Simone Carneiro Maldonado

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Um anjo chamado Simone

 

Há seis ou sete anos atrás eu entrava no chat Artes do Uol para entender como funcionava a tão falada "sala de bate-papo". Eu ainda não sabia o que procurava, e acabei fazendo grandes amigos. Amigos que trago comigo até hoje, mesmo tendo a sala de Artes sido violentamente "atacada" pelos "vândalos" da Internet. Sala destruída, relacionamentos mais ou menos estabelecidos, migramos para a sala Papo Cabeça, sala 1, também hospedada no Uol. Ao sair da Artes, eu já trazia comigo uma inquietação muito grande sobre a sociabilidade na Internet. A palavra sempre me fascinou. E descobri que no ciberespaço ela possui um valor muito maior.

E foi assim, que munida de um baú de conversas gravadas, migrei para a PC1 e parte dos bons amigos da sala de Artes, vieram juntos. Comecei então a "pesquisar" essa interação sociológica no ciberespaço a partir dos chats. Ah, e se eu pudesse contar o que já vivi pela palavra, certamente que todos me compreenderiam. E talvez não. Porque as percepções são individualizadas, assim como os valores. O que é importante para mim, pode não ser para outro.

E foi nessa busca de entender a virtualidade que certa noite "no aberto" na PC1, comentei que Augusto dos Anjos era meu conterrâneo, chamando a atenção de uma outra paraibana que estava na sala e fizemos rapidamente amizade. Interessante é que a conversação pública (não reservada) tem o poder de compartilhamento de idéias com o coletivo, mesmo que achemos que apenas nosso interlocutor esteja lendo. Foi assim que descobri Simone Carneiro Maldonado, pesquisadora já há bastante tempo da Internet e profunda conhecedora das Sociabilidades, e foi amor à primeira teclada. Depois de trocarmos impressões territoriais, trocamos nossas vozes pelo celular, mas nunca nos encontramos presencialmente em João Pessoa.

Nosso primeiro foi por acaso, dentro de uma sala de aula, na UFPB, eu como aluna e ela, como professora voluntária, já que estava se aposentando. A paixão inicial no ciberespaço, deu lugar a um amor pelo olhar, e a parceria se consolidou em dois anos de amizade e trabalho científico. Pesquisamos juntas o ciberespaço, descobrimos juntas que nossas almas eram irmãs. E o amor só fortaleceu nossos laços de respeito e profunda amizade.

Quando da defesa da minha dissertação e de ouví-la ler a Ata de Concessão de Título com nota máxima e com distinção, juro, passou um filme pela minha mente. E eu me vi, perdida, ouvindo de Simone nos primeiros dias de aula, que eu era excelente escritora, mas que precisava escrever ciência, e ela abriria minha cabeça ao meio, se possível, para transformar-me de jornalista a socióloga. E naquele momento, aquele anjo de asas invisíveis tinha os olhos de mar ao olhar para mim e ler a decisão da banca conferindo-me o grau de mestre, como pioneira de estudos sobre a virtualidade no PPGS em João Pessoa. Ela precisou repetir três vezes, com os seus olhinhos de mar calmo para que eu acordasse e a abraçasse porque ela tem 50% de parceria nessa vitória.

Simone Carneiro Maldonado, conhecida no Brasil inteiro pela Antropologia Marítima, e agora, como uma das primeiras na UFPB a encampar estudos sobre a virtualidade estava alí, de olhos verdes, com ondas que desciam pela face, entregando-me o grau de mestre. Foi um orgulho muito grande e uma emoção, que não poderia descrever aqui. Ela foi mais que orientadora, foi parceira, foi irmã, foi democrática, uma educadora, dessas que raramente encontramos por aí. A ela, minha homenagem e minha gratidão. Por isso que nossa parceria não se encerra por aqui, mas é o começo de outras que virão, porque é bom demais, dividir o barco com uma semeadora de sonhos.

