O príncipe em dia de Rapunzel

 

Nem tudo que reluz...

 

         Guardei os livros correndo, não queria chegar atrasada à reunião do partido. Aos 16 anos, o corpo todo numa harmonia que chegava a impressionar. Os sonhos iam e viam, como fantasias reais que se transformavam todos os dias em imagens impossíveis no imaginário adolescente.

         Ali estava o motivo de tanta euforia. Augusto. Perfeito como o próprio nome, dono de uma conta bancária invejável. Parecia um príncipe. Rosto sem espinhas, alto, esguio, cabelos escuros caindo sobre o rosto, militante do PC do B, não se envergonhava de pertencer a uma família de classe média alta, mesmo fazendo parte de um partido do proletariado.

         Augusto era diferente de tudo que se imaginava sobre adolescentes. Ele tinha a idade de um, mas estava longe de sê-lo. Tímido, falava pouco, mas era um dos membros do movimento secundarista mais atuantes.

         Sentava no canto da parede de pernas cruzadas, não fumava e não nos acompanhava em bebibas. Costumava dizer que outra coisa fazia mais a sua cabeça. Nunca vimos Augusto com ninguém. Sua vida pessoal era inatingível.

         Costumava escrever longas cartas para Augusto. Dessas que a gente não espera que se responda tamanha é a ansiedade que vai com ela como passagem só de ida. Não importava se Augusto respondesse, era feliz sabendo que ele lia.

         Sempre chegava atrasada às reuniões. Era impossível manter-me em sintonia com o relógio. Principalmente sabendo que ia ver o Augusto.

         Sonhava com o primeiro beijo, ir ao cinema com ele, sua mão percorrendo meus cabelos. Imaginava-o mãos dadas, invadindo um, a realidade do outro. Augusto superava todas as minhas regras do príncipe perfeito. Nem precisava beijar para virar príncipe, havia nascido assim, como uma imagem lapidada no coração da gente. Fim dos anos 70. Shows musicais da MPB invadiam João Pessoa. Augusto estava acima do bem de do mal.

         Era o sonho de princesa de toda menina da minha idade. Nesse dia, cheguei como sempre atrasada e pude roubar um sorriso do príncipe. Alguns segundos era o suficiente para que eu achasse que me desejava tanto quanto eu. Na verdade, Augusto só era gentil. E de cima do seu banquinho de madeira envernizada me dava boa noite me tomando as mãos para beijar. Se morresse ali nada mais teria importância.  O mundo parava ao meu redor em questão de segundos, sempre que Augusto olhava para mim. Sua boca era um convite irrecusável. Mas uma torre inatingível aonde ninguém podia alcançar.

         Num fim de tarde, cheguei atrasada à reunião, todos estavam saindo para um show no estádio. Adentrei à sala de reuniões e ali estava o meu príncipe, braços abertos, Rapunzel de outras quimeras, jogava as tranças para seu também príncipe encantado. Nunca mais acreditei em príncipes. Prefiro os sapos que me beijam a boca. Guardo os príncipes com devoção nos armários.             

 

Dira Vieira

Tempestades e maremotos

 

        Eram 3 horas da manhã e senti o lençol escorregar até o chão. Puxei-o sonolenta, sentindo-o pesado. Estava com a ponta úmida, o que me fez acordar assustada. Pus os pés no chão às pressas e percebi o chão completamente inundado de água de um cano do banheiro que estourara e não ouvimos, devido ao barulho do ar condicionado do quarto. Era muita água. Cinco centímetros de água foi o suficiente para desmontar o guarda-roupa, inchar os pés da mesa sempre tão sóbrios e imponentes e o móvel da sala, cuja compra foi feita pelo general sempre tão preocupado com a sala bem arrumada. A água não poupou nem o sofá da sala. Deixou tudo ensopado.

        Corremos para procurar o foco do problema. E achamos um banheiro destruído pela força da água. Era água para lavar o Pelourinho inteiro. E até as cinco, estávamos: exército de camisolas e pijamas a retirar a água com rodos e toalhas.

