tempestades...

Foto: Ricardo Tavares

Minhas tempestades

Hoje acordei mais cedo a te esperar inteiro, arrumando os cacos que sobrou de mim. Como alguém pego de surpresa no meio da chuva, não tendo saído com a roupa adequada, encontro-me molhada, passeando entre gotas, pingos fortes, como tuas mãos que me tocam, aliviam, remexem, reviram meus guardados, põe fogo nos meus medos, deixam-me à mostra, revelam as minhas vísceras.

Paro tudo o que estou fazendo para fechar os olhos e imaginar-te chuva com o poder de deixar-me limpa, curada, pronta para as tempestades que se formam todos dias ao meu redor e que eu tenho a obrigação de a todas, vencer. Não sou assim tão forte. Pois é na tua chuva de mãos que me entrego e desfaleço, esquecendo o mundo inteiro, coração aflito, batidas aceleradas, animal que se entrega aos afagos do dono, assim, vem, vem tomar conta de mim.

Abro a alma, alargo minhas fronteiras, te recebo bandeira, fincada no peito, semente de primaveras, ando tão triste esses dias... Chuva na varanda, frio de cores fortes. Imagens que se refletem no nada. Vontade de ficar em silêncio, a te absorver na pele, água, carinho na violação do tempo, para que sejamos sempre, unha e carne, desejo e sedução, como um, na devida proporção de dois, completos e sãos, cada um no seu caminho.

Preciso de ti, ontem, agora e sempre. Boca entreaberta, sorriso de calmarias, quadro pintado na parede de bocas que se tocam e se guardam. Teu amor, tatuado na minha pele, para sempre, nunca mais.

Estanco a chuva, ordeno aos desejos que se calem. Te olho de longe, imagem impossível. Espero que pares de mais um dia de trabalho e escondo-me em teus braços, implorando as tuas chuvas, devolvendo-me em tempestades que deságuam de mim. Sou simplesmente assim, lenço umedecido no armário que te guardam em mim. Prefiro-te, desenhado sobre a minha pele, feito cobertor de lã.

Dira Vieira


Recadinhos:

 

 

Mateus

Amigos,

 

Esse é meu sobrinho que mora na Bahia. Um poeta e um escritor de pequenininho. Aqui, alguns exercícios literários, dele.  Ah, prometi ao moleque que mostraria aos poetas da net e ainda levaria pra ele, o que vocês dissessem. Mesmo que não seja o que ele quer ler. Ele tem 10 anos, e quer saber de vocês o que acham dos seus escritos. Ultimamente, ganhou um concurso literário em Santa Cruz, Cabrália, onde mora. E o prêmio? Um livro.

 

 

Na aula de Redação a tia sugeriu um parágrafo e pediu que as crianças dessem um título e completassem o texto.

 

A Maldição do Zero

 

A nova aluna era muito tímida e quietinha. Costumava permanecer alheia ao resto da turma e ficava "vermelhinha" de ouvir seu nome na chamada.

(Até aqui é sugestão do livro).

  Um dia, uma enorme mariposa entrou pela janela da classe e sua "quietisse" foi pelos ares. Todos nem perceberam o bichinho, mas ela deu um grito. - Ahhhhhh!

  Sua timidez foi por água abaixo. Pulou no colo do menino que todas as meninas achavam o melhor em tudo, e ele também, principalmente. O mais belo!

  Todos riram dela, mas a professora ficou séria. Todos olharam para a cara da professora e:

- Zero pra todo mundo! Disse a professora.

  Todos arregalaram os olhos e ficaram de queixo caído.

  Agora, a nova aluna não ficou de olhos arregalados porque dormiu no colo do garoto.

  Mas de queixo caído ela ficou porque teve um sonho que eu não vou nem contar.

 

 

Obs. Nos textos, até a pontuação é dele. Estou copiando para vocês dos rascunhos dele, com a letrinha de criança de alfabetização e cheinho de erros de português..rs

 

Outro:

 

  Era uma vez... uma garota que colecionava pares de sapatos americanos. Sua comida predileta era frango mal passado com limões ao redor. Tinha uma saia verde que gostava de ir com ela nas festas. Ela era americana e morava na capital da América. Tinha um cinto de couro de boi que herdou do pai. Adorava a receita de sanduíche que tirou do livro de receitas da mãe. É uma macarronada que ela mesma fez. Seu nome era Gibuquiqui, e ela foi levada para o hospício porque disse que viu um disco voador em plena tarde com dois marcianos verdes e duas antenas em cima. Mas não souberam que era o início de um pesadelo, os marcianos eram de verdade.

