Ainda sobre a virtualidade...

Faça-se Luz! E a luz foi feita

Tenho participado de comunidades virtuais há mais ou menos seis anos, entre estados de solidão noturna, e escapadelas no horário de trabalho. A internet tem realmente fascinado-me com a sua diversificação de pessoas que a gente tem a sorte (em algumas vezes, pura falta dela...) de encontrar entre uma onda e outra, enquanto surfamos de site em site. Algumas salas, logo de cara me encantaram. Salas religiosas. Onde mais encontrei ateus. Periodicamente, podia até decifrar os seus perfis. O que faz um ateu ser assíduo numa sala cristã?

Pessoas amarguradas. Caladas no "cantinho" da sala, apenas se fazendo notar. Nicks interessantes que me provocam a atenção. "Coração Gelado", esse nome numa sala evangélica, as pessoas corriam para falarem de amor para ele. Nada o fazia mudar o nick. Coração Gelado por fora, e um rapaz de 25 anos, aproximadamente, profundo conhecedor da Bíblia, que apenas se dizia desencantado de Deus. Quando se conseguia firmar laços com ele, os papos pareciam fluir de uma forma mágica. O tal que pensávamos ter um coração gelado, era uma verdadeira pérola entre vírgulas, frases perfeitas e pontos que se despediam sorrateiramente.

Em algumas salas, quase sempre as mesmas pessoas, formavam uns círculos fechados de pessoas com laços já bastante antigos. É preciso ser ousado e criativo para romper esses grupinhos fechados. Cada um vestindo o personagem que mais lhe caia bem ao seu mundo de ilusões. Conheci pastores, padres, ateus, professores, psicólogos, artistas, loucos, poetas, crianças mal-criadas, adultos infelizes, com um vazio dentro do peito que nos faz abrir a porta do quarto na noite e convidar o vizinho para cantar conosco uma valsa vienense. È como chamar o outro para desandar em nosso coração com seus acentos, letras, virgulas desnecessárias, abreviaturas e perguntar se ele quer açúcar ou adoçante no seu chá.

Na virtualidade, não se conta a aparência física. Tanto faz um modelo de revista ou uma pessoa comum. É o texto que importa. O mundo se encanta e desencanta na virtualidade através da palavra. Haja letra, haja luz!

Há uma verdadeira dança de vaidades. É um jogo, quem tiver mais cultura, quem escrever melhor, quem tiver mais conteúdo, levará os seus pares para o "tatame". É como uma dança de machos para as fêmeas. Ou de machos demarcando suas áreas de domínio. Um ritual de dominação. Nada diferente do mundo aqui fora, uma dança constante pelo acasalamento.

Alguns, escancaradamente, fornecem dados pessoais no primeiro papo, ou então, iniciam o papo com o "kit bate papo" (de onde tecla, o que faz? Como é o seu nome?), esses são tranqüilamente descartados. Porque o melhor da virtualidade é não ter identidade civil e poder sonhar, invadindo muros sem escopetas com balas de chumbo a transformar-nos em pesadelos. O que temos é um nick, observem o seu conteúdo, ele diz tudo.

Os laços se firmam naturalmente quando há identificação com o outro. A sinceridade é um prato apetitoso que se contempla na vitrine, e ao provarmos o sabor, descobrimos que a sua aparência era apenas, eu diria, enganadora. Em alguns relacionamentos.

Os anseios se misturam aos anseios do resto dos freqüentadores da sala. Quase sempre, todos procuram as mesmas coisas. Companhia, amizade, troca de informações, talvez amor, talvez os príncipes e as princesas que não circulam nas ruas e nem existem mais. E às vezes, mera curiosidade. A virtualidade força as pessoas a externarem o seu interior. Isso quando elas conseguem deixar de ser apenas personagens.

Várias reportagens foram feitas nessa área. Todos querem saber como funcionam os relacionamentos via Internet. Dizem até que se arranja namorado. Se é que isso pode ser verdade. Será possível alguém se apaixonar perdidamente por alguém que nunca viu? Onde fica a questão da tal "química", que a sociedade moderna tanto apregoa? Existe verdade nas relações via Internet? E o que dizer da questão da identidade?

As perguntas fazem festa dentro da nossa cabeça real. São tantas as dúvidas, que às vezes, eu mesma me sinto um pouco virtual. A libido aprisionada numa gaiola, não entendia quando me assediavam os nicks masculinos. – Eles só pensavam nisso?

