Foto:Luciano Ferreira

Esperando...

 

Te procurando em mim, acordei cansada dos sonhos a noite inteira. Estrada longa, a de buscar o outro em si mesmo, quando o que nos importaria mesmo, era procurar a nós mesmos e conosco, travarmos um duelo de igual para igual. Espelho perfeito.Vontade de ser dois, em um.

 

Acordei sem graça, com roupas espalhadas pelo quarto, cabelos desgrenhados, como os desejos que nunca conseguimos catalogar, alinhar, ajustar em fileiras a fim de que eles não nos possuam tanto, como nos consomem.

 

Enquanto escovo os dentes, imaginava um poema, um canto, uma declaração de amor. Toco o meu corpo e percebo que não devia ter saído da cama, falta-me me forças para encarar o espelho e ver a minha boca sem brilho, minha tez esquisita, meus olhos que faltam o brilho dos teus no retrovisor do carro.

 

Ligo o chuveiro, ensaio uma cena de um musical de Hollywood, faço caras e bocas para te esquecer, até pintar meu cabelo de azul, e deixar que o mar conte coisas de mim. O teu olhar, que me acompanha na solidão do quarto, ri das minhas caretas, esforço sobrehumano para esquecer a tua boca que roça o meu pensamento, como uma sombra, o tempo inteiro, mesmo em dias sem sol e sem luz.

 

Volto pra cama. Escolho o travesseiro para afogar a saudade, nossas rimas nunca estiveram tão quebradas e os nossos versos tão sem métrica como agora. Ao menos fosse você meu poema concreto, cheio de cores, sons agudos e graves, eu ensaiaria outra melodia menos triste, menos melancólica para escrever essas linhas.

 

Apelo para a tua meiguice palavra estática na porta da frente. E deixo o meu olhar se quedar sozinho, a esmo, como se te buscasse em alguma nuvem em forma de golfinho. Amar é bom. Renova as forças reabre o apetite, e torna a todos, aprendizes da poesia, sendo você, meu poema melhor.   

 

Dira Vieira

Foto: Rita Silva (Linhas que me conduzem...a Ti)

 

“Pedro, tu me amas?”

Atos: 21:15

 

Jesus perguntou três vezes a Pedro depois que esse o negou também três vezes, diante do perigo de sofrer, caso se colocasse como amigo do nazareno. É o texto bíblico dos cristãos. Incrível como cada dia que passa mais esse texto fica mais visível na minha cabeça. Pedro, tu me amas? E Pedro respondeu as três mesmas perguntas dizendo: Sim, Jesus eu te amo. E Jesus disse: Pedro, apascenta as minhas ovelhas.

 

Todos os dias, dizemos aos nossos queridos: eu te amo. Amamos os amigos, amamos os que nos fazem bem, amamos os que retribuem à nossa declaração com outro sonoro Eu te amo, também. E daí?

 

Um dia me perguntaram porque eu perguntava exaustivamente se alguém me amava. Essa pessoa me disse que achava que eu tinha uma carência de ouvir isso, algo como uma autoafirmação. E eu fiquei pensando nessa frase. Jesus perguntou três vezes a Pedro. Será que Jesus queria que Pedro parasse para responder? E não respondesse automaticamente: Sim, te amo,  Jesus. Somos automáticos em retribuir todas as coisas que nos acontecem. Tanto o bem, quanto o mal.

 

Hoje estou no deserto. Naquele deserto de tudo. Onde a gente tenta parar para restabelecer as forças, juntar os cacos, limpar as gavetas, arrumar os arquivos do computador, aproveitando que a conexão está lenta e travando. Enquanto o técnico não vem, a gente tenta por em ordem os arquivos. E a limpeza é grande. Há arquivos doloridos, gavetas que fechamos e jogamos as chaves fora, mas elas ficaram com o seu cheiro de guardado ainda saindo pelo buraco da fechadura.

 

Por que será que necessitamos tanto ouvir que alguém nos ama? Esse não é um texto literário, nem é um conto, nem uma crônica, nem nada que alguém possa classificar. Esse texto é apenas uma arrumação nos meus arquivos. Está chovendo e as perguntas de Jesus a Pedro estão me acompanhando pela sala. Eu preciso entender se você ama, se eu amo, se amamos.

 

Jesus perguntou três vezes a Pedro se ele o amava. E por três vezes Pedro disse sim, ele o amava. Atrás, Jesus avisara a Pedro que antes que o galo cantasse, esse mesmo que o amava, também o negaria com a mesma ênfase que declararia o seu amor. Antes da morte do mestre,  ele afirmou que daria sua vida por Jesus. Mas Jesus sabia a imaturidade de Pedro ao dizer que sua vida daria por Ele. 

