luas...

 

                                                                             Foto: Rui Nabais

 

Procurando luas

 

 

Olho-me nesses espelhos da casa. Vejo-me pela metade, com uma parte da face

faltando e outros pedaços de mim que vão me acompanhando enquanto caminho

pela casa vazia. Lá fora, a lua e eu esperamos você nas nossas voltas à terra. A sua

falta provoca raios no céu de minha boca e eu fico grávida de suas tempestades

nesse fim de tarde feliz.  

 

Foi assim... você me olhou pela janela da sala, acenou com um olhar apertado,

boca pequena, lançando palavras contra a parede batendo certeiras no meu coração.

Você me atingiu em cheio. Deixo-me sempre vencer pelo seu discurso inflamado e sua voz

macia que se desdobra em promessas de campanha. É você o meu candidato, que me

vence em todas as urnas, deixando-me sem nenhuma condição de contradizer aos seus

reclames. Não te resisto. Para que?

 

Olho-me novamente no espelho e tento achar você em alguma ruga, alguma saudade que porventura esteja como marca no cacheado dos cabelos, na cara amassada, nos dentes miúdos, nos lábios sem batom, e nas mãos que lhe precisam o tempo todo. Tenho ataques de sonambulismo e saudades. - Estou tão zonza, podes dizer-me, em qual a porta entro?

 

Entro pela que me abres, em versos acasalados e dispersos. Você não cumpriu a promessa. Antes o mundo continuasse no armário. Assim e em versos, decretamos feriado. Fim de campanha, guardamos as promessas e acumulamos sonhos para outras sinfonias poéticas.

 

o verso

último

é o desejo

consumado

inteira é o ato

 

sou plena

e acima

e antes

e depois

de tudo

dona de mim. ( Dira Vieira)

pra você...



”Minhas mãos estão trêmulas, meu coração ofegante. Meu estômago parece ter um elefante dentro... Minha mente só pensa em você.”

UM DIA É SEMPRE MAIS QUE UM DIA

 

Novamente debruçada sobre o parapeito de um barzinho às margens da praia do Jacaré. Estou esperando o por do sol e lembrando de você. O bar está cheio. Garotinhas alegres tomam coca cola. Rapazes com caras de bons moços estão exibindo os seus portentosos bíceps para elas. Turistas e suas máquinas digitais maravilhosas. Sinto frio. Nem a bebida quente que pedi enquanto espero o sol se esconder aquece a minha solidão. Onde você está? Onde se escondeu? Um pier. Uma esperança de contemplar o último por de sol.

            Cheguei aqui bem cedo. Sabe aquele garçon? Olhou-me esquisito... acho que estranhou ter vindo sozinha. Parei o carro. Fiquei dentro olhando o nada. Um menininho falou comigo na porta. Pediu pra tomar conta. E eu queria que ele pudesse tomar conta de mim. Tomar conta da minha tristeza. Tomar conta da minha saudade. Tomar conta dos meus sonhos....e talvez, quem sabe talvez, tomar conta desse meu pesadelo.

            Caminhei até o bar. Quem sabe um dia você possa voltar a esse lugar que me enche de paz e de melancolia. Atravessei a ponte de madeira que balançava como se estivesse pronta a partir-se. Tive medo. Havia garçons limpando o lugar. Fui até o pier. Fiquei olhando o rio que veio do mar indo e voltando lentamente. Parecia um balé clássico. Vinha, batia nos troncos do pier, voltava, e fazia o percurso todo novamente....lentamente. Como o teu olhar que me atravessou a alma lentamente. Fim de tarde. Imaginei você me fazendo sorrir com os seus poemas sem graças e suas mãos que sabiam de cor todos os contornos dos meus sonhos. Era nas entrâncias que você flutuava comigo, como ninguém jamais cintilou.