        Corri para o meu quarto, segurando pelas paredes, para não escorregar. Vi meus livros, que ficam ao pé da cama todas as noites, como sandálias descansando no meu tapete, e agora, boiando. Quer dor maior? Os livros estavam inchados, encharcados de água por todos os lados como ilhas desoladas de visitação. E as letrinhas, pequenininhas e rebeldes, saíam pelas páginas em direção ao quintal de cimento.

        Nunca senti dor maior. Podia imaginar seus autores atônitos, tentando acordar-me. Às vezes penso que eles devem ter puxado o meu lençol num esforço sobrelivro mágico para que eu acordasse e os salvasse da inundação. Pobres letrinhas desesperadas. Eram virgulas, pontos, interrogações, todos flutuando agitados e dispersos.

        Foi aí que imaginei quão importante seria se pudéssemos transformar todos os livros em líquidos. Já imaginaram? Teríamos vidrinhos, garrafas espalhados pela casa e tomaríamos segundo a ordem do dia e da necessidade. Já pensou? Então vamos lá.

        Na cabeceira da cama, os livros-líquidos homeopáticos. Aqueles que precisamos tomar em doses leves e sistemáticas, como Heminguay, Quintana, Pessoa, Saramago, Garcia Marques, Thomas Mann. Tomaríamos lentamente, todas as noites antes de dormir.

        Na prateleira do quarto, alguns vidros de Machado de Assis, Ariano Suassuna, Graciliano, Humberto Eco, Moacy Scliar, Érico Veríssimo, para que ao pentearmos os cabelos, pudéssemos colocar um pouco na fronte e docemente nos cabelos para não perdemos o rumo da vida, e depois, como toque final antes de sair de casa, um pouco de Cervantes, borrifado sobre a face arrumada, a fim de não sairmos sem simplicidade e esperança de voltarmos para casa.

        Teria muitos vidros espalhados pela casa. Na geladeira, (sim, vou logo para a geladeira, porque é onde guardamos nossas transgressões que nos atacam nas madrugadas) teríamos vidros de Emíle Zola, Flaubert, Simone de Beauvoir, Cecília, Florbela, e todos os que nos provocam a libido adormecida e nos causam um certo furor. Esses ficariam geladinhos, para que pudéssemos beber acompanhados, de preferência em ótimas companhias.  As doses seriam generosas, segundo as ocasiões. Alternando com licores de Drummond na fase erótica, claro, Afonso Romano e um estupidamente gelado de Charles Bukowski. Seria a glória.

        Ainda teríamos o freezer. Onde colocaríamos Kafka, Graciliano, Sartre, Loyola Brandão, para amançar as feras após todas as geladas.

        Há também os livros-líquidos xaropes, ungüentos, emplastros, para passarmos sobre a pele, sim, porque viver sem eles ninguém. Em dias frios, ficar em cima da cama, aplicando Mariza Lourenço, André Ricardo Aguiar, Leila Míccolis, Márcia Maia, Lau Siqueira, Neruda, Lia Luft, Hilda Hist, Adélia Prado, Luiz de Aquino,  sobre o corpo, aquecendo a cama, os pés e ainda nos aliviando a alma em noites de incrível insensatez.

        Eu espalharia pela casa toda, vidros de livros. Embriagaria-me deles, com paixão e devoção e nunca mais seria a mesma. E por fim, usar o livro-líquido do dia seguinte, quando não houve tempo de ler as bulas e o inevitável já nos deixou de quatro, e tomaríamos em doses únicas, João Cabral de Melo Neto, Joyce, Mário de Andrade, William Blake, Paulo Leminsk e Vinícius de Moraes, para que seja eterno enquanto dure, mas que não nos traga sonhos não desejados.

 

Dira Vieira 

 

Essa idéia de lívros líquidos veio num papo no chat Papo Cabeça 1 (Uol)  (entre Valentina, Lia, Georgia e eu). Se você quiser, faça sua própria lista de líquidos essenciais em sua vida. Esse é apenas um pedacinho do tanto que eu queria beber, até cair inundada.

Obrigada pelas visitas. Esse é o incentivo básico de continuar escrevendo um blog.  


