Não perco mais tempo em casulos,
já nasci borboleta
mesmo com asas
aparentemente atrofiadas.
Triste, tento pensar apenas na pilha de livros em minha mesa e concentrar-me para ler página por página. Desligo todos os aparelhos de som dentro de casa, fecho as portas, apenas a luz do monitor me faz companhia. Hoje eu queria estar numa praia deserta para perguntar a Deus por que? Não temos respostas. Mas tenho agradecimentos.
Quando entrei na universidade em 1984 – não façam contas para descobrir minha idade! – não tínhamos condições de comprar livros, nem dinheiro para pagar passagens de ônibus (precisávamos de 8 passagens diárias). Passamos eu e minha irmã no mesmo vestibular para Comunicação. Todos os dias era uma aventura ir para a faculdade. Lembro de mamãe tentando comprar fígado e laranjas para que não faltasse ao menos isso no café da manhã, já que não podíamos voltar para o almoço. Senão, seriam mais 8 passagens. Então, comíamos um bife de fígado e um copo de suco de laranja e íamos felizes tentar carona para economizar nas passagens. Eu morria de vergonha de pedir carona e a minha irmã adorava. Era uma aventura para ela todos os dias ir de carona e conhecer pessoas novas. Para mim, era uma humilhação pedir carona. Mas escondia a minha vergonha por trás de minha irmã. E assim eram todos os dias.
Nessa época, eu fazia parte de um grupo literário chamado Oficina Literária, coordenado pela Diretoria Geral de Cultura do Estado, na pessoa de Antonio Arcela e as reuniões eram na secretaria no centro da cidade. Lá, tínhamos máquinas de escrever que eu usava, catando as letrinhas para datilografar nossas tarefas acadêmicas. Na necessidade de ter que comprar os livros que eram muitos, tive uma idéia: datilografar trabalhos acadêmicos. Mas eu era dedógrafa, mas quem precisava saber disso? E lá fui eu, fiz um cartaz e fixei em todos os murais de outros cursos. Dira Vieira, datilografo trabalhos acadêmicos, e colocava o número de contato do orelhão do curso. Até que apareciam trabalhos. Cobrava 0,25 por página que hoje equivale mais ou menos a 0,50 (cinqüenta centavos de reais). Ao mês eu faturava uns 30,00; 40,00 (reais hoje), que nos dava condições de comprar alguns livros e copiar outros. E assim íamos levando. (continua...)
Eu pegava os trabalhos para datilografar nos fins de semana e me trancava na secretaria sem almoçar ou lanchar e sofria para encontrar as letrinhas naquela máquina. Eram tabelas químicas, fórmulas matemáticas... Eu respirava fundo e metia o dedo. Sempre fui metida. Ninguém nunca soube que eu não sabia datilografar. O caseiro da secretaria morria de pena de ver-me aos sábados e domingos lá, sozinha, datilografando o dia inteiro e trazia água e bacias de goiabas do quintal da secretaria que eu comia gulosamente. Eram dádivas, e aquele homem, um anjo e nem sabia.
Na segunda, eu tinha o trabalho pronto e o dinheiro para comprar os livros. Não foi fácil. Mas nunca nos faltou livros. Nosso pai, achava que não tinha nada a ver com isso. Já contei aqui que eles se separaram quando eu tinha 7 anos. E se fossemos pedir dinheiro a minha mãe, ela certamente teria um treco. O dinheiro mal dava para comprar o grosso de alimentação em casa, o que diria, livros, esses complementos tão supérfluos...
Eu me formei. Minha irmã, no último semestre, desistiu achando que preferia História. Quando eu terminei, já vivia enrolada em fraldas, crianças correndo pela casa, trabalho, mamadeiras e compromissos maternos. Nem deu tempo de sonhar. Passei de uma responsabilidade para outra num piscar de olhos. Não me lembro de ter sido criança, nem adolescente. Foram momentos tão rápidos. Eu só lembro que guardava os sonhos escritos em cartas longas que escrevia a um primo imaginário. Contava para ele todas as minhas angústias, enquanto amargava dias dificies. Nada foi fácil para mim. Nada caiu do céu, e até aos anjos que me protegiam, eu precisava rezar por eles, pois a luta deles era grande.
Ontem à noite quando recebi a notícia do resultado da seleção de projetos para o doutorado, e corri para o site, mesmo sabendo que o meu nome não estava ali, fui deixando pedaços de mim pela casa. Em cada cômodo, fui deixando partes de minhas lutas diárias. O primeiro filho, o primeiro choro, o primeiro banho nela – a ninguém dei a graça desse momento, ele foi meu – as minhas lágrimas, o meu cansaço dos últimos dias, as decepções, as vitórias, fui largando tudo para compreender esse momento novo. Pensei em você com fogos comprados para comemorar. Precipitamo-nos em sonhar? Calma. Quando a gente corre muito, Deus dá um jeito de dar-nos uma freada. Calma. O corpo pede calma, pede descanso. Calma.
