
Foto: Ricardo Tavares (1000 Imagens)
Eu te amo, Maria
Ele gritou, ela gritou.
Ele disse o que não devia,
ela ouviu e custou acreditar.
Ela calou, ele sofreu.
Passaram a dormir de costas um pro outro
o amor escureceu
e o chão se abriu.
Maria,
Escrevo essa carta com o peito doendo. Li as suas, tremi, acho que senti o chão sumir. Ainda estou zonzo. Olho a tua boca encostada no vidro do retrovisor do carro. Você ainda sinaliza um eu te amo, quando emparelhamos os carros no sinal vermelho. Sua mão acena, eu faço cena para não enlouquecer.
Não é fácil. A tua boca parada em frente a minha. O desejo de ser terra, com o teu corpo escorrendo sobre o meu como os rios e mares que juntos percorremos tantas vezes, barco prestes a naufragar e o nosso amor resistindo às tempestades do cio.
Teu amor é um sopro de vida, não me deixes. Deixo-me corpo inerte na calçada, olho o relógio, agito-me dentro de mim, sei que não virás. Volto silenciosamente pelas ruas escuras. Os teus fantasmas e os meus ainda nos fazem companhia, eu sei, tu já me dissestes.
Agora estou só, diante de ti, caneta na mão, ensaiando uma carta, lendo-a na frente do espelho para te impressionar. Não sei se consigo, meus silêncios te deram coragem de ir embora. Teu amor é fio de esperança nessa estrada de luzes apagadas e sorrisos poucos.
Imagino como estás, cabelo ao vento, tomando banho de chuva. Eu sei que choras quando fechas os olhos e pensas em mim, mas nunca entendi que as mensagens que li do teu corpo eram apenas uma dança louca do acasalamento, de fêmeas em desespero. Teu amor me desespera, Maria. Tua aflição me incomoda.
Era eu o seu alvo. O ventre dançando, os véus encobrindo os seus apelos. Boca que escondias dos meus desejos. Moça bonita que me cativou pelos olhos desnudos sob a lua de João Pessoa.
Perdoe-me Maria. A última carta que te escrevi doeu mais em mim que em ti, acredite-me, e se eu pudesse mudaria tudo. As palavras, os sonhos, os desejos atendidos, as palavras que te disse, os planos, as maquetes sobre a mesa, nossas loucuras às margens do Sanhauá, com os mosquitos machucando o teu braço.
Nunca mais esquecerei teus beijos. Nem tua angélica imagem de menina inquieta. Olhar imperativo, cheiro de menina doce, maçã verde exalando a inquietante fome de viver.
Ensina-me agora, como viver sem ti, se tantas vezes, acostumastes-me a esperar os teus beijos fortuitos, descarados, em público, desvendando o nosso amor infantil e lúdico sobre a chuva forte.
Mãos dadas com o vento, desafiamos as águas e nos abrigamos em cada sombra a fim de provarmos um do outro, como loucos. Tua boca nunca cansada da minha.
Preciso ir, Maria. Perdoa a pressa, perdoa te deixar voando sozinha, é que por vezes, esqueci que o combustível de teus sonhos eram as minhas mãos sempre tão ávidas das tuas.
Beijo-te agora, Maria. Despedaçado, aflito, sem saber que passo dar de agora em diante, sem saber exatamente porque sempre temos que ir, e deixar o outro esperando atrás. Não olhes para trás, Maria. Se olhares, verás um homem de pedra partido sumindo na estrada, rasgos de sangue cru nas marcas do asfalto. Te liberto, e me prendo a ti. Homem sem alma, preso às amarras do tempo e das raízes de outros quintais. Não olhes para trás, Maria. Não sofras. Imaginas que quando a boca da noite chegar, te beijará sublimemente, boca de sonhos e luas e me tocarás as estrelas expandidas, minha alma.
Te amo, Maria.
Teu.
(Dira Vieira)

Foto(The day after): Adriano Costa (1000Imagens)
Chuva com pressa
O carro ia em alta velocidade, cortando o vento e outros carros que apareciam na frente. Colocou a mão direita para fora enquanto simulava pegar o ar e o deixava escapar suavemente. Fechou os olhos. Outro dirigia, mas ela era quem voava.
No carro, João Bosco cantava Corsário, combinando com o vento que tocava violentamente em sua face e tinha pressa. Era como se percebesse que o mundo todo continuava girando, enquanto ela, tentando pegar o sol com a mão, mergulhava em seus silêncios profundos.