 

Vou continuar arrumando minhas gavetas, espanando pó, até que a internet me devolva a virtualidade, os amigos das letras, os desejos, o meu trabalho, minha vida digital. Enquanto isso, vou pensando, entre o pó da minha pequenez diante do amor, e tentando responder a essa pergunta. Por que será que Jesus perguntou três vezes? Qual o sentido de deixar claro a quem amamos, o tamanho exato desse amor? Por que dizer que amamos, quando no primeiro obstáculo, também negamos o amor?

 

Pedro, tu me amas? As três perguntas de Jesus e as três afirmativas de Pedro, talvez tenham sido para apagar as três negações de Pedro. Se por três vezes ele O havia negado, agora, mais maduro, diria três vezes que o amava. E o mundo continua dizendo que ama a Jesus, e o negando milhares e milhares de vezes. Qual o preço e o tamanho do teu amor?  

Dira Vieira  


Foto: Praia de Jacaré (João Pessoa - PB)

 
”Minhas mãos estão trêmulas, meu coração ofegante.
Meu estômago parece ter um elefante dentro... Minha mente só pensa em você.”

 

UM DIA É SEMPRE MAIS QUE UM DIA

 

Novamente, debruçada sobre o parapeito de um barzinho às margens da praia do Jacaré. Estou esperando o por do sol e lembrando de você. O bar está cheio. Garotinhas alegres tomam coca cola. Rapazes com caras de bons moços estão exibindo os seus portentosos músculos para elas. Sinto frio. Nem a bebida quente que pedi enquanto espero o sol se esconder aquece a minha solidão. Onde você está? Onde se escondeu?

Cheguei aqui bem cedo. Sabe aquele garçon? Olhou-me esquisito... acho que estranhou ter vindo sozinha. Parei o carro. Fiquei dentro olhando o nada. Um menininho falou comigo na porta. Pediu pra tomar conta. E eu queria que ele pudesse tomar conta de mim. Tomar conta da minha tristeza. Tomar conta da minha saudade. Tomar conta dos meus sonhos....e talvez, quem sabe talvez, tomar conta desse meu pesadelo.

Caminhei até o bar. Quem sabe um dia você possa voltar a esse lugar que me enche de paz e de melancolia. Atravessei a ponte de madeira que balançava como se estivesse pronta a partir-se. Tive medo. Havia garçons limpando o lugar. Fui até o peer. Fiquei olhando o rio que veio do mar indo e voltando lentamente. Parecia um balé clássico. Vinha, batia nos troncos do peer, voltava, e fazia o percurso todo novamente....lentamente. Como o teu olhar que me atravessou a alma lentamente. Fim de tarde. Imaginei você me fazendo sorrir com os seus poemas sem graças e suas mãos que sabiam de cor todos os contornos dos meus sonhos. Era nas entrâncias que você flutuava comigo, como ninguém jamais cintilou.

Ah, primo. Você nunca escreveu bem. Mas quando estávamos juntos....a trocar confidências, lembro que cada palavra sua soava como uma poesia. Sua voz era poesia. Seu choro. Seu mau humor. Sua falta de delicadeza. Tudo em você se transformava em poesia. Até quando fingia não estar interessado em mim. Ah...confessa. Você nunca aceitou o fato de querer-me e ter que me aconselhar a ficar com os outros. Confessa, tantos anos depois. Confessa...enquanto observo o lugar se encher de pessoas para ver o por do sol.

Penso nas bombas que sobrevoam o mundo do lado de lá. E eu espero o sol ir dormir, enquanto espero você acordar em mim, puxando para si o meu cobertor. Faz frio aqui, primo querido. Faz frio dentro de mim ao perceber que não são seus braços que me enroscam os cabelos.

Um barquinho. Um homem remando calmamente no rio que vem e vai tocando a pele do peer. Será que ele entende o que estamos falando? Será que sabe o que estou pensando? E a sua pele bate e rebate dentro de mim.

Alguém grita um nome. Garotas dão gargalhadas a assustar os pássaros. São colegiais matando aulas em plena tarde inútil. É inútil imaginar a adolescência dessas meninas bobas. Elas sorriem. O sol demora a ir dormir. Elas não deixam que ele sossegue. Lágrimas correm soltas. Ah, primo, meu amigo, você não entende. Eu poderia ser como esse rio calmo. Bater e voltar. Voltar...bater. O lirismo das suas mãos tocando as minhas por baixo da mesa. Você dizia que era para dar sorte. E minha alma sorria pra sua.

Escuta. Dá pra ouvir a musica que tocam nesse momento? Bolero de Ravel. Todos os bares tocam essa música quando o sol começa a dormir na Praia de Jacaré. Uma alegria me invade. Posso chorar. De alegria. Porque não há espetáculo maior que ver o sol, o mesmo sol que você me ensinou a amar, fecundando a terra, sumindo entre o mangue. Aquecendo os caranguejos, fazendo colegiais darem gritinhos histéricos. É lindo. O sol se pondo e o cogumelo de bombas enfeitando a noite do outro lado do mundo.