Outros verões virão e eu poderei tentar novamente chegar ao cume que é o lugar dos vencedores. Só preciso de um tempo. Um dia, dois, quem sabe três serão suficientes para recolher meus pedaços. Não tenho mais tempo para o casulo, borboleta que aprende a voar, nega-se a viver no chão. E eu vou voar, dêem-me alguns dias, enquanto seco todas as lágrimas, troque a pele, os sonhos, repense as armas, mude as regras. Preciso de novas estratégias, novos estímulos. Não há barreiras
que derretam minhas asas dos ideais. Outros verões trarão consigo outras possibilidades e eu possa revestir-me de outras armaduras, sem brechas para alcançar todos os vôos de que necessito para continuar acreditando que posso e que vou conseguir voar com as minhas próprias asas até quem sabe um dia, poder dizer a minha Camila e Danilo, que não há pedras no caminho que Deus seja incapaz de remover. Ele me ensinou a crer contra a corrente. Dêem-me apenas um tempo para que eu troque a pele e renove as forças.
As vezes, é necessário parar no "pit stop" e calibrar pneus, ou trocá-los, renovar o óleo, colocar combustíveis. Nossa máquina nem sempre aguenta quando forçamos o motor e pede socorro o tempo inteiro. Quando não ouvimos o corpo, então ele para e recusa-se a continuar. Eu preciso renovar minhas asas, para dizer: casulos nunca mais. Acostumei-me ao sabor das lutas e aos descanso das vitórias. Casulo, nunca mais.
(Dira Vieira)
Do Real e Virtual
para Linaldo, Cherry e Eros
Muito se fala sobre esses dois ambientes de interação humana, e muito se tem divagado sobre o que acontece no meio eletrônico. A tecnologia tem aproximado pessoas e saberes ao mesmo tempo que nos assusta com as suas possibilidades de comunicação. São comuns os relatos de romance à distância, relacionamentos virtuais e até sexo. Mas todos se apressam em responder que desconhecem esses comportamentos. Se você perguntar a alguém que tem muita intimidade com a Internet se essa pessoa já fez sexo virtual todo mundo vai dizer que não, que nunca fez.
Pesquisando o ciberespaço, um dia discuti com um psicólogo que conheci num chat e ele me dizia que isso era impossível. Mas que passou a freqüentar as salas de bate-papo para compreender o que se passava com uma paciente dele, envolvida e tratando-se, para conseguir esquecer alguns problemas que a marcaram terrivelmente na Internet.
Um dia, combinamos ir a um chat de sexo para ver "in loco" como isso acontecia. Eu precisava apresentar um seminário sobre a minha pesquisa e tinha que mostrar um papo de SV. Não é fácil obter isso. Mas fomos assim mesmo. Não conseguimos iniciar um papo nessas salas específicas onde as pessoas estão aparentemente preocupadas em obter prazer através das palavras. Nós ríamos muito. Porque não compreendíamos o que estávamos lendo. Sou tímida. Se alguém me dirigir um elogio na rua, sou capaz de corar de vergonha. O que sou no presencial, sou por trás do monitor. É complicado. Por favor, algum psicólogo me socorra! Mas o pior que eu passo a idéia de que sou extrovertida.
O fato é que o ciberespaço nos proporcionou sermos mais soltos, ou mais liberados e podemos transpor as nossas barreiras e os nossos limites num mundo aparentemente sem fronteiras geográficas. Será? Será que somos mesmos tão liberados assim?
Esse texto, vem da reflexão do post do Linaldo e da Cherry. E também uma sugestão do meu amigo Eros, que me propôs escrever um texto mais sensual e erotizado explicando esse tipo de ação e reação no ciberespaço. Eu diria, que somos na telinha, no monitor frio, o que somos no presencial. Se formos preconceituosos aqui fora, o seremos aqui dentro, mesmo que tentemos disfarçar seja como for.
Lembro que logo que entrei no mestrado, um colega ridicularizou a minha pesquisa, achando ele que eu só pesquisava chat e foi logo me atacando assim: - Menina, você é a garota que pesquisa Internet? Acredite, toda mulher de chat é feia e gorda. E dificilmente encontra-se mulheres bonitas na Internet. Se encontrar uma, por favor, me avise. Ele disse isso e eu fiquei parada no corredor estarrecida com o que acabara de ouvir. Puro preconceito. Preconceito de quem é incapaz de ver o invisível, preconceito de quem não conhece do que fala. Preconceito de quem busca a beleza exterior como forma única de defender-se de suas próprias inseguranças. Eu falei para ele, que se eu esbarrasse com ele na Internet, jamais me apaixonaria, porque de cara perceberia o quanto ele era pequeno. Depois desse primeiro embate, ficamos amigos. E antes que completássemos um ano de amizade, ele partiu, depois de um acidente de moto. E eu posso dizer, que foi uma das pessoas que mais fizeram a diferença dentro do mestrado de Sociologia. Mas ele tinha essa mania, a de defender-se do que não conhecia.
