Entrega do Troféu 2004 Correio das Artes
Mais um gol de placa marcado pela excelente editoria do Correio das Artes do Jornal “A União”, sexta-feira no Parahyba Café, em João Pessoa. Mesmo acontecendo em um dia em que outro evento, como a abertura do Folia de Rua, estava pipocando na cidade, muita gente compareceu. Guy Joseph, Lisbeth, Ronaldo Monte, João Batista de Brito, Políbio Alves, entre outros grandes nomes. Um evento impecável, muito bem organizado e liderado pelo Linaldo Guedes. Representei a Valeria Rezende, recebendo por ela o prêmio de melhor contista do ano, o que me deixou naturalmente muito emocionada e feliz.
Revi pessoas, queridas, dos idos de 80. Pessoas que não tinha mais contato, ei-los:
João Linhares
Músico e compositor de grande talento em João Pessoa, conheci-o ao entrar na Universidade em 84. Tínhamos algo como uma paixão platônica. Sonhava com as músicas do Linhares enfeitando as minhas letras tão pobrezinhas. Éramos assim. Olhar que achava o outro, poesia que se derramava em notas musicais. Cresceu, esse menino... Matei as saudades. Nunca esqueci o sonho de fazer parceria com ele. Tomara que depois desse encontro, a gente trabalhe junto, gosto muito desse artista. Um dos melhores desse celeiro paraibano.
José Rodrigues
Escritor. Conheci o Zé Rodrigues na Oficina Literária na década de 80, aos 16 anos, ele nos visitava sempre por lá, chegava de mansinho, observando o ambiente, e de repente estava em nosso meio, discutindo literatura. Saudades dele. Foi preciso avivar a memória dele para lembrar-se de mim.
Marília Carneiro Arnaud
Caramba, ouvia falar dessa grande escritora, dos seus trabalhos, de suas parcerias com a Valéria e a Zezé Limeira. Participamos de uma mesma lista de contistas e eu não a conhecia (e os nossos amigos também não apresentam, ô coisa feia). E ao ouvir o meu nome, quando cumprimentava o Lau Siqueira, ela se apresentou. Poxa. Como é linda, a Marília, e como saem faíscas dos seus olhos. Bela. Ganha-se a noite, olhando a Marília.
Eventos como esse, são importantes para reconhecimento do nosso trabalho, além de aproximar pessoas, com interesses em comum, ao mesmo tempo que nos dá fôlego para recompor novas parcerias com a vida e com as pessoas. Descobri lá algumas coisas:
Agradeço então, ao culpado de tudo isso: Antonio Mariano, que me levou praticamente amarrada para esse evento, já que sou meio que enclausurada na torre e quase não saio de casa. Sobre esse grande cara, eu escrevo mais especialmente, por ele ter me arrancado algumas lágrimas no final do evento, quando conversamos ao pé do ouvido. Conheci o Antonio na Oficina Literária nos idos de 80 também. Éramos parceiros, mas não muito próximos. Até que ele um dia me trouxe para as listas literárias da Internet e passamos a conviver mais de perto com a literatura. Essa semana, o Mariano me disse algumas palavras que jamais esquecerei. Palavras de amigo que quer o outro bem, que admira, que cuida, que zela. E a minha admiração por esse poeta, escritor, jornalista, promotor de eventos, e incentivador da poesia em João Pessoa, quadruplicou. A ele, minha gratidão, pelo grande amigo, parceiro, incentivador que ele é. Antonio Mariano, você tem em mim uma amiga. Conte sempre comigo. Dira Vieira
Sou Maria, adiando os funerais
São duas horas da manhã e eu me inquieto na cama sem a posição correta em que estaciono o meu coração. Há perigos na estrada. A canção que escuto no som que vem da televisão me avisa. E o meu coração se aperta no acostamento com medo de pegar no sono e não acordar mais. Foi assim quando você decidiu ir embora. Vi o seu nome se arrastando na estrada pela contramão de tudo o que prometemos um ao outro. Há perigos na esquina. Eles venceram.
Apago o monitor da tevê. Viro uma página de mim, entreabro os braços para receber a madrugada atrasada em anos-luz e vejo a lua cheia, iluminando a rua e eu estou sem você.
Levanto, tomo um copo d’água. Reviro os meus pertences, vasculho as cartas trocadas, não consigo me desfazer delas e reconduzir os meus passos em direção oposta. Você me mandou fazer o funeral dos sonhos e eu, mais que depressa, escondi as provas de que vivi, para uma outra época de saudades e guardados.