Chovia. Ela sorria tentando conter as lágrimas que se misturavam aos pingos fortes de chuva que entravam faceiros pela janela aberta. É chuva, respondera a alguém que a julgou chorar. Ela ria (quando chovia por dentro), e as palavras ditas na carta escrita na noite passada ainda fazia grande estrago dentro dela. Trincou os dentes com força, mordeu o lábio inferior a fim de conter a rebeldia de palavras que diziam sempre o que ela tentava esconder.
Repreender os sonhos não era fácil. Para isso, era melhor continuar acordada, voando sem rumo, mergulhando no sonho alheio. Negar o óbvio, como poderia?
Outro guiava, mas era ela quem sonhava o seu sonho de Dulcinéia.
Chuva mais forte. Vontade de dizer não vá, mas sabendo que não se pode conter o curso dos rios, nem o curso natural das coisas que existiam antes dela, desde a fundação da terra.
Esperaria a palavra mágica. Retocaria o batom borrado e continuaria molhando o rosto, para disfarçar o choro no riso e as lágrimas em gotas curativas de chuva. O tempo não pára. E já não podia pousar em sua terra firme. Esticara mais a mão direita como tentáculos a desnudar o vento, faminta e nua.
O carro continuou correndo... Queria poder ouvir a palavra transformadora de todas as lutas: Volta! Vem! A imperativa ordem da vida. Contrariando todos os códigos da razão, do correto, do devir, do imponderável.
Volta! E ela voltaria feliz e plena para mais uma revoada de encantamentos.
Dira Vieira
Manhã Esquisita
Dira Vieira
O silêncio da madrugada era assustador. Alguém respirava ao longe. Sentia o ressonar. Sensação de pânico, abandono, torpor. Os olhos, esbugalhados, procuravam alguma resposta no teto branco. Ouvia até mesmo a respiração pesada de alguém na casa vizinha. Um homem.
Lembrou-se da arma apontada para a sua cabeça. A vida passando diante dos seus olhos, como um filme. Passado, presente...o que viria depois? ─ Comece a rezar! A ordem veio brusca a tomar-lhe a atenção.
─ Não sei rezar – Disse baixinho com medo que o seu algoz pudesse ouvir.
O homem ao seu lado, parecia não entender o que se passava. Tinha medo do próprio medo. Medo de suas reações. Ouvia o barulho dos carros de polícia ao redor da casa. Estava cercado. Sua vida cercada por carros de polícia, seus sonhos, sua emoção. Não teria a menor chance de sair vivo dali. Ela, a refém dos medos do homem, não conseguia imaginar uma palavra sequer de reza. Um branco total se instalava dentro de si. Balbuciava alguma coisa. Tremia. Estava imóvel com a arma apontada para a sua cabeça. ─ Entregue-se! Gritava alguém no megafone.
─ De forma alguma. Se alguém entrar, mato a mulher.
A cabeça dela girava. O cano frio do revolver acariciava-lhe a pele. Seis longas horas. E agora, em minutos, sentiu o corpo do homem ao seu lado cair inerte no chão. Não sabia se gritava, parecia sem vida. O corpo caindo ao seu lado...a sua vida caindo com ele. Olhos esbugalhados olhando para o teto branco e a sensação de que o mundo inteiro caiu com aquele corpo estendido ao seu lado. O homem parecia jovem. Provavelmente de família boa. Não parecia alguém sem estudo. Falava um bom português. Tinha coordenação, ritmo, diria que tinha melodia na voz. Seu timbre era de alguém que tinha cultura. Não entendia como alguém como ele estaria metido nisso. Mas agora, era apenas um corpo inerte aos seus pés. E ela nem compreendia.
Flashes iluminaram a sala. Seu ventre, sua alma expostos na primeira página. Poderia voltar no passado por exemplo, e imaginar-se como teria chegado até ali. Um corpo caído ao chão seria apenas o começo do seu desespero. Sofia, seu nome era soletrado aos jornalistas. O sonho de Sofia. Seu próprio nome ecoando no seu pensamento. Sofia. Apenas uma estatística nas páginas policiais. O que será que tinha exatamente acontecido?
Virou-se lentamente. Sentia calor. Mexeu os pés. Virou o corpo na esperança de sentir-se viva. Parecia que sim. Ouvia vozes de desconhecidos. Quem poderia ser essa gente? Examinavam o quarto, vasculhavam gavetas, armários, tiravam impressões digitais. Parecia um daqueles filmes que via no cinema. Mas não via o mocinho. Seria o bandido, o corpo estendido no chão?