Geralmente, quem vive cultuando o corpo jamais se deixará envolver por pessoas que não sejam o padrão de beleza ditado pela moda. Quem busca a casca, jamais estará preocupado com a polpa da fruta. E quando o contrário, pouco importa se a mulher/homem não seja o manequim idealizado pela mídia, o que importa, é o que essa relação acrescenta ou não às pessoas envolvidas.
Então, não se trata de saber se SV existe ou não. Claro que as pessoas que se atraem e se necessitam, criarão para si formas de contato, seja lá a forma que for, se em palavras, se em toques, se em ligações telefônicas, se através de cartas, pombo-correio, emails, nos seus jogos de sedução. O que se precisa mesmo discutir é a falta de ética, a mentira, a ocultação e tantos outros crimes que se cometem na Internet, mexendo com a vida de pessoas que apenas se disseram sim aos relacionamentos humanos, entregando os seus sentimentos e segredos a pessoas, muitas vezes, inescrupulosas, criminosas. Viver é correr riscos. E a solidão, a sensibilidade, a sinceridade, muitas vezes nos jogam para becos escuros e sem saídas. Resta a cada um, ter um pé dentro e outro fora, quando se trata dos relacionamentos com desconhecidos. Ora, os que vemos aqui, tocamos, sentimos os cheiros, beijamos a boca, nos decepcionam, imagine o que existe apenas do lado de lá do computador?
No meu entender, somos todos reais, em essência, em sentimentos, no existir compartilhado, assistido e acompanhado. Somos reais sim. O que é mesmo virtual? O amor é real ou virtual? Por que vivemos a separar esses conceitos?
Vocês são reais, na medida em que trocamos sentimentos, palavras, emoções, endereços, telefonemas, atenções. Desconfie de quem está interessado em saber como você é. Isso é uma pergunta proibida para quem respeita o invisível dos outros. A propósito: e a famosa frase: como você está vestida? Ahhh, poupem-me.
Dira Vieira

Essa moça linda, é amiga da minha Camila, sendo parte da familia da 1ª Igreja Batista de João Pessoa. Por onde passa, ela contagia as pessoas com a sua alegria e o número de amigos que fez alí, é impressionante. Não há quem não goste dessa menina. Ela tem 16 anos e no último sábado (dia 20), sofreu um acidente em frente à igreja quando atravessava a rua.
Rebecca foi socorrida. O acidente foi grave. Ela já submeteu-se a duas cirurgias, uma no fígado e outra na cabeça. Ela é uma pequena bailarina. E nós a amamos muito. Estamos todos muito contritos, ao mesmo tempo, que nos fazemos a seguinte reflexão: onde você vai estar no próximo minuto? O que nos acontecerá quando dobrarmos a esquina? Temos segurança hoje em algum lugar?
A cidade inteira ora por Rebecca. Ela está bem. Graças a Deus que tudo vê e contempla. Estou saindo um pouco do foco desse blog. Perdoe-me. Mas não poderia deixar de falar que quando colocamos a nossa fé naquele que pode acalmar a tempestade, nossos dias de trevas e tristeza, são apenas um momento para aumentarmos a nossa fé e esperança. Eu creio em Deus. Eu sei que Ele já ordenou aos seus anjos que tomem conta de Rebecca, como do filho da nossa querida Loba, porque nós oramos e colocamos Nele a nossa esperança. Dias melhores virão.
Rebecca, mocinha do sorriso farto, estamos orando por você. E não dorme o guarda de Israel.
Esse é o fotolog dessa menina linda, visitem e conheçam-na um pouco: http://ubbibr.fotolog.net/rebeccamenezes/
Insepulto
O meu coração
por vezes
dispersa
Vive em disparada
- toda a vida -
pela contramão.
Esse meu coração
parece maluco
moço insepulto
Atropela-me
os dias e as noites
sem o menor respeito
à minha idade
deixando-me mercê
de suas densas
tempestades:
descaradamente.