Salas cheias. Nicks que se escondem nos reservados. O que estaria a rolar nos reservados? Tudo um mistério só.

As pessoas se misturam entre papeis e sonhos. Papeis se misturam entre pessoas ingênuas e diabinhas em forma de letras. Diversos personagens trocando papeis.

È comum se ver pessoas chamando outras de amigas....e declarando publicamente um entrosamento de grande intimidade. Isso dificilmente dura mais que alguns meses, claro, se ambas mantiverem um contato diário ou semanal. Senão, o amor vai esfriando, e outros relacionamento vão se firmando no meio deles. As pessoas passam a fazer parte umas da vida das outras. E nessa troca de sentimentos virtuais, os laços são cada vez mais inseguros. Porque na maioria dos relacionamentos virtuais, aqueles que eram apenas apelidos, não conseguem assumir um lado real e passar a sair do plano imaginário. Muitas pessoas têm medo de perder a "magia" da virtualidade. O que se conhece através do monitor, geralmente não é fiel no mundo real. No mundo virtual, se você está com sono, ou simplesmente não quer falar com alguém, pode criar um nick desconhecimento que o habitual, ou simplesmente desligar a conexão da internet. No presencial, isso não é possível, porque nem sempre é permitido ser sincero. A sinceridade virtual ao menos é mais fácil de enfrentar-se. Como também pode ser uma grande farsa. Ora, mas que diferença do mundo presencial isso tem?

Esse mundo tecnológico agride o mundo real de forma grotesca. Porque aquele que era apenas um nick pode vir a ser uma pessoa que tem voz, vida pessoal e vontades. O telefone que toca em horário inconveniente. É outra vida do outro lado do mundo querendo colo, querendo parceria de vida. Porque, no fundo, as pessoas reais não conseguem mais bater na porta do vizinho e pedir uma xícara de café, sob o pretexto de fazer amizades.

E aí, os nicks deixam de ser apenas letras, pontos e vírgulas e pulam dentro de sua casa com sentimentos, exigindo lugar de honra da vida uns dos outros.

Esse é o mundo virtual e seu toque na mão virtual e um afago na madrugada no nosso monitor. Essa é a sociedade que se agarra a fios sensíveis e frágeis de relacionamento a fim de sobreviver à solidão e a exclusão das regras e dos estereótipos sociais. Esse é o mundo dos que precisam de toque na alma, da transcendência do imaginário. Coisa que a tecnologia inventou, como riscar as paredes das cavernas. Bendita tecnologia.

Nós desenhamos o outro, e somos desenhados, não com o intuito de aprisionar a imagem e nem a alma, mas com o intuito de abrir a gaiola e de empurrar o pássaro que há em nós para fora.

Dira Vieira (*Dedico esse texto aos grandes nicks que fazem parte de minha vida, aos anônimos que passam e se vão nas madrugadas, à Simone Maldonado, minha mestra querida, ao Anônimo Veneziano, ao Ricardo (do blog gayetransgressor), à Eva Arman, Naja, Ariane, ao Bóris, ao Marcelo, à Viviane, Mariza Lourenço, Márcia Maia, Benno, e a tantos outros que vêm aqui e assim, vão alargando os limites de meu coração. Ao Raul, ao Dragão, à Geórgia, e tantos, tantos outros. Ao Ops que me mostrou o outro lado da virtualidade. A vocês que não são nada virtuais e ao Pastor Ivan, primeiro nick que conheci na Internet*).

Sonhando...

 Serenata Virtual

Fechei os olhos para compreender melhor o que se passava dentro de mim. Na verdade, não sabia onde estava indo. Fechava os olhos e sonhava como criança. Era como se uma força me impulsionasse para frente, para o desconhecido. Um vazio. Uma melancolia. Um desejo infantil. O coração apertadinho de sonhos. Em cada veia, um sonho se esvaia com o sangue. Sonho e sangue numa simetria assustadora. Atreveria-me um verso melancólico para te impressionar. E em cada verso, o desejo de despertar e te encontrar frente a frente. Monitor e alma. Letras que falam e calam sentimentos dúbios. Vírgulas, pontos, mentiras inocentes abrindo portas encantadas e imaginárias. Personagens mágicos. Nada é tão mágico quanto a tua presença em cada palavra. Carícias no teclado. E o sono varando a madrugada de imagens e de cores. Tudo se esvai, quando falta energia e o monitor se apaga, levando consigo os sonhos que não foram salvos e se perderam, numa memória fraca e de pouca intensidade. Uns versos. Uma serenata virtual traspassando o medo e transformando vontade em poesia. Eis-me em versos para te conter represado em mim, melodia de uma sinfonia sem começo, meio e fim. Água que flui e desemboca em mim.