Dira Vieira


É dela a pérola em seu blog:

"E o ócio vem e bem ou mal se instala. Eu vejo você caminhando corredor afora, corredor a longe, corredor a amanhã, camisa laranja, cabeça de lado. Estamos todos cansados e é preciso vencer este peso. É preciso cansar-se menos para nos expor ao mundo. Aí coisas acontecem. Nessa exposição. Imagino que Beethoven tenha composto só. Mas na maior parte das vezes a gente precisa do mundo. Mesmo o mundo que corre, que ameaça, que está cheio de fumaça e de poeira, tem alguma coisa pra nós. É aquele diamantezinho que podemos encontrar. Estar ali é essencial. Sonhos. Sonhos muito lindos pra vocês hoje e sempre." (Simone Maldonado)

esperas...

Foto: Nanã Sousa Dias

Maré baixa

Ele me procurava nas manhãs, bem cedinho, como maré baixa querendo o murmúrio dos meus desejos em suas mãos de encantador. Ele era mar, com ondas silenciosas que me levantavam o vestido e tornava-me lua cheia, completamente úmida dos seus sais. À noite, bravio, com seus braços de ventania, tomava-me por assalto e mergulhava-me atônita em suas ondas de pura poesia, feito tempestade de marés cheias. Ele era mar, e eu, gabião da sua volúpia. Um amor assim não podia nunca dar certo. Eu me continha, e ele morria em mim.

Dira Vieira


Esperas...

Na chuva, esperando a força dos dias entre um pensamento e outro, espero-te fevereiro, sem saber que outros carnavais virão e minha sindrome de pânico passará, quando o meu azul tocar o céu de tua boca. Eu pedi, e os ventos cessaram suas tormentas. Melhor é o barulho das ondas de tua indiferença, que o silêncio da tua aparente presença.

Dira Vieira 

pelo avesso...

Foto: Nanã Sousa Dias

Declaração

Darei amor verdadeiro as prostitutas que cobram por sua hora de mentiras, amarei imortalmente as interesseiras e as que mentem da forma mais sincera, me abandonarei nos braços das mulheres fáceis e daquelas sem memória no dia seguinte e permitirei que minha alma seja irremediavelmente tomada por aquelas a quem desprezo, escreverei os mais intensos versos de paixão às que fizerem do meu sexo, a sua repulsa, guardarei entre os guardados de uma vida toda a infame que me roubar a fé definitivamente e meu coração de linho, pra que, assim, me impeçam de continuar a ser teu...

César.


pra vocês que vieram aqui...

Bouguereau

 

E a luz se fez

 

Para Sigi

 

Um anjo bateu em minhas asas, tocou uma música suave, lambeu minhas feridas abertas, num amor escatologicamente meigo e disse, levanta, abre as portas, que o amor só merece o amor, e a vida que escorre em lágrimas pelos teus olhos, ainda verão grande luz após as montanhas da tua tristeza. E eu, cambaleante, olhei para trás e não te vi. E por pouco não virei estátua de sal. E o anjo, segurando a minha mão, fez-me respirar fundo, como se a suportar a visão dos tempos que viriam a acontecer, colocou-me sobre uma rocha e disse: olha, o essencial, virá das nuvens, nos azuis que tanto esperas e trarão a verdade, a maturidade e a consciência de que tu és, apesar de todas as coisas. E eu te amo. E tu me és. Porque te sei. E nada mais importa.

 

Estendeu as mãos para outra direção de onde vi um grande mar se abrir, surgindo no meio uma grande mãe de tetas fartas, que me disse, vem. E ela era poesia concreta, e dos seus seios saiam palavras de vida que escorriam como se fossem água saindo de uma mangueira. E eu ainda olhei para o anjo e ele tinha a voz de Madalena. Ela me tomou nos braços, enquanto eu me desfazia em ondas, e acalentou-me, mostrando-me as pérolas no meu peito e dizendo, não solte-as aos porcos. Fechou minha mão como em concha e abarcou meu coração e me deu fôlego novo.