Há dias que me sinto esquisita. Um monte de borboletas voam dentro do estômago e o meu olhar pousa sobre as benditas impossibilidades do cotidiano turvo. Não posso ponderar o impoderável, o que eu não consigo absorver entre os dedos. Eis-me todos os dias, tentando juntar os pedaços de mim que ficam no lençol quando acordo nas manhãs azuis que invadem a minha janela. Hoje sonhei que outras possibilidades se levantavam como um por de sol majestoso após dias nublados e a minha esperança vestiu um manto quixotesco e disse: hoje eu não vou chorar a sua falta. Vou crer que todos os vôos me tragam pedaços de saudades até que um dia eu forme um todo. A vida não é a parte, é o todo dentro do meu ventre, nas contrações do meu sexo e das minhas vontades que se comprimem aqui, como um filho prestes a nascer. Ainda não nasci e já pressinto que estou indo embora nas marcas que vislumbro no espelho todas as manhãs azuis.
A vida não é só sexo, nem danças de acasalamento o tempo todo. Senão a gente não aguentaria, a produção diária dos hormônios em ebulição o dia inteiro provoca uma sensação de que temos que ser o tempo inteiro os super-homens e mulheres maravilhas 24 horas por dia. Aproveito então a manhã em que acordo pálida da sua falta na face, e vou pensar no Jornal Nacional da noite anterior, percebendo um mundo de corruptos, de fraudes, de absurdos e de tantas mortes. Banalizamos a vida. Banalizamos as relações, banalizamos a existência humana, a vida que nasce no meu ventre e ganha o mundo, em possibilidades combinatórias. "Nada do que foi será, de novo, do jeito que já foi um dia..."
Outro dia li no blog do Régis o seu desabafo sobre Bush e Arafat. Mas antes que Arafat e Bush, penso num país inteiro votando maçiçamente em Lula para ver se ainda conseguimos sonhar novamente. Sonhar com possibilidades de um país mais justo, menos corrupto, e menos desumano. E continuamos esperando, esperando... Claro que Lula não é Deus. E se ninguém é Deus, não vou chorar os homens, porque eles são falhos, e apenas mortais. Choro a insensibilidade humana de ver as coisas acontecendo ao seu lado e fechar os olhos para não se envolver.
Soube essa manhã que uma família inteira esteve por meia hora sob a mira de bandidos e gritaram por um bom tempo, e vizinhos ouviram tudo e fingiram-se de mortos para não se envolverem, e nem ao menos ligaram pedindo ajuda. E se fóssemos fazer aqui uma relação de casos e mais casos dessa ordem, ficaríamos estarrecidos. Mas a violência, a insegurança, o medo, a falta de ter a quem recorrer nos torna reféns de nosso próprio medo.
Acostuma-mo-nos a pensar que a violência e os acontecimentos ruins não batem à nossa porta. A quem pensamos enganar? Quando o medo determinar a quantidade de nossos passos e as nossas atitudes seremos humanos eternamente vencidos. Interessante, porque as nossas habilidades e melhores pensamentos serão sempre para o mal? Ninguém tem idéia para conter a violência, mas é incrível como todos os dias, descobrem-se formas de burlar a lei e os bons princípios. Hoje tudo pode. Tudo é permitido, e continuamos anões de nossa própria mesquinhez.
Então, enquanto me preparo para mais um dia em que me reparo faltando pedaços de você, eu vou aqui, pedindo a Deus para compreender o que nos torna tão individuais, dentro de conchas blindadas cibernéticas, e tentando aceitar algumas atitudes animalescas dos seres humanos. Alguns humanos, são ratos de cemitérios, lixo, escória. Mas fazer o que? Jesus veio para que TODOS tivessem vida em abundância, principalmente eles. Eu oro por eles, eu oro por nós. Eu oro por você tatuagem na minha pele, suspirando pela saudade da poesia que você me recita quando me beija a boca e faz-me crer no impossível e na vida que exala do teu olhar miúdo que apenas sorri quando te imploro que me digas: sim, te amo, te amo para sempre.
Percebo que sou mulher, nos cabelos desarrumados da manhã, no rosto inchado, na voz rouca, e acidez das manhãs em que me equilibro para ser humana pelas ruas, nas atitudes, nas reflexões, nos desejos, e nos obstáculos que conquisto, sem pisar em ninguém, mas lutando para ser melhor todos os dias. Converto-me todos os dias ao imenso amor que tenho por você, marca na minha alma e no meu coração. Converto-me a Deus pedindo a Ele que me faça melhor a cada dia para que eu nunca esqueça de amar e ser humana, dia após dia. Eu amo você, enquanto durar essa minha fome.
Dira Vieira
Estandarte
O meu coração
sentou e chorou
tocando os tambores
ao te ver embarcar
nos navios negreiros para outras lidas:
minha negra saudade
se recolhe agora
em novembros e dezembros
de verões impiedosos...
os nossos desejos hibernam
e as nossas vontades
chicoteiam o dia todo
em sinais de fogo e fumaça
debaixo do sol escaldante.
somos rebeldes sem causa
escondidos nos pilares do medo
onde
minha boca é quilombo de tuas luas.