            Ah, primo. Você nunca escreveu bem. Mas quando estávamos juntos....a trocar confidências, lembro que cada palavra sua soava como uma poesia. Sua voz era poesia. Seu choro. Seu mau humor. Sua falta de delicadeza. Tudo em você se transformava em poesia. Até quando fingia não estar interessado em mim. Ah...confessa. Você nunca aceitou o fato de querer-me e ter que me aconselhar a ficar com os outros. Confessa, tantos anos depois. Confessa...enquanto observo o lugar se encher de pessoas que esperam também.

             Espero o sol ir dormir, enquanto espero você acordar em mim, puxando para si o meu cobertor. Faz frio aqui, primo querido. Faz frio dentro de mim ao perceber que não são seus braços que me enroscam os cabelos.

            Um barquinho. Um homem remando calmamente no rio que vem e vai tocando a pele do pier. Será que sabe o que estou pensando? E a sua pele bate e rebate dentro de mim.

            Alguém grita um nome. Garotas dão gargalhadas a assustar os pássaros. São colegiais matando aulas em plena tarde inútil. É inútil imaginar a adolescência dessas meninas bobas. Elas sorriem. O sol demora a ir dormir. Elas não deixam que ele sossegue. Lágrimas correm soltas. Ah, primo, meu amigo, você não entende. Eu poderia ser como esse rio calmo. Bater e voltar. Voltar...bater. O lirismo das suas mãos tocando as minhas por baixo da mesa. Você dizia que era para dar sorte. E minha alma sorria pra sua, enquanto seu olhar me inundava a vida.

            Escuta. Dá pra ouvir a musica que tocam nesse momento? Bolero de Ravel. Todos os bares tocam essa música quando o sol começa a dormir na Praia de Jacaré. Uma alegria me invade. Posso chorar. De alegria. Porque não há espetáculo maior que ver o sol, o mesmo sol que você me ensinou a amar, fecundando a terra, sumindo entre o mangue. Aquecendo os caranguejos, fazendo colegiais darem gritinhos histéricos.

            Ravel me consola. E a minha cabeça gira nessa melodia de pensar em você e tremer dentro de mim. Entrego-me nesse bolero que arremete meu corpo contra o teu. Primo meu, fecho os olhos. Parece que o mundo inteiro pára a contemplar esse momento. A música termina. O sol dorme. Os homens acordam e voltam para suas casinhas onde as suas mulheres os esperam para o jantar. E eu acho tudo um desperdício. Porque sem você, todo poema belo parece rima fraca de pé quebrado e sem sentido.

            Vou indo. Não me espere.  Escrevo mais tarde. A estrada está esquisita. Depois que o sol foi dormir, parece que o mundo desligou as luzes e se calou nesse momento mágico, em homenagem ao astro poético que me fez companhia até agora. Se der, mais tarde, ligarei a televisão e te direi como anda o mundo por aqui. Enquanto isso, acalento o elefante no meu estômago, e mando dormir a inquietação de não te sentir aqui, perto, dentro de mim.

Dira Vieira

marina...

Foto: Margarida Araújo

Pelos olhos de Marina...

Todos os dias, ela acordava os vizinhos com uma música triste, e tinha uma voz desafinada, ao mesmo tempo em que era doce. Ninguém se ressentia disso porque era um cântico triste e sabia-se que se ela não cantasse sua vida seria muito pior. Era como se Marina gritasse, exorcizando suas dores ao cantar. Sempre a mesma música, enquanto varria o quintal, colocava as cadeiras do terraço e varria a frente da casa.

Com três filhos pequenos, mulher bonita, cabelos longos, olhos verdes, dona de um corpo belo, ela não sabia nem escrever o nome. Dedicara toda a sua vida a trabalhar de doméstica para que o marido pudesse terminar a faculdade de medicina que custava caro. Quando ele por fim terminou o curso, a trocou por uma colega de profissão e sumiu na vida, deixando-a sozinha com os três filhos completamente desorientada. Sua mãe, antiga cafetina da cidade, a vendera a um rico fazendeiro, que a levou da cidade com os três filhos menores. Como era casado, o velho Jorge, vinha de 4 em 4 dias visitá-la, e ao sair, deixava sobre a mesa algum dinheiro para que ela pudesse se manter. Marina passou a ser propriedade de Jorge.