─ Foi um acidente. Bandido e refém mortos – alguém narrava para a imprensa.
─ Morta? Eu? - Gritava descontrolada. Estou viva, num tá vendo? Só um pouco atordoada, mas viva, e lúcida. Gritava sem compreender o que se passa, mas tentando assimilar a situação.
Onde estaria a sua voz? As pessoas olhavam, batiam fotos, tocavam em suas mãos. Verificavam seu pulso. Do torpor, passava ao desespero. E não tinha mexido os pés? Claro. Até conseguiu virar-se. Havia sido assim a vida inteira. Raramente conseguia que alguém lhe desse atenção. Morava sozinha, ela e um computador bastante antigo. Era o seu único amigo. O companheiro inseparável de todas as noites. Ficava por horas à frente do monitor, tentando conversar com alguém. A frase que mais lia era: "como está vestida?" Ela ria solto. Imaginando a cara de quem fazia aquela tão batida pergunta. Era a mesma do conteúdo de: de onde tc? Como você é? Era engraçado. As pessoas tentavam criar fios que pudessem descrever quem estava por trás do monitor. Como se isso pudesse ser possível. Ela mentia....ah...como mentia. Mentia solto...por compulsão. Poderia ser tudo o que quisesse, mas não era nada.
Mortadela, um gato de rua que adotou, pulava no teclado, jogava-se na frente dela, enquanto, solitária, entediada com a noite, procurava alguém pra falar. Varava noites tentando estabelecer contatos com alguém do outro lado do mundo. Parecia que as pessoas haviam perdido a noção da realidade. O mundo virtual era o único mundo real em que habitava. Através daquele mundo, poderia estabelecer mundos paralelos. Um dia foi adolescente, no outro, desempregada. Não tinha parentes nem aderentes, e por vezes, foi uma esposa insatisfeita a procura de carinho. Ah...personagens que a fizeram por vezes bolar de rir na frente do monitor. Dispensava qualquer convite para sair na noite para estar colada ao computador. No outro dia, chegava no banco com olheiras e um cansaço visível e quase incontrolável. Mas era feliz assim. Navegava por chats e chats em busca de companhia. Encontrou príncipes, sapinhos adoráveis, amigos sem face.
Ouviu um barulho subindo as escadarias....barulho de pessoas subindo apressadas. Pessoas falavam, reclamavam, gritavam. Não entendia o que eles diziam. ─ Peguem-na. Mais flash iluminava o ambiente. Fotografias do seu medo de não acordar.
─ Podem sair. Levem os corpos para o IML. Procurem por parentes, testemunhas. Tentem levantar dados sobre a vítima.
Uma porta fechou. Porta de carro. Lembrou-se de ter aberto para o entregador de pizza. O homem que não a ensinou a rezar. Agora tudo fazia sentido. O sonho fazia sentido, as horas na frente do computador, não faziam sentido. A tentativa de gozo solitário compartilhado pelo monitor e palavras que se formavam alí na frente. O sonho sendo levado numa caixa de latão. A solidão se esvaindo nos flash dos jornalistas. Agora não tinha mais jeito. Abriu seu mundo, como uma página, e agora ele era invadido por um vírus real. A sua vida se deletava lentamente, enquanto a porta se fechava. Continuava sozinha, como a vida toda. No momento, apenas o entregador de pizza poderia acompanhá-la nesse caminho sem volta. Cansada, o corpo pesado entregava os pontos. Não fechou os olhos, desconfiava que não poderia abri-los novamente. Estava bem, apenas cansada, prestes a se desligar da vida. Abriram a porta do carro. Fechou os olhos. Despediu-se da vida, como quem aperta um interruptor de luz.
Quem sabe quando desligasse o monitor, acendesse a luz do sol invadindo a sala. Talvez fosse tarde, ou cedo demais para bater asas e voar, aos braços do Cristo, que passivamente estendia-lhe os braços pela janela da sala de lá do Corcovado.

Retrato falado
Prefiro-te sol
a tua incandescente imagem
na parede do óbvio
feito natureza morta
as minhas maçãs
te denunciam
manhã após manhã
e na minha face
delineias
tuas vontades.
Nas manhãs que se seguiam à tua ausência, passava horas na frente do espelho tentando apagar as tuas marcas no rosto. Cada ruga, cada sinal, era uma lembrança, uma palavra, um sorriso amarelo, a tua lembrança exposta como tatuagem sobre a cor do meu batom.