Onde estás melodia?
há riscos de não sobreviver
quando o dia amanhecer branco de ausências
Sei que as verdades doem
Mas enquanto tu te omites
E eu me estandartizo para outras primaveras.
Dira Vieira
Andei te procurando dentro de mim por todo o dia. Cruzei as ruas sem iluminação. Haviam cachorros, crianças, vizinhos varrendo as calçadas, carros cruzando os montinhos de lixo que as pessoas iam formando para apanhar depois de varrer. E eu te procurava dentro de mim numa impaciência de fim de tarde, fim de dia, começo de noites escuras nos meus guardados.
Hoje te procurei nos retratos digitais que instalei dentro dos meus silêncios. Era você em colorido batom vermelho estampado nas marcas que te deixei na pele branca. Tu figuras em todas as poses e eu deliro ao vê-las. Eu quis te encontrar para dançar, sair na noite linda que se forma nessa cidade azul e te misturar entre os recortes de artes pelas esquinas, como troféu de minha felicidade plena de te ter.
Na procura, cruzei as pernas em sinal de fumaça, para te ter espremido em mim, como chiclete colado na parede dos meus desejos. Desejo de tê-lo aqui, em pedacinhos de papel crepom luminoso avisando aos mais desavisados que quando tu queres, fazes as festas em mim e não convidas ninguém para que apenas nós sejamos os convidados de honra da nossa antropofagia.
A noite vai caindo e continuo a busca de fim de semana parado, enquanto o mundo continua girando e girando e girando e a gente perdendo o bonde da vida, dos dias que se arrastam nessa distância quilométrica que ninguém merece. És o meu simulacro de esperança de dias cheios de paixão, colorido nos olhos da ilusão do desejo que cruza e descruza as pernas para te ter escorrendo como cachoeiras e silêncios produtivos.
O tempo está em suspense. As horas paradas, os ponteiros do relógio não andam enquanto te busco entre as minhas entranhas, nas palavras que empilhei dentro de mim por todos esses dias em silêncio. Fico em silêncio para ver se te escuto sussurrar entre os meus pertences. Acho que te tateio no escuro de mim, entre as minhas letras mudas e vez em quando, te descubro aflito, aceso, estampado como papel parede, com vontade de chutar a vida e correr pros abismos de nós. Corres tanto, corres sem mim.
Não estou triste. Nem alegre. Mas no momento exato de esperar que todas as tuas luas sorriam para mim e te reedite, por completo, nos pedaços que retirastes de mim. Sem ti, sou folha em branco amassada dentro da impressora. Não reajo sem seus comandos. Preciso te encontrar ainda ontem, antes que os meus silêncios me calem para sempre. Antes que de mim, as palavras fujam como todos esses dias e aprisionem os sonhos que compusemos juntos, um a um, metade a metade de nós. Vou instalar-me em modo espera, na curva exata, nos intervalos entre uma mancada e outra, até que me vejas a poesia escancarada na parede e nua, esperando que venhas para as nossas tantas luas. Há em mim um tempo de espera e paixão acumuladas em léguas e léguas de solidão. Quem sabe amanhã quando amanhecer o dia, eu não te encontre faminto em minha poesia.
Dira Vieira
A Loba está fazendo escola. Então, um comentário merece espaço aqui, no post com os meus agradecimentos, reverenciando o autor que nunca imaginei fosse leitor desse blog humilde... Então, clique no nome do moço e vai achar o blog dele. Ah, mundo ciber, como te amo...rs
Antoniel Campos
pra você, Dira, pelo seu texto:
Vão meus gritos em bytes enviados.
Teu silêncio: meus bytes recebidos.
Se tu chegas – e-mails demorados
Não me ficas – e-mails devolvidos.
Spead, banda larga, ah, vã quimera!
Desconecto-me. Me ligo em modo espera.
E outro dia, surpreendí-me com um poema para mim no blog do Pedro Camargos também em referência a um texto aqui. Lá vai:
Para Dira Vieira
Unhas fazem cócegas ou machucam.
Questão de intensidade,
questão de circunstância.
Será que arrisco aproximar-me de ti?
O que tens a dizer?
Qual será a circunstância?
E qual será a intensidade
do que vais dizer em segredo ao meu ouvido?
(Pedro Camargos)
O que você tem?
Há um silêncio em ti que me incomoda, quando me deixa assim, meio perdida no meio da casa:
- O que você tem?
- Nada, não é com você.