Deixar a palavra solta, perdida dentro desse quarto, é um sacrilégio com a poesia. É como abandonar um livro debaixo da escada ou da cama. Eu não fecho as portas para a poesia. Ao contrário, abro a alma, as pernas, os braços e todas as células a fim de acalentar em mim a poesia viva. O teu amor é poesia viva em conta-gotas, todos os dias em minha vida. Como me desfazer disso?
As horas se passam. Não consigo dormir. Um monte de cores invadem o quarto com a luz da lua. Ela está linda no céu e eu abro a janela para decorar essa beleza. Linda, a lua, e a lembrança da tua boca carnuda a me chamar, Maria, Maria, minha andorinha azul. Andorinha azul. Sou as Marias de tuas ilusões, mas a Maria de tuas esperas sem fim. Maria nas sensações, Marias de tuas ausências.
Há um céu que circunda a lua. O céu das invisíveis cores celestes que cobrem a tua cama nesse momento. Há de vir um anjo que te protegerá das dores que te dei. Há um anjo que cobrirá de azuis as tuas manhãs sem mim. Foi o meu pedido enquanto mirava a lua e pressentia a tua voz na madrugada.
Conto os minutos para o dia amanhecer. Procuro a camisola azul piscina que enfeita o guarda-roupa e a coloco sobre a cama. Quem sabe num desses ventos da madrugada, a poesia me invada as entranhas e te ache em mim, vestido de azul, com os vermelhos me cobrindo os desejos.
Sou tua, na imensidão de uma madrugada quente e um sussurro ao longe. Fecho os olhos para fingir a vida enquanto o sono se esconde de mim. Tuas mãos são as que chegam no vento e tocam a minha pele como a primeira vez. Farei amor com as estrelas, na sua falta e confidenciarei com os bêbados, os meninos de rua, do grande amor que tive, que provavelmente dormirá em outra dimensão, provando outras quimeras de cores diversas.
Sozinha, esqueço do mundo ao redor. Que importa os cinzas amarelados que a manhã me traz? Quero apenas a lembrança da tua voz me chamando num grito que eu ensaio em mim, quando estou a descobrir estrelas entre as minhas pernas. Há em mim, várias notas musicais que deixastes sobre a cama, sem que tivesses tempo de tocá-las. Só tuas mãos produzirão os sons que o amor tomou para si, e abafou num silêncio de verões interrompidos.
Não faço funerais de mim, antes que me matem todos os sonhos. Sou a esperança de vida entre as estações mais sombrias. Sou a Maria. Guardarei os recitais, as flores, a túnica fúnebre, e reedito todos os cálices de contentamento. "Toca aqui, sentiu? Acredita agora? (Bráulio Tavares)". A poesia em mim toma forma de líquidos, como o amor, que se derrama em lágrimas e não se afoga, jamais. Sou Maria de verões partidos, sem notas, sem cordas musicais. E não te sepulto, sob pena de sepultar a mim.
Dira Vieira
(em resposta ao post de 26/01/05 da Loba - link ao lado)
Foto: Sérgio Amaro (À deriva)
Vestindo azul escarlate
Ela estava cansada do mundo, de todos, da vida, de si mesma. Não era de sonhar, pois seus sonhos perderam-se na inocência que lhe fora arrancada pelas mãos daquele que lhe deu flores, prometera a lua e casamento depois de requisitar uma prova de "amor". Casou-se com ele e com tantos outros, era a eterna noiva, de núpcias diárias assim como o funcionamento da boite Claire de Lune que fora seu lar desde os 15 anos. Tinha o
nome e o ofício de uma santa, Madalena era sua graça, e a tristeza em seus olhos era tão brilhante quanto o azul cor de céu que ornavam suas córneas.
Tinha os cabelos longos e negros, tão negros e lisos que refletiam escuridão jazida em seu coração duro, mas não morto. Usava-os sempre em única trança, na vida jamais o cortara, pois mais do que a própria, seus cabelos eram o verdadeiro amor de seu pai, José ou Zequito como costumava chamá-lo antes do desgosto fatal de saber que a filha do coração tornára-se uma "dama de lilás".
Apesar da brutalidade de seus dias ainda em seu belo rosto lusia uma meninice que atraía a lascívia dos homens e mulheres que compraram pelas mãos de Décio, seu autor e dono de Claire De Lune, o prazer unilateral que o fornido corpo de Madalena proporcionava.