Fecho os olhos observando portas que se fecham quando bocas se querem fundir; ápice e desespero querendo explodir. Fujo de mim apressada, escondendo-me de minha própria sombra em olhos que vêem tristes, em sonhos que me querem longe. Colos de mãe, lágrimas invadindo a inocência, criança levada subindo no descontrole da gente. O sentimento materno crescendo e tomando o peito. Vísceras e veias dilatam a alma, esvaziam o peito e o sorriso soca a cara. Desejo que entreabre dentes e braços num beijo que nunca acontece, e anoitece, implodindo mágoas que escorrem no canto da boca enquanto desligo a linha e te deleto na noite. Vírus mortal que me apaga a memória, a fala e a calma e se esvanece enquanto eu ligo a TV. Virtualidade que não me aplaca a fome, mas ao contrário, faz-nos sedutores a caminhar carneirinhos dóceis ao precipício.

Sem ti nem sei mais acontecer, performance de um ato só. Meu bem, nem posso te acordar cedinho com o café na cama, porque as linhas que se ocupam do medo, interferem na minha imposição básica de te querer nesses bites e bytes do meu peito.

Soneto de uma nota só, metafísica incompreensível. Só eu sei, das lágrimas derramadas que inundaram a alma e o teclado do computador. Só eu sei. Ninguém mais viu. Nem aplaudiu. Saíram de cena e da sala, porque já era tarde demais. O amor vestiu a sua própria alma e se afogou no copo dágua. Preciso te gravar em meu disco rígido para quem sabe assim, te deletar da minha alma e da minha cama vazia.

Dira Vieira

Chove lá fora....

Há um bom tempo olho a chuva cair lá fora pela janela do apartamento desse hospital. È cedinho, as pessoas passam apressadas para o trabalho, para a escola, para as suas atividades rotineiras.

As pessoas correm de um lado para o outro. Estão aflitas, alguns passam apressados, perderam a hora na noite anterior, dormiram demais. Observo a preocupação de algumas com o relógio. A chuva cai, alheia a necessidade dos passantes.

Chove lá fora. Chove aqui dentro de mim.

Parece que dentro do hospital, a espera é outra. Uma espera de cura. Espera do acontecimento, da alta hospitalar, da vida a ser retomada lá fora. A vontade de tomar banho de chuva, de caminhas descalço, de brincar como crianças em fuga.

Um pássaro, de asinhas molhadas, pousa em minha janela. Quase o toco. E ainda dá tempo para mirar o seu olhar. Olho lá fora, como se fosse um mundo diferente do mundo que vivo aqui.

Os passos aqui dentro são meticulosos, frios, quase imperceptíveis. O branco é uma cor padrão e a gente as vezes acha que lá fora tudo é branco também, as árvores, os carros, as pessoas.

Os teus olhos, menino que acabou de acordar mais finge dormir, se revira fechados, com medo de que eu perceba que você já acordou e não aceita a sua imagem sobre a cama.

Chove lá fora, amor. Chove aqui dentro de mim.

Esperamos a manhã terminar de acordar. E o sol, entrecortando a chuva, invade o quarto, onde absorto, esperamos a vida nos arrastar para a rua, como tantas vezes fez. Nem consigo me virar. A imagem da rua viva, com os seus carros e mulheres correndo como loucos, deixa-me hipnotizada, perplexa, atônita. Se eu me virar, eu posso acordar. E acordando, tenho medo de perder você e ganhar as ruas, pássaro tonto que desaprendeu a voar.

De asas molhadas não vôo. Espero a chuva passar. Continuo na janela, protegida pela vidraça, sentindo o frio do ar condicionado, sentindo o seu olhar nas minhas costas. Se eu me virar, quem sabe acordo, e perco você.

Dira Vieira 

 Canto último

Dizem que só os pássaros engaiolados é que cantam bonito... Eu não queria cantar, queria voar.

