Foto: © 2004 - Manuel Ventura

 Não vá, meu anjo

 

Uma dor silenciosa me tocou essa manhã. Acordei silenciosamente abatida. Olhos distantes, mãos desencontradas. Não consegui pentear os cabelos, que revoltos, ainda sentiam as tuas mãos a assanhá-los.

 

Seria fácil procurá-lo por perto. O seu cheiro ainda impregnara as minhas mãos, o meu corpo, o meu pensamento. A sua respiração ofegante no meu ouvido parecia um grito na noite. Era tão fácil te encontrar em mim, bastava que me tocassem e sentiriam o teu perfume ainda no meu, e a tua boca ainda na minha.

 

Arrastei-me sobre a cama. Revirei os lençóis estranhos sobre ela. Os travesseiros caíram no chão procurando-o, enquanto as nossas sandálias ainda estavam juntinhas, ensaiando outras caminhadas felizes uma ao lado da outra.

 

Levantei em suspense. Pensei na sua boca emoldurada sobre a minha pele. Boca de luas cheias, silenciosas, adormecidas. Ar-condicionado ligado e ele suando como desesperado com medo de abrir os olhos para não acordar.

 

Não dormimos a noite toda. Ele me embalava nos braços e depois me demolia em pedacinhos de saudades que ia marcando em mim com os dentes sempre tão afoitos. Era ele traduzido em silêncios que violava a solidão dos meus desertos e noites frias.

 

O seu suor, repousando sobre mim, matava a minha sede e me enchia o pote das dores e desejos indecifráveis.

 

Por que amar era tão esquisito? Vi-o chorando baixinho enquanto arrumava os sonhos pela madrugada.

 

Eu ficaria acordada, se ele pedisse. Mas adormeci embebida em suas lágrimas e eis-me aqui agora, completamente perdida.

 

Talvez não tenha ido tão longe. Suas asas ainda repousam sobre a cadeira da sala.

Dira Vieira

Foto:Francisco Lopes

 

Todos os meus dias são cinzas

 

* Para Benno Assmann acreditar em dias cinzas

 

Era um dia cinza, como os outros dias cinzas que se arrastavam sobre as suas costas. Estava cansado.  A pele branca como a neve, ressentia-se de dias azuis para aliviar o cansaço das palavras que não saíam de dentro da gaveta e ficavam fazendo um barulho insuportável à noite, quando todos dormiam.

 

Abriu a janela logo cedinho, quis uma lua diurna, um cheiro doce de ervas no quintal, passarinhos que cantassem, algo assim, retrato vivo de algum conto de fadas. Como pode um físico pensar assim?

 

Na cabeça, a imagem dela que não lhe abandonava um minuto sequer no dia cinza. Meiga, destoante de sua correria, a metafísica das letras se confundia com o cheiro dela perfurando o seu pensamento o dia todo.

 

Impossível parar de pensar. Fechou a janela, desligou a vida e dirigiu-se para o sétimo andar a passos largos e decididos. Outros tons precisavam ser experimentados. Outras luzes. Matizes que se misturavam na sua cabeça na impossibilidade de ir buscá-la seja lá onde ela estivesse.

 

Chegaria à meia noite, não num cavalo branco, como ela imaginava, mas na sua moto Harley, capacete daqueles abertos, nada parecido aos filmes de cinderela. Bateria na porta. Esperaria ela a abrir não a multidão dos contrários que impedem todos os seus sonhos. Mostraria-lhe seus defeitos, cantaria para ela alguma música linda e a beijaria no meio da porta, antes que ela pudesse pronunciar qualquer palavra.

 

Se a tivesse conhecido numa fila de banco, de supermercado, no meio do trânsito estressante e agitado de São Paulo. Poderia parar seu carro ao lado do dela, ensaiaria um olhar sedutor e trocariam telefones. Tudo ilusão. O amor não define lugares, nem hora, nem dia, nem escapa-nos como uma melodia que cantarolamos sem querer.

 

O amor, esse vem sem pedir licença, e torna os dias assim, meio cinzas, mistura de todas as cores, nessa manhã sem graça. Melhor desistir. Melhor acovardar-se debaixo da mesa das nossas inseguranças e desistir de voar, como todas as palavras que eles disseram um ao outro, um dia.