Ravel me consola. E a minha cabeça gira nessa melodia de pensar em você e tremer dentro de mim. Entrego-me nesse bolero que arremete meu corpo contra o teu. Primo meu, fecho os olhos. Parece que o mundo inteiro pára a contemplar esse momento.

A música termina. O sol dorme. Os homens acordam e voltam para suas casinhas onde as suas mulheres os esperam para o jantar. E eu acho tudo um desperdício. Porque sem você, todo poema belo parece rima fraca de pé quebrado e sem sentido.

Vou indo. Não me espere.  Escrevo mais tarde. A estrada está esquisita. Depois que o sol foi dormir, parece que o mundo desligou as luzes e se calou nesse momento mágico, em homenagem ao astro poético que me fez companhia até agora. Se der, mais tarde, ligarei a televisão e te direi como anda o mundo por aqui, do lado de cá do ocidente, onde as pessoas ainda não descobriram que existem guerras no momento do por do sol, na hora de Ravel tocar e encantar. Enquanto isso, acalento o elefante no meu estômago, e mando dormir a inquietação de não te sentir.

Dira Vieira

 

Foto: Cristiano Castanheira

 

Roleta Russa

 

 

os amigos

a correnteza  leva

ficam

os dedos magros

desperdiçados na ilusão

de que continuaremos os mesmos

até que nos amanheçam

os sonhos.

 

Dira Vieira 

Por que as crianças crescem? Ou onde perdemos a nossa infância?

Ao meu irmão que morreu aos 31 anos

Era uma da tarde quando entrei correndo no quarto. Vi minha mãe aos berros ao lado da cama. Não me contive, gritei desesperada: morreu? Não. Os olhos dele encontraram os meus com espanto. Morri eu. Seus olhos fixos no nada. Pareciam dizer alguma coisa. Não conseguia mais falar nada. Olhava para mim. Aquele olhar que me pedia socorro e deixava-nos em pânico. Seu corpo sedado, apenas esperava a hora de ir embora para nunca mais. As pessoas se batiam dentro do quarto. Uns choravam, outros se afligiam dentro de seu silêncio. Eu contemplava seu rosto enigmático,  observando cada movimento nosso. Seus olhos pareciam procurar os meus. E talvez tentassem entender o nosso desespero.

Suas mãos, espalmadas na cama, pareciam entregar os pontos. Entregar os minutos, entregar os bons e maus momentos que vivemos, os dias frios, os dias sem graça nenhuma. As brincadeiras de crianças, esqui nas corredeiras da chuva, os casamentos de bonecas de papel com pilhas rayovac médias. Casinha de boneca no fundo do quintal. Comidinha feita em panelas de barro compradas na feira. O sonho de ser gente grande. A nossa infância atropelada.

Enfermeiras verificavam o seu pulso de minutos em minutos. Ele lutava, ia e vinha numa luta desigual contra a doença. Podia ainda ouvir a sua vozinha da noite anterior pedindo-me para dormir com ele. Era minha folga. Estava indo para casa. Ele insistia: dorme comigo, dizia numa voz quase infantil. Um menino grande com voz infantil.

 

Nunca tivemos uma festa de aniversário enquanto crianças. Fomos obrigados a crescer logo. Mas lembro de minha mãe a entrar no quarto a cada aniversário com uma rosa nas mãos.... Nunca esqueceu nenhum dos três. Três irmãos. Onde será que havíamos perdido a nossa infância? Enquanto me lembrava do seu último aniversário, observava seus olhos vagantes indo e vindo, como se resistisse ao inevitável. No dia do seu aniversário, não pensamos em comemorar. Ninguém o quis. Apenas o cumprimentamos mudos. Sábio, escondido dentro de si mesmo, ele apenas fechou os olhos naquele quarto e se fez de morto, com a antiga mania de avestruz com medo. Era um Domingo sem graça. Na quarta-feira, resolvi que não podíamos deixar de festejar. E fizemos um bolo. No quarto de hospital, dormi abraçadinha a ele, com medo que os médicos me mandassem sair de cima de sua cama.

 

Aproveitei que conseguiu dormir às cinco da manhã e corri a pregar bolas, cartazes por todo o quarto voltando em seguida para a cama. Fiquei quietinha, esperando-o acordar. Abriu os olhos ainda na penumbra do quarto e observou lentamente as bolas coloridas. Esfregou os olhos. Outra vez. Não acreditava no que estava vendo. Sussurrou algo como: nunca tive uma festa de aniversário. E eu chorei caladinha. Ele sabia que algo não estava bem. Parecia que compreendia que estava indo embora. Passou a quarta-feira distribuindo fatias de bolos com médicos e enfermeiras. Estava feliz na sua condição de adulto que voltava a ser criança. Onde será que havíamos perdido a nossa infância?