 

Desde então, Marina parou de sorrir,  perdeu a graça, não trabalhava fora e como era muito bonita, o seu dono a mantinha escondida da luz do sol para que olhos alheios não a cobiçassem. Marina, portanto, acordava muito cedo para pudesse varrer a frente da casa, sem que precisasse cumprimentar aos vizinhos.

 

Eu a olhava todos os dias. Admirava a sua beleza e sua meiguice em belos olhos verdes que  me desmontavam diariamente. Algumas vezes, faltei ao trabalho para ver Marina lavar a casa, pois era a vantagem de casas sem muros, podíamos ver as outras casas sem levantar suspeita. E eu, vivia de voyeur a observar Marina dentro de sua gaiola de dores.

 

Um dia trocamos algumas palavras com muito custo e percebi como falava errado e dizia entusiasticamente que queria ser “adevogada” para “livrar-os-pobre-das-injustiça-do-mundo”. Era uma menina grande, de 26 anos de idade com o peso do mundo sobre as costas. Marina não sonhava mais, tinha tempo apenas para se perfumar para esperar o seu dono.

 

Dia desses, beijei Marina no rosto. Queria mesmo era beija-la na boca, arrancar sua roupa e faze-la mulher. Mas eu a segurei no rosto e só a beijei, com todos os pudores do mundo. Marina era uma santa num altar das minhas aflições.

 

Depois disso, Marina mudou. Resolveu alfabetizar-se, fez supletivo escondido do seu dono, vi-a pela janela debruçada sobre os livros noite e dia. Quando ele chegava, ela escondia os livros debaixo da cama e voltava a ser Marina-cheirosa-e-vazia que ele havia comprado. Fez o Supletivo de 1º. 2º graus. Decidiu ser professora. Terminou o pedagógico, fez um concurso público passou e foi chamada. Comprou a carta de alforria e mandou o seu dono embora. Jorge ainda ameaçou, estrebuchou, prometeu matar, mas foi embora, desconfiado que a sua Marina já não existia.

 

Hoje sou eu que espero Marina chegar da faculdade de Direito. Continua linda, os filhos casaram, e Marina me fez seu escravo. Não durmo sem que ela chegue, não sonho sem os sonhos dela, não vivo, sem Marina por perto. Eu sou dela, ela é minha. Mas ontem, ao espera-la no portão, vi que alguém mais lhe fazia companhia na rua. Aproximei-me questionei quem era, Marina me disse que era um amigo da faculdade que a acompanhou para que não viesse sozinha.

 

Marina se forma esse mês. E eu sei, que me tornei pouco para ela. Porque alguém tão grande, não pode mais viver na janela. Marina vai voar, eu sei. Porque fui eu que a ensinei a isso. E eu, vou viver dos sonhos dela, vou lembrar dos seus vôos e vou admira-la pelo resto da vida. É a hora de Marina caminhar com as próprias pernas. É hora de Marina desabrochar para a vida.

 

Hoje quando chegar, saberá que me fui. Porque cumpri minha missão na sua vida, ser estrado para os seus pés, o desejo que ela tanto queria, os beijos loucos que trocamos no quintal, a vida devolvida em meu sexo para Marina. Serei feliz, por ter sido o primeiro aeroporto, para que Marina decolasse para o mundo. A minha menina tonta, é hoje a dona de mim e de si. Tomara que ela não seja mais escrava e assim como fez a mim, continue sendo a rainha de outros sonhos que a acalente.

Dira Vieira

surtando...de novo

 

Foto: Victor Martins

Inquietante sussurro

As tuas palavras antes do café da manhã, sacudiram as minhas vestes de um lado para o outro. Foi um assombro só. Os pêlos do corpo se ressentiram, ficaram em pé ante a possibilidade de ter você, metáfora poética em dias de sol e calor. Mas não era possível, o tempo, veloz carcereiro que nos aprisiona, também te impõe regras de conduta e marcas na calçada por onde caminhas com passos largos e apressados mesmo com teu pensamento morando em mim.