Mel estava certa, aquilo não era vida, deveria haver algo mais além do Clarão da Lua e como a amiga buscaria esse algo mais, contudo, não seria o amor e o casamento a exemplo de Mel e Antonio, pois homens com Tunin não mais existem. Suas mãos estavam sujas do sangue de Décio, comparado a sua alma e seus pecados aquilo era água límpida e cristal, água de cacimba, sangue de sua pureza agora fora reparado pelo sangue da sordidez. Estamos quites! Pensou.
Madalena tratou de lavar as mãos rapidamente, antes que chegassem e a vissem com as mãos sujas. A medida em que a água ia caindo sobre o sangue, ela ia sentindo o prazer de sentir-se livre de Décio... Anos e anos dedicados aos desejos sórdidos dele, agora poderia tocar-se sozinha, sem sua ajuda e sem precisar fingir prazer para algum cliente. O sangue de Décio em suas mãos chegava a dar-lhe uma excitação que ela
desconhecia e ao invés de terminar de lavar-se, pois-se a manipular o sexo com as mãos manchadas de sangue sentindo o seu prazer sozinha, sem dever nada a ninguém. Madalena hoje não era de ninguém. Nem de seu pai, que a havia programado para ser uma perfeita esposa e mãe de seus netos, nem dos homens e mulheres que derramaram sobre ela os seus desejos mais loucos.
Quanto mais pensava em sua liberdade, mas sentia prazer. O corpo de Décio estirado sobre a cama, e o seu sangue escorrendo pelos lençois fétidos de seda, davam-lhe um prazer indescritível que Madalena fazia questão de prolongar, manipulando pausadamente o sexo como se manipulasse sua própria existência voltando um todo um passado de dor e confiança em alguém que não merecia nem os beijos mais puros que doou.
Sentindo o prazer aumentar, Madalena abriu as asas para os sonhos adormecidos dentro do peito: os desejos que acalentou, a pureza comercializada e embrutecida ao longo dos anos, a sua juventude no gozo de estranhos. Nunca houvera sentido prazer igual. O sangue de Décio misturava-se ao seus líquidos e Madalena flutuava, segura por fios invisíveis de conforto e liberdade. Nada devia a ninguém e ninguem a devia mais nada.
Gozar no sangue de Décio era o princípio de sua vida nova, a sua carta de alforria escrita a sangue e lágrimas.
Levantou-se cambaleando de seu primeiro gozo e encaminhou-se novamente para a pia do banheiro para lavar-se. Ao levantar-se, percebeu-se pura no espelho, batom vermelho manchado na boca denunciava os beijos que Décio tentou roubar-lhe. Passou as costas das mãos para tirar as marcas dele, lavou o rosto.
Vomitou a alma, vomitou as lembranças e tratou de evadir-se do local o mais rápido possível, não sem antes, passar as mãos entre as pernas retirando parte dos seus líquidos e passando nos lábios de Décio, para que ele sentisse ao menos uma única vez a prova de que Madalena era normal, e podia ser feliz, sem que ninguém pagasse por isso.
Abriu a porta, como quem abre a cela de uma cadeia pública de carcereiros que ela odiou a vida toda. Viu a rua azul, as pessoas cor de rosa, o sol de um vermelho belo, soltou um botão da sua camisa, deixou que o seio se mostrasse um pouco, soltou os cabelos, e caminhou serena e lúcida para a calçada. Agora seria ela, Madalena e a rua, e ninguém mais. Tinha nos olhos o brilho da lua, a magia do gozo solitário e o sonho que retornara para casa. Agora, seria só ela. De tão feliz, a natureza chorou, chovendo sobre ela, torrencialmente, pelas ruas de sampa. Madalena era agora, nua, molhada pela chuva, sem se importar com mais nada. Deixou-se molhar e não fugiu... abriu os braços, recebeu a chuva e brincou com as poças de lama na calçada. Seus lábios, entreabriam-se com a umidade da vida, como ela própria, há poucos minutos atrás. Agora era fácil, agora, ela também desaguaria na vida. Nem teve coragem de olhar para trás, temia virar uma estátua de sal, como o relato bíblico. Seguia adiante sem remorços, vida nova, sentimentos novos, novas emoções. - Oi moça, perguntou um rapaz de jeans e com camiseta pousada no ombro.
- Oi, respondeu ao rapaz timidamente. - Sou Emerson e você? - O que significa esse nome embaixo dessa tatuagem em teu peito? - Dark Angel, significa anjo da escuridão! - Veneras a escuridão? - Só até conhecer a luz. - E quando foi que conheces-tes a luz? - Há alguns minutos atrás, quando te vi brincando na chuva! Ela sorriu. - Vais para onde? Interpelou-a. - Pra onde me leva o coração e você? - Vou seguir o brilho da luz.