 

OutroÔ beleza!

 

  Era um dia como todos os outros... Para todos as outras pessoas, porque é o primeiro dia de sexta-feira que eu não vou ao cabeleleiro.

  Fui para a escola e voltei sozinho. Ganhei uma bola. Nào tomei banho nenhum e meus amigos me pagaram sorvete.

  Fui a praia. Abriram um parque com o meu nome, no meu aniversário. Subi em árvores, comi balas, andei de bicicleta, joguei bola. Ô beleza! Mateus Vieira Santos (na época dos escritos: 8 anos) 

saudade...

Foto: Antonio Delicado

Antecipando saudade

Chorei todos os rios armazenados dentro de mim, nessa manhã. Foi como desaguar a tristeza que acalentava no peito como bichinho de estimação. O bichinho da saudade roendo as cordas das lembranças guardadas. Por que será que nunca nos livramos das lembranças e elas são sempre presentes mesmo quando ainda as estamos vivendo?

Foi assim que fechei os olhos ainda contigo ao meu lado. Parecia uma eternidade. Chorei-te nessa manhã de sol, enquanto desenrolava um terço de suas marcas no meu lençol de cetim. Teu corpo, estendido na sala de jantar, embrulhado em flores silvestres, deixava escapar um som de gemidos, como um choro de quem não quer ir, mas se vai.

Chorei-te nessa manhã de saudade. Arrumando dentro de mim as impossibilidades de ressuscitá-lo, colocando cada coisa dentro de seus compartimentos afins. Eu me catei pedaço por pedaço tentando formar uma peça inteira daquilo que restou do tudo que levaste. Há pedaços de mim espalhado pela casa, uns tão pequeninos, que nem consigo colar aos outros que restaram. Levas-me as letras, os pergaminhos, os recados escritos no guardanapo, a ventania da precisão dos sentimentos desordenados, meu caos poético e minhas lamentações diárias. Fico aqui, sem expressão, largada no sofá da sala, como criança que precisa de colo. Sinto-me perdida, preciso de colo.

Os olhos, quase cegos de dor, limitam-se a beijar a face infinita da parede rosa que reflete a sombra do teu corpo, estirado sobre a mesa de mármore. Tu te vais, através do som que exprimes nos teus olhos abertos, nas mãos que acenam, que soltam beijos frios gerados no teu egoísmo de deixar-me só, relendo os sonhos pichados na paredes dos nossos desejos. Com que calma me deixas?

Eu estou só, com as comportas abertas, águas descendo a ladeira, levando tudo, fazendo poça no fim da rua. Lá posso ver os moleques da rua brincando na lama, inventando festa. Nossas dores de rios são gotas imperceptíveis aos outros. Como chuva anunciada e estancada.

Dei as costas para nós. Não agüento mais chorar. Faço das minhas lágrimas cordas e escalo o impossível para fugir de ti, sombra que se ergue em mim. Retrato de um folhetim, palavras que hoje enterro contigo, calando a alma, e te beijando com marcas de batom. Nossas tempestades eu aprisiono em mim. Nunca mais chorarei por nada. Nada. Arranco de mim a poesia concreta e sigo em linha reta para nunca mais. Calo a palavra pálida e adormeço os sonhos, antes que chore todas as mágoas.

Dira Vieira

(Visitem a minha pesquisa e respondam, por favor: http://www.diaplus.com.br/questionario.htm)

à gosto...

 

Foto: http://www.fotolog.net/bigmouth

À gosto

 

 

Ele disse: volta

Ela fechou os olhos

E mergulhou na vida

 

Ele disse: vem

Ela abriu os olhos

E descobriu

A boca dele entreaberta na sua

 

Era noite

Era dia

A lua flertava o sol

Quando ela ancorou seu barco naquele porto

 

Ela disse: me toca

E nunca mais

sentiu-se morta.