Gente, que maravilha! Meu blog na indicação!!! Graças a vocês!

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A porta fechada

 

Cabo Branco e Tambaú vistas do muro do Farol.

Carta à compulsão

 

Oi dona,

Hoje acordei sem graça. Estômago doendo, gastrite provocada por sono ruim, pesadelos noturnos, noites de espera na calçada. Vontade que dá e passa. Hoje acordei sem vontade de viver.

Queria que a senhora soubesse da minha angústia, das horas a ver o relógio, tocar as horas, contá-las, dando bom dia, boa noite, à falta de ânimo e de coragem. Saudade é um bicho maior que a senhora, mas ainda ainda assim prefiro-a, a ter quer abrir e fechar várias vezes essa caixa do peito e resgatar o beijo molhado, o cheiro no corpo, a marca de batom vermelho, perfume barato. E esse recado  que não tem a menor pressa de chegar.

Pecado da esperança tardia. Um estupro mental em minha poesia rala, moça boba na calçada. Resto de imaginação colada no ritual noturno, será que ele virá de azul celeste?*. Ânsia que me provoca vômitos. Pés inchados, pilhas de livros para ler, textos para dominar e a senhora, dominando a minha impaciência.

É um pecado querer controlar a lua. Será nova, será cheia? Será santa, será nua? Será rosa, será azul? Que cor terá minha saudade, e o buraco aberto no meio do peito? Será chuva, será tempestade?

Quero que saiba, senhora cheia de maldade, que dormirei mais cedo, tomarei chocolate quente, cantarei com os sapos e os grilos da rua, acordarei os solitários, contarei carneirinhos. Mas prometo terminantemente, não mais ceder aos seus caprichos e não mais despir a chuva.

         Deixarei que os dragões com seus marcos de fogo, assaltem a minha geladeira, e levem-me cativa, antes que fique completamente doida... e vazia.

Estou a uma passo da caverna. Sem mito, sem o rito, dançando pra Atenas e acenando para a rua.

O mundo pára diante da minha ansiedade e espera. Bulimia psicológica em torno do nada. Do que não existe, do imaginário, do pretérito mais que perfeito, da boca aflita, último beijo.

         Alice no País do Esquecimento, da correria das ruas, das filas dos bancos, das reuniões infindáveis, e dos vigias do cibermundo. Das portas fechadas.

         É. O mundo é uma bola. E não adianta olhar pela janela, porque quanto mais espero, mas desencanta a minha vontade.

         Hoje eu acordei assim, nua. Alice no país da saudade, das lágrimas, do riso torto. Chapeleiro maluco sem tempo, sem asas, café esfriando no bule. É tarde, é tarde. É sempre tarde para nós.

* referência ao Conto: Hoje ela vem de azul Celeste, do contista paraibano Maxwell da Cunha Lobo, já falecido.

Dira Vieira

Visão da Gaiola

Vista do muro do Farol de João Pessoa (Ponta mais oriental das Américas)

Eu te amo...

 

O homem disse à moça enquanto a pedia em casamento. E a moça, encantada com as cores do vento e de tempestades de sonhos, entregou-se ao eu te amo do moço. Não durou muito. O moço colocou o eu te amo na gaiola de onde todas as noites o via cantar. A palavra bela, desgastando-se com o brilho da luz que todas as noites, enquanto cantava fazia companhia à lua através da janela aberta.

 

Eu te amo cantava triste, enquanto o moço dormia calmamente numa cama de cetim rosa, como o natural de todos os príncipes.

 

A palavra se banhava em um copinho de plástico simples, comia num outro mais simples ainda, migalhas de pão de solidão e tristeza, mas cantava alto, olhava a lua, sua amiga inseparável enquanto inventava tons, mil tons, sobremaneira calmos, inquietos, nas madrugadas em que sentia frio e calor, numa mistura sufocada de desejos atropelados.

 

Eu te amo sonhava, e logo que amanhecia o dia, recolhia-se aos afazeres domésticos. Lavar gaiola, varrer gaiola, esquentar filhotes no ninho, suspirar, ver o dia passar, para quando a noite chegasse, recolher-se ao balanço da gaiola e cantar para o moço dormir.