Passaram então a caminhar e conversar ... - Você ainda não me disse o teu nome! - Mad... Elise, meu nome é Elise! E seguiram sem rumo, reconsiderado algumas decisões e reescrevendo seus destinos.
Ei, advinhem aí, onde o Sinuhe começou ou terminou e onde eu fiz a mesma coisa. Quero ver se descobrem. Boa leitura.
Foto: Francisco Menezes (Galo de Campina)*
Confissão
Sou um vermelho aberto
como o mar
esperando pés descalços
a sapatear sobre mim.
Sou páginas abertas
vísceras expostas
segredos desvendados
paisagem viva
:
a alma que te espera lívida
de todos os pecados.
Sou as tuas mãos
que me tocam
um rosário de dores
uma falta que te espera
pecados tecidos
silenciosamente
enquanto deslizas para dentro do sim.
Sou a tua falta
os meus vácuos
o elo partido
sou o meu deserto sem ti.Sou a palavra que só se diz do meio para o fim.
Dira Vieira
* Todas as imagens utilizadas nesse blog são devidamente creditadas e linkadas ao seu site de origem.
Foto: www.angela.amorepaz.nom.br/ meuparaiso.htm
Lágrimas de falta em azul...
Olho pra dentro de mim e vejo-te numa nuvem azul sorrindo para mim. Tu me chamas quando a tarde cai. Tão perto e tão distante. Posso sentir a sua respiração ofegante caminhando os meus passos na calçada. Tão perto. Tão distante, que dá uma agonia de sentir que o dia se vai e as estrelas começam a aninhar-se no firmamento e as pessoas voltam para casa e tu não. Acompanhe-me pela estrada, pelas ruas, no meio das pessoas, entre blocos de concreto. Conversa com o meu silêncio e me conta as dores que tu teces como um rosário quando o relógio tocar a Ave Maria diária.
Leva a minha fala de menina que ri ao esbarrar em tua voz que diz te amo de uma forma que os anjos se calam e ficam a te mirar com o olho só para não perder o encantamento. Tu me chamastes, eu fui. E as andorinhas voaram atrás como se segurassem o véu do nosso esquecimento do mundo. Passadas as horas, passados os dias, contamos nos dedos o vestido azul terminando de cozer as bainhas do dia. Eu te amo... te ouvi dizer repetidamente e convulsivamente enquanto eu me despedia na fumaça das horas. Eu te amo, te amo, te amo. E o verbo se fazia carne na tua língua que sussurrava o amor fazendo planos e chorando a pressa da vida.
Abro o armário, guardo os sonhos para o outro dia e enfrento a noite fria, as ruas desertas, o trânsito que se fecha em nós e abro e fecho as pernas repetidamente lembrando a poesia sussurrar te amo te amo... e o verso tomando forma em mim, no passar dos dias, como uma bola de neve que cai do aconcágua e vai rolando, rolando, provocando um grande deslizamento. Nem era dia, nem o momento, nem a medida exata da frase que não podia ser dita de tão bendita era a maldição do encantamento, aquilo que só se diz do meio pro fim e ninguém acredita. Eu te amo. Eu te amo, e tu gritavas nas ruas, bebendo as horas para que passassem mais rápido e dormir embriagado da falta e da necessidade da minha boca que te chamava pelas ruas, pelos orelhões na praça, nos becos. Era eu a sensação de presença ao teu lado, pelas ruas do centro da cidade.
Eu te amo... ouvirás a minha voz dizendo o que se diz do meio pro fim, com a voz embargada, melodiosa, chorosa de quem partiu sem nunca ter ido e de uma dor tamanha que se arremessa nas estrelas, partindo num rabo de foguete sem passagem de volta. Só ida. Só ida. E o sinal fecha e roço a perna uma na outra. Fecho os olhos, respiro fundo e a sua voz muda de dores do outro lado da linha manda embora o que nunca existiu. Deixe-me em paz, gritaria o outro ferido e a andorinha se arrastaria pelas ruas com o peito ainda com a flecha cravada, escalpelada, sem o fio de Ariadne, esperando a compaixão do tempo que nos arremessa longe, muito longe e nos diz, te vira. Reaja, levanta a cabeça, esquece. Mas o coração se aperta, as pernas se contraem. A alma se põe na janela do carro enquanto outros carros ultrapassam em alta velocidade. Algo de mim ficou lá fora, acenando com desespero.
