proseando em versos...

Foto: Ricardo Faria

Tradução

 

Roço a minha palavra sobre a tua pele nua

E vou desenhando meu discurso nas entrelinhas

Pousando a lingua-mãe sobre tuas pernas

 

Minhas vírgulas, paradoxos sem culpas

São as paradas obrigatórias para te sorver

Com calma, a perpetuação das tuas formas

Alinhadas e comovidas

Sobre o meu corpo que se dobra...

 

Roço as minhas ausências,

Páginas em brancos

Súplicas, prantos

Desencantos...solidão dos meus verbos

Frases de efeitos,

Luz neon na tela vazia

Cada dia, um ponto, te encanto e sofro de amor.

 

A noite é longa

O dia é sofrido...

A saudade te reflete sobre a mesa da sala

E a tua voz se desdobra

Em letras, imagens que me calam

Intervalos de esperança nos parágrafos

das longas cartas a ti.

 

A minha saudade,

Exponho sobre a tua pele

Boca, olho, coração em série

Verbos que traduzem e conjugam

A minha imensa necessidade

De traduzir a tua pele sobre a minha

:interfaces de sonhos que se misturam

dedos que falam e fluem

 

a palavra, cruzando as pernas do desejo

te chama, te busca, te deseja,

nossas bocas que se enlaçam em parágrafos,

plural de mãos que se procuram

numa gramática de dor:

 

verbo difícil de conjugar

eu amo, tu amas

nós não temos tempo de amar.

Dira Vieira


Amigos, continuem respondendo ao meu questionário sobre Sociabilidades no Ciberespaço. Clique aqui e responda: www.diaplus.com.br/questionario.htm

crônicas de mãe...

Foto: Gabriel Revez

Cozinhando ovos de codorna

- Mãe, mãe! Ouvi alguém chamar bem longe, quase inaudível. Domingo de manhã, depois de remexer na cama por várias horas sem coragem de levantar, agora ouvia a voz do filho querendo chamar a minha atenção.

- Oi... respondi puxando o travesseiro para cima da cabeça. O que você quer?

- Faça meu café, mamãe.

Engraçado. Esse pedido parecia coisa do outro mundo. Nunca me pedira isso. E para atender ao pedido inusitado, levantei sonolenta para a cozinha, para fazer algo que o meu bebê viesse a comer. Na cozinha, ainda com sono, e olhando atônita para os armários, tentava imaginar onde guardavam as coisas. Semana toda fora, meu fogão, minha máquina de lavar é um computador. São as palavras que me fazem companhia quase 24 horas por dia. Onde eu encontraria utensílios, e mais ainda, o que preparar para ele comer?

Era um domingo como outro qualquer. E o meu filho já não tinha 5, mais 15 anos. E eu não entendi porque ele me pedira para fazer algo, já que era ele quem me fazia todos os dias o meu café da manhã.

Foi aí que me senti tomada por um desespero. O que fazer? Onde encontrar o que preciso? Onde será que me perdi dentro dessa casa toda? Olhava os armários, tentava decifrar os códigos. O moleque queria comer. Eu queria dormir. Nossos desejos se batiam um no outro e ele claramente me pedia colo. Mamãe faz meu café! Dizia como quem pedia colo.

Vi um saco de ovos de codornas, coloquei-os numa vasilha, cozinhei e comemos juntos. Ele rindo de minha falta de habilidade com a cozinha e eu morrendo de fome sem ter coragem de pedir para ele fazer o café.

Eu sim, mulher das letras, imaginava que se ele me pedisse um redação, um sonho, uma tempestade, eu prontamente o atenderia e daria a ele, uma poção de encantamentos numa xícara de chá. Se ele me tivesse perguntado sobre o amor, eu lhe diria. Dos amores vindos, dos amores idos, dos sonhos que espalhamos pela calçada e esperamos a chuva serôdia para colhe-los. Eu saberia explicar-lhe, como levantar ante as dificuldades da vida, de como perdoar o outro, mesmo quando estamos magoados, e de como chorar, quando as coisas não são como a gente quer. Mas ele queria comida. E a mãe dele não sabia fazer.