- Não?
então deixa
que te adule
beije
implore teu riso
assim
largado em mim
como cobra que se solta
e assustada
esconde-se em sua toca.
- Menina,
minha língua tem dois
lábios, partida ao meio
como a dividir
veneno pelo que vê
e pisa
condenada ao chão
não sonho asas além
de minha presa
no que escuro espreito
canto quando
sou o bote
- Então...
deixa que meu veneno doce
tire esse amargor
dos seus lábios, deixa?
- Ah, nos seus jogos de requebrar
sou serpente que insinua
em teu segredo.
- E eu,
Presa aos seus guizos
espero ativa
as incursões da tua língua
- palavra afiada -
em mim.
- De todos os lados
líquido,
chovo
e relampejo
quando o mundo é
dentro
de você.
- Só sobrevivo
Quando me provocas
Cantas
Encantas
Nesse desafio poético.
Há dias que não penso, finjo noites frias e intermináveis, onde me recosto no travesseiro e penso em você com uma fome interminável de assuntos que ficam guardados para outra hora. O que você tem? Meu espelho pergunta insistentemente ao te descobrir perdido dentro de mim. O que você tem? E eu me recolho a mais uma noite onde a poesia se recolhe, bate as pernas, reduzindo-me a quase nada, nessa noite quente de um verão, onde me sinto outono de pele seca que cai, mudando o tom para outras estações.
Dira Vieira
P.S. Dos versos, apenas os em negrito são meus.
Pessoal, instalei o chat do blog... quem quiser...estamos todas aqui. Abaixo dos links, clique no primeiro quadrado, coloque o nick e clique em chat.
Dominical
O poema
engasgou
como espinha de peixe
na garganta
e antes que eu gritasse
o dia me adormeceu vazia.
Deixou a porta aberta sem querer. Viu o moço entrar sem pedir licença, observou de longe, gata escaldada com medo de água fria. Ele entrou, colocou sobre a mesa da sala um seu saco de letras e pôs-se a desfilar as palavras sedutoras de encantamentos poéticos.
Ela disfarçou, olhou para os lados, fingiu-se de morta. Mas quanto mais disfarçava mais se enrolava nas palavras desenhadas sobre o seu corpo cansado de outros encantamentos...
O moço a seduziu. Prometeu-lhe a lua, as estrelas sonorizadas pelo seu ronronado na janela, esparramou-se sobre a cama dela. E a deixou de quatro, quatro fases enluarada, nova, crescente, cheia, até que definhou minguante quando ele se fingiu de morto e voou de sua janela.
Por que alguns encantamentos duram tão pouco?
Dira Vieira
"Ora direis, ouvir estrelas..."
Fui buscar um sorvete. Quando voltei, ele lia o meu diário de adolescente, decifrando os códigos onde eu escrevia os meus segredos.
- Você não tem o direito. Falei em tom de medo e reprovação. Ele levantou os olhos para mim e nada disse. Aquele olhar me atravessou a alma, paralisou-me no meio da rua, até que ele cortou o silêncio e disse numa voz extremamente calma:
- Vá para casa. Amanhã a gente conversa.
Estendi o braço para pegar o meu diário e ele negou. Disse que ia ler até o fim. Eu ainda implorei de volta a minha vida. Mas ele correu para a parada de ônibus e se foi, levando todas as minhas impressões de quase adulta diante de dois grandes amores.
Entrei no ônibus aos prantos. Uma confusão se instalava dentro de mim. Eu era apaixonada pelo ator-poeta. Um ano em que trabalhávamos juntos num grupo de literatura e teatro e eu nunca tivera coragem de pedir para namorar com ele. É, nunca fui de esperar que os rapazes se decidissem a namorar comigo. O que eu queria, investia, ia lá e namorava. Sempre fui muito decidida do que eu queria. Mas o poeta, era diferente. E eu não tinha coragem e nem ele. Até que um dia, em uma viagem do grupo para apresentar uma peça em Natal, ele me beijou dentro do ônibus. Dali para o namoro certinho, meticuloso, respeitoso, delicado, família, foi um pulo. Eu tinha 17 anos, ele 18.
Um certo dia, minha vizinha entrou gritando dentro de casa após ler um artigo de jornal de um jornalista primo dela onde ele destratava as mulheres, um texto de extremo machismo, mas muito bem escrito. Elas queriam que eu respondesse à altura. O que fiz. E ele, jornalista e editor daquele jornal, publicou a réplica. Ele respondia, eu respondia, e isso durou um mês. Até que passei a corresponder-me com o jornalista por cartas, longas, bem escritas e apaixonantes. Eu não percebia, mas já estava apaixonada pelo jornalista machista. As cartas, escritas a mão, e contendo colagens as mais belas, eram compartilhadas pelo ator-poeta, por serem pura inocência. Até o dia que o jornalista resolveu vir me conhecer.