 

Voltou do meio do caminho. Correu para o escritório, abriu a gaveta aos prantos e soltou a poesia que aprisionara por tantos dias. Felizes, elas preencheram o ar com uma dança sensual que o inebriou. Eram rimas, tons, semitons, frases, figuras de linguagem saltitando entre os livros, a escrivaninha.

 

Viu quando a sua amada saltou no meio delas e se fez presente em sua tristeza, invadindo o ambiente e a sua alma, fazendo uma grande ciranda com a sua tristeza.

 

Era um dia cinza, como todos os dias sem ela. E agora, um cinza de todas as cores. União perfeita que o fizeram feliz naquela manhã que passou a amar o cinza que já não era de impossibilidades, mas de prazer ao vê-la bem próximo fazendo de si, sua poesia mais linda. Nunca mais odiaria os dias cinzas, era só abrir as gavetas, onde aprisionava a poesia e soltar as palavras ensinando o amor a voar.

 

Dira Vieira

Foto: Pedro Gomes (El Matador) 1000 Imagens

Trocas Simbólicas

  

Ele a via azul, desses azuis-piscinas de descanso de vista. Quando ela passava, ele respirava fundo, fechava os olhos, mordia os lábios... sonhava colorido.

 

Ela o via verde. Um verde claro de mar calmo, deserto, fim de tarde, praia limpa. Tarde esperando lua cheia, estrelas na quase noite, aninhando-se em seu céu da boca.

 

Eles se encontraram na maré baixa, fim de tarde, parada de ônibus (nesse tempo de lua cheia eles ainda não tinham computador), vontade de correr para casa e descansar sob algum lençol macio.

 

Foi amor à primeira vista quando esbarraram na subida do ônibus. Olhares se encontraram, sorriso tímido. Ele sentou primeiro, ela senta depois. Paisagens passando na janela, o cheiro dela invadindo o nariz dele, trocando odores com suores de operários saídos das fábricas.

 

Não deu outra. Duas semanas e eles ensaiavam a marcha pré-nupcial, misturando suas cores numa paisagem viva.

 

Ela entrou de lilás, ele entrou de vermelho. As cores fazendo festa em cena tão anormal. Ele abriu uma caixa. Ela estendeu as mãos. Ele disse que a amava. Ela disse que seria dele para sempre. Eles trocaram sonhos, alianças cor-de-rosa, beijos molhados, chocolate em barra, café na cama, cinema fora de hora, pipocas, vinhos, CD de Jobim, dieta da lua, perfume francês.

 

Ele chegou tarde. Ela fingiu dormir. O dia amanheceu cinza, e ele a olhou na mesa da cozinha. Achou que ela estava pálida. Ela o viu branco gelo.

 

Choveu muito naquele dia. Ela disse que ele fedia. Ele disse que ela tinha mau hálito.

Ele comprou um computador, eles dividiram horas de náufragos. Nunca mais trocaram juras de amor.

 

A proteção de tela dela guardava seus segredos laranja. A proteção de tela dele, cheirava a noites insones. Eram assim todos os dias, até que a morte os separou. Um vírus mortal os deletou.

 

Dira Vieira

     São João

 

 

Deixa-me que te grite o nome, como brisa suave no meio desse turbilhão. È tarde, ouço barulho lá fora e sinto um frio de espaços vazios que me invadem, emoção à dentro à tua procura solene. Deixa, só mais uma vez, deixa. Eu grito e juro, ninguém vai nem ouvir.

 

Fogueiras queimando lá fora. Bombas, fogos. Luzes por todo o lado. Mas apenas a tua imagem queima na minha memória como fogueira que se acende depois da hora. Arde, queima, choro pelos cantos dos olhos. A fumaça ardendo nos olhos, a lembrança amargando no peito. É a tua boca, emoldurada no papel crepom das bandeirolas de São João.

 

Vou ao meio da rua para escapar dos monstros que moram debaixo da cama. Lembranças, mãos que acenam, e ficam paradas fazendo caminhos e trilhas entre as minhas lágrimas. Tuas trilhas ainda estão em carne viva.