 

Eram noites intermináveis. Gemidos de dores, pensamentos de liberdade, pássaros na janela a contemplar a dor da palavra. Palavra que ia ficando muda, cansada do canto abafado, cansada de ser esquecida na gaiola, ou enfeitada em dias festivos. Eu te amo sonhava, mas fingia viver, contemplando a pintura nova da gaiola fria. E de vez em quando, ensaiava vôos rasteiros de um canto a outro da gaiola, pra não perder o hábito de pássaro azul.

 

Um dia qualquer, a lua se recolheu às nuvens e cansou de fazer festa na janela. E eu te amo chorou. Percebeu a gaiola aberta, ensaiou um vôo solitário, e por fim, caiu da gaiola, as asas tinham atrofiado, e a palavra bela, desequilibrada, foi comida do gato. Nunca o gatinho da família tinha comido palavra mais doce.

Dira Vieira

Aniversário do Lau Siqueira

Hoje é aniversário do Lau Siqueira, um dos poetas mais incríveis que eu já conheci. Tá aí ao lado o blog dele. Merece ser visto, querem ver como esse cara é bom? Parabéns, Lau Siqueira, o mais novo vovô da praça!

Lau, agosto de 2002

circunstância

  

o poema
é sempre um espetáculo
um pouco mais denso

vem de um tempo
longino
onde a memória perdia
       o nome das coisas

e as pessoas eram
montarias do futuro

 Lau Siqueira


Felina
 
 
teu corpo
é linguagem pura
frágil refúgio
da minha loucura
metade prazer
metade tortura

Lau Siqueira

Ainda o Seixas

Suplício

 

 

A música tocava ao longe, baixinho, suavemente. Era Supplication por Ravi Shankar. Ouvira essa música uma vez. E ela nunca mais saíra de sua cabeça. E era a mesma que tocava naquele momento.

 

A moça suplicava a vida, que o outro sugava em beijos tão profundos quanto o seu desejo de continuar viva.

 

Havia um silêncio no ambiente, suficiente para ouvir o outro balbuciando o seu nome, Marília, Marília. E a moça o olhava constrangido. Havia luz demais no ambiente e ela não queria acreditar que estivesse acontecendo de verdade aquela imagem que ficaria para sempre na sua memória fotográfica. Apagou as luzes, ouvia o coração do outro pulsando desesperado no seu peito. Simetria de desejos e aflições.

 

E o outro ainda a queria, revirando seus guardados e a virando pelo avesso, sem que sobrassem peças.  

 

Dia amanhecendo, e ele a olha firme: não devolve o meu coração, porque ele é seu. E se devolver, não o uso para mais nada.

 

O azul entrando pela janela, enquanto a moça guardava mais um coração na sua bolsa de mão. Nunca mais seria a mesma. E a alma ancorada no cais, a esperava ansiosamente.

 

Era dia, e ela rumava a outro porto. Navegaria outros corações e aportaria outros sonhos, mas desse, não sairia ilesa. Vítima que era de si mesma e de suas tempestades diárias.

 

Marília foi embora. Deixando o moço atônito no cais. Quisera olhar para trás, mas temia que seu ato sentimental, a transformasse em estátua de sal. Melhor não. Melhor levar a imagem do outro suplicando seus beijos, enquanto atravessava seus mares internos de confusão mental. Marília não olhava, mas deixava de si, vultos na areia da praia deserta, em passos que jamais voltariam atrás.

 

Dira Vieira

 

Praia de Cabo Branco

Sentei na calçadinha olhando o mar. Tu não vens. As pessoas passam apressadas quando ouvi o bip característico do teu carro se aproximando. Milhares de anos-luz, a tua imagem resplandencente como o sol na minha cabeça. Fechei os olhos, respirei fundo. Procurei um lugar para poder ficar frente a frente contigo.

Monitor ligado, senti tua mão carinhosa a me acenar da areia, de onde surgistes como uma réstia de luz. Não é preciso que digamos mais nada. As vírgulas, os pontos, as palavras ditas e reditas e retidas, ficam desnecessárias ao te ver sorrindo. 