Mãe, quero comida! Eu ouvi o moleque gritar rindo da minha sonolência, enquanto sentava e assistia minha perda total de memória. Estávamos os dois na cozinha. E enquanto eu procurava algo para comermos, imaginava que os poemas são como alimentos, palavras postas no armário e que precisamos retirá-los uma a uma, colocar em cima da mesa, misturá-las em uma panela, encontrar o tempero certo, a dosagem exata do contentamento para alimentar a alma. Imaginei que a minha cozinha seria a minha caixa de Pandora, mas tão esquisita e tão diferente, que eu estava maluca para sair dali e correr para os braços de minhas letras, das minhas vírgulas, pontos, gritos, sussurros, interrogações, protestos e ensaiar declarações de amor, súplicas, desejos, só assim me sinto com a alma alimentada e feliz.

O meu filho comia feliz os ovos de codorna cozidos por mim, e eu, olhinhos que o admiravam, maquinava um texto novo, uma declaração, algo que me fizesse reparar a falta de não saber fazer o seu café da manhã, mas que pudesse explicar para ele quanto eu o amo, meu filho, muito maior que eu, saído de dentro de mim, mas sendo o pai, e eu, sua caçula indefesa.

Dira Vieira


Eu, a Mariza Lourenço e o Zeca, fizemos um conto. Está publicado no da Mariza. Eu os convido a irem lá e ver o que aprontamos. Um beijo aqui pros dois. E continuem respondendo ao meu questionário sobre Sociabilidades no Ciberespaço. Clique aqui e respondam: www.diaplus.com.br/questionario.htm

republicando....

 

Das imensidões da minha alma só eu sei...

Nem sei quantos gritos eu ouvi quando dobrei o quarteirão. O outro estava na calçada fazendo uma pilha dos livros que ia encontrando dentro de casa. Clarices, Quintanas, Baudelaires, Rimbaud, todos voando pela janela num ato de fúria louco. Eram ciúmes de quem me alegrava a alma todos dias.

Nem sei o que senti. Aproximei-me em estado de profundo descrédito, e dor a fim de entender a cena.

Thomas Mann era arrancado pelos cabelos tamanha a fúria desmedida do outro. As orelhas de Cervantes foram atiradas do outro lado da rua e Dulcinéia, esperava na esquina que a fúria se acalmasse para pegar o lenço branco que deixou cair na calçada, presente de Dom Quixote, quando saiu às pressas. Que desespero. O fogo consumia tudo. Alguns livros, indefesos, atiravam-se a si mesmos em total abandono. Nunca vi o choro nos olhos de Charles Bukowski nem mesmo quando ele tomava os seus porres homéricos e vomitava a última letra. Coitado. Nem uma de suas mais belas mulheres haviam provocado tamanha dor.

Na calçada, consolei Exupéry, o mais gasto de minha estante, que tentava apanhar os restos de seu avião com a ajuda de Fernando Pessoa. Pobre Fernando, nem sabia onde encontrar os seus outros codinomes de tão preocupado que estava com o Pequeno Príncipe, que chorava amargamente ao lado de sua raposa.

Quanta crueldade e ciúme atroz. Era quase noite, e a fogueira ardia no meio da rua iluminando a lua que triste, assistia a tudo calada.

Das imensidões, só eu sabia. Dos dias de dor, de solidão na varanda, esperando-o chegar das farras todas as noites. Ele chegava sorrateiro, esgueirando-se por entre os móveis da sala, sapatos na mão, e deitava na cama limpa, macia, farta de solidão, com aquele cheiro de bar, de perfumes baratos, enquanto minha alma dava voltas ao redor do nada e se contorcia entre as letras dos meus livros, companheiros inseparáveis que agora ele jogava ao fogo.

Morte! Morte aos meus inimigos! Morte a quem ocupa seu pensamento, morte a quem te faz companhia, morte! Morte aos teus livros, que só servem para ocupar o meu lado na cama! Gritava o outro no meio da rua.

Não disse uma palavra. Contemplava a dor de cada amigo, de cada letra, de cada poesia que se partia em mil e ardia no fogo na calçada. Na verdade, quem ardia no fogo era eu, enquanto minhas cinzas se multiplicavam e voavam desesperadas rua abaixo em dor e ausência.

Sem mais nada que pudesse fazer, ainda senti-me ser contida as cinzas pelas doces mãos de Capitu, que trazia no colo Ezequiel seu filho com Bentinho, carinhosamente colocado de lado, para que ela me acolhesse num lenço e me guardasse em seu peito, como fazia todas as noites, em nossos encontros domésticos.

Era tarde, vi Escobar varrer os cacos do outro, sob olhar atento de Bentinho. Enquanto eu, eu mesma, adormecia nos restos de cinzas espalhadas pela calçada, enquanto a alma, a imensidão da alma, estava guardada no peito que Capitu tão solidáriamente, encerrara-me.