 

Vôo solitário e nu. Pau de sebo, bandeirolas, pessoas vestidas à caráter e o teu amor, Lampião vestido de cangaceiro fazendo pousada na minha rua e à minha sombra, como se fosse fácil se livrar de mim.

 

Abro a máscara. Contemplo o rosto na bacia de água colocada na fogueira. Nem o teu nome e nem o meu. Fantasias poéticas de asas de cera. Teu amor derrentendo todo sobre mim, borrando o meu batom vermelho de saudades. Beijos de festim. Desejos feito pólvora socados sobre a arma de risos suspensos pelo medo.

 

Faz frio. E a fogueira dessa saudade só aumenta a ilusão de que dias melhores virão e possamos queimar essa palavra não cumprida, os sonhos não revelados e a tua mão furtiva e imperceptível, arrancando minha alma com os espinhos das flores de nossos silêncios diários.

 

Mais frio. Estendo as mãos à fogueira e te exorcizo para nunca, sempre mais.

 

Dira Vieira

  A menina olhando o Mar  

 

Olhava o mar dar voltas à sua frente. As ondas iam e vinham, numa dança de congraçamento. Parecia que o mundo ensinava os primeiros conflitos à menina. Ela olhava intrigada com tamanha beleza, ali, pela primeira vez conseguindo equilibrar-se sobre a areia do mar.

 

Seus olhos, distantes no infinito, tentavam compreender aquele mundo de águas à sua frente. E o mar, carinhoso, quebrava antes de tocá-la com medo de assustá-la quebrando o encantamento da menina vendo o mar. Braços abertos tentando conter o mundo que tão delicadamente silencioso a recebia nesse dia.

 

Suavemente, o mar passava os seus braços lentamente ao redor da menina, que extasiada, olhava a onda gigante se transformar em espumas diante dos seus pés. Seria assim ao longo da vida, como bem demonstrara o mar. Os grandes monstros sempre se transformam em espumas aos nossos pés quando ousamos enfrenta-los.

 

O mar ensinava à menina e o seu semblante olhava quieto, ensinando aos que passavam e paravam para ver a cena. O seu silêncio diante do mar, era uma troca de ensinamentos, escutava as ondas, grandes braços a segurá-la, mostrando o caminho que um dia teria que trilhar.

 

A menina olhava o mar. O mar abraçava a menina e o mundo parava encantado à sinfonia de entendimento entre o seu silêncio e do mar, que apaixonado, ensinava a menina a sonhar. 

 

Dira Vieira (minha Camila aos 5 meses, sentando pela primeira vez frente ao mar)

Foto: O Maltês

Desnudando a terra 

O cheiro forte ficou impregnado em suas mãos, pelos seus dedos, dentro das unhas. Cheiro de terra molhada, pronta para o plantio de tanto tempo sendo moldada, arada, adubada para que finalmente pudesse eternizar sua semente. Não era uma terra comum, nem o seu objeto de sobrevivência. Era A terra, não uma terra qualquer, a sua terra. E as suas poderosas mãos bem sabiam dos caminhos que percorriam.

Todos os dias, amanhecia com o firme propósito de tocar a vida pra frente. O suor do rosto no ar-condicionado, era a prova de quanto aquela terra, molhada requeria de suas forças, dia após dia, quando o tempo esquecia-se dos dois.

Suas mãos ainda continham o cheiro dela. A lembrança dos dias de sol quente, chapéu na cabeça, origem e fim numa mistura quase natural, não fora a loucura de pensar o dia todo em como não sair dali, homem e terra entrelaçados, numa cumplicidade sutil.

Arava a terra todos os dias, nas palavras, adubo de cheiro indescritível jogado sobre a relação, corpo e alma numa mistura de massa e vida. Carinhos mútuos, terra x homem, homem x terra. E ela sabia de como ele a queria, nua, suprema, toda sua.

Dança de acasalamento sob o céu de concreto armado. Porões de angústia, prazer de mexer e revirar o húmus numa infinita dança no espelho. Dança de lobos, alcatéia faminta, terra recebendo o leite, a alma, a inspiração do homem. Um para o outro, num jogo de sedução inconsequente. Ela era sua, ele era dela. Como o homem e sua terra.