Estava chovendo muito naquela manhã. E eu, amanheci tonto de nada. Dormi tarde conversando com outras andorinhas na copa da Gameleira. Fui dormir quando o sol já despontava no fim da rua. Nossa conversa quase incomodava o resto do bando.

Quando acordei, já tinham todos ido embora, voar por aí. Estávamos tão triste naquele dia, todos nós, que é bem provável que nem deram pela minha falta.

Estava sozinho. E de tonto que sou, fiquei mais ainda. Bisbilhotei a vizinhança, vigiei as ruas, parei em cima de muros, comi restos de comida nos quintais, cantei bonito pra pintasilga que estava presa na gaiola amarela do general. Até que cansei, quando a chuva novamente voltou a cair.

Cansado, vi a porta aberta e não resisti. Entrei em busca de comida. Lugar escuro e frio. Nenhum quadro na parede. Nenhuma planta dentro de casa, portas semi-fechadas. Em cima da mesa, a bailarina dançava sozinha. Acho que alguém a esqueceu com a corda toda. Sabia que era uma porque lembrava dos tempos de gaiola, em que convivera com uma.

Ela rodopiava em cima da mesa. E cada rodopio eu me assustava e pulava, pulava procurando uma saída. Achei que a bailarina correria atrás de mim. Mas ela estava tão presa quanto eu.

Parei em cima da mesa, contemplei a sua beleza. O som, parecia mais uma melodia celestial. Linda, a música. O seu encantamento me impedia de sair dali.

Minha admiração era tanta, que num esforço sobre-pássaro, passei as asas pela sua cintura, enquanto sentia o seu cheiro de menina doce e a apertei contra o meu peito. Ela pesava. Mas mesmo assim, saí puxando-a para uma abertura, a rua, sim, a rua, antes que alguém nos visse.

Vi a janela aberta de um quartinho escuro. Uma menina escrevia num caderno pequeno, deitada numa cama pequena. Ela nos viu, acho que seu susto foi bem maior que o meu, mas ficou quieta a observar-nos em fuga.

Voei até a janela, enquanto percebia os olhos da menina nos meus. Eu levava dela a bailarina, deixava em seu lugar a minha gratidão. Troca perfeita em dias de chuvas e de portas fechadas.

Num impulso, voei para outro telhado, amarrado à cintura da boneca. Mas pobre menina, chorava da janela ao ver que partíamos, se eu pudesse, a traria em minhas asas como a boneca. E ela sabia disso. Nossos olhares eram cúmplices, e eu sentia a dor da menina.

Foram apenas alguns minutos de vôo, e a bailarina tão bela, corpo de princesa, nariz cor de rosa, cheiro doce de canela, soltou-se da minha cintura e caiu.

Gritava a menina, na janela, gritava a boneca ao cair. E eu, atônito, perdia a voz e algumas penas que ficaram voando ao meu lado.

Nada podemos fazer, as notas da caixinha de música encantaram-se ao céu, e a manhã sussurrava sua dor. Pedaços da boneca espalharam-se pela redondeza. Pedaços do meu coração fragmentava-se num sentimento indescritível. Minha alma de pássaro chorava... 

Hoje já nem durmo. Passo as noites no muro, na janela da menina, canto para ela dormir, contemplo o seu sono, canto pra acordá-la, vendo-a passar os dias ao léu. As notas musicais da caixinha de música ainda encantam a nós dois, órfãos do sonho da companhia da boneca.

Pobre menina, mesmo sabendo o destino trágico da bailarina, queria ser boneca com ela.

Dira Vieira

(Foto: http://www.geocities.com/Hollywood/Lot/8182/balfot.html)

Borboletas Noturnas

   

Acordei cedinho naquele dia. Corri para o sótão a fim de fazer a limpeza mensal. Há séculos que não o limpava. Casas antigas possuem essas magias de quartos fechados e desejos guardados.

Ao entrar, percebi o cheiro de passado entrando violentamente pelas narinas. Na parede coberta pela poeira, fotos escondidas e amareladas. Uma mesinha com um castiçal prateado. Um baú daqueles de filme antigo. Roupas empacotadas em cima de uma cadeira de palhinha. Um buquê de rosas vermelhas desidratadas em cima da mesinha de vime, encostada na parede. Utensílios para chá em cima do móvel. Livros que líamos juntos espalhados pelo chão.

