O milagre de Deus...

Eitcha, contando os minutos para deixar para trás esse ano tão difícil. Felizmente, há sobreviventes. Lembram da Rebequinha que eu postei aqui sobre ela e o acidente que sofreu? Bom, eis o milagre de Deus: Rebecca está bem, olhem aí embaixo. Obrigada a todos que oraram por ela. Foto nova. Visitem o flog dela e vejam:

http://ubbibr.fotolog.net/rebeccamenezes

Amigos, Feliz 2005 a todos!

Poema em construção -Dira Vieira

 

Há um poema em mim

angustiado na janela do quarto

como restos de ossos

esperando um sopro de vida.

 

Há um poema que se abre em mim

com o frio da noite em filetes azuis

e notícias que vêem de longe

nos mortos que sorriem das ondas

 

Há um poema em minhas mãos de gavetas

caneta sem tinta

papel picado, borrado e sujo

palavras assustadas com o som de suas verdades

 

Há em mim

um poema que geme

uma saudade atrofiada

pergaminhos de sonetos vividos e partilhados

ao pé do ouvido, em via satélite.

 

Há um poema seminovo, semi-nu, sémen-transparente

em minhas mãos, como rios

em forma de canção dedilhada

pelas palavras sussurradas na calada da noite.

 

Há em mim, palavras soltas

versos sem rima, poesia concreta

poemas de pés quebrados e mancos

e saudades em conta-gotas na ilusão do tempo.

 

É noite, é dia

borra de café na cama

minha alma se esconde no escuro

empalicedendo de dor e saudade. 

 

Sem você -

poesia que se esconde de mim –

a vida não passa de canção interrompida

bolero de ravel pela metade...

 

Não adianta fingir que o dia

amanhecerá em mim coberto de razões.

Tudo o mais que eu fizer

se cala no copo vazio de café ao pé da cama.

 

Há em mim um poema secreto

uma letra de música em riste

sete castiçais de fogo

sete luas nuas e negras

 

E um martelo agalopado

Abalroado no meio da rua

cantando cantigas novas pra embalar os sonhos...

 

Esqueci de pedir ao tempo pra parar

enquanto há em mim um poema aberto

feito cachoeira entre as minhas pernas

e um ano novo a parir.

preciso de um milagre....

Foto: Duarte Silva

 

Senhor, preciso de um milagre

Há filmes que mexem com a nossa sensibilidade. Sempre choro em filmes românticos. Aliás, sou uma chorona de marca maior. Choro até quando o letreiro começa, dependendo do assunto visto no trailer, lá estou eu derramando os meus rios sobre a blusa, e fingindo um argueiro qualquer. Hoje eu vi um filme daqueles feitos especialmente para chorar e chorar muito. Acho que até mais que Titanic. É. Porque ao menos o Titanic foi real, em parte. Mas esse foi feito mesmo para chorar. O filme é água com açúcar. Não há conteúdo mais profundo. Mas frases de efeitos, do tipo: eu não vejo o vento, mas sinto. Mesmo assim é o amor, e por aí vai. O filme é "Um amor para recordar" e não me perguntem sobre o elenco, nem diretor, nem autor, essas locadoras nos fazem o favor de retirar todos os créditos, como se apenas o que importasse fosse o filme, mais nada. Ok. Vocês estão ansiosos para saber o que eu quero dizer. É. Normalmente quando falo, poucos agüentam esperar que eu termine a história, pois eu falo como quem hiperlinka a fala. Vou dando voltas, referindo-me a outras situações, e pronto, quando consigo acabar (geralmente eles gritam, mudam de assunto ou me mandam pastar), já nem sei onde mesmo eu estava.

Ah, mas voltando ao filme. Não vou contar a história. De maneira nenhuma. Até porque ela é tão boba, tão boba, que só vendo o filme e nada mais. Chorem vocês suas próprias lágrimas. Mas no filme, vi a mim mesma pedindo a Deus um milagre de natal. A heroína do filme apaixona-se por um quase-adulto fora-da-lei, cheio de complicações. Ela tem leucemia e espera um milagre de Deus. O amor é o milagre de Deus todos os dias em nossas vidas. E como é complicado perceber isso. Por que será? (continua...)

continuando....