A emoção era tanta, que eu precisava armar para ficar sozinha com o jornalista. O ator-poeta não ia gostar de saber que essa admiração mútua finalmente se concretizaria ali naquele fim de semana. Até que arrumei uma discussão. E brigamos feio. Fiquei livre durante todo o fim de semana. O jornalista tinha 44 anos. Eu, 18, já, entrando na faculdade de jornalismo. Foi amor à primeira vista. Acho que esse amor já se delineava nas letras que trocávamos, nas impressões, no carinho dele em mandar-me um livro por semana, via sedex. Foi um fim de semana impar. Eu estava apaixonada. Lógico. Pelos dois. Cada um dentro de uma ótica diferente. Compreendem?
O ator-poeta, raivoso, fechou-se todo o fim de semana para minha alegria e felicidade geral da nação. Na segunda feira, eu iria no seu trabalho pedir perdão e namorar a semana toda, por quinze dias, até o jornalista vir da cidade vizinha me visitar. Foi assim por 8 meses. A cada quinze dias, uma briga. E nenhum sabia da existência do outro.
Engraçado que o amor era o mesmo. Pelos dois. Eu não podia viver sem nenhum. O ator-poeta era o romantismo, o amor para casar (aliás, em um desses quinze dias de paz, ele me pediu em casamento e eu tratei de aproveitar o mote para brigar. Onde já se viu casar aos 18 anos?). O outro, era o amor que me incomodava, o despertar das sensações esquisitas pelo meu corpo. Um tremor. Uma umidade que me incomodava, e eu, sinceramente desconhecia. Todas essas diferenças dos meus dois relacionamentos eram anotados no meu diário, em código. Código esse que o ator-poeta me ensinou. (continua...)
Eu anotava ali o sentimento partido. Um, tocava-me como a um cristal, com medo de arranhar. O outro, vinha com as suas tempestades, terremotos, deixando-me com a libido a toda. Eu ainda não sabia nada de nada. E fugia de suas carícias mais ousadas, como louca. Eu fugia. Ao mesmo tempo em que aquilo me deixava em brasa. Mas nada de mais grave. Apenas o desejo que ia e vinha deixando-me descoberta. Aquele homem, sabia como amar uma mulher, nesse caso, uma garota assustada e tímida.
Estava tudo ali. Anotado no diário que o poeta agora, lia página a página tentando compreender o que se passava. Há um mês, o namoro com o jornalista havia acabado. Ele queria casar. Mas éramos muito diferentes em idade. Eu gosta de uma coisa, ele de outra. Minha mãe tinha a idade dele. E as vezes, eles ficavam lembrando músicas passadas, antigas e eu sobrando. Apesar de ser bastante informada, porque lia muito, havia entre nós um vácuo cultura muito grande. Não daria certo. Ele era o próprio representante da geração beat. Por onde passávamos as pessoas perguntavam: Sua filha? Ele: a mais velha. Ríamos da curiosidade indiscreta das pessoas. Pai e filha? Aos beijos? É as pessoas vêem o que querem ver.
Eu estava sofrendo duplamente. Perderam um, estava perdendo o outro. E os rios represados no peito, transbordavam dentro daquele ônibus e as pessoas não entendiam porque as águas escorriam corredor do ônibus e se misturavam aos sapatos sujos do mundo. Todo mundo queria nos decifrar, quando o nosso único desejo era nos devorar, sem a menor culpa ou piedade.
No outro dia, antes do meio dia, alguém bateu palmas. Corri com o coração apertadinho. Algo me dizia que era o meu amor. E era. Sério, com uma caixa nas mãos, nem me olhou. Entregou-me o diário, um colar de ouro, presente meu para ele de aniversário, um disco de Vinil de Caetano Veloso, e muitas cartas nossas, muitas. Eu não disse nada. Ele também não. Deu meia volta, saiu como se nada houvesse acontecido, e caminhou rumo a uma viagem sem volta.
Na sala, aos prantos silenciosos, abri o diário, exatamente na última página, onde relatava as transformações do meu corpo, na proximidade do jornalista, e a minha constatação que estava completamente apaixonada pelos dois, havia a seguinte frase, escrita com letras tremidas e molhadas pelo seu choro de perda:
“a traição do corpo, eu ainda me permito permitir, mas a traição do coração, essa é imperdoável”. Te beijo, adeus. M.
Dez anos mais tarde, os dois morreriam tragicamente em acidentes de trânsito. O jornalista, a essa época, havia casado e deixava dois filhos menores. O ator-poeta nunca casou. Disseram-me que 10 anos depois, pela primeira vez ele estava novamente apaixonado.