 

Mais suave, procurando um chão para pousar. Imaginei que o amor perdoa, e tem os olhos cegos para os erros dos outros, mas o ódio mata e esse, o anjo apertava entre as mãos como um raio e sacudia-o para o fundo do mar. Eis que repente, vejo um dragão lindo sair de dentro das águas e curvar-se diante de mim, oferecendo-me os ombros, pegando dos meus ombros todo o peso, e a indiferença dos dias. Com uma voz de um pássaro, ele me disse, vem. E eu me senti subir sobre as suas costas e já não era eu, mas um soneto de encantamento que terminava o seu ciclo e via-se naquele que foi, sem deixar marcas.

 

A dor, que o amor tatuou na pele, o dragão sarou. E eu me vi flutuar, na música que o anjo tocava suavemente. E abri as mãos para receber a vida, enquanto ela ainda estava alí, aberta a mim, louca para tocar a minha boca.

 

Sorri para ele. E como espelho, o dragão era eu, e o precipício era eu, e os meus medos, os medos dos outros, e o desejo era meu e a vontade de viver era minha e eu não podia passar para ninguém, até que o dragão cortasse as nuvens e me levasse para outra ilha. As vontades eram minhas, e as culpas, o espelho do outro. E o lixo já não era, já que a liberdade se moldava em mim.

 

Quando voltei à terra. Não vi ninguém chorando sobre o meu túmulo, nem amigos, nem inimigos. Mas vi o anjo, sorrindo, me entregando um livro, onde dizia que o verdadeiro amor fecha os olhos e mergulha. E eu amei o anjo, mas amei a mim mesma, pela capacidade de flutuar quando a dor suplanta a vida.

 

Não precisei dizer-me partir, porque eles estavam alí, sem que eu precisasse pedir. Dos meus olhos que olhavam o nada, e dos meus desertos completamente dispersos, revi uma poesia seca e não quis mais chorar.

 

(Quisera eu, nunca lamentar um amigo ido. O que é fato, nunca vai, sem nunca ter sido. Porque eles se vão, quando nossas faltas ferem o seu coração e os deixamos sozinhos. Caminho sobre ossos secos que me esperam no sopro, na simplicidade de dar, sem nunca se importar com o que vem depois. Com o amor, eu fecho os olhos e pulo. Nunca mais a metade será apenas eu. E a falta como sombra que me assusta. Quero ser plena e parir os sons de um quilombo de mim).

 

O anjo estava alí na praia, enquanto o dragão me deixou. E ele se foi, deixando o seu coração a pulsar na minha mão, guardado em concha. E o anjo também foi, deixando-me suas asas para que eu voasse além das dores. E eu adormeci feliz como a que pariu distância e sobreviveu a elas. E eu já não era um vale de ossos secos. O amor me trouxe de volta, o amor pelo amor, me devolveu as falas e preencheu minhas faltas e ele já não era comigo. E nem assim eu morri, porque já me bastava o só.

Dira

toc, toc

Ato único

estou cansada. minhas mãos delicadas não suportam os murros em ponta de faca, e os ombros, o peso dos dias.  e eu me rendo ao que disse o poeta: minha alma é pequena, nada vale a pena, nada. cansei de nadar contra a maré. eu desisto. eu cansei. eu morri.

Dira

tin-tin

 

E o sonho se fez carne

 

 

Bem não fecharam a porta atrás de si, as estrelas todas caíram do céu fazendo um tapete sobre o chão do quarto. A pressa era o mote para quem esperou uma eternidade para tocar o céu, para povoar o mundo e a boca do outro, tocar a pele como terra pronta para receber a semente e fecundar a vida. O que se via, eram roupas voando, sapatos fazendo barulho quando pousavam o chão e os amantes se procuravam em desespero, como se o fim do mundo fosse o minuto seguinte. Parecia um sonho. Era um sonho, e o desejo obedeceu a todos os pedidos da loucura jogando-se sem amarras no precipício, quando pela primeira vez ele disse: volta. E ela voltou de olhos bem fechados, entregando-se a ele como fruto maduro em sua boca. Quem haveria de pensar que no precipício a vida os aguardava ávidos de todas as loucuras?