Eis-me ali, ao lado do meu bebê, que já encontrei soluçando, e pedi que voltasse o dvd. Não gosto de filmes de dores, nem de guerras, nem de tensão. Meu coração não agüenta mais. Já basta estar vivendo um governo de pura adrenalina no estado. A gente vai dormir e não se sabe se no outro dia ainda terá seu emprego. E lá estava eu, chorando em cachoeiras e pedindo a Deus um milagre. Milagre para entender esse Natal que as pessoas inventaram sem Jesus, milagre para conseguir não me deprimir com essas mensagens natalinas e um milagre para conseguir abrir os meus próprios olhos e compreender que sou muito pouco diante da mão potente desse Deus cuidador.

Eu pedi a Deus um milagre, olhando-me no espelho com os olhos completamente inchados de chorar por um simples filme "água-com-açúcar" e descobrir que as vezes, sim, eu entro na fila das pessoas que não sentem as dores alheias ou então acham que a sua é a maior de todas. Deus, por favor, eu preciso de um milagre para não chorar enquanto percebo que tenho sido negligente comigo e com a vida que passa por mim e eu apenas navego, navego, cegamente, sem saber que o vento que eu não vejo é maior que esse desejo apenas de viver, ou de completar anos e anos e anos. Senhor, eu preciso de um milagre, para tocar o outro, esbarrar nele na rua, olhar em seus olhos e tratar suas feridas como um bom pastor trata do seu rebanho.

Senhor, preciso que apascentes essa minha angústia, me tome nos braços, converse comigo e ensine-me a compreender que apenas um crepúsculo é suficiente para que minha fé seja renovada e novamente, eu possa compreender que sem amar a imagem que vejo no espelho será impossível fazer planos e planos, pois os castelos na areia são passageiros e quando se vão, nem marcas deixam para que a gente lembre.

Eu preciso do milagre de pisar no chão, deixar de sonhar como cinderela e lavar a louça da casa, compreendendo que basta de tantas lágrimas servindo de cera para a nossa solidão.

Queria não falar de coisas que me fazem chorar. Ate que eu estava bem. Mas ao ver o filme, sei não. Preciso linkar outros exemplos para ver se contenho o choro, e consigo terminar esse texto comprendendo que algumas asas já nos nascem atrofiadas. Não há como controlar o amor quando ele desce ladeira abaixo sem freios. O amor, é mesmo um bicho solto no pasto...se não tivermos cuidado, ele come tudo...até a nossa imensidão.

E aí, corro para o computador e tento organizar as idéias, parar de chorar, alinhar as palavras aflitas dentro de mim e acariciar a pele das outras loucas dentro de minha cabeça, gaiola de famintos, abrindo as portas dos desencantos. Eu quero abrir a manhã com esse tempero na boca, o tempero da palavra nova, terra molhada, dedos que digitam os sonhos e os realizam. Há tanto caminho pela frente o tempo curto. No vídeo, notícias de destruição na Ásia, aí a minha alma chora pelos que se foram e pelos que ficam com a dor tão grande no peito, que melhor seria teria ido também. Façam silêncio pelos mortos em nós e pelos mortos da Ásia. A dor é tamanha, mulheres que choram seus filhos, e a terra que nos engole vivos todos os dias. Preciso dormir, agora. Preciso.

Dira Vieira

ganhando presentes...

 Nenhuma Legenda

Foto de João Pessoa(Paulino Michelazzo)

Márcia Maia, clique aqui, presenteou-nos com lindos poemas, pode? Olhem o meu:

 

apaixonada


não vejo. não ouço.
não falo.

(esqueci o mal-me-quer)

só sinto.
e como sinto.

Márcia Maia.


Deixo um, para não perder o mote:

Presente
 
o
teu verbo
palavra escrachada
apossou-se de mim
e pari sonhos...

Dira Vieira

A Loba (link ao lado) promoveu um amigo secreto entre blogs, olhem o recebi da minha amiga. Detalhe: eu pedi um AUDI e generosa como ela é, me mandou escolher e eu como sou de uma humildade surpreendente, acho que ficarei com os dois, para ela não ficar triste...rs Beijo, Sá, amei o seu presente e eu não vou esquecer, viu????

Valeu pessoal. Lindos todos os presentes, a interação alí promovida, foi sensacional. As poetas, blogueiros e amigos que participaram, parabéns. Mais um gol de placa da Dona Loba.