Dira Vieira


Obs. Gosto particularmente desse conto. Ele mexe comigo. E como estou sem inspiração, vou republicá-lo. Quem sabe amanhã eu não tenha um bom motivo para divagar? Enquanto isso, peço aos visitantes, quem ainda não respondeu, ou tem amigos que ainda não responderam, dêem uma visitada na minha página da pesquisa sobre Sociabilidades no Ciberespaço e respondam, é rapidinho. O endereço é: www.diaplus.com.br/questionario.htm .
súplica

 

Foto: Carlos Pereira 

Súplica

 

Tua língua

grita

surta

implora

Mas...

Para onde devo voltar?

 

Não entendo como não percebes a importância dos códigos. Se não me amas, não te arrepies quando te toco a pele, como quem acaricia um tapete de veludo... As minhas palavras te arrepiam os pelos, eu sei, os ossos, os segredos, a imaginação que se solta alada, sem rumo na estrada: teu corpo, esse indeciso que percorro com pressa, escapa-me entre um cochilo e outro. Se não percebes, te digo, é a tua fala meu código de guerra e paz.

Tu fazes festa dentro de mim ao chegar sorrateiro, sem nunca ter saído. Eu bem te avisei, sair assim, sem fechar a porta foi um erro, quase um irreparável erro. Eu fico segurando os dedos para não ir atrás, jogando em ti os pedaços de nós na cara, memórias, datas, palavras tortas. Sem ti sinto um frio danado, um desespero, um abrir e fechar de portas e esperanças.

Se não sabes, ainda, há uma alegria incontida, encantos, redemoinhos, a cada vez que me olhas com essa cara de me mandar embora. Cansada, vou jogar fora as malas, as tralhas, o que guardamos nossos, os jogos. Apenas teu carinho, amor disfarçado que tu não percebes, será minha relíquia, a mais fina iguaria, retrato na parede, minha mensagem de amor.

Há em mim tantos desejos confusos, que os meus paradoxos se confundem e é o que te impede de ir, de vez. Que queres que eu diga, a mais, que te faça repensar as voltas, se tudo em mim te implora e chora?

E assim, tentando decifrar os teus olhos, que chegam cansado de viagem, pergunto como devo proceder. Arranco hoje todas as portas, janelas, frestas, aberturas por onde possas entrar e sair, e posto-me enfim flor aberta à espera do teu amor beija-flor de jardim.

Nunca foi tão difícil explicar o amor, esse encantador de serpentes que nos acostuma mal, a esperar dia após dia o toque suave dos teus dedos sobre o meu edredom.

Submissa, disfarço e te encanto só para mim. Teu amor é meu calo, sorriso, mistério, cansaço, saudade que não quero deixar de sentir, então me calo.

Dira Vieira


Ainda preciso de respostas ao  meu questionário sobre Sociabilidades no Ciberespaço: www.diaplus.com.br/questionario.htm

surtando...

 

Foto: César Braga de Oliveira

Eclipse

 

Te beijo

E me esqueço

Nua

Só tuas luas segredam

Meus pelos.

 

- Não era bem assim – disse o sol, meneando a cabeça e mirando o chão. Não era essa exata intenção quando a beijou desesperadamente num ímpeto de loucura e paixão. Sua boca o convidava o tempo todo a transgredir todas as regras.

Os carros passavam, as pessoas passavam, a vida passava, os problemas, a realidade. Mas o beijo consentido e desejado, era a ponte que ligava a vida ao paraíso escondido debaixo daqueles braços.

Durou uma eternidade, aquele beijo. E a bela adormeceu em seus braços, imaginando ter contido no peito todas as suas feras de solidão e abandono. Fechou em si todos os seus mistérios e compartilhou com ele todos os seus guardados. Eram apenas um, numa deliciosa mentira da primavera.

Passadas as águas, os quereres, os desejos que rastejavam atenção, o sol se ressentiu da lua. Que coisa absurda, queria a lua todos os seus dias, palavras de amor, flores, chuvas, tempestades que costumava despertar entre os dedos. O sol assustou-se. E as noites já nem existiam, a lua queria viver no dia, e ele queria iluminar suas noites.

Não poderia dar certo nunca. Os papéis haviam sido feitos antes que existissem. E o amor, beijo roubado no estacionamento do tempo, esse deveria ser colocado numa masmorra para viver escondido pelo resto da vida. Sol é sol, lua é lua, e as tempestades, apenas desculpas esfarrapadas do amor sorrateiro.