Continuação

As horas se passavam. Seu olhar ainda vivo. Parecia me contar os seus segredos. Eles falavam. Ele morria. Era muito esquisito eu não conseguir chorar. Ele ia embora e eu ouvia os sons das crianças brincando no pátio do hospital, alheias ao que se passava dentro do quarto. Minha mãe chorava desesperada. Meu pai, viajando em seu mundo pessoal, falava amenidades. Acho que ele tinha medo de aterrizar. Acho que meu pai sempre teve medo, a vida toda, de crescer e ser mais adulto que nós.  E o olhar dele, perdido, contemplava o quarto inteiro. E o movimento aflito das enfermeiras que o tratavam com um carinho quase materno.

Eu não entendia porque as crianças brincavam. Minha mãe me mandava fazë-las calar. Elas sorriam, brincavam com o meu pai como se fossem da mesma idade. Elas não entendiam. Não aceitavam o fato de não poder entrar no quarto. Ali, apenas esperávamos, desde as três da manhã que tudo aquilo terminasse. Ou que a noite chegasse e nós pudéssemos acordar ilesos daquele pesadelo. Na verdade, eu queria tomar sorvete de creme com passas com ele.

 

Onde será que havíamos perdido a nossa infância? Eu não compreendia. Seus olhos iam e viam. Seu pulso também. Médicos se movimentavam, e seu corpo lutava. Ele morria, seus olhos não.

 

Nunca esqueci aquele olhar. Nunca ninguém falou tanto enquanto morria. Também, nunca vi alguém morrer. Sempre fingi ser criança nessas horas. Mas agora, ninguém me impedia de ser adulta, eu precisava sê-lo. Quando a hora chegou, eram três da tarde. Seus movimentos eram os mais terríveis. Eu o olhava fixamente. Eu podia consolar a minha mãe, e cobrir o menino, que perdia a luta e entregava os pontos. Mesmo aí, não parou de olhar tudo. Acompanhava-nos atentamente. O corpo morria, seus olhos gritavam. E eu voltava a ser criança. Porque não conseguia chorar como todos ali no quarto. Eu só acompanhava o olhar do menino, enquanto segurava a sua mão, com força, e agradecia a nossa infância interrompida, quando a vida nos obrigou a ser adultos.  

 

Senti que não me segurava. Não me conformava de perder a luta. Poderia ter parado ali de sonhar. E de falar, entregando-me ao choro coletivo. Mas só consegui chorar, quando seus olhos se fecharam e não falaram mais nada, emudeci, calando a alma. Ele parou de sonhar.

 

(Dira Vieira)

Foto: José Saudade

Minha pequena Débora

 

 

Trancou-se no quarto debaixo da casa. Caminhou até a mesinha onde havia o aparelho de som e colocou Bocelli a toda altura. Queria que  o mundo o esquecesse. Enquanto a música tocava alto, ele foi ao banheiro, onde na pia lavava a boca insistentemente. Escovou os dentes aos prantos. Bocelli gritava, Raul chorava.

 

Olhava-se no espelho e não se reconhecia. Seu pai lhe havia ensinado que homens nunca choram, fazem chorar. E ela não o veria chorar. Não assim, frágil como se encontrava naquela madrugada quente.

 

A música se revezava no quarto escuro. Raul não compreendia o que estava acontecendo com ele. Acabara de vir de uma festa. Vira Lúcia o encarando a noite toda. E como estava precisando esquecer Débora, pôs-se a corresponder ao olhar inquiridor de Lúcia. Não era dado a bebidas, mas naquela noite, precisava apagar as marcas de Débora da sua alma, do seu pensamento.

 

Estavam tão distantes, mas Débora era o seu fantasma diário. Dormia com ela, acordava com ela nas noites de pesadelos. Acordava balbuciando o seu nome, várias vezes. Per Amore invadindo o quarto. Raul chorava tentando tirar o gosto de Lúcia de sua boca, porque era o mesmo gosto da boca de Débora.

 

Sentou na cama chorando alto. Raul soluçava, Bocelli cantava. Tirou a roupa, pegou um lençol limpo, afogou-se no travesseiro, deixou as lágrimas saírem livres. Nunca mais teria a sua Débora, a sua proibida. Nunca mais.

 

Olhou o relógio. Eram 3 da manhã. Bocelli agora cantava Caruso fazendo-o chorar cada vez mais. Ouviu quando o telefone tocou. Viu que era Débora pelo visor. Ela não desistia dele.

 

Apagou a luz, tentou fumar um cigarro. Enquanto tentava parar de chorar, a fumaça do cigarro escrevia o nome dela no ar. Poderia jurar que ela estava ali, grudada à cama, vendo-o desfazer-se do homem que fingiu ser a vida toda... agora transformado em pó, em cinzas de um amor quase impossível. Ele era ela. E ela nunca entenderia. Melhor esquecer Débora e fumar outros desesperos, desencantar e adormecer calado.