Abri o baú, onde guardava as nossas cartas. Cartas de amor aos montes. Umas que nem chegaram a ser enviadas, outras lidas e relidas e amareladas pelo abandono. Onde você está, será que se lembra delas?

Lembranças ocultas que guardei para sempre dentro de mim, sem que precisasse relê-las todos os dias.

Revi os nossos passos na calçada em noites de lua cheia. Escondidos, furtávamos a vida que nos subtraiam todos os dias. Nunca fomos tão felizes e tão livres. Pulávamos os muros vizinhos, os muros que se impuseram por tantas vezes entre nós. Mas a jovialidade do amor que suportava tudo, pulava os muros, escalava o sótão e corria rua à baixo, mãos dadas com a felicidade.

Sei que à noite, às luas cheias, nossos fantasmas tomam chá sentados na janelinha que dá para o fim da rua. Sei disso porque um dia, ao chegar tarde da faculdade, puxando as crianças (que não são as nossas) trazidas da creche, vi uma vela acesa na janelinha, sua silhueta a segurar a xícara de chá, exatamente como você fazia, quando tomávamos nosso chá de erva-doce depois que nos amávamos a noite inteira. Depois, sei que os fantasmas dançam a nossa música, pois ouço os passos no telhado e as minhas risadas loucas, ao ouvir você dizer que sou sua pequenina.

Melhor sair dali rapidinho para não profanar o templo do nosso amor. Toques suados, conversas olhando o olho do outro a contar os sonhos, imagens poéticas dos sentimentos puros. Adolescentes em fase adulta. Desejos que não morreram conosco, ficaram no sótão, a perpetuar nossa cumplicidade de amantes.

Melhor fechar a porta, deixando os nossos fantasmas sozinhos, como sempre quisemos. Eles não precisam reler nossas cartas, nem reviver nossos sonhos. Todas as noites, sei que se amam muito, porque observo da calçada as borboletas coloridas que saem do sótão em plena noite. Não sabia que borboletas saem à noite. Essas saem.

E quando o dia amanhece, vejo que caíram pétalas na calçada, milhares delas. Pétalas vermelhas, da cor das primeiras rosas que um dia você me deu. Nunca disse a ninguém, mas o cheiro de erva-doce é intenso nas luas cheias, misturado ao cheiro do seu corpo que invade todo o quarteirão. Nunca nossos fantasmas foram tão felizes. Nem nós.

Dira Vieira

"Apesar das pombas, Najaf teme invasão dos EUA"

 

 Foto da Página do UOL com referência à matéria.

Vi essa notícia na página do UOL e meu coração estremeceu. Apesar das pombas... do colorido da vida, dos sorrisos estampados no coração de quem ama, nos bebês de colo, na mãe que amamenta... ainda assim tememos o inesperado.

Ao amor, com carinho

 

         Era uma manhã como todas as outras. Toquei sua pele macia e contemplei o seu sorriso meigo em olhos que me viam pelo avesso. Sorriso de quem ama, de quem se encanta pelo sol que se põe em melodia poética. O homem me olhou, tocou o meu rosto, lambeu minha boca e adormeceu exausto.

         Fiquei por horas a contemplá-lo dormindo. Sono dos deuses, sono de quem voa, desprendido pelas nuvens, pomba em planos de vôos reais. Passei pelo seu corpo inerte sobre a cama macia. Olhos, boca, nariz. O meu amor dormia, a segurar a minha mão com medo que eu me fosse e o deixasse dormindo eternamente.

         Toquei sua pele e estremeci, asas abertas à imaginação de criança que brinca de um faz de conta inútil. "Se eu te amo e tu me amas", por que temos que ser como o sol e a lua?

         O amor, não é suficiente para aplacar-nos a falta, o buraco no peito, a imensa saudade. O riso descontinuado, o vazio, o resto do dia em que acordas e voas para longe. Antes, eu te amarrasse à cama e te fizesse, estrado dos meus pés cansados de tantas buscas insensatas. Cansados de tantas luas.

         A manhã se vai, e a minha coragem de te deixar ficar vai pro espaço e eu me fecho dentro de minha concha, bolha dos meus desesperos e despeço-me de ti, faltando pedaços da alma, carinhosamente acalentada por ti, moço do outro planeta.