 

Dira Vieira 

Foto: António Dimas

 

 

Ouvindo estrelas azuis

 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.” Augusto dos Anjos

 

 

Nua, espero a chuva serôdia

ventos alísios das tuas mãos sobre mim

nesses tempos em que sou seca

terra aberta pelas dores

 

feito calendário que corre ao contrário

esboço-me na alva que cobre o telhado

chuva que chora e ara a alma

 

frutos de ausências e esperas

tons que cravam nas costas

unhas finas, mãos de memória.

 

o teu nome se escreve assim

nas letras que recuam

e invadem como se fora à parte, a alva, o alvo

 

esparramo-me pelas nuvens

consagrando altares

finos manjares

do homem mortal, anjo perdido

 

que escondo em mim

amordaçando quereres

rimas fracas

tempestades ralas

rios perenes, coitos interrompidos...

 

ontem sonhei-me nua

enquanto dedilhava espaços teatrais

na varanda da sala.

 

Há tempos que não sonho

acordada

e no silêncio das falas

ensaio sabores da língua que cala

nessa falta que ri.

 

(Continua, leia embaixo)

continuando em ondas...

 

Sendo apenas vaso, Senhor

 

 

Sou um conjuntos de águas, rios de águas claras, azuis que se formam em minha retina marron. Há meses que me agito em mar bravio repleto de tubarões e passeio serelepe entre o perigo, o amor e a razão. Atire todas as pedras, quem nunca viu bichinhos nas nuvens do céu. Na areia, brinco como criança afoita enfrentando fortes ondas, meio tímida, meio ousada, e quando elas menos esperam, estou eu, abraçando o mar e beijando a sua boca salgada, emprestando as minhas falas e provando da nudez de mim. Acho que nasci das águas, lavo-me todos os dias em azuis e brancos transparentes.

 

Molda-me Senhor, para que eu compreenda as coisas que não posso mudar, nem devo, visto que outros cursos de rios são necessários para que a terra não seque e a vida continue com a poesia nos molhando os lábios e nos acalentando as dores continuamente.

 

Sou como ondas que morrem na praia, e renascem cada vez com mais fortes e com fúria. Sou o que meu Deus me molda, todos os dias, com as suas mãos que moldam minha paciência, minha calma, os perdões que reservo para momentos de puro fênix. Sou mar calmo quando Deus me toca. Sou tsunamis em dias de sol claro, quando me ferem com a lança da indiferença e da maldade. Sou uma voz que não cala, poesia entalada, grito em sussurro, gozo silencioso de quem guarda pra si a felicidade de sorrir. 

 

Molde-me Senhor, para compreender o que não posso mudar. Mas nunca aceitar ser vegetal sobre a cama e viver refém de aparelhos, mordaças, máscaras, dietas da fala, cerceamento da voz do outro. Molde-me Senhor, para nunca ser pobre no meu espírito que veio de Ti, num sopro que se refaz nas dores e renascimentos diários, porque sou assim, a insistência da justiça, a voz que clama em meu deserto, ilusão de ótica de oásis.

 

Hoje eu pedi que Deus me abrisse os olhos para sorrir. E que as cacimbas de meus olhos parassem de enfrentar o sol exaustivamente. Estou quase cega e insana. E Ele me disse: Vem, como a noiva ataviada no seu melhor vestido azul, com golfinhos que se perdem em meu vestido, peixinhos ao redor da cabeça, como uma sereia de cabelos longos e pretos a me cobrir minhas falhas e minha nudez de vergonha.