 

Bocelli calou. O som sumiu. Raul secou as lágrimas e adormeceu em suas mágoas. Logo, logo o dia amanheceria e Raul seria mais uma estatística. Cortou os laços que o unia ainda a Débora. Arrancou do peito o coração pulsante.Apagou a luz do seu deserto, chamou seu nome uma só vez e afogou-se num copo d’água. Débora continuaria para sempre tatuada na sua alma. Sua prometida, proibida. 

 

Dira Vieira

Foto: União (João Lopes)

Desejos de pergaminho

 

 

Um barulho ensurdecedor varou a madrugada. Era uma pedra. Alguém jogara quebrando o vidro da janela da sala. No meio dos vidros, dos cacos espalhados, um  bilhete escrito à mão atado à pedra. Era dele.

 

“Para que possas escrever o que lhe vai na alma
transformo minha pele em pergaminho
onde então depositarás teus pensamentos
e eu os guardarei como tatuagens
então poderei ler sua alma eternamente”.

 

Leu o bilhete emocionada. Suas palavras, dançando em profundo encantamento, tocavam a alma da doce dama da tarde. Proposta indecorosa.  Tocaria a alma dele, com uma dança nova, cheia de sonhos e encantamento e agradeceria a Deus todos os dias, poder ser pena e tocar a pele dele como o papel, deixando-o feliz sobre os seus lençóis de pura seda.

 

Ele, pergaminho novo, cheiro de barba feita, depósito de seus desejos mais secretos. Lia a alma dela com respeito, adoração e a sensibilidade de um beija-flor. Se ela respirasse, ele acordaria os sonhos, flutuaria com pluma e repousaria sobre o colo dela, saudoso de suas mãos, palavras de dedos ágeis e mágicos a folhear as suas páginas de pele macia e desnuda.

 

Feito tatuagem, a palavra, fonte inesgotável de prazer, estamparia a sua pele, como quadro impressionista, seu auto-retrato tecido a quatro mãos poéticas. Só o amor dele, em escrita itálica, seria a linguagem correta, a língua dos deuses, o sopro da vida, o corpo tremendo a noite toda, friozinho instalado na alma, desejos confusos, vontades que vinham e não voltavam. O dia amanhecido que não vinha, os cacos espalhados na sala, eram os partículas de sonhos dos dois. 

 

Dira Vieira

Foto: Bruno Alves

“A linguagem é como uma pele: esfrego a minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos ou dedos na ponta das palavras.”

                  (Roland Barthes)

CHUVA E O ESTIO

  Benno Assmann

 

Depois de prolongado estio, é gostoso o reencontro com a chuva. Sair correndo desfilando entre suas gotas que, ousadas, lambem a nossa pele, aspirando o perfume com que a terra molhada agredece a umidade restituída.

 

Antes, gretada e ressequida, a terra se abria em rachaduras como que em bocas buscando, em vão, o orvalho que já evaporara, lábios sedentos e rachados.

 

Agora, acariciada pela chuva, a terra se veste com roupagens coloridas, redescobre seu verde e  reinventa suas cores. Gosto de ver as folhas cobertas de pérolas e diamantes que sobre elas a chuva deposita e os reflexos coloridos da opacidade de um dia chuvoso, cores sutis, tonalidades de cinza, azuis enevoados, um arco-íris ainda pálido que há de se colorir na bonança.

 

Vertida a chuva, desfazem-se as nuvens e a natureza sacia nossa saudade do azul. Esta cíclica alternância entre chuva e estio renova em nossos espíritos as esperanças. Nem a impiedosa chuva, nem a mais castigante seca hão de durar eternamente. A chuva e o estio são problemas que o estio e a chuva resolvem. De tanto chover não há mais chuva. De tanto estiar não há mais estio. Os problemas são fonte de suas próprias soluções.  Nossos problemas por fim acabam para serem substituídos por outros problemas. Sem desesperos, pois viver é ter problemas. Só aos mortos resta a solução definitiva de todos os problemas. O resto é transitório – tristeza, dor e problemas.

 

Adoro ter problemas, pois o perfume das flores vem de brinde, o amor nos anima o coração e, enquanto resolvo meus problemas, respiro a fragrância tênue da brisa. Não tenho problemas com problemas. Sou um engenheiro solucionador de problemas. Os problemas foram inventados para serem resolvidos. Sem problemas, que seria de nós? Fadados a viver nas cavernas cobertos com fedorentas peles de urso, cabeludos e sujos, declararíamos nosso amor com uma cacetada de tacape na cabeça.

 

Um problema não é um problema, é apenas a percepção de uma situação existente. Se fechares os olhos, nada verás, não verás os problemas, nem as paisagens mais lindas e, pior, muito pior, os olhos de tua amada passarão por ti sem que percebas. Os campos, bosques e florestas têm seus problemas também, todos temos. (Continua)

...