         Apesar das pombas, tememos o apocalipse, a fúria dos homens sem alma, a solidão noturna dos vôos ao redor da lua...

         É tarde, te deixo ir, e retorno à cena para o crime final. Não tem jeito, contigo, todos os crimes compensam.

Divagando por blogs interessantes

  Das imensidões da minha alma só eu sei...

Nem sei quantos gritos eu ouvi quando dobrei o quarteirão. O outro estava na calçada fazendo uma pilha dos livros que ia encontrando dentro de casa. Clarices, Quintanas, Baudelaires, Rimbaud, todos voando pela janela num ato de fúria louco. Eram ciúmes de quem me alegrava a alma todos dias.

Nem sei o que senti. Aproximei-me em estado de profundo descrédito, e dor a fim de entender a cena.

Thomas Mann era arrancado pelos cabelos tamanha a fúria desmedida do outro. As orelhas de Cervantes foram atiradas do outro lado da rua e Dulcinéia, esperava na esquina que a fúria se acalmasse para pegar o lenço branco que deixou cair na calçada, presente de Dom Quixote, quando saiu às pressas. Que desespero. O fogo consumia tudo. Alguns livros, indefesos, atiravam-se a si mesmos em total abandono. Nunca vi o choro nos olhos de Charles Bukowski nem mesmo quando ele tomava os seus porres homéricos e vomitava a última letra. Coitado. Nem uma de suas mais belas mulheres haviam provocado tamanha dor.

Na calçada, consolei Exupéry, o mais gasto de minha estante, que tentava apanhar os restos de seu avião com a ajuda de Fernando Pessoa. Pobre Fernando, nem sabia onde encontrar os seus outros codinomes de tão preocupado que estava com o Pequeno Príncipe, que chorava amargamente ao lado de sua raposa.

Quanta crueldade e ciúme atroz. Era quase noite, e a fogueira ardia no meio da rua iluminando a lua que triste, assistia a tudo calada.

Das imensidões, só eu sabia. Dos dias de dor, de solidão na varanda, esperando-o chegar das farras todas as noites. Ele chegava sorrateiro, esgueirando-se por entre os móveis da sala, sapatos na mão, e deitava na cama limpa, macia, farta de solidão, com aquele cheiro de bar, de perfumes baratos, enquanto minha alma dava voltas ao redor do nada e se contorcia entre as letras dos meus livros, companheiros inseparáveis que agora ele jogava ao fogo.

Morte! Morte aos meus inimigos! Morte a quem ocupa seu pensamento, morte a quem te faz companhia, morte! Morte aos teus livros, que só servem para ocupar o meu lado na cama! Gritava o outro no meio da rua.

Não disse uma palavra. Contemplava a dor de cada amigo, de cada letra, de cada poesia que se partia em mil e ardia no fogo na calçada. Na verdade, quem ardia no fogo era eu, enquanto minhas cinzas se multiplicavam e voavam desesperadas rua abaixo em dor e ausência.

Sem mais nada que pudesse fazer, ainda senti-me ser contida as cinzas pelas doces mãos de Capitu, que trazia no colo Ezequiel seu filho com Bentinho, carinhosamente colocado de lado, para que ela me acolhesse num lenço e me guardasse em seu peito, como fazia todas as noites, em nossos encontros domésticos.

Era tarde, vi Escobar varrer os cacos do outro, sob olhar atento de Bentinho. Enquanto eu, eu mesma, adormecia nos restos de cinzas espalhadas pela calçada, enquanto a alma, a imensidão da alma, estava guardada no peito que Capitu tão solidáriamente, encerrara-me.

Dira Vieira

Inspirações de visitas ao blog do Coração Selvagem e vendo comentários do FAO (Cartas a Van...). Ambos links estão aí, deliciem-se.

Só bebo dentro do Contexto

 

- Nunca mais eu bebo. Gritou a aquarela dentro de casa com as mãos na cabeça.

- Não importa a cor, não importa a textura. Dá próxima vez, apenas roço a minha pele no pincel macio. Mas nunca mais ouso beber fora do contexto.