Se quiser ver os presentes que ganhamos (são liiindos) olhe o link: http://festadeamigos.zip.net/

 

o presente

Mais doce Mel

 

Pelo amigo secreto

Tive um grande prazer

Conheci o mais doce Mel

A alegria de viver

 

Voando pelo céu da boca

A bruxinha apareceu

Encantando com seu jeito

Doce, simples de se ver

 

Dira Vieira, Madamemin

É por todos reconhecida

Melzinha, é seu nick

A doçura na menina

 

Nos conhecemos por acaso

Desde então, me encantei

Pela alegria, pelas brincadeiras

Por ser pura, em seu ser

 

O presente será dado

Com carinho que mereces

Mais que um AUDI, mais que TROLLER

A amizade resplandece

 

O melhor da brincadeira

É que a Sá não ficará triste

Vou cobrar o meu passeio

Divida comigo sua meiguice

 

PODE ESCOLHER, LINDA, O CARRO É SEU.

Sá (Ou Sabrina)

  

feijão queimando....

Pedras de Itacoatiara no Ingá - PB (Foto do portal do governo da Paraíba, clique sobre a foto)

Desastre Culinário

A palavra me deitou hoje na cama por mais tempo, para acalmar outras tantas que se repartiam dentro de mim em filhos dos verbos e das intenções. É quase véspera de Natal e eu me escondo da mira do olhar que uiva dentro de minhas cavernas ansiando a minha boca para os vôos de fim de ano. Ando tão cansada, que os meus olhos não conseguem mais ver direito as saídas nos becos em que me meto. Que faço de mim sem você?

 

Comida no fogo, alguém me avisa que o almoço está nas panelas, que é para eu olhar e desligar quando chegar o momento. Parece que o recado não é para mim, pois como já disse aqui outro dia, desconheço o campo da cozinha e passo longe quando se trata de procurar o que comer. Meus instintos não são nem um tanto domésticos. Estou mais para as luas cheias que para os almoços em família.

 

E hoje, acordei com o mundo dentro de mim. Milhões de palavras geradas, como sempre, nada de novo se não fosse a poesia pousada sobre a cama na madrugada quando apertei o travesseiro entre os dedos e pari a esperança em outras palavras. Foi o verso livre que me partiu o ventre e instalou-se no meu pensamento, tomando formas e proporções de um assobio na madrugada. Como as madrugas são curtas e como o dia amanhece cansado. Ressaca do que eu não fiz e dos porres que não tomei.

 

Mas o fato é que corri para o computador para bolinar o poema. Ele toma formas e eu não gosto, amasso, toco, tempero, moldo e ele continua vazio, pois a sua forma deixa de fora as mãos que me enlaçam no frio da noite. Mas os alimentos cozinhavam em fogo normal e eu nem lembrava. Se quer comer em minha casa, por favor, para me levar para o fogão, é preciso que eu esteja em plena inspiração doméstica.

 

O poema não saiu, a voz não saiu, a imagem não saiu, sou uma ilha dentro de mim e não consigo abrir a porta da gaiola. Sem mais nada que comemorar nessa manha insossa, apenas sinto o feijão verde queimando nas panelas, e corro numa atitude suicida para ver se salvo a minha pele, já que o feijão, quase foi pro lixo.

 

Novidade seria se eles não queimassem. Não tenho a menor tendência à culinária, reconheço. Resta-me, temperar o feijão para disfarçar o gosto de queimado e retemperar minha vida para que outros versos repousem sobre mim, sem maiores danos. E enquanto o mundo inteiro fica bravo comigo, eu recito o poema para mim, em sinal de protesto:

 

O teu verso

Paisagem rupestre na minha pele

Ativa as minhas cavernas

E me deixa exposta

Para tuas primaveras.

 

Dira Vieira

sibilando...

Membira (Júnia Bittencourt)

Antídoto

A língua

(o)culta

grita, agita-se

 

e decapita

minha imensidão.

 

Atento, teu silêncio

é um bote de najas

à espreita:

hipóteses do nada

 

(se me tiram as palavras

ainda assim

recrio-me imune ao teu veneno)

 

são minhas todas as culpas

do que pensas ser

passado de mim

 

não olhes assim:

 

tua boca

é vácuo

de tuas angústias.