Preciso parar de tomar café, antes que acredite que os sonhos são todos azul turquesa e que o vestido azul venha a se tornar manto sagrado, a te esperar, presente de Natal, embrulhado no cetim da língua que me chama para um lugar que eu desconheço. Será tarde para recompor o poema e aninhar o desejo entre as pernas? Ou será cedo demais para desistir da viagem de acreditar que a vida é muito mais que a poesia que me faz cativa da esperança? Ouço a tua voz no rádio, como um lamento, um aboio, um grito abafado que eu pego entre as mãos e guardo dentro do peito, para espremer mais tarde e extrair a última poesia. É tarde, durma, meu bem, durma, enquanto as bombas explodem do outro lado do mundo e eu espero o rebento da saudade que explode em mim, como um parto prematuro que me diz, não era o momento, nem nunca será, o que não tem remédio, remediado está.
Dira Vieira
Recado
A curiosidade
ainda mata o gato
e eu, vou adorar
comê-lo com fritas.

Balada do sonho que chora
Na minha cabeça, a bala perdida procura a saudade, a palavra dita, para entrincheirar o sonho e estilhaçá-lo, deixando lembranças de tardes sentidas. Sou a ilusão do nada que se forma entremeios, entredentes, entre o meu pensamento de castelos construídos na areia. Portas, janelas, almofadas na sala de estar. Filme de amor, pipoca, café quentinho no bule. Você me chamando para a cama. É tão tarde. A manhã bate na porta e eu ainda espero que me venhas, companhia que se perde no olhar triste do poeta que empunha a viola como se fosse escudo, barreiras que não conseguimos transpor. Eu te amo, e ainda assim, sou a bala perdida na fronte do homem que ri.
Todos os dias, como devoção, ligava para ele, no cair da tarde e tecia estrelas fora de hora. Todos os dias. Acostumara-se a mandar todo mundo embora, dispensava os funcionários mais cedo para ajoelhar-se nesse altar e estar a sós com ele, trocando juras de amor. Eram poucos minutos,e o mundo fazia silêncio enquanto se consumiam em segredos de confessionário. Nada de mais comum. Nada de mais normal. Se ela não fosse a lua cheia e ele, o cantador de serpentes. Juntos, viravam a ordem das coisas. Burlavam a ordem da vida. Eram apenas um num ritual de dor. Ele, ela e a sinfonia de andorinhas ao redor. Até que um dia eles se viram nus, e o telefone calou. Ele ofereceu a mão, ela pulou sozinha. Expulsos do paraíso, só a nudez gritava mais alto castigando a vida lá fora. Nunca mais a tardinha. Nunca mais o amor. Nunca mais seriam um, nunca andorinhas. A vida, continuaria a ser paisagem morta na parede. Nunca mais pousariam na terra firme de seus corpos. Agora, seriam apenas andorinhas da vida.
Dira Vieira
No dia 10/01/2005 publiquei o meu primeiro conto mínimo como exercício da Lista Literária Com_texto. E esse conto, que me encheu de prazer, trouxe duas parcerias distintas e belas de duas grandes pessoas e grandes escritores. O Zeca (Janelas Abertas) e o Ilídio (Confissões de um Viajante) ambos linkados ao lado. Quero que conheçam o blog deles, quem ainda não conhece e vejam que maravilha de textos. Aliás, não tem blog ruim linkado aí ao lado não, perceberam? Então, vamos às versões, ou continuação do meu conto mínimo.
Contos da Carochinha (Zeca)
Assustei-me quando, à janela, fui arremessado contra a fria manhã, sem ser levado no vôo dela. O sol, tímido ainda, não ousava se mostrar. No meio da casa, a barreira formada pelas flores amarelas do sofá bloqueando meu caminho. Não me facilitavam a porta do seu quarto. E a clorofila da amada, escorrida pelas frestas do chão emoldurava gérberas azuis por alí espalhadas entre cacos de um vaso caído. Minha alma procurava a da amada, que mais uma vez, voava sozinha, deixando-me aturdido, com o peito dolorido. Minhas aflições me asfixiavam e meus medos me assaltavam: e se ela não voltasse mais? "
Contos da Carochinha (Ilídio Soares)
E quando voou não se perdeu, porque das manobras ela sabe tudo. Criada para esquecer, Mariana atravessou a vida decifrando o significado das coisas que queimam e se derramam pelo ar, pois são seus recheios que lhe murmuram as coisas indizíveis. Porque mora na vida e não finge agonia, essa é a bagagem que Mariana carrega. Atirar-se na austeridade, luzir no escuro e embriagada cobrir o mundo com intensas labaredas. Nunca ruma ao poente, pois cuidadosa, prefere atravessar os arcos da sala e esparramar sóis, luas, estrelas sobre todos que passam e buscam viagens. Olhando a calçada e tendo o peito estufado por olhar certo todos os começos, Mariana agora não voa mais só, pois finalmente carrega a alma grudada aos pensamentos, que é a única forma de voar.