         Passeou pela varanda, ainda lembrando das cerdas do pincel deslizando lentamente sobre o seu corpo. Estava imprópria para menores. Cores vivas. Vermelho de sua boca carnuda e carente, Lilás de sua alma andarilha, verde de raiva por não poder mordiscar a boca do pincel, tava bêbada demais para reagir a carinhos tão afoitos. Azul celeste de sua carinha de aquarela doce. Não cabia em si de tanto contentamento. Mas apenas via o pincel tomar conta de si, e passear impunemente entre as fendas de seu corpo de madeira, onde as tintas a essa altura se misturavam indóceis. O amor, há o amor rosa choque... escondera-se por entre os cantos das unhas e alojara-se na sua alma.

         Era tarde para rebelar-se. Queria mesmo era ser a aquarela mais linda, a mais deslizante, a de cores mais fortes. A mais personalizada. Nunca nem uma aquarela foi tão possuída assim pelo pincel de cerdas macias.

         No cenário, eram três. A aquarela, o pincel e eu que olhava pela janela duelo amoroso tão nítido. Arco-íris de intenções poéticas. Boas intenções.

         Era cedo, aquarela abriu a geladeira em busca de suco de tomates frescos. Tinha em mente um filme que nem chegou a ver o final na noite anterior tamanha a misturada de tons e sobretons sobre sua pele marron. Coisa mais tosca. Lembrava apenas que pediu um beijo de língua e o pincel, molhado e desejoso de seus carinhos, afogou-se em suas tetas de cores diversas.

         Era uma manha de domingo azul. Sentia-se um abacaxi de domingo, de casa cheia e namorados na cozinha. Tomou o último gole do champanhe que insistia em existir na geladeira, depositou o frasco seco sobre a pia repleta de copinhos de tintas, Tíner e subiu para o primeiro andar, onde dormiria como uma paisagem morta.

         Nunca mais beberia fora do contexto, os copinhos que guardava as tintas de sua aquarela. Vestiu-se de azul, vomitou todo o seu verde e dormiu em preto e branco de ressaca.

 

Dira Vieira


* Provocações poéticas de dona Geórgia, em um domingo de pés inchados e cansaço.

Hoje é domingo de Páscoa. Sejamos felizes, Jesus ressuscitou. O Cristianismo tem esse privilégio, de ter o seu fundador, ressurreto e vivo. Boa semana a todos. Obrigada pelas visitas e comentários, vocês me deixam muito fofa.    

Divagações em torno do nada

Estacionei no acostamento para poder fechar os olhos e mordiscar o lábio inferior. O seu cheiro, brisa suave, entrava pela janela e me fazia flutuar. Nunca desejo tão forte pegou na minha mão a me guiou por esses precipícios sem volta. Você me mandou fechar os olhos e mergulhar. Quarto escuro. Cheiro impessoal. Hora marcada. O sonho tem hora e dia para despertar.

Não me lembro de mais nada, senão a sua voz dizendo mergulha, solta as rédeas, eu te seguro. Fantasmas arrastando correntes ao redor do nada.

Estava frio. Só lembro de flores no quarto, e o vidro de soro na minha mão. Você me deixou voar sozinha, gozo interrompido. O desejo em queda livre, e as mãos, carentes das suas se debatiam no ar, dragões que não nos ensinam a voar.

Ao menos hoje


Empresta-me tua boca, ao menos hoje,
para me banhar e mergulhar em mim
empresta-me teus sonhos
as noites
os rios caudalosos
em braços e abraços
para que eu me alimente
- na entresafra -
e esqueça de mim.
Empresta-me
ao menos hoje
a ilusão que existo sem ti.

Dira Vieira


Com a palavra, Mariza Lourenço
por piedade
 
Mariza Lourenço 
 
cobriu-a de porradas, como, aliás, era seu costume fazer às sextas, na volta do bar do ernesto.
nesta sexta, porém, foi diferente, não houve queixa, pedido de socorro, tampouco ouviu-se grito de criança ou vizinho batendo à porta.
o único som era o da mão fechada e do corpo de boneca mole arremessado contra a parede.
quando se sentiu saciado, tentou reanimar a mulher que jazia inerte aos seus pés.
quanta estupidez e cegueira, em não se dar conta da presença da morte que, horas antes de fazer o que era de seu costume, arrebatara em seus braços:
três anjos e uma mulher,  boneca de corpo mole.
 

Essa escritora é um oceano de palavras e sentimentos. É mulher, poeta e mãe, clique aqui pra mergulhar em suas páginas.
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