 

Ele disse: adeus

E ambos

Nunca mais esqueceram o beijo.

 

Outros pedidos viriam.

E eles a si

obedeceriam

- religiosamente.

 

 

Dira Vieira

ciúmes...

Foto: A. Brito

O ciúme, esse parceiro de angústias

Basta um segundo, e o tempo fecha. As nuvens pesadas sobrevoam a mente, e chove forte. Chove muito forte. Esse coração, um desvairado moleque que se assusta com o que não conhece, esconde-se debaixo da dúvida e espreita inimigos imaginários que abalam a confiança, deixando o telhado frágil às chuvas de insegurança que se instalam na face do óbvio.

Eis-me frágil em telhado de vidro, assustada como um animal perdido. Onde anda a alma inquieta arranhando a ponta de um iceberg desconhecido. Quem conhecerá um coração ferido? Quem o suportará nas noites de insônia? Quem consentirá em ser ouvinte da dor alheia?

O coração, esse moleque inquieto e estúpido, espreita o outro na esquina escura e se arde de fúria e perde a calma. Quem poderá domar o medo e a dúvida, desse aflito que implora a tez, a pele, o calor do outro.

Um segundo basta e o homem se torna vendaval violento que vai destruindo tudo que encontra pela frente, casa, árvores, animais, gente que pensa que pensa, fúria cega.

O amor doente, sente medo de quem bate à porta e se encolhe, perdendo o templo de saúde e instalando-se em gaiolas de desconfiança e pavor.

Ainda chove. E enquanto a alma não se aquieta, deixo-me levar pelos ventos das tempestades de desejos, vontades e posses. Tudo é meu e nada guardo em mim. Abro-me e retenho-me em gotas, tuas chuvas que desaguam em mim.

Dira Vieira

      Máscara do dia       

 

Abri o armário para escolher a máscara do dia. As pilhas de máscaras se acumulavam nas gavetas. Máscaras de dia, máscaras de noite, máscaras de tristeza, de alegria, máscaras antigas, máscaras de saudades. Não encontrei nenhuma que coubesse no dia de hoje. Vasculhei todo o armário. A poeira estava encrostada nas máscaras diárias. Tenho usado máscaras novas, última moda. Algumas máscaras ainda possuem a primeira etiqueta. Máscaras novinhas ainda nem usadas.

A de hoje, talvez não esteja no armário de guardados, não saberei escolher. Misto de saudade, medo, cansaço, tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, que eu precisava hoje de uma máscara que me guardasse das decisões urgentes, das leituras corretas, das ações imediatas. Por que nos deixamos levar por máscaras estranhas?

Algumas máscaras estão tão coladas na pele, que precisamos usar outras por cima delas. É que se tentarmos, numa atitude precipitada, arrancá-las, elas ferirão profundamente a nossa pele. Algumas máscaras são segunda pele, máscaras que utilizamos como cavernas, porão das nossas fraquezas e incredibilidade. Palavras impróprias, versos impublicáveis. Detalhes que me assustam. Divã vazio.

O telefone que toca e a gente finge não ouvir. Alguém que bate à porta e a gente finge dormir. Alguém que nos toca e fingimos desmaiar, a fim de escapar de outras máscaras novas. Máscaras de cenas antigas. Cenários familiares que damos roupagem nova para que não seja preciso mudar as máscaras. As do armário estão empoeiradas então, prolongamos a que está na face por pura falta de tempo.

Procurei a máscara do dia. Vasculhei toda a minha alma. Ando cansada. Ando fugindo de mim. Ando querendo retirar todas as tralhas, o pó, a velharia que guardo a sete chaves no armário. Por que guardamos tanto lixo? Máscaras centenárias, papéis trocados, sentimentos confusos, máscaras de angústia guardadas e geradas atrás da porta.

Não tem jeito. Mudei de endereço. Ando confusa de mim. Objeto voador, não identificado, pronto pra abate, sem máscara, com as mãos no rosto, correndo da luz que teima em entrar pela janela. Perdi a máscara dos óculos, não consigo saber com que máscara dormi ontem à noite. Ando dormindo pouco sonhos. Os poucos que agasalho, adormecem dentro de mim. Ando farta de mim.