 

Vêm as tempestades, vêm as secas, mas uns e outros vão da mesma forma que vieram, se resolvem uns aos outros, mas o colorido latente que há nas coisas não muda nem morre, está lá, pronto para despertar de novo num ou noutro dia de glória.

 

O problema já traz em si sua solução. Se a mão traiçoeira do homem que decepa, destrói e deixa a terra envergonhada e nua, por um instante se distrai, mais que depressa as folhas e flores tomam conta de novo do seu espaço e a terra se engalana com as mais vistosas roupagens, roupas aristocráticas, cobertas de cores e brilhos.

 

Quando as flores desabrocharem e revestirem os campos, servirão de moldura para um sorridente rosto apaixonado deitado na relva, admirando os olhos iluminados e sorridentes de sua amada. Acredito que o amor há de vencer esta luta.

 

Ali onde está a terra ressequida e descolorida, verdejaram campos, desabrocharam flores e hão de novamente verdejar e desabrochar. Os troncos nus e retorcidos que  já foram altaneiros e ostentaram imensas copas, restituirão sua antiga nobreza e porte quando forem tocados de novo pelas gotas mágicas da chuva. Os campos sedentos terão saciado enfim sua sede. Quando a chuva excessiva deixar tudo inundado, virá de novo o estio, que enxugará de novo a terra.

 

A natureza sempre arranja um jeito de reencontrar o amor e se renova espontaneamente. Por isso tudo, não devemos nos desesperar se um dia não foi exatamente como esperávamos. Tudo se renova e os problemas, do jeito que se interpõem no nosso caminho, são resolvidos e se afastam. E se a vida tem seus percalços, a beleza os suplanta e supera.

Inquieta...

Foto: Vitor MM Costa (1000Imagens)

Fuga

 

Ele lhe abriu a blusa

e escondeu-se do mundo.

Ridículos

completamente tolos

apaixonados

 

Separados,

jaziam como pássaros sem ninho 

de um lado para o outro.

Mas quando juntos

até  pareciam perfeitos.

 

A boca dele na dela

Suas mãos úmidas em união

Parecia que o mundo

era apenas figuração

cenário poético

a metafísica vontade de amarem-se

ternamente

como dois inocentes animais

até que a noite os separasse.

 

                                                             Dira Vieira

 

Foto: Gaspar Pedro (1000 Imagens)

 

Temporário

 

Parece que o tempo

esse carcereiro implacável

brinca de dominar

e por fim

libertar

o que a gente com tanta força

sufoca entre os dedos.

 

Dira Vieira

 

 

Sentada nos bancos do aeroporto a menina esperava o sonho. Por três vezes vira o sonho vir e voltar. Avião de portas abertas contra o tempo. Dentes abertos, pássaros de asas multicor, dono dos sentimentos alheios.

 

Ensaiou umas lágrimas furtivas enquanto o cabelo docemente caia-lhe sobre os olhos. Um vento frio que a toma, sacode-a para um lado e outro. Lágrimas de uma saudade esvaziada pelo tempo, carcereiro de sua dor.

 

Lembrou do último adeus. O sonho acenando as costas da mão enquanto a multidão chorava os que partiam. Ele voaria nas asas do vento e não perceberia a menina em terra firme, querendo voar também.

 

Uma voz no auto-falante chamava os retardatários. E a menina, retardatária dos seus sonhos, chorava contra a parede lamentando ter chegado atrasada por duas vezes na vida. Era reincidente, ré confessa em chegar atrasada nas expectativas da vida.

 

O sol indo embora, o avião indo embora, a menina acenando ao nada. O sonho partindo sem olhar para trás para não dizer adeus jamais. A boca escancarada dos desejos comedidos e puros. A inocência espiando pela fresta da vida. A felicidade ali, e um pássaro esquentando as turbinas para nunca mais.

 

As pessoas acenavam chorando. As partidas são solitárias para quem vai. Quem fica cai nos profundos espaços vazios da alma. Porque não pode ir atrás, no rastro do pássaro de aço.

 

Fechou as mãos num aceno tímido, fechou o casaco contra o frio e esmurrou o ar, com o punho fechado. O tempo, esse carcereiro imperdoável e injusto, tinha sido maleável ao menos por alguns momentos. O sonho escorria pelos dedos, mas a menina ficava com um pedaço do coração do sonho numa troca perfeitamente justa.

 

Dira Vieira

       Acalentando saudades

 

Estou sentada na calçada em frente à casa. As pessoas passam, os carros passam, a saudade, teimosa, essa não passa. Sinto-me sozinha com a minha angústia da sua falta dentro de mim. Parece que uma multidão faz festa no meu coração para disfarçar o vazio que você instalou nele quando se foi.

 

No estômago, sua fala, calma, remexe as minhas vísceras e me pede o impossível, que te espere sem as tempestades que faço todos os dias na solidão que esparramo pela casa, e que passo sobre ela, tentando esquecer que na verdade passo por cima de mim.