Retenho no olhar no oi tímido. Horas que se passam apressadas. O amor colorindo a pálpebra cansada. É quase tarde e ainda nem deu para lembrar que ainda nem tocamos um ao outro.

Amor cúmplice, sinfonia majestosa de caras e bocas com sede de amar. Simples demais, vago demais. E a simbologia dos signos que nos acolhem na areia da praia. Praia de Cabo Branco. Vontade de te ter entre os sonhos, boca entreaberta a espera do canto. Sereia na calçadinha no meio de passos apressados e de crianças barulhentas.

É quase outono. Mordo os lábios na imensidão das palavras, enquanto, de pé, tu fazes barreira entre a minha lucidez e o meu devaneio.

Sem querer, fecho a página, esqueço-te, e as palavras saem voando pela praia, sem rumo, sem esperança, buscando um peito, uma boca, um porto seguro onde possam ancorar o desejo, a imensa vontade de tocar o céu. Nada mais resta, senão deletar a alma, afogar o sentimento e apagar as linhas postas em risco das madrugadas e do chá quentinho na porta da sala.

É quase noite. É quase morte. E quase esquecemos de atropelar as mãos aflitas a digitar melodias fúnebres. Amanã, ao acordar será tarde demais, e você povoará outros abismos.

A poesia é assim, louca, desvairada. E sempre está em braços nem sempre tão certinhos. Fecho a sala, fecho a página e tu fazes parte de uma memória apagada.

Amnésia de dor e sonhos. Risco de letras que tocam fundo, transparece nas máscaras e por fim, diluem-se no vento.

Somos uma dança animalesca, a demarcar o território, gesticulando em frases a fim de mostrar quem manda. Nada mais além da solidão, do quarto à meia luz, e do sono que não chega, diante do monitor vazio. É quase noite, é quase nada. E estou atrasada para pegar o último ônibus de vida que passa na orla.

É quase nada. E o silêncio me desfaz essa calma. 

Dira Vieira 

Ponta do Seixas - Praia de João Pessoa

As mãos caíram para o lado e o azul do mar se deixou escapar sobre o corpo inerte cansado de amar. O relógio da parede denunciava a pressa. Sol indo embora, enquanto o vento segurava no rosto dele a lembrança do último gozo, sorriso estanque, silêncio de ondas que vinham e voltavam das pedras. Pele aveludada que se contorcia num sono profundo. Sono de quem amou e não quer acordar.

Abrindo a janela, a moça viu a Ponta do Seixas, língua de areia e mato que delineava o mar azul. Ponto oriental que emoldurava na pele as marcas de sonhos relâmpagos e sentimentos em confusão.

Do outro lado, o mar faz uma curva prazeirosa, pássaros sobrevoando o silêncio das ondas e o tique-e-taque na parede. O mundo todo parado, os carros, as pessoas, as crianças, os pássaros, o mar revolto, parado na areia esperando o azul despertar a fome de novo. Fome de carícias. Fome de vida, pássaros que descobrem a gaiola aberta, páram no parapeito e deliciam-se com a Ponta do Seixas.

Pelos seus olhos, réstia de sol, é aconchego de carinho ao corpo que dorme, inerte, ao mundo que sonha lá fora.

Chove. Gotas escorrem pelas ruas silenciosamente a fim de não danificar o quadro de natureza viva, pregado na sala de jantar. Há pratos expostos e velas acesas. Outras fomes ainda virão.

Dira Vieira

Apesar da dor de dente (existe coisa pior?), vai um beijo aí?

 

 

Apenas um beijo

 

Acendera a luz lentamente a fim de não se assustar com a própria imagem no espelho. Dormindo por muito tempo, os olhos inchados, ouvia a voz do outro falando do outro lado da linha como se ali estivesse. Um beijo pra você... e a voz sumira no eco da escuridão, enquanto equilibrava-se na corda bamba da meia luz.

 

O espelho na parede do quarto, capturava e fazia escrava a sua solidão e imagem, com a sua vontade de abrir a gaiola e libertar-se num vôo livre. Desaprendera de sonhar e de imaginar a cor do céu.