Aviso dos correios: destinatário, mudou-se, favor voltar em outro século, até que eu consiga escolher melhor as máscaras do dia e de noite. Endereço incerto, passe outro dia. Quem sabe eu encontre alguma máscara de alegria e rearrume os móveis da sala, jogando fora o armário e as máscaras que ele guarda.

Dira Vieira

Continuando o exercício, a contribuição da Mariza Lourenço ao texto que começou comigo. Agradeço a todos que comentaram e apresento o Proseando com Mariza.
 
Foto: Francisco Leonel Vaz
 
 
DE VIAGENS, ÁRVORES E AMOR
 
 
Não lamento esta vida dura, tampouco o lombo deste cavalo. O que machuca é a falta de pouso. Essa distância que, aos poucos, me mata.
 
Será que ela pensa em mim?
 
Amanhã, mais tardar, vou rever nossa árvore. Tão parecida com esta (até nas raízes fincadas na terra). De diferente, somente o tronco rabiscado de amor. Do meu amor por ela. 
 
Será que minha saudade é maior que a dela?
 
Esta árvore só faz a lembrança aumentar. Sinto calor e cansaço (bem que podia chover). Falta e saudade. Vontade de dormir e não acordar nunca mais.
 
Destino bonito é destino de árvore. Que não pensa, não chora, nem sente a ausência do amor.
Destino infeliz é o meu. Porque é destino de gente, que tem alma e só pensa em desgraça.
 
Será que comigo, um dia, ela casa?
 
Bendita seja esta árvore, tão quieta e verde. Bendito seja todo aquele que cumpre um papel nesta vida. Feito chuva, bicho e flor.
 
Se me fosse permitido pedir algo a Deus, rogaria nascer tempestade, pra desaguar sobre o mundo este tanto de afeto. Ou, então, que me plantasse os pés nesta terra e me cobrisse de folhas pra servir de repasto.
 
Mas sou apenas um viajante de pouso incerto, um homem sozinho, sem teto e cheio de dor. 
 
Feliz de quem não tem alma, não sente e não fala. Feito esta árvore. Feliz de quem não pensa em nada.
 
E não é prisioneiro do amor.
 
Mariza Lourenço

Brincando com as palavras...

Gosto muito de visitar blogs, quando tenho tempo, ando correndo muito, perdoem-me. Mas há um, onde o seu autor, possui um encantamento de contar-nos sua vida de uma forma que a gente fica preso ao post posterior. Além dessa sua habilidade, ele faz amigos, como ninguém. É Zeca do Janelas Abertas. Daí fiz uma proposta a ele, e não é que ele aceitou? Propus que fizéssemos um texto juntos. E fizemos. O resultado está aí embaixo. Leiam, visitem o Zeca e nos digam, o que acharam da parceria? Enquanto isso, buscamos outros parceiros. Essa brincadeira é gostosa demais.

Dira Vieira 

Foto: Avalon (Mário Cales)

Plantada na chuva (Dira)

 

Se eu fosse gente, gostaria de ver a chuva pela janela. Dá uma sensação de poder, está bem agasalhadinho e a chuva molhando tudo lá fora. Parecemos imunes à qualquer coisa. Imunes ao frio, ao corpo molhado. Imunes à vontade de ser inocente de novo.

 

Chove muito. Estou velha. O corpo já não balança como antigamente, e nem se alegra como antes. Sempre fui diferente em tudo. Acho que fui um descuido da natureza, sei lá. Mas o fato é que não me acostumo a ser como todo mundo.

 

Lembro de ser pequenininha. Plantaram-me no jardim de uma casa enorme, com crianças que brincavam de índio o dia inteiro. Nunca vi crianças tão barulhentas. Fui crescendo no meio de muito carinho, de mãos que me tocavam, acariciavam, adubavam e alimentava a minha raiz. Eu era rebelde, queria ser gente, como aquelas crianças birrentas.

 

Crescia para baixo, saia empurrando os meus tentáculos para baixo para ver se um dia eu nascia gente. Nunca me conformei com a condição de ser verde a vida toda. Queria ser de outras cores, lilás, amarelo, vermelho, como os Ipês, mas só conseguia ser de um verde-oliva que ainda me dá nos nervos.