Quando ele vinha, ela se alegrava, abria os seus próprios sucos sobre a pele e esperava as mãos do seu dono, que a acariciava sem pressa, com as mãos, ferramentas e as palavras como água preparando-a para receber a sua semente no tempo oportuno.

Ele a remexia, vasculhava, afundava dedos dentro dela, terra molhada e propícia, sob a chuva seródia a mágica daquelas mãos tão certas da geografia desnudada.

Em tempos de seca, o homem sentava ao lado dela, chorava para que suas lágrimas continuassem regando a sua terra, alma escancarada e árida, de desertos sem luas.

Ele agricultor, de mãos fortes, de desejos nítidos, a tocar a terra, como quem toca o céu, numa mágica muda, de quem vem dela e de quem vai voltar para o seio dela, a terra, seca de sua companhia.

Ela, terra úmida de chuvas de carinhos, esperaria pacientemente pela mudança de luas, e alimentaria suas ervas a proteger seus sulcos para que, no tempo certo, pudesse receber suas sementes, solo fértil, e produzir os seus botões, frutos e flores a completar o ciclo: homem, terra... um só, cúmplices, em dias de espera e dor.

Cheirou as mãos mais uma vez, fechou os olhos, pensou nela, o gesto da terra molhada a esperá-lo, lua após lua, suportando os desertos, as ausências, o choro nas partidas e o riso das voltas. Cheiraria os dedos quando quisesse lembrar sua terra, molhada. O cheiro estaria alí, para sempre em suas memórias. Cheiro de vida sobre lençois de seda. 

Dira Vieira

(Desculpem a demora da postagem, estou temporariamente sem Computador - ossos do ofício.)

Foto: ...e mais além (Victor Melo)

 

Espera

 

 

Cai o sono

na pálpebra da noite

enquanto não vens

vou contraindo músculos e pensamentos

e te invado faceira

nessas tempestades

que se criam em mim

 

mas sei, por fim

que ao te tocar a alma

e te lamber

a face da noite,

 

vou amanhecer melhor:

viva para outras ventanias.

 

É noite e te desejo desenrolando papel de bombom. Parece que as noites trazem em suas horas, o desejo que se instala no nosso peito. A saudade, essa vontade querendo vir, olhos que se fecham em ti, ilusões de vôos perenes.

 

Minha boca resseca. Meus olhos se enchem de luas e tempestades furtivas que se estranham pelos transeuntes sempre tão alheios às minhas angústias. É como ficar na rampa de embarque, vendo o outro partir longe, enquanto ficamos sozinhos, voando baixinho, solitariamente.

 

Preciso amanhecer antes que me faltem lágrimas. Manter a imagem viva, imaginar que outros pássaros voltem e te tragam nas asas, para que eu continue a regar meus jardins de esperança, abismos fortuitos: o teu amor, que me corrompe, em pescarias de ilusões terrestres.

 

Preciso viver para outras ventanias. Catavento preso na calçada. Sinais de alerta na boca da noite. Teus dentes cravados, morte da sonhos que não vivem sem ti. Estou em favor do vento, para onde me levar, eu vôo.

 

Dira Vieira

Presente aos namorados....

 

 

Foto: Cassandra Veras - Celacanto

 

  CEGO

 

Tocou o meu corpo

como folha em Braille

- tinta azul, todas as cores -

esparramada sobre o tapete vermelho

 

Seus dedos...

- tons cinzas, olhos quase azuis -

passageiro apressado

deslizaram macios

provocando congestionamento de sons

respiração suspensa

coração aflito cativo do tempo

 

Eis-me aqui

- Rosa, amarela, vermelha -

páginas abertas, secretas

alfabeto de intenções poéticas

submissa ao passeio

dos dedos que se encravam em mim.

 

E assim,

Respirando o teu lilás

Suspiro teus códigos secretos

 

Sou toda verde

à tua cegueira

traduzida.

 

                       Dira Vieira

 

Respostas da Maria....

As três cartas de Maria. Eu comecei, eles terminaram. Apreciem.

Fo to:Paulicéia Desvairada de Ricardo Martinelli

A carta começa aqui:

Recebi tua carta e fiquei muda no meio da sala. Afinal, o que queres de mim?
Aturdida, sentindo-me como se um furacão tivesse me sacudido. Esperando que
as palavras me venham à mente remoendo sentimentos e me deixando sem ar,
possam vir à tona. Não vejo outra saída, senão te escrever mais algumas
linhas para ver se dou-lhes vida, além de mim, para que por fim, elas nos
libertem quando nos esvaziarem...