 

Alforria

 

não explico

o poema

:

cúmplice,

já nasceu

de ventre livre.

(Dira Vieira)

estátua!!!

Foto: Artur Carvalho

MUDO

 

Da minha nudez

- papel jornal -

faço picadinho em mil pedaços

e solto-a ao vento

para ter a impressão

de que de fato

 

no ato

 

ela é pacto de mim

com a solidão.

Dira Vieira 

sozinha...do lado de cá

Foto: Roberta Barbosa

 Do lado de dentro da janela....

"quando estou vazia, só aparentemente estou. brincam de
esconde-esconde tudo aquilo que vale, que conta, que ficou.
eu finjo que não os vejo. eles se fingem de passado. mas quando
estou vazia - e só aparentemente estou - é com eles que me
encontro. é com eles que eu sou." Antoniel Campos

 

 

Caminhando dentro de casa, da cozinha para o jardim, procuro a palavra perdida em mim, as que não disse, as que guardei para um dia te presentear dentro de um buquê de flores do campo. Estou só, com o peito vazio e a cabeça dando voltas ao meu redor. Se brincar, há perigo de cair tonta no chão. Busco a palavra certa, a errada, a que não te disse porque não houve tempo de sussurrar nas poucas horas aos teus pés, contemplando o tempo corrido e a pressa de chegar em algum lugar.

             Estou só dentro de casa, procurando a palavra guardada dentro de mim. Abro-me o peito, e descubro-me à mercê das imagens que guardei do que contornei de ti. Palavras rodeando o teu corpo fazendo um campo de força, a iluminar os teus pelos.

            Estou só, brincando de esconde-esconde com a palavra que se despe de mim e abandona-me nos dias em que precisava dela para te dar de presente a minha boca aflita de teus arroubos juvenis. Somos assim, no escuro da noite, entre o medo de tocar e de assustar a presa, jogando palavras e intenções quando na verdade, as mãos nos saltam os olhos e percorrem o outro cheias de más intenções.

            As minhas intenções percorrem a casa ao meu lado, enquanto busco a palavra viva que me procura no corpo os pedaços dos fortuitos olhares subindo as escadas das descobertas. Há um paraíso mais acima, quando venceres o medo e atravessares a porta.

            Há alguns dias me procuro dentro das palavras que insistem em abandonar-me assim, sem eira nem beira, enquanto ensaio gritos, gemidos, sussurros, e fico aqui a olhar a tela do computador, tentando ensaiar pedidos de encantamento.  Quando não chove tiro férias de mim, porque sou um pouco avessa a dias de sol. Sou dos dias de chuva, debaixo dos lençóis, dos dias frios, dos dias cinzas multicoloridos. Mas de sol não. A menos que preciso de um dia de sol para dourar a pele. Sou dos dias que se escondem de mim para outros encantamentos mais secretos. Sou dos dias derramados em mim, em abajur, meia luz, coca cola na cabeceira da cama, cama desfeita, livros e roupas espalhadas, letras ao pé da cama, imagens de poemas belíssimos escrito a quatro mãos e declamados no silêncio cúmplice de todas as horas.

                Eu te recito em mim, todos os dias, refazendo a via crucis do teu corpo colado na palma da minha mão, dançando como serpente à meia luz do abajur. Eu te preciso, como verbo que preciso conjugar sozinha, aqui, na solidão aparente de nós, eu, desnuda, procurando os armários para compreender as minhas imagens no espelho. Odeio os espelhos, todos eles. São retratos do quarto fechado em mim, sem ti, enquanto desovo palavras sofridas.

                Há em mim, algumas mulheres que brigam, hoje sou a que sente dores. Dores que me impedem de pensar, estudar, trabalhar, ver televisão nesse dia de sol alto e desejos abafados dentro de um envelope de analgésico.

                Quantos analgésicos serão necessários para conter a dor da saudade e esse peito abafado de palavras sufocadas e retraídas dentro de mim?

                Quantos analgésicos conterão a dor imensa de trocar de pele, sempre, todos os dias, para sobreviver aos dias sem inspiração?

                Quantos analgésicos serão necessários para estancar a dor de procurar dentro de mim o que sou e encontrar os armários vazios, já que parti há um bom tempo, e deixei os armários limpos de guardados e passado.