 

Um dia, enquanto preparava-me para debutar no mundo das verdinhas, aconteceu o inevitável. Vi um moço lindo, esbelto, viajante, passeando num cavalo azul, com o rosto banhado de suor. Amarrou o seu cavalo à minha cintura, colocou a mala em pé de um outro lado, limpou a testa e sentou nas minhas pernas. Suas mãos, tocavam as minhas pernas e eu estremecia. Era o moço mais lindo que eu já vira na vida. E naquele dia, odiei não ter nascido gente para tocar aquela boca vermelha, aquelas mãos magrinhas, aquele peito farto de pelos, aquela alma de gente, a tocar-me as pernas tão gentilmente. Descansando como um anjo numa nuvem.

 

Está chovendo. Estou cansada. Os meus braços já não se movimentam como quando ele partiu naquela manhã e eu acenei com beijinhos de primavera. As outras árvores riam de mim, mas só eu pensava que era gente. A pequena árvore e o viajante do cavalo azul. Hoje pedi a Deus, em uma prece, para não me molhar nessa chuva como tenho me molhado todos esses anos. Tenho sentido muito frio esses dias, e já não consigo desviar meus braços dos pingos que estão cada vez mais fortes. Já não dou boa sombra, as minhas folhas, cansadas de acenarem contra o vento, caíram de velhas. E se esparramam em cores de outono ao meu redor. Sei que árvores não nasceram para isso, mas hoje queria ser cadeira numa sala quentinha e poder ver a chuva sob outro ângulo que não o seu chicotear sobre a minha pele, enrugada, dolorida e cansada.

 

Devo ser gente que nasceu plantada num vaso, do lado de fora da casa e que mesmo ansiando a liberdade de crianças brincando na chuva, continua com a vida enterrada, esperando virar fogueira, já que perdeu o viço, para ser móvel plantado na casa. Aos meus pés, minhas sementes nascendo gente-árvore a preservar meus sonhos de um dia ter alma.


 

Foto: Antonio Jorge Nunes

 

Plantada na chuva (Zeca)

 

Eu sou chuva que desce sobre a terra, penetro-a docemente, enquanto ela, agradecida ,exala seus mais íntimos cheiros entregando-se docemente. As pessoas me querem bem. Algumas adoram passear ou dançar sob mim, ensopando suas roupas, fazendo-me escorrer pelos seus corpos. Essas sentem-se momentaneamente crianças. Outras, mais recatadas, preferem ver-me por trás das janelas, sentindo-se protegidas e agasalhadas. São adultos convictos, donos de si, de suas vidas.

 

As plantas dobram-se sob o meu peso, bendizendo minhas gotas que as refrescam e banham, trazendo-lhes o viço da juventude, muitas vezes já longínqua. E eu, sensual, entrego-me ao prazer de a todos encharcar, escorrendo por todas as superfícies, procurando recantos mais protegidos, querendo apossar-me de todos os prazeres.

 

Lembro-me especialmente de um jardim, numa enorme casa onde as crianças eram felizes em sua algazarra durante todo o dia. Uma pequenina árvore cuidada com carinho, parecia rebelar-se com sua condição, talvez ansiando por outros vôos, por outros caminhos. Sempre atenta a essa criança rebelde, não deixava de tocá-la, por cima, pelos lados, por baixo, penetrando-a todinha, nutrindo-a com minha paixão, fazendo-a crescer linda, verde, alta. Suas raízes, viciadas em mim, procuravam mais e mais alimento dentro do solo, tornando-a forte, rija, saudável. Ela era estéril, não podia dar-me flores, por rebeldia ou por natureza, nunca cheguei a saber. Mas o seu verde, à medida que o tempo passava, se transformava num tom oliva de fazer inveja a todas as outras. E eu a amava muito. Não me importava que ela não se colorisse para mim. Adorava o verde-oliva de suas folhas, sua pele rugosa e cinzenta, suas raízes profundas como tentáculos.