Os cremes, o pó, a maquiagem antiga, só realçavam na minha pele, o amor vivo na memória, impossível de ser apagado, repaginado, redirecionado.
Ousava outras cores de batom, outras silhuetas na sombra do quarto daquele hotelzinho de quinta à beira da estrada. Outros perfumes, diferentes do teu, outros tons de cinza, outros marrons, outros sinos racionais que se formavam na minha mente quando o via em mim, tatuado no espelho do quarto.
Viver não era um ato solitário, li isso tantas vezes no seu caderninho de contas. Tu colocavas alí todas as palavras novas, que ias aprendendo para depois dizer com cara de grande importância. A meiguice estampada nos fios brancos, caídos sobre a face, de tua sensualidade de menino adulto.
Há algumas horas que estou à frente desse espelho. E como antigamente, ainda tento apagar das maçãs do rosto, o rubor de imaginar-te meu, esparramado sobre a cama, como lençol de seda, onde deito e sobrevivo aos meus desertos diários, mergulhada em teus abraços macios, nos quais me eternizo e te ressuscito, em pequenas decisões de te amar em cada mudança de lua, preservando as marcas, lembranças pro resto da vida.
(Foto de A. Brito (Site 1000Imagens) http://thousandimages.com)
Das razões de todas as Marias
Saí de casa sem pretensão de voltar. Uma confusão. Um dia frio, como todos os outros dias frios que se arrastavam diante de mim. Arrumei a casa, coloquei uma roupa qualquer. Eu não sou alguém de grandes dotes físicos. Sou apenas mais uma Maria entre tantas e tantas outras Marias, com um monte de sonhos dentro da cabeça impulsionados pelos ventos das vontades insatisfeitas. Não sou perfeita.
Peguei o primeiro ônibus que passou na rua. Nem sei onde daria. Desci no Shopping onde as pessoas andavam de um lado para o outro como se a vida fosse uma passarela de vaidades. Quanta solidão. Quanta vontade afogueada no peito. Na praça da alimentação, enquanto pegava meu milk shake de morango e um McCheddar, vi-o sentado numa mesa comendo a mesma coisa que eu. Dentro de mim, um mundo de falta de intenções se misturavam á beleza que vi do seu olhar. Não era um homem de grandes atributos, como eu. Mas tinha um brilho no olhar que só a sensibilidade dos dias frios e noites insones poderiam perceber. Seus olhos eram labirintos sem fim tão familiares que me paralisava ao mesmo tempo que me sentia em mim, em casa.
Pedi para sentar, dissemos algumas frases simpáticas. Expliquei-lhe da minha incapacidade de comer sozinha e rimos juntos. Foi uma eternidade o momento em que olhávamos um ao outro. Ele Edu, eu, Maria, não a dona Maria. A Maria do mundo, sem passado, sem futuro. O sorriso aberto na frente dele. Ele me mirava a alma, eu lhe percebia o espírito.
Parece que o mundo nos observava atônito. Nós rimos, conversamos tantas coisas. Ele ria das minhas interpretações, mas parecia ler os meus intervalos de silêncio. Quando ficava séria, ele penetrava meu pensamento, e parecia advinhar que eu caminhava por desertos sinistros. Ninguém poderia ser alegre assim, impunemente. Só sei que olhar para ele, era como ter nascido para ele.
Foram momentos ímpares. Até quando ouvimos o guarda nos avisar que o shopping fecharia e teríamos que sair dali. Foi quando percebemos que sempre tivemos um ao outro, e que o mundo, era apenas um detalhe naquele cenário.
Edu levantou e me deu um abraço. Um abraço de quem se conhecia há tempos. Ficamos os dois parados, nus e aflitos ante a idéia de irmos embora.
Partimos para lados contrários. Cada um em seu silêncio de vida. Nunca mais eu seria Maria. Nunca mais ele seria ele. Levava dele suas mãos macias, seu sorriso solto, seu hálito, sua alma tatuada na minha pele. De mim, ele levou tudo. Porque agora eu não seria apenas mais uma Maria, como todas as outras, com a alma aprisionada em algum lugar, onde Edu estivesse. Continuo indo, bem mais perto que o pulsar do coração dele, entrando e saindo dos seus poros, como o ar que ele respira de mim, quase me asfixiando e me dando vida.
"o essencial é invisível aos olhos", ouvi ele ainda dizer quando dobrou a esquina... Eu agora sabia que sim.