...Tento escrever palavras que completem meus
dedos, minha mente, meu coração, na hora em que porventura chegue tua
resposta, que pode ser a última ou o início de várias linhas, que contarão
nossos dias, sonhos, sexos, momentos à dois. Tento me conter à não escrever,
o que quero ler de você, não influenciar meus olhos, boca, ouvidos, na hora
de saber do destino, pois já influencio a caneta por demais. Deixe eu
aprender a ser tua mulher e  você pode aprender a ser meu...

Victor Rodrigues (Blog: Botequim Poético)


....Tu não me libertaste com tuas palavras, ao contrario tu me prendeu ainda mais junto de ti. Há dias ando pelas ruas, atrás de um rosto, um olhar que me leve ao teu. Essa minha vida engendra a farsa, a ponto de escrever-lhe estas linhas, com enxurrada de lágrimas emotivas descendo pelo meu rosto, que enchem como lagos à concha de minhas mãos que não te tocam, que não te possuem.  Mas não quero te afligir com meus pensamentos de angústia e de dor. Sofro pela distância! E vivo pela recordação dos nossos dias. Sei que a noite mais uma vez irá cair, e eu estarei envolvida pela energia, pela força que vem deste nosso amor, e cálida tocarei as estrelas do céu, e uma delas beijará meus olhos, e saberei que, essa estrela vem de ti a me desejar boa noite. Serei Sedna sem lua. Enclausurada no abismo da paixão. Mas lembrarei assim como essa Deusa, que os lugares profundos guardam preciosos tesouros... A cada frase que escrevo, pela ânsia de te ter tão vagamente, percebo que a eternidade é pouco para nós.

Amo você.

Eternamente, tua Maria.

(Blog: Simplesmente Alegria)


 

Meu...

....Nem sempre a mão que acena diz o que se interpreta é preciso subir ao corpo e ler se um frêmito consente ou se o desânimo é o que abate.

O amor é vida, e sem o sopro que permaneça a chama balouça, faz trôpega a luz,  bruxuleia, e por mais que substrato tenha, se extingue.  A luz negra que te acompanha no teu silêncio depura, leva seus fantasmas ao delírio; cultivo os meus a pão e água, vão definhar.  Tens de espelhar-se em ti mesmo no reverso da intenção que é só tua. Hás de ter coragem, não deves lutar para me impressionar porque das marcas aqui deixadas diria que uma sombra passou por aqui.

Tenha certeza que quando passeavas em mim eu passeava em você e éramos um, uma só energia, o regalo deidificante, a suprema beleza do ser único.

Não, não havia matéria apenas, o barro e a costela. Disse acima do sopro, no diapasão do que pensava amálgama do liame.  

Se era eu o seu alvo. Alvejada fui. Ferida que não queria que sarasse ter sempre o amor que a pensasse.

No entanto ela começou a fechar e o ritmo aumentou pois a força natural supera a artificial e há de brotar sobre a cicatriz a vicejante pele que há de, sedosa como o pêssego, orvalhar-se do sereno aconchegante sem prenúncio de outras chuvas. Vai. Diminua a pressa, bote os pés no chão, caminhe altaneiro, o combustível é você. Vai ficar tranqüilo, você macho, você homem, construído do pó, granito indestrutível. E a pedra que encontrares no caminho, dela esculpirás um bom destino. São da mesma lavra. Se outras encontrares em escada as transformarás.

Por pirâmide poderás propugnar e do alto contemplarás os séculos, as estrelas, quem sabe, uma delas seria Maria...

(Dácio Jaegger - Blog: Chega Mais)


Amei as cartas. Fico grata pela idéia do Manoel (Agrestino). Eu acho que Blog é exatamente isso. Não temos vencedores e nem vencidos. Temos amigos. Valeu, pessoas. Amei as três cartas. Dira

Oração da noite de Lua cheia

“Meu Deus,

 

Protege essa menina que está longe de mim.

Não imagino o que possa estar acontecendo, mas este silêncio não pode ser nada bom.