 

Lembro-me de um dia de muito calor, onde eu, vigilante, a espiava de meu castelo de nuvens, quando um lindo viajante desmontou de seu cavalo azul, amarrou-o à cintura da minha amada, descansou sua mala na relva, ao lado e, limpando o suor que inundava sua testa, recostou-se em seu corpo. Enquanto descansava, ia acariciando com as mãos as pernas da minha amada que parecia estremecer de prazer. Suas mãos ágeis abriram a camisa, exibindo farta penugem em um peito bem talhado, enquanto suas pernas roçavam-na, quase sem perceber. Eu, desvairada de ciúmes e paixão, quase despenco de uma vez para acabar com aquele idílio, levando-o dali numa tromba d'água devastadora. Mas antes que a ira me enlouquecesse, o belo rapaz levantou-se, desamarrou o cavalo azul, jogou a mala sobre ele e, sem ao menos olhar para trás, foi desaparecendo ao longo da estradinha de terra.

 

Percebi que minha amante ficara triste. Quem sabe o que se passara em seu coração de madeira? Só sei que, sensibilizada com seu desencanto chorei. E desci para abraçá-la, acariciá-la, confortá-la. Mas algo me dizia que meu enlevo chegara ao fim. Suas folhas amareleceram e foram esvoaçando com o vento, como numa tentativa desesperada de alcançar o viajante solitário, levando-lhe recados verde-oliva. E ela, sempre tão bela, pujante, ficou ali, imóvel, descolorida, cansada, abatida.

 

Temo e choro por ela. Quando o sol voltar a brilhar, os homens poderão chegar e, vendo-a inútil, sem nem sombra para dar, podem serrá-la e transformá-la num móvel. Quem sabe numa linda cadeira a ser colocada numa sala, ao lado de uma lareira e, aquecida pelos restos não aproveitados de sua pele enrugada, dolorida, cansada. 

 

E eu, sofrendo por um amor perdido, só poderei vê-la através das lágrimas que farei escorrer pelos vidros das janelas.   

(Janelas Abertas) 

Foto: João Manoel Pereira (Sereia)

Balada para Sibele

Para André Ricardo Aguiar

Seis da tarde. Vi quando ela dobrou a esquina com os seus cabelos da cor do fogo, vestindo vermelho para combinar. Ela não andava, desfilava em ruas de passarelas. Linda. Ela era linda. Tinha o sorriso que deixava transparecer a sua alma. A alma azul de uma moça bela. Dizem que quando nasceu, os médicos trataram de esconde-la da mãe para evitar o um susto. Era bela com os cabelos enrolados no pescoço, grudados ainda pelo líquido amniótico.

Sua infância tinha sido fantástica. Holofotes, flash, fotografias para revistas de ciência, capa de arte fotográfica, reportagens, dissertações, teses acadêmicas.

O fato era que Sibele era realmente encantadora. Sua beleza era algo fora dos padrões humanos. Coisa de outro mundo. Desde que nascera, seus pais passaram a viver apenas de vender a imagem da menina.

Sentado na mesinha do bar da rua, esperava Sibele passar para capturar um pouco daquele fenômeno para mim. Ela passou, como uma chuva de pétalas de rosas, era encantadoramente bela, a menina. Tinha o andar de fada, sutil de quem levita.

Quando o seu olhar cruzou o meu, senti um calafrio subir ventre acima. Acho que senti o chão sumir debaixo dos meus pés, e fiquei levemente tonto. Sibele percebendo o meu embaraço, desviou o olhar, não sem antes, sorrir timidamente para mim. Ainda tive forças para sorrir de volta e levantar a mão direita para acenar para aquele monumento dos deuses. Acho que Sibele foi uma encomenda extra-terrestre, como que enviada num cometa azul.

Não sei o que a Sibele viu em mim, mas daquele dia em diante, ela passava todas as tardes, nesse mesmo horário para ver-me no bar da rua. Eu sugava dela aquela beleza, ela vinha, sentava na mesa e me beijava levemente a alma. Nem sei quantas vezes tomei porres pensando em Sibele, e quantas poemas escrevi em sua homenagem. Nas noites de solidão, penso em Sibele e desfaleço de paixão. Penso no seu olhar, nas suas mãos, penso naquela candura de mulher a projetar em mim os versos mais lindos. Eu serei de Sibele eternamente, Sibele será minha em meu pensamento.