Em resposta a um texto do Edu no blog: http://rascunhoblog.weblogger.terra.com.br
Dira Vieira

Foto: Silêncio (Autor: Antonio Melo no site 1000Imagens)
Insone
Não sou poeta
tenho mesmo é essa estranha mania
de cometer versos
- desatinos noturnos -
a esconder-me indócil
em teus pergaminhos
Nessa noites, sem pedir licença,
invades, festeiro,
o peito, entranhas e medos
roubando a cena da minha angústia
a soletrar-me sonhos,
versos (gemidos de vírgulas e parágrafos),
ventanias letradas de encantamentos tolos
e aportas tempestades
dedilhando em mim, corpo e poesia
em madrugadas
de beijos líricos sussurrados
antes que a chuva
amanheça-me.
Não me deixastes dormir essa noite. Presente em mim pelas frestas do telhado. Entravas tu e a lua descoberta que me provocava insônia. Revirei as cobertas, toquei a tua pele nua, era a lua fazendo sombra sobre os nossos lençóis carmins.
Não consegui dormir. O frio de quase nove graus, nos aproximava a todos, juntos, você, a lua e eu, gemíamos de sonhos e frio, entrelaçando nossas pernas e braços nos embates de solidão. Fez tanto frio, pesastes tanto sobre mim, ouvi o vento, ciumento, balançar a árvore, tentando abrir a janela, que de fora, apenas aparecia, suada e tímida, ante os nossos corpos tão juntinhos.
Você nem me deixou dormir, e aproveitei o silêncio da madrugada para libertar as palavras, as ditas, não ditas, as malditas que tantas vezes nos machucaram. Coloquei-as debaixo da única réstia de luz. Alinhadas, fazendo poesia em procissão, esperavam o amanhecer, para tirar o peso de mim, sobre o teu corpo, aninhando-nos, os três para outras noites de frio e gozo, você, a lua, e eu.
Dira Vieira
Eram poucas as coisas. Algumas noites em claros, livros guardados, cheiro de mofo das calcinhas novas nunca usadas. Uma melodia que guardara de seus vôos noturnos. Ah, não podia esquecer os beijos não dados, guardá-los-ia no bolso externo na malinha. Talvez servisse para alguma coisa. Guardou o cheiro do outro, as mãos abertas em busca dos seus cabelos. Os pés descalços sobre a penteadeira. Os gozos reprimidos. Os desejos frustados... na primeira esquina, soltaria-os nas nuvens. Pegou o olho dele que a olhava atônito. Guardou a imagem em sua cabeça de vento, na mala não mais cabia. Ouviu-o dizer eu te amo, enquanto soltava os cabelos em cachos sobre os ombros. Sentia-se bela, deliciosamente bela no seu corpo anis....
Era outra estação, o casulo nunca estivera tão apertado. Mesmo de vida breve, voltava a ser borboleta.
O outro não entendeu a frase, até que o seu perfume foi dando lugar ao vento que ia tomando conta da casa, quando ela bateu a porta e se foi na tempestade de verão ainda úmida de saudade.
Dira Vieira
Para Márcio Salgues (Amigo, poeta, escritor, vizinho)
Liberdade de Imprensa?
Os Estados Unidos estão indignados com o ato do governo brasileiro de cancelar o visto de um jornalista norte-americano por ter feito uma reportagem falando das supostas bebedices do presidente Lula.
E os jornalistas brasileiros correm em defender os direitos da Imprensa, aliás, existe mesmo? Onde? Aqui? No mundo?
O Brasil, perdeu mais uma chance de ficar calado, e convidar o nobre americano para tomar uma no Planalto. Ora, enquanto o mundo inteiro fica estarrecido com as cenas de torturas feitas por soldados americanos aos presos iraquianos, os americanos tentam falar em liberdade de imprensa. Agora? Justamente quando se fala nas aberrações praticadas por eles contra a vida humana, contra a liberdade dos países.
As vítimas sempre são eles. Entram em todos os países, detonam todas as liberdades, matam, e ficam indignados quando alguém reage a essas violências.
Quantos morrem todos os dias? Quantos têm a liberdade cerceada todos os dias?
Quer saber? Pura hipocrisia. O alcoolismo é uma doença mundial. Não estou fazendo apologia a ele, mas muito mais se mata de fome, violência e abuso de poder.
Será que o mundo têm noção da quebra de liberdade depois do advento de 11 de setembro, e de tantas pessoas que ainda são perseguidas, e presas sem a menor prova, simplesmente por não ser cidadão americano, e assim, um suspeito em potencial? Alguém tem noção disso?