 

E Ele me disse, vem.Recolhe tuas tempestades, ordena aos teus mares que calem, enquanto te moldo no barro, na pedra, menina que sonha sem cessar. Crianças dão mesmo muito trabalho quando se recusam a crescer. Mas hoje, Ele me disse Vem. Numa ordem calma, e eu não olhei para baixo, nem vi os abismos da fala, e andei sobre as minhas ondas,  sentindo o moldar das suas mãos, me arrancando dores, e silêncio, mas me conduzindo nos braços, como ondas que morrem na areia.

 

Sou barro, sou vaso, imperfeito, impuro, braços de mar que rodopiam os azuis sobre a minha retina, mas se deixa moldar pelo seu Senhor. O que seria de mim, e de todos, se os arrecifes não nos contivessem, e os gabiões fossem suficientes para me impedir de revirar a terra, e ser mar, acima de todos os limites da aura, da fala, dos gritos, das gaiolas abertas.

 

Hoje sou esperança em noite clara sem lua. Mar sonoro, límpido, de tentativas de paz ante o mundo que se agita na calçadinha. Sou a esperança de vôos de Ícaro em asas verdadeiras sobre a pele. Abandonei ilhas de intolerância, nem chego mais perto da arrogância, sento de frente pra vida e vou ouvir Ravel, ensaiando coitos com a vida.   

Dira Vieira 

Foto: Claudio Ferreira de Sousa

blues do azul

 

o teu olhar

profanou o meu sábado

e me fez ser prazer em dias santos.

 
Nascedouro

 

 

Ouviu sua voz

pela primeira vez

 

ao mesmo tempo

que emudecia

alimentando mares dentro da boca

 

Era apenas um menino

do outro lado do fio

e ela

de mares e nascentes sofridos

quis ser menina com ele:

 

em sulcos,

uivos

e relâmpagos ao fim de tarde.

 

                                                            Dira Vieira

porque sou mulher e amo Dalí

Foto: Canibalismo de Outono - Dalí

                       Sobre beijos e sonhos

                                                           Para Claire 

Sonhou com os olhos miúdos do rapaz. Desejou seus beijos de mar, que aquelas ondas de saliva produzidas ao ouvir a voz dele prometiam. Fechava os olhos, imaginava-se indo e vindo, feito ondas batendo em suas pedras até furar o invisível e o inominável de sua pele. Era quase noite quando abriu os olhos e percebeu que a boca do outro era deserto árido. Nem um oásis de contentamento. Morreu à míngua na praia, ante a grandeza do mar indominável.

 

Antropofágico

 

Vejo a tua boca aberta

e canibalizo a tua língua

de verbos, seduções e vontades

traduzindo o que somos

ao pé da pagina

com requintes de crueldade e paixão.

 

Canibal 

Apenas as tuas letras

me dão essa vontade

       - imortal -

de te comer entre aspas.

 

descontentamento

 

Beba o cálice que te reservo

ou vista a carapuça da saudade.

mas por favor, saia do abismo

de minhas janelas abertas:

           preciso de ar para recriar-me.

Dira Vieira

Para todas as mulheres que visitam esse blog, um dia meio louco de canibalismo amoroso.

Pessoas, olhem o que eu ganhei do Blog Momentos de amor:

BLOG DESTAQUE MOMENTOS DE AMOR DA SEMANA (06/03/2005 à 13/03/2005)

Obrigada, Bióloga Valéria!!!!

 

Foto: Helena de Troia (1863)
Dante Gabriel Rossetti (1828-1882)

 

Enredado nas teias de Helena 

 

 

É domingo, como todos os outros domingos que se seguem desde o dia que casei com Helena. Deveria ter ouvido minha mãe quando dizia que ela tinha um ar esquisito de quem me feriria no dia seguinte, mas eu não a ouvi. Aliás, nunca as ouvimos. Sempre estamos prontos a pagar para ver.