Reviro-me de um lado para o outro com preguiça de levantar da cama. Passo em revista a minha pele, lambuzando-a de óleos, cremes, mãos imaginárias que me preparam para receber o teu olhar, língua que me disfarça em frente ao espelho.

Penso no que me dissestes na noite anterior aos meus guardados. Dupla face do medo, o papel crepom que fotografou a tua presença na minha tez. Faltava tinta na impressora para que te registrasse em mim sob o sol do meio-dia, meia-noite, meias-vontades, meias-palavras que já bastariam para te revelar no quarto escuro da minha face. Há palavras que expõem o desejo, outras que invadem a roupa, os sentidos, abrem a blusa e se instalam em mim. Outras, menos sutis, desnorteiam quem as emitem e quem as recebem. Que faremos quando o nosso alfabeto nos denunciar?

Em alguns dias, acordo pelo avesso, com a costura aparecendo, deixando à mostra os remendos do que sou e do que tenho sido quando transito pelas ruas dessa cidade quente. Olho-me pelos espelhos das vitrines, esbarro em pessoas que nem sei que existem. A minha vida se desvirtualiza quando eu tiro os pés no chão. Penso em descer do salto, soltar o cabelo, colocar um batom vermelho, aumentar o decotes nos seios e sair por aí, deixando que o vento dê noticias de mim.

Há dias que sinto falta da noite, do frio, de namoro na calçada, de fala sussurrada, de beijos molhados que soltam palavras em estouro de manadas e renovam o meu estoque de desejos que dançam, flutuam, e se abrem para mim... Há dias

A tua palavra antes do café da amanhã, ainda me toca agora, quase no fim dessa tarde... chamando-me para outros exercícios da língua: meu dever de classe favorito.

Dira Vieira

mea culpa...

                             Foto: Paulo Castro

 

espelhos...

 

Há momentos em que me ponho a querer voltar para dentro de mim, tamanha é a minha inquietação. Olho-me no espelho e decifro-me na tua boca manchada de batom que reflete de mim, como se fosse tu. Somos um, partidos pela metade, sem nunca termos sido coisa alguma.

 

Em posição fetal, tento te achar entre as minhas pernas, palavra que me toca em plena tarde, arrepiando os meus pelos e me deixando quase morto de tantos quereres. Para te ver, basta um vento mais forte e cedo às tentações do vento norte que dirige os meus passos para ti.

 

Caminho descalço pela areia de fim de tarde. O tempo morno, a praia morna e esse desejo de tê-la em meus braços é cada vez mais volumoso entre os meus tecidos, minhas carnes flácidas de outonos esperando as primaveras sutis da pele aflorando em rios que tu provocas.

 

Há entre nós um embate de palavras que se contorcem e se misturam num jogo febril das vontades contraditórias e nem um pouco sutis. Eu não te assumo, porque nem mesmo reconheço-me ao fundo do espelho torto, quem dirá, as palavras que gritam frívolas um eu te amo, bombardeado pelo lugar comum.

 

Volto sim para dentro de mim, homem pequeno que sou, desnudo, vazio, há espera de coisas que não entendo, e que por isso, parecem gigantes que se entrelaçam nos meus sentimentos.

 

Há um menino em meu peito, querendo brincar com fogo, acendendo todas as fogueiras úmidas, para que possa por fim, queimar as fronteiras umbilicais, renegando a liberdade cerceada de minha boca que procura a tua o tempo todo. Eu, perdido no paraíso, sem sentir na boca o gosto da maçã, fruta de vez, temporã dos meus abismos.

 

Eis-me aqui, perdido, procurando os rastros do meu equilíbrio, corda bamba dos meus desatinos. Nunca vi homem chorar assim.

 

Dira Vieira

comemorando...

Foto: Rui Gomes da Silva

 

 

 

Bilhete

 

 
Toma o texto que te fiz.

Ele é teu. Ele é nosso.