 

A tua cama, ainda nem arrumei. Deixei do mesmo jeito, quando saístes para comprar cigarros. Meias para um lado, camisa pro outro, e o desenho do teu corpo inerte como nos filmes policiais. Qualquer coisa, acho uma vítima e um culpado e te resgato nesse folhetim amoroso.

 

Estranho quando temos que ir, sem nem saber porque viemos e não sabemos exatamente se vamos voltar, mas a gente fica com os olhos distantes, esperando que as voltas sejam menos doloridas que as despedidas e nunca, nunca, sobra muito de nós, quando ficamos, ou quando partimos. Só o tempo nos juntam nossos pedaços.

 

Se soubessemos onde iria dar, tentaria pintar o quadro que te prometi, na primavera dos nossos medos em preto e branco.Está tão tarde. Trem que passa por trás da casa, denuncia que não houve paradas. A sirene vem cantando alto, daqui, posso ouvir o cheiro de lenha queimando. Os pescadores já vieram do mar e só você não voltou.

 

Faço de conta que espero o nada. Nem me animo com as crianças que brincam de bola de gude na rua, alheios à minha espera, rosto enrugado das partidas e dos sonhos levados embora, sem a minha permissão.

 

Não adiantou abrir as gavetas, soltar os versos e voar nas manhãs de sentimentos crus. Viver é sempre tentar outros tons para amanhecer feliz.

 

Mais uma vez, esse trem não vai parar nessa estação. E se eu me esforçar, consigo pintar quadros mais alegres, enquanto te espero, cativa na sala de estar, sinto o cheiro de café quentinho sempre novo, fervendo em cima da mesa. Ao menos ele, renova-se para esperar você chegar. Será que você ainda me encontra com vida? 

 

Dira Vieira


Ando muito cansada. A única coisa que me mantém renovando o blog, é o carinho de vocês, por isso é tão importante o comentário e todo blogueiro insiste tanto para que os visitantes façam. É uma forma de sabermos que estamos escrevendo para alguém. Não me ligo em contadores, o feedback é o que me importa. É uma forma de crer-me falando para alguém. Se o texto tiver ruim, vocês digam, isso me ajuda também.

Foto: Alvaro Giesta (Quando o azul é mais azul)

 

Renascença (Bené Chaves)

 

No mar azul e profundo

naquele rastro de algo

eu me perco nas ondas

mergulho desaparecendo

das sinuosidade de um

temível e indúctil tempo.

Apareço depois no clarão

lírico de nova existência

 

E acalento multidões...

 

 

Acordei pensando em você, sentindo as tuas mãos como ondas mergulharem em mim. Saudade que se faz presente nesse tempo de frio, de chuvas e de mistérios. Olhar perdido no horizonte, tempo perdido no meu aerocorpo, esperando o teu avião me despertar de um sono profundo.

 

Eu hoje acordei pensando em você nessas ruas de terra molhada, teus olhos perdidos na paisagem, como dois pássaros escondidos a me acompanhar. Saudade latente, desejo sinuoso prestes a sair de mim e brincar na chuva, como criança que trocou a bala, pelo banho no meio da rua.

 

Fecho os olhos. Deixo que a chuva me molhe nas tuas mãos imaginárias. Antes que percebas, renasço e recrio-me nas tuas ondas nessa praia de saudades.

 

Teu olhar é poço fundo. Mergulho sem medo, perco a noção de tudo. Se fizer sol te perco, se a chuva parar te molho, mas prefiro continuar no meio termo, até que voltes e me acordes desse pesadelo.

 

Meu corpo, arrecifes que contêm o teu. Ondas que se jogam em mim, e te acolho em meu colo de terra firme, saudades tuas que vêm e não passam.

 

Dira Vieira


O poema é do Bené Chaves, poeta assíduo leitor desse blog.

 

Dois momentos

  

O mundo que me abre as janelas

é o mesmo que

fecha as brechas

e me isola na madrugada fria

 

sobrevivemos

 

sonha, amor, sonha

e eu te realizo

desejo incontido

mel lambuzando os sonhos

a alma aflita

querendo o grito

dos teus silêncios

aflitos

 

Entrou correndo dentro de casa e nem viu que ela chorava no sofá da sala. Ora, a manhã colorida de plena primavera e a ela ali soluçando.

Esqueceu um pouco as cores que trazia consigo e encaminhou-se até ela. Sentada no sofá vermelho, com um lençol estampado cobrindo os rasgos, ela deitava a cabeça sobre as pernas e chorava.

- O que foi? Perguntou o moço dos sorrisos azuis com a primavera no olhar.

- Nada. Respondeu a moça das lágrimas que molhavam o sofá vermelho com um lençol estampado cobrindo o rasgão.

- Diga pra mim. Insistiu.