 

Helena mudou. Ou eu mudei. Não sei. Sei que todos os dias eu a olho enquanto deita o seu lilás sobre a nossa cama. Chega cansada dos passeios com as amigas e demora-se no banheiro, por minutos intermináveis. Eu finjo que durmo, já que aprisionamos as palavras dentro de nós e sei quando ela me olha com aqueles olhos de fogo ela pragueja comigo. Eu não sei se amo Helena. Mesmo ela tendo um corpo belo, sendo a mulher que eu sonhei ter pra mim, mesmo contrariando a minha mãe.

 

Helena me força a programas de índios que eu nunca quero. E ficamos mudos. Um silêncio sepulcral que nos aprisionam dentro de conchas fechadas, em suas armações de grego. Nem sei quando foi que nos beijamos pela última vez. Não sei mais que gosto tem aquela boca carnuda que ela se esmera para passar um batom de puta. É o que vejo nela, algumas vezes, quando se enfeita para sair à noite com as amigas. Anda com esse ar desde que resolveu voltar aos estudos e passou a ter amigos que falam outras línguas diferentes da nossa. Parece que falamos línguas diferentes. Ela fala grego, eu falo japonês. Ou o contrário, não sei. Parece-me que grita quando me olha, ou me odeia.

 

Sei que minha mãe estava certa. Talvez Helena não tenha sido feita para mim e coisa e tal. Talvez fosse meu presente de grego. Sinto que ela se encolhe quando a noite a procuro debaixo dos lençóis. Não é mais o meu troféu, talvez minha culpa, e sim minha inimiga com olhos de fogo que me grita quando eu apenas queria beijar sua boca.  

 

Helena é o fogo apagado, vela esfumaçando na sala de estar enquanto eu amasso o sexo contra o travesseiro e imagino que um dia já gozamos até com o pensamento. E enquanto eu espero o desfecho desse filme sem cor, vou tecendo os desejos guardados, como se fosse uma teia, e esperando a volta de Helena, cansada das noites como aranha com fome, e louco para fazê-la escrava dos meus doces venenos, e sorver sua energia, como bom vampiro que sou, dono dos silêncios e da alma cansada de Helena, besouro indefeso em minhas teias. E eu refém dela, o meu cavalo de Tróia. 

 

Dira Vieira

Olhos de Madalena...

Foto: Antonio Matias

Saudades do Quilombo

Acordou sentindo-se Joana D´arc com o corpo em brasa, escorrendo-lhe sonhos por todos os poros. Tentou controlar seus impulsos suicidas e correu para a cozinha onde lavou o rosto em brasa. Quanto mais lavava, mais o desejo e a sensação de fogueira a consumia. Guardava Madalena na alma, e essa mesma era a que acordara em brasa, após uma noite de guerra com o travesseiro.

Madalena encostou-se na pia da cozinha e respirou fundo a saudade dele, asas partidas, comida na boca do pássaro em migalhas de fantasia. Onde andaria por essa hora do dia, o homem de olho miúdo, de voz arrastada, de mãos fortes, de pêlo em tapetes pelo peito que sonhava afagar? Não sabia. Sabia-se dele, apenas, no beijo que tomou meio-dia em ponto, em plena avenida Paulista com todo mundo passando ao redor.

Era a mão dele que a consolava quando a possuía em seus sonhos acordada. Onde andaria o homem de pele mais escura, de cabelo caindo sobre a face, de olhar de tempestade que a chamava no meio da rua. Bem que ela queria não ter obedecido tamanho chamado, mas era maior que ela. Madalena, Madalena, o homem gritava feito doido pelo meio da rua, espirrando fogos de artifícios como zumbidos que a deixava tonta. Tonta de vontade de olhar para trás e entregar-se a esse chamado sem nenhuma reserva.