Escrito a quatro mãos.

As minhas, as tuas,

antes que elas cometam mais que palavras,

mas, sons que nos levarão à loucura,

escrevendo o romance completo,

na tua pele e na minha.

te beijo.

 

Dira Vieira

nas tuas mãos...

Foto: Antonio Martins

Devoto

preciso saber
que sabor guarda tua
boca pra derramá-la
em meu corpo
depois de ser líquido em ti.

Chuva, pancada no telhado,
você vendo de fora
e sendo a paisagem de dentro.
Preciso
morder tua língua e saber
onde se chega a um ai,
conhecer toda
a escala de teus gemidos
e as posições de teus gritos
e a procissão
que tu fazes de mim...

(D`alémar*)

Hoje passei o dia com a palavra presa na garganta e entre os dedos. Parte de mim engaiolada, parte sofrida à tua espera inútil. Tentei escrever teu nome...os dedos não souberam as letras, tentei insinuar rimas, versos, algum nome, cometi gafes, tonturas, desejos tortos... Até correr para a janela em busca de alguma estrela amiga sua.

Ilusão, quando não vens, as estrelas se escondem de mim em sinal de protesto, tiram férias, dispersam-se, preferem as nuvens carregadas de saudades que derramamos ao longo do dia.

No meu estoque de sons, ensaiei um que te moldurasse à minha pele, feito creme de verbos e intenções: onde você meteu a minha inspiração? Passei o dia te procurando dentro de mim... era um tal de abrir bolsas, roupas, vestes de baixo... passei a tarde te procurando perto de mim.... E te imaginando a estender as mãos sobre os meus desertos no ventre. Minha escala de sentidos andam à flor da pele, mudo como as estações mais em velocidade acelerada. Há em mim várias mulheres que te imploram. Uma que ri e chora e outra que zomba de ti, pisa, maltrata, crava unhas em tuas costa e ri do teu choro quando vou embora. Há em mim uma mulher que te espera e ao mesmo tempo te manda embora e quase nunca obedeces. Tu és o que preciso, na medida exata dos meus vácuos, deslizes da noite, meus perdidos, os meus guardados, buracos negros de minha fala sem pre amordaçada. Há em mim mulheres inseguras que esperam na janela, o amado, a ilusão poética em embolada, coco, roda, ciranda, poesia que crias enquanto me olhas pelo espelho do tempo e folgas da lida. Quando faltas, perco-me, mas nem sei se sempre te acho, nessa tua correria do vento, barco à deriva, ondas altas, meus maremotos de muitas saudades.

O que quero mesmo e pretendo, é aprisionar-te no infinito das pernas, a tua/minha inspiração poética, gritos soltos, comandos de guerra, mensagens que soltamos em alto mar. Nessa noite, abro os meus armários para ti, incondicional te entrego as chaves de mim, troca as minhas peças, recomponha-me e revista-me de mim nessa inquietude patética do olhar de encantamento. Quando estás por perto, as minhas palavras se arrepiam e bailam nessa folha fria, e ensaiam cortejos de sedução para ti. Abre os armários, repousa em meus guardados o teu canto, porque já é tarde demais para escrever sobre a lápide aquilo que nunca fiz: aqui, viva, as parte que te sobram e requerem de ti, a poesia ensandecida, doida, carente de teus afagos nos versos ditos em protestos. Agora, vou-me já te vi. 

Hoje, em campanha aberta e escancarada, subo no palanque e solto o verbo, ando à procura de mim e dos meus guardados só tu - devoto fiel - tens o início, o meio e o fim.

Dira Vieira


*Poeta paraibano, um dos melhores, aqui com pseudônimo. Um dia, quando ele morrer, aí a gente revela a identidade secreta. Por enquanto, o poetinha é D`alémar. Desculpem a demora em postar. Muito trabalho prendendo os meus dedos. Inda bem que não prendem a imaginação.

       

      E agora, Clark Kent?