A vida as vezes nos prega ciladas. As vezes, somos a vida que escapa das ciladas. E eu amei. E fui amada. Mas não viveria tudo de novo. É próprio dos adolescentes, acreditarem em bolhas de sabão.
Dira Vieira
Nunca escrevi sobre mim mesma. Vivo dentro do armário com cheiro de guardados e a naftalina rosa. Minhas mãos pequeninas ensaiam um texto que me desvendem os pelos, que me mostre o que sinto, o que estou pensando nesse momento em que começo essa crônica.
Eu conheci um dia uma menina pequenina. Ela é do meu tamanho, mas parece ser bem menorzinha. Sabe a fadinha SIninho? Chamo-a de fadinha, porque igual a ela não existem no mundo. Deus fez apenas uma e para infelicidade do mundo, jogou a fórmula fora. Mais umas 5 iguais a ela e o mundo seria bem melhor. Um dia ela me dizia sobre os armários que guardam as pessoas. Aí eu disse: essa me entende. E entende mesmo. Ela fala que somos armários fechados para os outros e que ninguém tem o direito de nos abrir, vasculhar, remexer e deixar tudo desarrumado. Das nossas desarrumações só nós sabemos. Ninguém compreende.
Eu li um texto na Loba Incandescente e outro da Cherry. Elas abriam as portas dos seus armários e eu fiquei assustada. O que faz alguém abrir os seus guardados e dizer de si. Daí eu pensei: são pessoas anônimas. Um ou outro sabem o nome real e o endereço, e tal. Mas eu? Sou a que escreve e a que fecha o armário com o maior medo que o outro me desvende. Quem será capaz de nos tomar a chave e nos abrir o íntimo? Algumas pessoas conseguem isso sutilmente. Desse mundo blogueiro, eu poderia citar uns 4 que me abriram o armário. Mas será que escancarei tudo? Acho que não. A Mariza, o Zeca, a Ariane, o Benno. Agora, a Cherry e a Loba mexem na minha fechadura sem se darem conta disso. Inocentes, vão abrindo os meus guardados porque é no texto delas que eu me espelho e vejo e seus comentários vão chegando perto do outro. Eu tenho um nome, um endereço, e a porta visível. Mas e os outros? Serão pessoas, ou personagens? E que poder eles possuem de chegar tão perto?
Um dia... um belo príncipe no colégio, quando eu tinha apenas 16 anos, olhou pra mim. Ele namorava uma princesa, a mais bela, a mais desejada do colégio. Como ele mesmo dizia: o sonho de consumo de todos os garotos daquele ano. Ele preferiu a mim. Ele, 1,80, eu 1,45. Foi um amor longo e muito dolorido. Ele era o “garoto-futuro-da-nação”. Eu, a garota-pobre-baixinha e de pais separados. Um dia ele me olha e diz, após anos de idas e vindas: se você fosse mais alta... eu tenho vergonha de andar ao seu lado. Eu morri ali e o meu príncipe coachou no meio da praça. De tão decepcionada, o primeiro menino rico-loiro-de-olhos-azuis-1,80 do colégio que piscou para mim, esse foi meu namorado apaixonado. E eu desfilava com ele o colégio inteiro para o sapinho ver que o preconceito estava na cabeça dele. E o mesmo príncipe que optara pela garota inteligente e não a mais linda, não entendia nada. E eu sim. Namorei mais uns no mesmo perfil, alto-lindo-etc etc. Talvez para provar a mim mesma que eu podia e ao príncipe o quanto ele era pequeno diante de mim.
Foi assim a minha vida toda. Foi estudando, lutando, brigando, caindo e levantando que eu entendi que as regras do mundo são diferente das regras que eu quero para mim. As regras do mundo são tiranas para quem não nasce no molde da princesa-rica-de-olhos-azuis-alta e de pouco cérebro. Eu tive que provar para mim mesma que eu podia.
Quem busca o exterior dos vasos, dificilmente se encantará com a beleza das rosas. Eu prefiro as rosas, sejam elas de que natureza forem. Dificilmente acho alguém “feio”. Aliás, para ser sincera. Ainda não conheci nenhum ser humano feio. Aos que me conhecem pessoalmente, sabem o quanto gosto de tocar, beijar, chegar perto, sentir o outro, independente de sua cor dos olhos. Mas algumas pessoas são muito feias internamente, pelo mal que carregam sobre os próprios ombros.
As gaiolas de ouro, guardam titica de galinha debaixo dos carpetes. Eu amo, incondicionalmente. E nunca escolhi como amar. Por isso a internet foi tão especial para mim. Deixo esse texto para as pessoas que aqui me tocam diariamente e que, independente da aparência que elas possam ter, fazem parte do meu armário fechado.
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