                É tarde. Preciso ir dormir. Apagar algumas luzes, fechar algumas portas, e parar de olhar a janela, observando que a vida não parou lá fora e o mundo gira, deixando-me de cabeça para baixo. Haverá vida ali do lado de fora?

                Haverá um poema debaixo da cama, esperando a inspiração para dar-lhe vida? Haverá um poema sozinho, belo, único, esperando um autor dentro de minhas gavetas? Melhor apagar a luz e tentar ensaiar um sono que me traga a poesia da tua boca que espera a minha, nos meus monólogos de dor.


Agradeço o mote de Antoniel Campos me ajudando a renovar o post hoje. Estive em provas e correrias da universidade, perdoem a minha dispersão. Beijos a todos. (Dira Vieira)

ainda borboleteando...

Foto: João Vasco (Silhueta) 

Moema

"Se esse amor ficar entre nós dois, vai ser tão pobre, amor, vai se gastar..." (A maçã: Raul Seixas)



Possuía cacimbas dentro dos olhos. Cacimbas de água pura e cristalina. Era só olhar para eles e o pobre mortal, mergulhava cativo naquele olhar de menina que parecia pedir socorro o tempo inteiro. Haviam cacimbões dentro daqueles dois pequeninos olhos. O que podia prender aquela menina tão doce e tão silenciosa?

Acordara naquela manhã se sentindo acuada, colocada num beco sem saída, contra a parede fria daquele quarto escuro. Moema possuía cacimbas de uma fundura quase desesperadora e esta estava ali naquele momento, sentindo o sangue queimar na face, junto aos cacimbões. O sangue fervia, a água se revirava em ondas que escorriam pelo rosto, e Moema não conseguia conter tamanha enchente. Havia um silêncio assustador enquanto Moema chorava.

Sua alma extravasando as entranhas, saindo em raios de luz de dentro das cacimbas e molhando toda a cama, onde Moema olhava o seu poema deitado, dormindo como um anjo em sua brancura infinita. Ela o paria todos os dias, letra por letra, verso por verso enquanto a ele se doava, ossos, pele, coração que insinuavam a fundura dos seus cacimbões.

Nem era lua cheia, e a menina continha as feras internas, tocando a pele do anjo, contornando os seus lábios finos, desejando aquele homem, como presente de aniversário. Estava para nascer em minutos, estava para fluir em segundos e não parava de desejar aquele anjo, seu homem, seu menino, enquanto suas cacimbas tratavam de preparar o corpo para que se alojasse nele, para sempre. Unos.

Para não acordar sua criatura, Moema lavou as mãos sobre o anjo, tocou-lhe a boca com as suas asas, e foi embora pela janela aberta, antes que o sonho acordasse e Moema nunca mais existisse.

Fez das lágrimas rios fartos, desenhou barquinhos de papel e colocou seus desejos de mariposa para voar sem os pesos de tantas culpas. Era ela, a menina das cacimbas dos olhos, que escaparia para ser a borboleta dos sonhos de Noel. O quarto, nem os cobertores, poderiam mais conter Moema, a fundura das cacimbas, os desejos de menina, a tempestade de palavras que agora escorriam para fora, pela janela. Moema ia embora, desejando ser daquele homem, para sempre. Voava Moema, voavam as cacimbas, voava a menina da fundura dos olhos.

Tremo só de pensar na angústia da borboleta indo embora, olhando para trás em desespero, aproveitando o sono pesado do anjo para ser apenas borboleta de vida breve, menina de angústias guardadas, horas que ensaiou um vôo e não sabia se algum dia seria capaz de amar.

E amou. Voando azul pela janela aberta.
Dira Vieira


No meu aniversário (04 de Dezembro), publico os carinhos dos amigos:

Meu favo
Nova idade
Novidades
Doçura
Sonhos
Zangões que não se zanguem
Abelha-rainha sem ferrão, mas toda majestade
Vestido bordado com casa-de-abelha
Vestidos pelo chão, ao pé da cama
E beijos, muitos, todos
365, um para cada novo dia
365 mil, para a vida inteira.
E eu quero participar!
Anônimo Veneziano

Dira
dourou
a palavra
que restava
esquecida
e meu caderno
em preto e branco
agora
é colorido

Benno

E muitos outros os quais não consigo colocar aqui. Beijos a todos. Obrigada pelo carinho.

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