 

Eu era uma adolescente e Superman surgia na tela, no meu sonho de príncipe e sapinhos. Quem nunca sonhou em ter o Clark Kent com aquele olhar de bobo, ali bem pertinho, ao alcance da mão? Era meu sonho de consumo. Até hoje ainda sonho com o Superman me carregando nos braços e livrando-me dos inimigos. Eu, a desconfiada e lunática Louis Lane, deslumbrada com a profissão de jornalismo, sem ver um palmo à frente de meu nariz. Foi assim que resolvi ser jornalista, acho que tinha algum sonho de encontrar nas redações de jornais, algum superman tímido e tirar toda a sua timidez. Nunca entendi porque a L. Lane não atacava aquele bonitão.

 

Eu tinha a impressão que todos os nossos problemas seriam solucionados se simplesmente eu gritasse o nome dele mentalmente, aí ele viria e levar-me-ia com ele. Tantas coisas passamos quando crianças. Nosso pai resolveu sair de casa, quando ainda éramos bem pequenos e a minha mãe não tinha emprego e nem estudos. Imagine. Um pai que se separa não apenas da mãe, mas dos filhos também, coisa tão comum, não é? E para garantir essa separação, ele sai sucessivamente de todos os empregos que arruma, quando pressionado a dar pensão alimentícia. Então, minha mãe teve um tempo mínimo para estudar e arrumar um emprego. E como sofremos nesse tempo...  

 

Lembro de dias sozinhos em casa, minha mãe estudou e conseguiu se formar num técnico em enfermagem. E quando ela dava plantões no hospital, ficávamos tomando conta uns dos outros. Quando perdemos nosso pai, tínhamos 6, 7 e 9 anos. Éramos crianças tomando conta de crianças. Mas a minha mãe dizia que éramos mocinhas e mocinho, e que deviamos ser adultos e corajosos. Eu e minha irmã, viramo-nos tranqüilamente, mas o meu irmão não. Eu já falei nele aqui. Falo mais depois.

 

Hoje, estou falando da morte do Superman, e de como dependemos das fábulas e dos contos de fadas para enfeitar os dias de pobreza, carências e até mesmo, para sermos crianças. Algumas pessoas conseguem, a tal roupa de camaleão – ter a cor do ambiente para sobreviver do ataque dos predadores – que eu falei anteriormente. Hoje falo de como precisamos de referências para sobreviver.

 

Obrigadas a tomar conta do irmão mais novo e da casa, sem pai, sem família, enquanto mamãe ia trabalhar, eu e minha irmã, misturávamos os livros e os sonhos e íamos fingindo ser gente grande, sem esquecer que poderíamos nos momentos de lazer brincar de crianças.

 

Eu sonhava com o Superman. Sonhava que um dia, ele surgiria em alguma redação de jornal, e olharia para mim com aquele olhar mágico de olhos azuis e se apaixonaria completamente pela menina pobre, sem pai, que estudava em escola pública e tinha inveja das minhas colegas que tinham a quem homenagear no dia dos pais. Eu cresci e percebi que o Superman, era um homem comum, que depois de tanto voar ao redor da terra, sem nunca ter caido, cai do cavalo e fica dependente de uma cadeira de rodas.  Mesmo assim, a sua vontade de viver, e a sua luta contra a burocracia, e pela ciência, fizeram-me admirar o Superman da cadeira de rodas. O que não se prendeu nela, muito ao contrário, a utilizou para dar outros giros ao redor da terra.

 

O Superman foi hoje para o andar de cima. E eu ainda não entrei em uma redação de jornal. Acho que outro herói assim com esses olhos será difícil encontrar em algum lugar do passado ou do presente. E eu, não sonho mais com príncipes encantados, prefiro os sapinhos mancos e gordinhos que coaxam na lagoa, eles são bem mais viris e românticos. Enquanto isso, enterraremos nossos mortos, Apoema Meireles e Fernando Sabino, antes de cantarmos parabéns para as nossas crianças.Só nós não sabemos, que somos apenas pobres mortais.

Dira Vieira

camaleônica...