Ele a mandou embora com um olhar frio. E disse vá, na mesma intensidade que a tinha pedido para voltar. Como se pode creditar valor aos sonhos? O amor, quando chega mais perto da alma, corre o risco de derreter a vida. O amor possui asas de cera. Quanto mais se aproxima, mas se transforma em nada. O amor que era doce se acabou e o jogo de amarelinha recomeçou na calçada.

Era uma hora qualquer de um dia sem cor, e a lua, apaixonada decidiu eclipse de dor. De tanta raiva, colocou-se na frente do sol e implorou o seu amor. Ele disse vá, desencantando o amor.

Dira Vieira


Respondam ao meu questionário sobre Sociabilidades no Ciberespaço: www.diaplus.com.br/questionario.htm

caminhando...

Foto: Teresa Fonseca

Ao vento...

Há um mundo secreto entre os meus braços.

Aporto aos guardados só nossos

- reajo -

Deles me alimento e escapo.

 

Há um buraco negro dentro do peito

Engulo as estrelas

Me sinto enígma

Escancaro a alma

Cometo meus erros.

 

Há um outro medo em mim

Corro, grito, aquieto-me.

 

Enquanto a dor não passa

Choro, choro, relato

Espalho meus ais no silêncio

 

Em mim

Todas as letras perderam a graça

Só a alma, entristecida

Se agarra aos meus pelos,

submissa

me peço tua volta.

 

Rebelde,

Não te obedeço.

Dira Vieira


Respondam ao meu questionário sobre Sociabilidades no Ciberespaço: www.diaplus.com.br/questionario.htm

sonhos de vidro...

Foto: Antonio Melo

A boca

entreaberta

é repouso da minha insensatez

 

Tua língua

braço que me abarca:

 

caverna,

onde abusas e recuas

a intimidade de meu ser

 

Espero-te

Suspeita, inquieta,

Farta da vida.

 

Meus rios te salivam

o dia

o tempo

o corpo inteiro.

 

 

O dia amanhece sem pressa. Noite em claro, a boca saliva o sonho que não vem. Porta entreaberta. Olho o longe, rua que termina no matagal sem cor de dias sem chuva. Não era verdade o beijo dado, o abraço escondido, as horas roubadas. Fingimos as palavras que pichamos nos muros dos nossos silêncios. Melhor quando gritas, pois não deixas nenhuma dúvida. O outro demora a vir, e os meus dias são esperas infinitas sobre o parapeito da saudade.

 

Melhor matar os sonhos e apagar o nome da memória. Melhor esquecer o rosto, o corpo, a barba por fazer arranhando os desejos apaixonados de quem espera  a mentira. Não vou te mandar voltar. Vai de uma vez, puxo a cortina da noite, quebro as luzes do poste no final da rua, furo os pneus do teu carro, esvazio o mar, canto de tristeza e me vingo na noite sem estrelas, quebrando o abajur lilás. A coca cola ainda no copo tem a marca dos teus lábios nos meus. 

        

Subo no telhado, apago todas as luzes, apago as tuas marcas, jogo tua roupa na rua, mas não te mando embora, porque nunca estivestes aqui. Os hologramas me faziam companhia, melhor inventar outras imagens, afogar a alma, engolir o choro e enterrar a cabeça em qualquer nuvem que passa. Mais um pouco, e passa essa dor no peito, essa vontade de xingar a vida, atropelar a fúria e mandar embora as estrelas que mentem, a lua ridícula, todas as coisas que fingem reproduzir-te.

 

Hoje a minha raiva se levanta, ira, sede, desencanto. Vontade de pintar de branco a dor e dilacerar essa vontade de fingir-me de morta. Basta de olhar o fim da rua, e de esperar, cartas, mensagens, milagres, sinais de vida em Marte. Que a minha fome de amar é ridícula, como ridículas todas as vezes em que disse, te amo. (Dira Vieira)


 Respondam ao meu questionário sobre Sociabilidades no Ciberespaço: www.diaplus.com.br/questionario.htm

 

Foto: Manuel Passos

Desejos de Cera (Ou morte da bezerra)

Não quero teu silêncio

Que teu fogo, arde

Implode tudo em mim.

 

Não quero teus respeitos

Velas, títulos: efeitos

Que o teu olhar

Desconstrói tudo, enfim.