E um poeminha, para não perder a prática: Incontinente
Medíocre,
o poema
se finge de morto
e joga a toalha
no mundo.
Dira Vieira
Não consigo dormir. Acabei de ver um filme antigo, e até já passou em alguma dessas noites da Globo. "Um milionário recebe inesperadamente a visita da Morte e com ela faz um pacto: em troca de viver um pouco mais, lhe mostrará como é a vida. Mas as coisas se complicam quando a própria Morte se apaixona pela filha do milionário. Com Brad Pitt, Anthony Hopkins e Claire Forlani no elenco e direção de Martin Brest". O que tem esse filme? Nada de mais. Ando assistindo filmes aparentemente bobos, devo à minha filha que consegue achar coisas interessantes e aparentemente bobas para a gente ver. Enquanto eu guardo o peito das dores do dia, dos vôos rasos e das desilusões, surge uma história de amor na tela, estrelada pelo Brad, ah, Brad, se todos fossem a morte como você. O filme trata de mundo dos negócios, dos interesses, dos relacionamentos e há cenas belíssimas. E com alguns chavões, mas nem por isso deixa de ser belo. Não, não pensem os amigos que consegui chorar. De ontem para hoje gastei uma boa dose de lágrimas enquanto vejo a noite chegar e o telefone emudecer, ante a minha paciência. A morte se apaixona. Nada demais, pela Claire Forlani até eu me apaixonaria. Ela é bela. Só perde para a Jolie, minha musa. Tá, vão me dizer que estou saindo do contexto. Tudo bem. Mas quando o coração da gente sofreu um grande abalo e a gente não consegue entender como as coisas mudam em questão de horas, não custa nada ficar com os pés bem atrás e cuidar para que não se repita os mesmos erros. Eu cometo muitas falhas. Sou a falha em pessoa, mas nunca deixo de tentar.
Sou uma apaixonada confessa, convicta e sem a menor cura. As vezes, até amo o vazio, vôo sozinha, mergulho nos abismos, salto de paraquedas (sabendo que ele pode não abrir), escalo os aconcáguas da vida, torço o pescoço, jogo pedra na lua, me arrebento, amo, desamo, mas nunca, nunca, odeio. Ainda não conheço esse sentimento, o ódio. Há cenas nesse filme que me fizeram calar, refletir e pesar a alma. A morte (Joe-Brad) chega para o cunhado, Quince, e pergunta se ele ama a esposa dele. Ele responde que sim e a morte pergunta se ele é correspondido. E ele nem titubeia. Fala que sim. E a morte quer saber: como ele tem certeza que a esposa o ama? Ele diz que sabe, porque ela mesmo sabendo de todos os seus defeitos (que são muitos) ainda assim, o suporta. E que mesmo ele sendo um fracassado e ela um sucesso, ainda assim ela o escolheu. Amar é então, ter os olhos cegos para os defeitos do outro. É amar incondicionalmente. Eitcha. Palavra feia. Vão dizer que estou falando besteira. Pode ser. Foi a mensagem do filme.
Não consegui parar de pensar nisso, ainda mais depois de ter lido o post de hoje da Ariane (Retalhos e Pensamentos) e ficar aqui pesando o meu sentimento em relação à vida e às pessoas. Aí, vem o fim do filme, na hora em que a morte precisa dizer para a Susan que ele não é quem ela ama, mas a morte (ele queria levá-la com ele, quando fosse embora). A cena é belíssima. Será que existe um amor assim? Será que vou ver amor assim apenas nos filmes? Ele não consegue dizer a ela quem ele realmente é (as vezes, certas confissões são desnecessárias e vazias) e apenas a olha. Ela compreende. E ela o aceita. E ela o ama e o deixa ir. Ele a ama e a deixa ficar. Cada um, sem violentar o outro, mas respeitando o amor que os une. Ficção? É. Pura ficção de folhetim. Não existe amor assim(?), que ensina o outro a voar e ao final, voa sozinho por livre e expontânea vontade. Ainda busco o amor cego. O que tenho conhecido, são amores de muletas, mancos, de pés quebrados, de óculos, pobres, cegos e nus. Mas nunca um amor incondicional Estou sendo dura? Tomara que sim. Ainda preciso do milagre que pedi a Deus no fim do ano. E enquanto ele não vem, contento-me em ver filmes que finjam que o amor é lindo. Ah, o amor é lindo. E Brad Pitt também. Como seria bom se tivéssemos um tempo para despedidas, dado pela morte. Como seria bom se pudessemos saber o que esconde o outro em seus armários fechados. E ainda acredito em Deus. Eu ainda acredito no amor, seja lá que aparência ele tiver, desde que vindo de Deus. Eu ainda acredito em milagres.
