todos os versos.
Hoje não esperarei Madalena. Vou dormir cedo. Cansei de vê-la rezar o terço, pedir socorro à Santa Maria. Que ela sofra sozinha, sua incapacidade de esquecer o moço. Não serei companhia para ela. Talvez amanhã ainda a ouça, mas hoje, quero mais que Madalena cresça e pare de achar que tenho a obrigação de aguentar suas lamúrias. A minha madrugada se ressente de paz, porque enquanto Madalena sofre, eu sofro com ela... e já nem gozo mais.
Dira
Imagem: Mulher em frente ao espelho (P.Picasso)
no vácuo
Sou a aldeia e o silêncio
avesso que se olha no espelho
em dias de chuva e tempestades:
meu olhar se confunde
no teu
Se sou espelho
Serias minhas faltas?
Hoje acordei profana. Formigas na cama, inquietação na alma. Aí nas minhas visitas matinais aos blogs, vejo que ele (Clique aqui) disse o que eu talvez não tivesse competência pra dizer, mas tá dito lá, me calo, pois.
Dira Vieira
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