Não estou defendendo o governo Lula. Estou defendendo a liberdade de ir e vir. Contra o governo Lula, contra Bush, contra os americanos que acham que são donos do mundo e podem dizer quem é ou não inocente e quem pode ou não ser livre. Contra todos os governos autoritários e desumanos.
Querem falar de liberdade de Imprensa? Vão ao Iraque, vão às prisões de guerras, entrevistem as vítimas, pesquisem, investiguem e tentem publicar algo que fira o "sentimento americano". Mostrem o que a imprensa oficial não mostra e nem a imprensa internacional. Duvido que as empresas deixem que as suas matérias sejam publicadas. Isso eu chamo de cerceamento da liberdade de imprensa. Ora, sabemos pois que a liberdade de imprensa é uma fábula. E faz tempo que deixei de acreditar em Papai Noel. Aliás, nem sei mais no Brasil, o que é exatamente nosso.
Quando esse assunto deixar de ser o tema do momento, é bom pensar na corrupção brasileira, no tráfico, e na falta de gestão pública que adoece o povo brasileiro. E nas muitas violações de liberdade, que somos, terceiro mundo, obrigados a vivenciar todos os dias, nos porões de nosso silencio. Desculpem o desabafo. Nem é a linha desse blog. Mas as cenas que vi (que foram possíveis chegar a nós) sobre a tortura de iraquianos me deixaram chocadas, muito mais que as gafes diplomáticas do governo brasileiro.
Bom, melhor eu parar por aqui, antes que tirem meu blog do ar. Ah, esqueci que temos liberdade de imprensa. Posso falar à vontade. Não é mesmo? Sou livre para pensar, veicular e ainda, discordar das pessoas. Também vou mandar fazer uma lareira na minha casa, quem sabe não acabe acreditando de novo, que Papai Noel existe?
Pobre Lula, escolheu errado sua assessoria. Parece que eles não aprenderam ainda sobre o que é diplomacia: fingir que não se vê os absurdos que outros países fazem contra a nossa soberania.
Dira Vieira
Estrada
Tatuas-me
corpo nu estendido
autoestrada de mim
por onde passeias
sem dó
quilômetro a quilômetro
dentes gravados às margens,
cartão postal,
estrada que não tem fim
aonde me perco
e me acho
e te atropelo todos os dias
Esfinge que não decifro.
Dira Vieira
Deixou a janela aberta por onde entrei de surpresa. Não deu outra, pousei sobre o seu corpo, heliporto disponível, como estrada vazia, esperando o meu corpo aflito. Ninguém como testemunha... Enquanto descansava, invadi tuas curvas, mergulhei em tuas entranhas, disfarcei sentimentos, abri a alma, adormeci em silêncio do cansaço de outros pousos. Em tua estrada, deixei escapar deslizamentos de desejos, ultrapassagens perigosas, pequenas contravenções na noite, barbeiragens que teu amor perdoou, atropelei barreiras, nem respeitei tuas placas, entreguei-me indócil aos teus caprichos.
Era tarde, outras estradas a percorrer. Outros sonhos a subverter, até por fim, fingir não ver, às margens, algumas paisagens mortas.
Dizem que só os pássaros engaiolados é que cantam bonito... Eu não queria cantar, queria voar.
Estava chovendo muito naquela manhã. E eu, amanheci tonto de nada. Dormi tarde conversando com outras andorinhas na copa da Gameleira. Fui dormir quando o sol já despontava no fim da rua. Nossa conversa quase incomodava o resto do bando.
Quando acordei, já tinham todos ido embora, voar por aí. Estávamos tão tristes naquele dia, todos nós, que é bem provável que nem deram pela minha falta.
Estava sozinho. E de tonto que sou, fiquei mais ainda. Bisbilhotei a vizinhança, vigiei as ruas, parei em cima de muros, comi restos de comida nos quintais, cantei bonito pra pintasilga que estava presa na gaiola amarela do general. Até que cansei, quando a chuva novamente voltou a cair.
Cansado, vi a porta aberta e não resisti. Entrei em busca de comida. Lugar escuro e frio. Nenhum quadro na parede. Nenhuma planta dentro de casa, portas semi-fechadas. Em cima da mesa, a bailarina dançava sozinha. Acho que alguém a esqueceu com a corda toda. Sabia que era uma porque lembrava dos tempos de gaiola, em que convivera com uma.