Foto: João D`Olhão

Segredos de camaleão

 

É quase meio-dia e ainda espero a porta se abrir trazendo-me a inspiração que preciso para renovar o post do blog. Daí fico imaginando a minha língua roçar tua palavra em riste e minha pele se transmutar em novas colorações azul-turquesa. Os meus dedos gritam, com um tom quase insurdecedor, de quem precisa respirar a todo e qualquer custo. Enquanto imagino toda essa filosofia de quem não tem mesmo o que pensar, imagino o poder da palavra atraindo as pessoas, tocando-as e fazendo-as se sentirem vivas. Estou viva com a pele ativa, adrenalina correndo pelas veias e deixando-me molinha.

Não dormi ontem a noite, as estrelas invadiram o quarto e apagaram minhas idéias. Eu estava cansada de voar pelo centro das minhas preocupações com o nada. Queria colo, queria descansar, dormir, deixar que o corpo encontrasse para si suas próprias defesas, mas esqueci que em ti depositei minhas incertezas e fostes embora sem olhar para trás.

A pequena sereia, deitada ao meu lado, em formato de feto, parecia dormir enquanto eu vagava pela madrugada fria. Acordei-a, invadi sua bolha, peguei suas mãos entre as minhas, pedi que olhasse os meus olhos e falei: Pequena, presta atenção, em alguns momentos, precisamos dar uma de camaleão. Use a cor do ambiente, e molde-se nela, para se proteger. Não deixe a sua cor diferente de onde pisa, isso pode ser fatal. Os predadores são ferozes. Das palavras soltas, das proferidas e das que habitam ao nosso redor, retire as que lhe apraz, as outras, finja que ouve, mas ignore-as, engula o choro, levante a cabeça, que as coisas perfeitas só existem em Deus. A pequena ouviu atenta e depois adormeceu. Peguei-a no colo e a devolvi à sua bolha secreta.

As vezes me sinto assim, meio camaleão, meio voadora, a fim de proteger-me dos ataques dos inimigos nessa cadeia alimentar, onde o mais fraco é sempre tragado e adormecido.

Não consegui dormir. Os gritos que haviam em mim reclamavam a tua falta. Mãos, boca, nariz, alma, pernas sobre mim em noites compridas demais, era disso que a minha calma e impaciência se ressentiam a noite toda. Eu te precisei por toda a noite, aquartelada sobre a cama, vigiada de perto por estrelas apagadas. Na minha impaciência, contei letrinhas para acordar o dia. Ensaiei versos a te cometer desejos. A minha palavra nem sequer pedia para te esquecer, língua fria, nesse inverno de saudades e lágrimas. 

Tenho mesmo uma forte tendência ao vício. Eis-me, viciada em você. Ainda mais em dias de adrenalina solta. Estou só, e só hoje troquei 3 vezes a pele de camaleão. Estou à beira de um ataque de nervos e de sonambulismo. Pode me dizer, qual a porta em que entro para encontrar você?

Dira Vieira


Amigos, agradeço a todos que responderam ao meu questionário. Estou encerrando a página de pesquisa. Portanto, só tenho que agradecer a todos os que divulgaram, responderam e ainda mandaram-me emails em particular dando a maior força para que ele fosse um sucesso. A todos vocês minha gratidão. Anunciarei quando finalizá-lo. [ ]s
escrevendo cartas...

Foto: Antonio Melo

Maria,

Há horas que ensaio uma carta para ti. Não me perguntes o porque de minhas cartas sem sentido. Hoje estou vazio de mim a olhar para a tela do computador esperando a inspiração que não vem. Há dias que nada sai na tela desse computador. As letras inconformadas com a impessoalidade do teclado público, escondem-se entre os meus dedos, coçam, gritam, eriçam meus pelos, aí eu corro para a janela para ver se te vejo, minha Maria.

Não me perguntes o que me falta porque bem sabes o buraco dentro de mim desde o dia que te fostes. Há em mim um vácuo entre os dedos, como fios negativos atrapalhados, entrelaçados, que prendem as minhas idéias e deixa-me assim, meio perdido, sem noção do tempo e do espaço.