- Não vê que as comportas da minha alma abriram-se e eu perdi tudo?

- Como? Explica de novo.

O silencio na sala abafado pelo soluço dela. As paredes pálidas, um gato branco gordo esparramado sobre o tapete azul. Um contraste de infelicidade.

O moço não viu. Mas a moça percebeu que ele alçava outros vôos quando ele dobrou a esquina. Percebia o seu olhar distante. A poesia latente em seus olhos azuis de primavera. Já não era ela a sua musa. Já não era dela os seus primeiros pensamentos quando acordava ao seu lado.

A moça chorava. O moço não conseguia dizer nada. Impossível penetrar a alma do outro, sem que o outro abra a porta.

Cansado de esperar a resposta, ele saiu da sala. Voltou pra sua primavera de cores e de sonhos e a moça ficou no sofá, esperando ele voltar enquanto derramava todos os seus rios represados. O moço percebeu a contra-mão da vida e entregou-se de corpo e alma ao primeiro beija-flor que encontrou.  

 

Dira Vieira

         Foto: © 2003 - Pedro Nogueira


 

TINTA FRESCA

 

Eis-me no espelho, meio-dia, em ponto. Uma mistura de cores e de tons esquisitos. O sol entrando pela janela enquanto eu desfaço minhas inquietações em tons verdes-olhos-do-meu-amor.

 

Minha alma se deixa transparecer como furta-cor. Acho que tem um arco-íris esmaltado bem aqui, na retina do meu olho direito. Um cinza transcende de meu coração... enquanto me imagino verde, verde-musgo, tuas mãos pintadas em meu corpo, tirando a minha respiração.

 

Meus olhos falam tudo. Percebo  o reflexo da tua boca cor de rosa procurando a minha vermelho fogo de desejos entreaberta esperando o laranja de tua língua com gosto de chiclete.

 

Beija-me. Mistura teus sucos em mim, de tua pele branca, traduzida em todas as cores quando se espalha sobre mim. É só a tua imagem lilás transparente que eu consigo ver nesse espelho... você que não me sai da moldura do pensamento, feito amarelo fogo-fogueira crepitando no meu desejo absurdo e descomunal de ter você rosa-choque aqui.

 

Já não vejo mais nada. Sinto-me levemente misturada. Tuas cores, minhas cores. Tua boca, minha boca, misturadas na tela como tinta fresca escorrendo pelos nossos pelos e dedos. Por pouco não viraremos branco, misturados, apaixonados, indefesos, à flor da pele, baldes de tinta nas mãos do destino pintor.

 

O que amarela em mim, realça você, nos meus contornos toscos de amor, fruta madura, te esperando no verde do jardim, ao por do sol. Vem, cor de vinho, e me aquece esse frio, embriagando-me a esperança de outros sonhos marrons fins de tarde.

 

Já nem sei quem sou. E as horas se passam mudando os tons do meu pensamento que inventa novas cores e te chama para mais uma tarde de natureza viva no fundo do espelho: tinta fresca misturando e recriando vida

 

Dira Vieira

Foto: © 2004 - Ricardo Correia

Voando no teu sono

Ele brincou com o meu cabelo. Fez gracinhas no meu pé... sorriu sem nada dizer e adormeceu ao meu lado, o sono dos que amam.

 

E eu fiquei ali acordada. Como quem espera no cais o barco voltar de arrependimento. O amor é um vôo solitário e um caminho difícil de percorrer. Eu o olhava dormir sorrindo, boca miúda, mãos que sustentavam a face em sinal de saciedade.

 

Fiquei ali não sei quanto tempo. Acompanhava os seus sonhos, poderia adivinhá-los, um a um e a sua carinha de belo adormecido me extasiava.

 

Fiz um silêncio de vôos solitários, bati as asas em reverência e fiquei planando sobre ele, como sobre o mar, protegendo o seu sono, com medo que o relógio do tempo, inimigos dos que amam, tocasse alto, e ele acordasse abrindo asas para o mundo.

 

Dormindo é dos sonhos. A possessividade dos que imaginam que amar é prender em gaiolas douradas do amor egoísta e vil.

 

Planava sobre ele. Asas abertas de proteção da cria. O meu amor indefeso protegia o outro de ataques de outros pássaros. Sinto-me frágil nesses dias.

 

Toquei sua pele com a ponta da asa. Ele se mexeu sobre a minha inquietação, mas permaneceu alheio ao meu desespero.

 

O amor dorme, enquanto o outro voa sozinho. Amar é uma decisão sem volta. Quem ama, não pode esperar que o outro desperte. Isso me dá medo.

 

Enquanto ele dorme, eu choro. Chove aqui. E eu banho o seu corpo com as minhas lágrimas de saudades do desespero dos que voam sozinhos. Fecho a janela por um minuto, e te agasalho sob as minhas penas. Tua imagem dormindo me absorve de todos os pecados.  

Dira Vieira

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