Costumo ver os filmes com um caderninho na mão. Para anotar as grandes sacadas e para depois, escrever sobre eles. Antes que fujam da memória como os amores que doem. Eu ainda estou sem sono. Então, vou apelar para a poesia que me cala, me traduz e me ressuscita, sempre que eu desisto de viver. É Deus quem me suporta sem sono nas madrugas. Porque Ele nunca desiste de mim. Nem quando eu estou como hoje, querendo escalar o aconcágua sozinha, nua e de lá, jogar pedras na lua. Um dia ainda escrevo aqui sobre um filme de Akira Kurosawa que assisti no cine Tambaú, quando ele ainda existia. Cobrem. Senão esqueço. Ah, vi a minisérie ontem "Hoje é dia de Maria", arrepiei-me dos pés à cabeça. Tudo é fantástico. O cenário, os aboios (amo aboio, amo), a cultura popular, os atores, Fernanda Montenegro é uma diva. Meu Deus, estou babando por essa minisérie. Boa noite. Ou seria bom dia?
Sobre o conto mínimo, não posso deixar de registrar aqui esse comentário do Zeca, essa pessoinha grande, e amorosa (vejo Deus nas suas atitudes) que continuou sobre a sua visão da agonia da Mariana:
"Assustei-me quando, à janela, fui arremessado contra a fria manhã, sem ser levado no vôo dela. O sol, tímido ainda, não ousava se mostrar. No meio da casa, a barreira formada pelas flores amarelas do sofá bloqueando meu caminho. Não me facilitavam a porta do seu quarto. E a clorofila da amada, escorrida pelas frestas do chão emoldurava gérberas azuis por alí espalhadas entre cacos de um vaso caído. Minha alma procurava a da amada, que mais uma vez, voava sozinha, deixando-me aturdido, com o peito dolorido. Minhas aflições me asfixiavam e meus medos me assaltavam: e se ela não voltasse mais? " http://j.cb.blog.uol.com.br
Contos da carochinha
Quando o sol rompeu mais cedo naquele dia, ela teve certeza do que viria no dia que iniciava. Foi como abrir de dores seu peito. Mariana levantou correndo da cama e atravessou a sala, esbarrando no sofá de rosas amarelas que colocara propositadamente no meio da casa, como um muro até o seu quarto. Foi cambaleando até a porta da frente, caiu por cima do vaso de gérberas azuis, molhando toda a sala de líquidos verdes. A clorofila das plantas, era a água que escorria entre as suas pernas. Mariana alcançou a janela e arremessou-me contra a manhã fria, voando longe dos seus problemas. Sua alma de andorinha ficou na cama, e ela como sempre, voava sozinha.
Dira Vieira
Foto: Saindo de Campina Grande (by eu)
Crônica de vida real, ou a morte da bezerra
As cobranças eram as mesmas. Chegava apressado, cansado do trabalho e encontrava-a escrevendo, ou lendo, ou na janela olhando as nuvens formando animais, pessoas, anjinhos, ou corações. Era sempre assim. Esposa que se preze tem que tomar conta da casa, da vida doméstica e do marido. Onde se viu, o homem sair de casa com um botão da camisa faltando? Ou com a calça mal engomada? Não podia. O casamento é sagrado. Os filhos, a casa, sempre a bendita casa que nada tinha dela, nenhuma marca. Nem os anjinhos que decoravam o centro da sala haviam sido escolhidos por ela.
A casa, arrumada apenas com a ajuda da secretária do lar. O almoço, ele mesmo fazia, claro, se quisesse comer. Quando deixava em suas mãos a difícil tarefa de cozinhar, a menina arrepiava. Tentava esquecer os livros, o maldito computador e sua literatura e pessoas incríveis num canto. Precisava esquecer o computador e ser dona de casa. Senão, ele voltaria a ser o que era, amigo da noite e das madrugadas de bares. Ela decidia. Ela quem sabia das noites em que esteve só, na janela da sala esperando ele chegar por noites e noites, a vida inteira, até descobrir o bendito computador.