É para a janela que eu corro, Maria, querendo te encontrar nesse dia de sol claro. Toda vez que me sinto assim perdido, corro para a janela, como se esperasse que as asas crescessem rápido nesse meu desespero de encastelamento e eu pudesse voar em sua busca. Se ao menos chovesse, poderia abrir a janela, colocar a mão para fora e molhar os dedos para te escrever, Maria, antes que enlouquecesse sozinho.

Há em mim, um homem perdido, que tenta se encontrar nas cartas que me escrevestes ao longo de todos esses anos, minha doce Maria. Há nelas um monte de mentiras que me escrevestes, outras tantas fantasias que ensaiastes, mas tudo, Maria, pedaços de mim que nunca juntasses e os quais, hoje, tento limpar a poeira para que nas poucas que restam talvez eu encontre alguma que fale do homem que fui e do restou hoje.

Ah, minha doce Maria, estou tão cansado de esperá-la. Gasto os meus dias em ilusões tantas, pequenos gestos, frases, esperanças que eu bem sei, nunca partirão de ti. Posto-me na janela, qual barco à deriva e deixo o vento entrelaçar as minhas tranças-rapunzel a espera da Maria que nunca vem.

Há, Maria, em mim, uma angústia profunda, um homem na janela acenando para os carros que passam, com um lenço branco. Hoje, as palavras ficam dançando na minha frente, enquanto olho para o monitor, desenhando-se como se estivesse num caderno de caligrafia. Enquanto eu desenho as letras para te encantar, as letras te desenham em mim, como uma tatuagem para toda a vida e eu me sinto criança querendo o colo, um homem completamente perdido, carente dos teus segredos...

Ah, Maria, melhor terminar essa tão triste carta, antes que te enfades e a deletes sumariamente, com pena de mim. Eis-me no portão, cansado, a esperar as tuas cartas de amor, pequenas mentiras sinceras, farto de rimar amor e dor.

Beijos, Maria, preciso fechar a janela. Uma corrente fria invade a sala e eu estou tremendo, como menino indefeso e com medo. Se você vai vir, venha logo, porque não sei se vou suportar essa tantas janelas abertas em mim. Há sonhos que não passam de pequenas esperas, e eu, cansado que estou, quero mais é fechar todas e continuar desenhos as palavras no meu caderno de caligrafia. Quem sabe assim, consiga ensaiar um esquecimento de ti.

Beijos, um homem.

Dira Vieira


Amigos, continuem divulgando meu trabalho de Sociabilidades no Ciberespaço. Clique aqui e responda: www.diaplus.com.br/questionario.htm

despetá-la-me...

Foto: Isabel Magalhães

 

Primavera

 

À tua boca

espero passiva

as tempestuosas vontades

de amá-lo sem medos...

 

Vivem em mim

desejos que te clamam

rios perenes de quereres profanos

 

Meu dono...

de voz mansa

e ordens severas

 

Diga o que queres

e eu me debulho em folhas

nesse corpo que te guarda

 

Primavera de segredos

dos teus dedos

que me aram a terra,

desfolham

e me fincam bandeira:

sementes pra vida inteira.  

 

Dira Vieira


Em tempo: O Linaldo do Blog (Zumbi escutando Blues) publicou um texto meu, aquele sobre cozinhar ovos de codorna. Gente, ler o Li, e sobre o que ele escreveu sobre mim, fez-me cair no choro. Ando sensível demais. Moramos na mesma cidade e ainda não o conheço pessoalmente, mas essa figura, surpreendeu-me hoje com essa homenagem. De público, agradeço a esse grande poeta e fico muito feliz que possamos todos, trocar sentimentos, impressões e exercícios coletivos (como o que fizemos, eu, Mariza Lourenço, Zeca e Ricardo Aguieiras). Acho que aí está o grande segredo dos blogs e sua sociabilidade. Li, eu amei. Obrigada.

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