E por mais que pensasse nisso e na vontade que teve de fugir dele quando podia e não o fez, mas ao invés disso entregou-se como boi para o abatedouro, Madalena tentava conter o fogo de todas as culpas. Culpada, única culpada do amor traiçoeiro que amordaça a espera e acende todas as fogueiras.

Agora estava alí. Megera. Má. Bruxa dos encantamentos. Mãos sobre a cabeça tentando conter as pedras que o mundo joga. Atire a primeira pedra quem nunca cometeu a merda de amar, com todas as culpas. Feiticeira de todas as mentiras, vontade doce do chocolate que ousou derreter na boca alheia.

Voltou a debruçar-se sobre a pia, tentando apagar o fogo com água benta, fogo da palavra dita, faca peixeira de dentes afiados rasgando o chão, deixando filetes de dores e saudades. E tome água, e tome água fria e nada de conter o quilombo de querências, lugar seguro de suas maldades, desejo escalarte na boca do inferno. Nem só de boas intenções vive o homem, mas de brincar de deus ante os aquiles dos outros. Madalena tinha consciência de seus deslizes, mas tinha mais consciência ainda de que tinha vivido, talvez, o único Quilombo de sua vida. Inútil conter as suas fogueiras interiores. Era culpada sim de todos os pecados não cometidos, mas desejados palavra a palavra.

Inútil conter as fogueiras das quais ela não se arrependia. Melhor poupar a água, saciar a sede de calma e refrigerar-se na espera, em uma fenda qualquer na rocha, de onde possa escapar ilesa dos homens-pedras da rua. De vampiros, basta a si mesma em dias de lua.

Dira Vieira 


Parabéns ao blog: Conversa de Mulheres (Aqui). Um ano de blog é muita coisa. Um ano dela, um ano daqui e tanta coisa aconteceu. Feliz de ter conhecido a Cherry. Ela me fez derrubar alguns preconceitos. Ela me ensinou muita coisa e nem sabe. Uma delas. Foi que o amor aprende a perdoar. E o perdão é o sentimento mais gostoso, o exercício completo do amor. Cherry me ensinou muita coisa. Então, parabéns a essa maluca falante - fala até pelos cutuvelos - que me cativou com a sua famosa risada: kkkkkkkk e a sua cabeça de adulta, com apenas 20 e poucos. Não é todo mundo que tem a cabeça adulta como a dessa menina.

Ela é maluquinha, eu sei. Uma maluquinha que me ensina a ter juízo, pode? As suas lições eu não tenho dispensado. Aprendo no sorriso dela a ser melhor todos os dias. Melhor para sonhar, melhor para perdoar, melhor para recomeçar, melhor para nunca ficar no chão, melhor para sorrir quando as lágrimas insistem em fazer morada no rosto da gente. Essa menina sempre me levanta, quando eu insisto em permanecer no chão. Faz pouco tempo que nos conhecemos, falamos tão pouco. Viva as idas e vindas nos blogs alheios. Só assim, temos a oportunidade de conhecer figuras como ela, e como todos vocês.

Então, viva Ariane, Georgia, Manoel Meireles, Milton Ribeiro, Lobabela, Lalinha, RÔ Invisível, meu adorável Zequinha, Felipe K., Jotaefe, Ilidio, Rilson, Adelita, Dora, Linaldo, Nonato, Régis, Adrianinha Zapparoli, Claire, Simone-Elf, Diana-Dru, Maria Odila, Lau Siqueira, Márcia Maia, Mariza Lourenço, Adalberto, Elise, Dequinha, Luiz Alberto Machado, Mauro Cassane, Bruxinha, Ana Peluso, Benno, Antoniel, Weder, Darthur, Valeria, Cal, meu doce Tunim e sua Dri, e tanta, tanta gente linda que conheci aqui. Se o seu nome não estiver aqui, com certeza estará aí do lado, linkado, senão, gravado em ouro no meu coração, com certeza. Feliz aniversário pra todos nós.

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