Ela não nascera para a vida doméstica. Devia ter dito isso no dia que disseram sim um ao outro. Eu, bem-te-vi da pluma amarela, não sei cozinhar, não sei passar, não sei pregar botão, nem fazer bainha de calça, nem passar pano molhado no chão, nem fazer cafuné, nem o café, nem fingir feliz quando não estou, nem fingir de morta quando não gozo. Sou uma pássara da poesia, deliro nas palavras encantadas, desabrocho mas madrugadas de entrelinhas e frases soltas e apaixono-me facilmente pelos versos que me tomam como se fosse um mar a navegar os meus líquidos quando amo. E ele diria: eu, martelo de ferro com cabo de madeira, detesto a poesia, não gosto da lua, o mar me enjoa, quero comida e roupa lavada, botão na sua casa e mulher dócil e burra. Aí, depois dessa confissão, estariam os dois acertados, se aceitassem um ao outro, estava o sim consumado. Mas não. O amor é cego. Faz todas as promessas antes da dureza dos dias.
Acha que o outro muda, ou que muda o cenário dos dias. E o tempo passa, e ambos continuam esperando do outro, o que esperam de si mesmos e não podem dar. Quem inventou a idéia de que os opostos se atraem não deveria ter mãe, ou se a tinha, coitada, não devia ter uma vida boa...
Mas o fato, é que ela ia, quando ele voltava e ele voltava sem ela nunca ter ido. O feijão queimava, o arroz queimava. Ela queria ler pra ele os poemas bicados no muro de casa, as flores que beijou, o mel que sugou e ele nunca tinha tempo. Ele a chamava para ver novela e ela só gostava da novela contrária, empilhar versos, fazer cantoria, pobre menina pássara, queria a lua e ele não sabia onde ela se entendia nua. Os versos abafavam as diferenças, a moça reinventava os silêncios e eles se calavam, esperando o calor da presença cada qual na vida do outro, sem nenhum compreender que eles rumava para o lado contrário da vida em que o outro trilhava.
Até que um dia, em que as cobranças foram tantas, que a menina se encantou e virou fantasia, ele só lembra de ter gritado com ela, pela panela vazia e a gaiola ter sido aberta levando embora sua menina-poesia, num vento forte que invadiu a cozinha e suas vidas.
Dira Vieira
Uma tentativa poética:
Telegrama
O suor do dia
nesse corpo que exala cheiros
tem tua marca
na minha saudade fria.
(Dira Vieira)
Estive visitando um blog, o http://momentosdeamor.blogger.com.br e fiquei encantada com tanta sensualidade, amor, e poeticidade... A Valéria, que o escreve, veio aqui e capturou meu poema para o blog dela, eu amei. Parece que o poema, finalmente encontrou o lugar certo do seu encantamento. Dêem uma olhadinha.
Foto: www.pcj.org.br/formacao
Oleiro
o meu desejo
são tuas mãos
talhando-me
gerando os primeiros versos
matinais
para que em mim te moldes.
A chuva de teus beijos
me darão a forma
saliva
e vida.
sou tua
em assalto
neblina dos olhos
corantes do barro
sopra em meu ouvido
tua existência
nosso amor em ato único.
(dira vieira)
Escarlate
Há de haver um dia em que o sol,
em sua cor natural,
traga o azul do mar nas suas retinas.
E eu possa
instalar a minha imortalidade
no céu de tua boca
enquanto
contamos as estrelinhas
na boca do estômago
O meu amor,
é menor abandonado nas ruas
órfão de pai e mãe
maçãs do rosto, um pecado
salvas de tiro, em procissão.
ele se renova
todos os dias, todas as horas
enternidade instalada
na tua voz que se faz carne.
O meu amor,
faz coro com os passarinhos
e se marca na alma
nos sucos do outro
somos
tempestades em vermelho escalate.
Dira Vieira
Balada para uma saudade
Hoje não estou bem.
preciso de colo.
o seu colo.
Pedi a Deus
para dormir profundamente
por uns dias
uns meses
até que as ondas gigantes
em meu peito
passem
e eu possa contar
os meus sonhos mortos
empilhados na praça
e recomeçar,
quem sabe,
uma nova vida
sobre os escombros de mim.
(todas as tsunamis
matam
você bem disse, Eva)
As que silenciam no peito
as que silenciam na praia
as que matam ano após ano
e só descobrimos
quando não mais há meios de resgate.
Acordei
querendo o teu colo
como todos os dias
como todos os sonhos
e você tinha ido catar conchinhas no mar.
Dira Vieira
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