 

Não quero teus medos

Desfolho teus segredos

Armas, mapas: apelos

Recuso-me a olhar atrás.

 

Não quero o sim

Nem tão pouco o não

Quero apenas

Tua boca molhada,

Mais nada.

 

Nossos planos, desejos de cera

Derretem a solidão.

Implacáveis tempestades do tempo.

Não tenho segredos para o tempo. Ele me desvenda em folhas, marcas que me difere das outras pessoas no meio da rua. Mas hoje, especialmente hoje, ele me marcou com a sua mão pesada. Tocou-me no silêncio dos dias e fez-se a diferença sobre os meus passos, rugas, desenhos na face da lua. Usei máscaras, usei sonhos, arquétipos, ideologias, nem assim, foi compassivo comigo. Sua impiedade fez os dias de sonhos correrem rápido, relógio que não pára, pássaro de asas abertas o tempo inteiro. Cruel, acelerou-me os passos, atropelou meus desejos, jogou-me na cara as possibilidades, as chances que eu não abracei e fechou a porta da sala.

Daqui, observo a palidez da minha calma. Submissa ao seu julgamento, choro calada. Suas marcas denunciam o meu medo de correr atrás, pássaro de asas abertas, desperta quando alcança o sol. Os meus sonhos sempre foram de cera.

Em alguns momentos, melhor fechar os olhos, apagar a luz e desligar o mundo. Quem sabe ao amanhecer estaremos sãos e vivos?

Dira Vieira


Eu agradeço a todos que estão respondendo à minha pesquisa. 

Respondam ao meu questionário sobre Sociabilidades no Ciberespaço: www.diaplus.com.br/questionario.htm

Foto: Paula da Costa Pires

Meu Deserto

Há silêncios que gritam.

Há silêncios que choram.

Há silêncios que nem se importam

Se o outro dorme chorando.

 

Há silêncios de paz

Há silêncios de sofrimento

Há silêncios que não suportam

A dor do afastamento.

 

Há silêncios que explicam

Há silêncios que até complicam

Há silêncios que não resolvem

O amor cativo no peito.

 

Há silêncios produtivos

Há silêncios de azedume

Há silêncios tão cansativos

Que melhor seria não tê-los.

 

Há silêncios de desertos

Há silêncios de solidão

Há silêncios necessários

Acompanhados a dois de perto.

 

Há silêncios angustiantes

Há silêncios clarividentes

Há silêncios de cumplicidade

O amor sufocado entre dentes.

 

Há silêncios gritantes

Há silêncios de esperas

Há silêncios que imploram

Repouso, descanso, quimeras.

 

Há silêncios de sonos pesados

Há silêncios de lençois amassados.

Há silêncios mal comportados

O meu silêncio te chama pra mim.

Dira Vieira


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sonhos...

Foto: X. Maya

Sonhos de serpente 

Sempre fora esquisita. Vivia sozinha, não tinha amigos. Saia todos os dias para sua caminhada normal, no bosque, aproveitando o ar puro da manhã, e os dias quentes para refrescar-se num lago perto de casa. Era assim todos os dias. Nada mais natural e monótono. Era a única que não tinha coragem de fazer sua parte na sua cadeia alimentar. Por isso, alimentava-se de frutas e flores.

O bosque era coberto de árvores centenárias e frondosas. Não havia perigos maiores de rastejar sozinha. E já fazia isso até de olhos fechados, tamanha a intimidade com a natureza local. Era diferente de todos. Medrosa, vivia se assustando com a sombra.

Um dia, passou da conta, demorou-se mais no bosque que o normal e acabou ficando tarde para voltar para casa. Escurecendo, poderia perder o caminho de volta, já que se guiava pela direção do sol. Sabia onde ele nascia e onde ele parava, e assim, poderia ver a movimentação dos pássaros indo e vindo para o bosque.

Nesse dia, viu um vulto enorme caminhar lentamente atrás de si. Sentiu o respirar de alguém atrás dela e parou assustada. Quis olhar, mas o medo era maior...apressou os passos, balbuciou uma prece, pediu a Deus segurança e logo, logo, a sensação passou. Intrigada, voltou, era curiosa, a danada. E seguiu o vulto até chegar na porta de uma caverna escondida na mata. Viu o vulto entrar e foi atrás. Era um dragão. Talvez o único sobre a face da terra. Trocaram algumas palavras assustadas. Ela com medo, ele apavorado. Era esquisito também. Vivia escondido do mundo. E apaixonaram-se perdidamente. Como podiam, tão diferentes? A cada beijo, ele lhe queimava a boca, e cada vôo, ela sobrava no chão. Não podia dar certo nunca. Ele escrevia lindas canções, mas ela temia a escuridão. não podia ficar muito tempo na caverna. A casa dela era pequeno para ele. Até um dia que decidiram parar de sonhar.