Soube há pouco tempo que Sibele desapareceu. Ninguém sabe o seu paradeiro. Ela se encantou como todas as maravilhas terrenas e deve ter ido iluminar outros corações. Ainda volto ao bar todas as tardes na esperança de ver Sibele levitar. Há tempos que não sinto meu coração bater, ele tinha compasso certo na presença de Sibele. Hoje, cansado da saudade dela, toma todos os porres e volta para casa vazio, nunca mais fui o mesmo sem a minha Sibele.

Dira Vieira 

                     Foto: Pedro Gomes

Tempo

 Entrega-me teu corpo

Esfarela meus sonhos

Há em mim

Uma espera sem fim

:

do teu olhar

estrada sinuosa

boca que me toca

 

sou tua

no tempo

imagem no espelho

 

sou tu

sou eu

o tempo inteiro

 

em carne

líquidos

e desespero.


Dira Vieira

Foto:Victor Melo - 2002

 

João Pessoa, 01 de outubro de 2002.

 

Primo Reitor,

 

         O sol já se pôs e continuo esperando ele chegar. Parece que nem dormi ontem. Ele silenciou, eu silenciei também. Disse-me palavras que não queria dizer, e dormiu. Sinfonia de um instrumento só. Não sei se tu consegues entender quando choro sozinha nos sinais vermelhos. Lembra? Tu dizias que eu era tão romântica que via poesia até em semáforos. Mas tudo tem sentido, primo. O sinal fecha e eu percebo que ele fechou para nós dois, impedindo que escalássemos montanhas amanhendo a céu aberto, com o sol batizando a nossa pele nua. Foi no sinal fechado que me beijastes pela primeira vez. E foi no sinal vermelho que me mandou embora de tua vida.

         Caminhávamos distraídos, saídos da reunião do PT, e atravessamos o sinal como se os carros não estivessem ali. Nem os carros, nem as pessoas, nem o sinal vermelho. Puxavas-me pela mão. Moçoilo mais velho, responsável pela menina de 11 anos que não sabia nem beijar. No meio da travessia, o sinal abriu. Como se abriam todos os dias os nossos sonhos, cada vez que tu me tocavas a mão. Tive susto. O “O Capital” debaixo do braço. Foi como se alguém nos empurrasse ao chão. No susto, te abracei como criança à mãe. E como num filme que eu nunca assisti, nos roubamos o primeiro beijo.

         Entende, porque sempre choro em sinais vermelhos? Porque quando ele fica verde, amadurece a minha tristeza e eu tenho cada vez mais a certeza de que nunca mais seremos os mesmos.

         Nos sinais amarelos, imaginava as nossas brincadeiras na chuva, a incerteza, a inquietação, o sonho de criança sufocando os adolescentes que queriam ser gente grande. Hoje tu me largas na chuva a contar pingos dágua na minha blusa transparente, onde os seios já não são tão belos quanto naquele dia. O tempo não parou naquele beijo, primo. E nunca foi nosso amigo.

         Enquanto relembro todas essas coisas, enveredo-me em busca de um sinal vermelho, para compreender que a poesia abriu as pernas e pariu a minha ilusão de que nos sinais vermelhos os motoristas exercitam a sua imensa vontade de atropelar vontades, desafiar limites e ultrapassar barreiras que o amor nos impõe. E tu me deixaste sem graça quando perguntei se me amavas. Calou-se num silêncio de fim do túnel. Calavas, e a minha ansiedade atravessava o fio telefônico em busca de chão para pisar.

         É como me sinto agora, primo. Parada no sinal vermelho. Esperando ele chegar. O silêncio de sua alma o impede de dizer que me ama, igualzinho a ti, enquanto eu grito ao telefone, implorando para ouvi-lo mentir, para que eu consiga chegar ao final da tarde. Não sou poeta, primo. Perdoa-me. Tenho é essa estranha mania de fingir versos e sentimentos que mais se parecem nostalgia misturada a emoções fortes. Amar assim é coisa de quem não tem o que fazer, diria meu chefe no escritório. Tu sabes que a verdadeira poesia era a que extraias de mim quando me reviravas os olhos ao me contar teus segredos, passaportes para os meus delírios. Eram as tuas mãos delicadas e singelas que me conduziam aos sonhos, escrevendo palavras que mais se pareciam sussurros.  