Ela rodopiava em cima da mesa. E cada rodopio eu me assustava e pulava, pulava procurando uma saída. Achei que a bailarina correria atrás de mim. Mas ela estava tão presa quanto eu.
Parei em cima da mesa, contemplei a sua beleza. O som, parecia mais uma melodia celestial. Linda, a música. O seu encantamento me impedia de sair dali.
Minha admiração era tanta, que num esforço sobre-pássaro, passei as asas pela sua cintura, enquanto sentia o seu cheiro de menina doce e a apertei contra o meu peito. Ela pesava. Mas mesmo assim, saí puxando-a para uma abertura, a rua, sim, a rua, antes que alguém nos visse.
Vi a janela aberta de um quartinho escuro. Uma menina escrevia num caderno pequeno, deitada numa cama pequena. Ela nos viu, acho que seu susto foi bem maior que o meu, mas ficou quieta a observar-nos em fuga.
Voei até a janela, enquanto percebia os olhos da menina nos meus. Eu levava dela a bailarina, deixava em seu lugar a minha gratidão. Troca perfeita em dias de chuvas e de portas fechadas.
Num impulso, voei para outro telhado, amarrado à cintura da boneca. Mas pobre menina, chorava da janela ao ver que partíamos, se eu pudesse, a traria em minhas asas como a boneca. E ela sabia disso. Nossos olhares eram cúmplices, e eu sentia a dor da menina.
Foram apenas alguns minutos de vôo, e a bailarina tão bela, corpo de princesa, nariz cor de rosa, cheiro doce de canela, soltou-se da minha cintura e caiu.
Gritava a menina, na janela, gritava a boneca ao cair. E eu, atônito, perdia a voz e algumas penas que ficaram voando ao meu lado.
Nada podemos fazer, as notas da caixinha de música encantaram-se ao céu, e a manhã sussurrava sua dor. Pedaços da boneca espalharam-se pela redondeza. Pedaços do meu coração fragmentava-se num sentimento indescritível. Minha alma de pássaro chorava...
Hoje já nem durmo. Passo as noites no muro, na janela da menina, canto para ela dormir, contemplo o seu sono, canto pra acordá-la, vendo-a passar os dias ao léu. As notas musicais da caixinha de música ainda encantam a nós dois, órfãos do sonho da companhia da boneca.
Pobre menina, mesmo sabendo o destino trágico da bailarina, queria ser boneca com ela.
Dira Vieira
(Foto: http://www.geocities.com/Hollywood/Lot/8182/balfot.html)
Reencontro
Maria José Limeira*

Amo-te tanto, meu amor, tanto,
na primavera sonhos e cristais;
no verão sorvete na garganta;
em noites de inverno contando horas
e no outono somando folhas
-folha por folha-
na espera terminal da última aurora.
Amo-te, meu amor, amo-te mais
do que pode a dor.
Digo que te amo,
e amo mesmo,
ainda que me contestes
e não acredites.
Mesmo que as palavras sejam poucas
e escassos os meios
para dizer-te muito mais,
amo-te.
Não seja o meu amor solidão
quando estamos ausência.
Não sejas o que nos separa,
mas verdade do meu coração.
Seja eu carne e fígado,
visceralmente tomada
de explosões na cama.
Cantemos cotidianos,
trivialidades,
distrações.
Sejamos mais
que feijão com arroz
e mesas arrumadas,
quando o bom mesmo
é desalinhar lençóis,
colher estrelas na escuridão,
assanhar caixas de maribondos,
anoitecer madrugada,
recriar vida onde não há nada.
Só grandes coisas contam
quando a gente ama.
Amar assim
é amar demais.
É vivendo, morrer
e morrendo, reviver.
Quem ama assim
(tanto, meu amor, tanto)
está sempre retornando,
rompe cordões de isolamento,
desenterra ossos e cadáveres,
ressuscita cinzas,
canta quando está triste,
dança ao redor de fogueiras,
desnorteia horizontes,
transpõe fronteiras,
gira em torno do sol,
navega nuvens,
pastoreia,
voluteia à luz das manhãs,
beija orvalho,
acarinha terra calcinada,
bate em porta fechada e grita no meio da chuva:
-Voltei!-
*Escritora, jornalista e poeta de João Pessoa.