Ela foi embora sozinha. Ele voou a noite inteira. A tristeza anoiteceu o bosque, que de tão ressentido, fechou as portas da vida. Ela adormeceu profundamente, ele acendeu velas para o deus dos dragões. Não deu outra... quando o dia amanheceu, ela acordou, serpente tateando a grama, buscando seu sonho dragão. Não poderia ser da mesma espécie, mas ao menos, dividiram a mesma cama.

Nos dias verdes que se seguiram, o dragão lia para a serpente e ela dançava para seu amado, tilintando versos de alegria. Dizem que um dia, ela pariu. Não se sabe como, exatamente. Mas na noite de lua cheia ela gritou. Gritou alto. Um grito tão louco... e depois o silêncio. A dor varou a caverna e ouviram-se bater de asas ao vento. A serpente morreu. O dragão não agüentou. Sabe-se que até hoje, um dragão com rabo de serpente voa ao redor da lua. Se prestarmos atenção, ouviremos o seu lamento, em forma de canção.

Dira Vieira (Assistindo Sessão da Tarde, pensando besteira e comendo chocolate, dedico esse texto para Dora Vilela, Dragão da Maldade, e Gustavo).


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Foto: Paula Machado

Náufrago

Meus versos mínimos

meus beijos rasos

há algum tempo não consigo

arrebanhar meus sonhos.

 

Ando dando por falta de mim

nos meus secretos,

nos meus guardados...

 

As minhas dúvidas

são tuas culpas,

palavras que se chocam contra a parede

são estouros de manadas

dentro de mim.

 

Fico em silêncio

escondida nas nuvens pesadas

–  desejos, frases, beijos –

sinais de fogo

tempestades à vista.

 

No horizonte, o aceno

o avião que decola

a alma que abandona o corpo

a vida que se parte em duas.

 

Em silêncio...

reparto os pedaços de mim

–  invisível  –

duvidando das sobras

dos sentimentos partidos.

 

Hoje eu desisto,

catando os versos que nunca fiz

fragmentos de sons

códigos:

 

tuas mãos

represa poética de meus desatinos.

(Dira  Vieira)


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encenando...

Foto: Nelio Freitas

Contracena*

 

Beijou a boca

da noite

e acordou

em pleno pesadelo.

 

Foi como fechar

a blusa

encasulando desejos

de borboletas.

 

Não conseguiu engolir o café da manhã. O nó da insatisfação e medo impediam a passagem do alimento. Fez cara de quem não gostou da última frase dele e baixou a cabeça fazendo sinal de desaprovação. Milhares de perguntas habitavam a sua cabeça naquele instante. A dúvida, esse vermezinho que desmorona os castelos de sonhos, instalava-se sutilmente no meio da casa: muro de concreto armado à prova de balas e de esclarecimentos.

Tentou engolir alguma coisa, uma fruta, um gole de café amargo, sem açúcar. Não teve jeito. Viu seu amor arrumar as malas, como nunca vira e vestir a carapuça da culpa, essa irmã cúmplice de todas as horas. Seu silêncio, réu confesso de mágoas e desapontamentos. Mea culpa, minha máxima culpa. E a paixão se recolheu na calça jeans surrada e sem cor e vestiu preto, fantasiando-se de dor, dobrando a primeira esquina que viu, completamente nua.

Era a primeira noite que dormiria sozinha em sua cama de casal. O amor que manietou e atou às suas entranhas comeu da árvore da vida, virou pecado e acordou sozinho. E ela, espalhada sobre a cama, todas as noites recitava versos às paredes e confessava cores para a solidão.

As próximas noites seriam de luto. A palavra muda, em estado de choque, nunca mais soletraria a companhia de estrelas e luas. Era só fechar a blusa e guardar as suas mãos de borboletas, encasulando a dor.

Mais tarde, ouviria no Jornal Nacional: amor recente, ressentiu-se da vida, abriu a porta e sumiu.

Dira Vieira


*Aos poetas e amigos que me visitam,  e em especial: Mariza Lourenço.

Respondam ao meu questionário sobre Sociabilidades no Ciberespaço: www.diaplus.com.br/questionario.htm

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