         E agora, vejo o sinal vermelho me impossibilitando de beijar-te a calma, enquanto espero a impaciência invadir a alma e desafiar os meus limites. Sem ti, primo, a dizer o tempo inteiro que me amas com essa vozinha rouca, esperar que o sol renasça nessa longa madrugada, é como fingir que não sou o que penso ser, quando sou obrigada a adormecer do lado de fora dos teus castelos de vento. Porque espero de olhos fechados que me derrubes, tempestades e acanhamentos de lágrimas e por fim, faça-me imensamente feliz, bailando comigo, nessa nossa gaiola de prata.

         É tarde, preciso fechar as portas de casa, apagar as luzes, baixar a pressão e desaguar as mágoas. Deixar que o verso morto subtraia de mim a vida, para que a poesia flua, enquanto mergulho na sua imagem, natureza morta, fratura exposta nessa saudade de amor e de dor.

Beijos, primo. Vê se volta logo. Ando enjoada de tanta saudade.

 

Dira Vieira

Feliz Aniversário, meu amor!

Tua boca encosta a minha

salivando esperança

e manchando meu batom carmim

 

A tua língua

esse território sem dono

me alimenta

e desfaleço 

suando desejos de amanhecer.

 

Não é teu aniversário, mas escrevo-te, porque não vamos estar juntos quando for, e isso dói em mim mais que possas imaginar. Dói tudo dentro de mim. Dói a saudade, dói a falta, dói tudo dentro de mim, como um mergulho numa piscina de concreto. Dói saber que não vamos mais estar juntos em nenhum de nossos aniversários. Nem meus, nem teus. Nem mais contaremos as nossas aventuras e eu só posso ficar aqui relendo as tuas cartas de amor sem fim. Cada carta, uma sentença.

O amor foi eterno no presente em que me destes, caixinha fechada, com coração com o nome escrito a sangue. Mãos dadas no jardim e as impossibilidades se fechando num círculo que tinha os dias contados. Não me respeite tanto, amor, ame. Feche os olhos, apague a luz ao redor. Para que imaginar que isso é efêmero? O amor é um piscar de olhos lacrimejantes e neuróticos. E a vida o torna farsa, o teu disfarce do absurdo. Por favor, não respeite tanto, ame!

 

As horas se passam, bares cheios, salões de beleza cheios, lojas cheias, teatro cheio, atores em cena: a minha alma cheia de esperar. O dia escurece e eu queria te oferecer minha melhor palavra, meu gesto, o desejo incontido, o respeito, o beijo roubado, o cheiro no olho, as dúvidas, a insuspeita vontade de te tomar nos braços e dançar aquela valsa te roubando beijos no meio da chuva. Deixe que eu te proteja, deixe!

Uma chuva fina cai nesse entardecer, tocam a campanhia, o telefone toca. Nada disso me importa. Não vou estar contigo quando te cantarem o parabéns-a-você, por isso essa última carta.

 

Não penses que esquecerei o teu aniversário, expões-me a ridícula posição de quem espera no portão o amado que nunca virá. Mulher no caís, esperando o navio que se perdeu em alto mar. Viúva dos tantos mares. Não silencie, cante! Seja o que sempre foi, apaixonado, sorrindo, celular no ouvido, gritando eu te amo, no ônibus em plena esplanada dos ministérios. O teu amor, filme inocente na tv, acordou-nos de madrugada e me fez chorar de frio. Não me acorde, deixe ao menos que eu mergulhe na tua bolha de mistérios.

 

Quem sabe assim, eu me segrede em pêlo, alma, cerebelo e medo e escape em fábulas de tua voz jurando amor dentro do ônibus em movimento. Não digas que me amas, esquece. Que o amor custa caro, celular, cartas, pulsos excedentes, horas perdidas no cais à espera do amor que nunca vem.

 

Esvazio-me de mim, infeliz e trágica te desejando um estático “Feliz Aniversário, meu amor” me perdendo na multidão anônima que invade as ruas da cidade baixa. “Teu amor não tem pressa, vontade nem fome”. O meu amor, te espera acordar todos os dias, com gosto de café requentado da última quimera. Eu, durmo, quando o sol te acorda todos os dias.

Dira Vieira 

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