O eco continuava preenchendo os espaços, com o beijo enviado por alguém.

 

Um beijo por todo o teu corpo, dizia a outra voz do outro lado da linha enquanto ficara inerte vendo o sinal de voz ir embora e perder o outro de si na multidão. Não era apenas mais um beijo, mas um beijo que percorria a alma solitária de quem na gaiola se fez invisível para a multidão.

 

Não era apenas um beijo, mas um safári desesperado de quem percorre o outro na busca de salvar a própria pele. Um beijo, e a voz revolvendo as cinzas, espanando o pó, enquanto seu corpo reagia, como a sair de um coma voluntário. Um beijo que de inocente não tinha nada, mas era suficiente para que as grades da sua alma soltasse as algemas e finalmente se sentisse desvirginado pela esperança. A liberdade de sentir prazer, fechando os olhos a acompanhar o doce beijo ao longo do seu corpo, estrada da nudez e da paixão.

 

Foi só um beijo. Um beijo longo, descompassadamente ávido que lhe abriu os olhos despertando-lhe todos os sentidos.

Estava viva naquele beijo, e podia, assim, acender a luz do quarto, e mergulhar no 15º andar, enquanto se sentia percorrida pela sensação única de estar acordada enquanto todos dormiam.

 

Foi só um beijo. Diriam todos. Mas quando partiu a noite em duas, sabia que nunca mais seria a mesma, depois daquele simples beijo do outro.

 

A noite amanheceu, e a voz ainda dizia: beijos no seu corpo todo. E a rua se encheu deles, órfãos do corpo que já não mais existia.

 

Foi apenas um beijo. Um beijo por todo o corpo.

 

Dira Vieira

Revirando a alma e o coração: é lua cheia

 

 

Canta, passarinho,

 

A tarde cai. O vento se esforça para empurrar-me para fora. Espero-te no portão olhando para o infinito. Abro as janelas virtuais, escancaro as porteiras da alma para te receber sorrindo. Mas demoras a entrar por elas. Ouço os passos de longe. Passos apressados. Passos que voam para mim.
          Fecho os olhos para te imaginar sorrindo. Ode ao destino. Magia de ir e vir e não saber porque. Olhos cansados no monitor, pele suada. Letras que circulam ao nosso redor. Virtualidade de vírgulas, pontos, parágrafos longos e intermináveis. Reticentes necessidades que acumulamos para depois.

Pousa aqui na janela, vem. Canta pra mim. Toca a minha pele, canta, trava comigo uma batalha de línguas, sonoras declarações do desejo. Vem. Conta os teus segredos do outro lado do mundo...

Mochila nas costas, andarilho das letras, bruxo das luas cheias. Inofensiva criatura, te amo muito. O amor que voa sozinho, notívago. Dormindo em nuvens densas de saudades e esperança. Amor que suporta a fome e a necessidade de esperar. Esperar teus passos que se apressam na escuridão e parecem não chegar nunca. Ainda te espero no portão, todos os dias, com o cachorro latindo baixinho a fim de não te espantar de mim. Eu me comporto, vem, canta pra mim.

Cantoria doce de poesia exposta na voz e no tom de sonhar. Quero a tua imagem em mim, janela aberta, sorriso desperto. Desejo que ensaia e se esconde, madrugadas insones, noites mal dormidas. Presença que revira a alma.

Tua imagem ao longe, silueta de vida que se esqueira entre os últimos raios do sol que se põe nessa tarde fria.

É lua cheia e os lobos saem às ruas para uivar, amantes dos telhados e de chaminés extintas. Vem, passarinho meu, faz-me companhia nessa noite linda.

É lua cheia. E se outras luas não te reviraram a alma, canta. Fica quietinho, deixa que te revire eu, a te cantar melodias e sonhos, enquanto encantamos a lua.

Quixotesco

 

Acho que me perdi

porque

não acho

parte de mim em ti

nessas ruas de mão dupla.