CARTAS AO PRIMO
CAPÍTULO I
Primo Basílio:
Realmente a luz do sol nos faz muita falta. Não agüento mais andar tateando os móveis dentro de casa. É economia no governo, primo. Você deve estar vendo pela televisão. Daí, que entrever o mundo sob o olhar metódico de alguns minutos de prazer é por demais difícil. Reclamamos o tempo inteiro que não recebemos aquilo que nunca nos sobrou tempo para dar. Nunca economizamos fantasia. E nosso carnaval sempre foi de uma ilusão só. Sem esperanças. Corremos os ponteiros do relógio, não sobra minuto algum para fazer o que se planejou.
Não sei se as pessoas são carentes assim mesmo, primo, ou se na verdade é muita prepotência misturada a uma falta de sentimentos muito grande. Lembro dos nossos bons momentos em cima da pitombeira, no quintal da sua casa. Ah, tempos de imaginação fértil... esperança. Pensar em nada, apenas brincar enquanto a sua mãe na cozinha refogava aquela galinha com a qual brincávamos no dia anterior. Uma dó... Mas agora, há um sentimento no ar. Não sei bem o que é ou do que se trata. O que se quer nem sempre é o que se tem, e as pessoas estão correndo atrás de quê? Há um telefone, uma linha e um espaço.
Não sei se isso lhe interessa. Hoje eu falava que o joio está tão intrinsecamente ligado ao trigo que já virou segunda pele. Tenho muito medo de não entender o que se passa. Mesmo quando estamos rodeados de pessoas, nosso pensamento vaga sozinho. Cada vez mais me sinto sozinha. Parece até que ninguém fala a minha língua. Só você, meu amigo, compreenderia a minha alma e nunca a aprisionaria. Sei que você jamais faria tal absurdo.
O telefone toca e não é você do outro lado da linha, parece voz do além mar, além túmulo, além qualquer coisa, mas é além de você. Ficar na dependência de ver você chegar, contando os minutos e os segundos, parece meio esquizofrênico. As coisas se confundem no plano extraordinário do nosso pensamento. Cada um de nós possui um universo de defeitos. Defeitos são as características principais que nos identificam nessa multidão.
Você parece que não entende nada. E a sua omissão me faz muito bem. Enquanto você se omite eu preservo o meu pescoço para a última guilhotina. A mesma que você não gostaria de sentir na pele, pois resistiu até a última fisgada. Aliás, quem comeu a isca? E quem a jogou? E quem é a isca e o pescador? Só lembro de beijos molhados e famintos de ansiedade. Ansiedade de que o tempo parasse naquele exato momento. O momento em que eu mordia a sua língua e inocentemente abria os olhos para ver se você também sonhava. E os seus olhos não abriam em nenhum momento. Fechadinhos, nem o seu pensamento eu conseguia ler... O relógio não pára e a cada badalada, mais sinto pesar esse sentimento de solidão e culpa. Os tais constrangimentos dos quais Simmel tanta falava.
O relógio, uma tela e um teclado, onde esse pensamento pode criar asas e voar. O vôo é o anseio máximo do ser humano e foi nosso companheiro por tanto tempo. Não sei se você vai compreender quando o trem aportar na estação vazio. Fico preocupada apenas quando os seus olhos sofridos e traumatizados por essa lente de contato cansarem de esperar. Esperar aquilo que nunca saiu de perto de você, mas que sua miopia hereditária o impediu de vislumbrar.
Fique aí, vendo as ondas irem e virem. Rabisque algo na areia e desenhe um barco. Enquanto a onda não o apagar, tenha a certeza que vou raptar você, para experimentar novamente o doce beijo de sua boca miúda, quase imperceptível. Eu vou buscá-lo. Espere por mim. Vou sim. Desenha esse barco logo, e antes que a maré suba, virei de algum lugar distante. Não me ache triste. Estou não. Espere-me no barco. Deixe apenas que termine de escrever essas cartas e as coloque dentro das garrafas, lançando-as ao mar. Se eu não o alcançar, ao menos deixo escrito as minhas marcas de batom lilás na tua camisa branca.
Deixa eu ir, levo os seus poemas tatuados na minha memória, no meu corpo, no gosto da sua boca na minha. Seus versos abstratos são incompreensíveis. Mas não se preocupe, eu sei que são poesias puras. Pude sentir em minha pele. Você tatuou no meu corpo sua poesia mais bela. Acredita agora? Fecha os olhos, contemple-me no impossível. Faz algum tempo...
Também, o primo há de convir que poesia não foi feita para ser compreendida, mas para ser sentida, vivida. Esfregada na pele, como sabonete esfoliante. Não precisa falar, só precisa fazer-se existir, bela e incompreendida.
A minha boca ainda guarda a sua poesia molhada...
Dira Vieira
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