Algo acontece, Senhor.

Faça que ela melhore se estiver doente. Faça que ela levante o astral se estiver com depressão.

Faça com que ela volte à paz se estiver brigando com alguém

Faça com que ela tenha um bom retorno se estiver viajando.

 Senhor, faça com que ela lembre-se que eu existo.

Obrigado Senhor.”

 

Fez essa oração e deitou. Era lua cheia, dessas que trazem a saudade em suas aparições. Esteve até essa hora no portão, fumando cigarro, um após o outro e esperando notícias dela. Nunca estiveram por tanto tempo longe. Algo acontecia. O medo de perdê-la era apavorante, ao mesmo tempo, ficava torcendo os dedos para que tudo estivesse bem. O café esfriando sobre a mesa, o livro aberto. As cartas lidas, cartas infinitas, com as letrinhas dela arredondadas em coraçõeszinhos e florzinhas e ursinhos. Quem diria, depois de idade tão avançada, essas coisas de adolescentes. Nunca escrevera e nem recebera cartas tão meigas, apaixonadas, tão absortas na saudade, na lembrança, no desejo de estarem juntos, acima de todas as coisas.

 

Pedia a Deus pela sua menina, distante, silenciada, que por tantas vezes esperou no portão, para dar boa noite, antes de seguir sozinho para a varanda com o copo de café na mão. Da varanda, ficava olhando pro quarto dela, na casa vizinha. Ela acendia a luz, entrava no banheiro e saia com o perfume de maçã, adocicado como incenso por toda a redondeza. Cheiro de maçã e a sua Eva se postava na janela, à luz de um abajur a escrever-lhe as cartas. Que silêncio, meu Deus. Onde andaria a sua menina? Onde?

 

Deixou a janela aberta mirando a lua. Era patético. Era ridículo pensar assim. Bem que tinha lido, no livro que ela lhe deu que todas as cartas de amor eram ridículas. Ridículos os apaixonados, olhando a lua, pedindo a Deus pra proteger a sua menina, que há três dias não vinha salvá-lo do tédio e de sua própria loucura. 

 

Faça-o dormir, Senhor. Diria a menina do outro lado do mundo, sabendo de sua angústia no portão, esperando-a chegar todas as noites. Faça-o dormir em paz, Senhor. Dê-lhe um sono tranqüilo, e o ajude a compreender minhas ausências. Senhor como é difícil, sabê-lo preocupado, e o café frio na mesa. Pediu a menina, olhos cheios de lágrimas, quando o imaginou entrando em casa sem esperança após esperar a noite toda no portão.

 

Faça-o feliz, Senhor. Respirou forte a menina, acenando esperanças e saudades, enquanto escrevia suas longas cartas. E o silêncio, tomou conta da noite. A lua cheia, enfartada de tão gorda, ressentia-se de esperar sozinha, no portão, sentindo o cheiro do cigarro acabando, queimando lentamente, e destruindo as horas sem que ela voltasse.

 

Atende, Senhor a minha oração e guarda o homem que me espera no portão. Fez a última oração e voou sozinha. 

 

Dira Vieira

Lançando um desafio...

Foto: Ricardo Faria

Meu...

Recebi tua carta e fiquei muda no meio da sala. Afinal, o que queres de mim? Aturdida, sentindo-me como se um furacão tivesse me sacudido. Esperando que as palavras me venham à mente remoendo sentimentos e me deixando sem ar, possam vir à tona. Não vejo outra saída, senão te escrever mais algumas linhas para ver se dou-lhes vida, além de mim, para que por fim, elas nos libertem quando nos esvaziarem...

(Seguindo a sugestão do Manoel: Quem poderia continuar essa carta de Maria (baseado nos dois últimos post’s para que finalmente pudéssemos encerrar essa saga? Então, mãos à obra, quero a continuação dessa carta de Maria, de onde parei aí em cima, em resposta à anterior. É um desafio, uma brincadeira, uma interação, quem faz a última carta de Maria? Escrevam para diracy.av@uol.com.br e mandem a sua carta. A partir de hoje, dia 04/06/2004 até o próximo dia 10 de junho/2004. A melhor, eu coloco aqui no dia 11/06).

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