Triste que estou... um poema em silêncio

Lua Cheia

 

Sinto-me perdida como avestruz

enquanto me provocas

sonhos e tempestades noturnas

queimando incenso e desejos

dentro de mim

 

não sei quem me beberá

os versos

e acalentará minhas lágrimas

sorvendo-me café quente

na varanda

 

olho a ti por entre as grades

e invejo tua liberdade poética

de querer

beijar-me o céu e a boca

 

não te darei a chave do poema...

que teu verso não decifra

nem fala por mim.

O verso tem vida própria

como tuas mãos subversivas

e afoitas

que me provocam

línguas

em teus desejos poéticos

 

metáforas

que ganham pernas

e abrem-se a nós.

Pulsação
O poeta olha o vai e vem das palavras como ondas sem nexo fazendo festa diante do papel. Quem  compreenderá a metafórica vontade de ser diferente? Os poetas, esses sim possuem asas rasas (mesmo que sejam de cera, pintadas por alguma criança inocente). O verso traduz a alma aflita de vôo mesmo que nem sempre compreenda a liberdade. Aliás, poetas nem precisam de liberdade. Poetas são todos loucos. Eles contrariam todas as leis. O poeta sofre a solidão de si mesmo e não dá o braço a torcer dos versos. Esse sentimento que nos dá asas mas nos deixa voando longe do bando, numa sensação de absoluto prazer e tristeza. Uma solidão com um gosto muito estranho de paz. 

Deitar e rolar na areia até alcançar as ondas e me deixar invadir por elas, entranhas a dentro, completamente nua. A verdade de ondas que se misturam à areia branca da praia num indo e vindo sensual. O entra e sai da imaginação latente. O sol já está se pondo. Minha cabeça continua ao meio dia. Caminho ao relento.

Sento e deixo que as ondas me possuam o corpo e o pensamento. Linguagem brincando de roda dentro de mim. 

Um milhão de idéias voando... Um movimento brusco e caio no despenhadeiro. Ninguém pára para coisa nenhuma. Não quero mais ir trabalhar, não quero mais ver ninguém, canso-me hoje dessa vida de lutas e suor. Não sentir a sua boca em minha boca a cada momento que rondas o meu pensamento é um desespero. Canso-me à toa nessa falta de hábito. E o dentista me aguarda ansioso para me ver pular na cadeira. Sentimento sádico que lhe provoca prazer. Odeio todos os dentistas, mas eles são como batons, a gente não pode viver sem eles.

Um bando de rolinhas cruzam a rua, num congestionamento infernal. Enquanto se passam os carros só a primeira marcha entra em cena. Não há espaço para a segunda, terceira, quarta ou quinta marchas. Anda, freia, anda, freia, anda, num movimento contínuo que implode uma vontade de dormir. Dormir em algum abraço carinhoso que compreenda essa vontade de ter paz.  O poeta se implode e explode coquetel de palavras num jogo frenético e ímpar de viver e sonhar. Vida louca, vidaaaa, vida breve...

E porque hoje não é Sábado, não posso pedir emprestado esse vento forte do mais alto andar da cidade. E porque hoje é uma segunda-feira qualquer, não povoarás as missas, nem as reuniões de senhorinhas que contam nos dedos as vezes que não puderam dizer sim para si mesmas. E porque hoje é um dia qualquer na semana não haverão os sonhos, mas as expectativas vãs, nesse nosso hábito de não sentir nada.

A palavra é maior que o poeta e não contém os seus manifestos.

Manifesto a ti, a minha saudade. A melancolia, a mágoa, o orgulho partido, o beijo não roubado, a palavra mal(dita) e não dita. As mãos que tocaram o furtivo amor. Manifesto a ti essa raiva na tua culpa de negar-me lábios que desejam bocas do verso partido e sem métrica.

Não me corte as asas. São as minhas únicas pontes. O seu sofrimento me causa sofrimento, e a sua dor, me atravessa o peito como um punhal sem piedade.

Por que temos que herdar sempre os defeitos e nunca as qualidades?

Um chocolate agora, serviria como calmante. Porque não senti o beijo roubado, nem o doce momento em que deitei sobre o teu corpo e dormi no meio da sala, contra o relógio e as pessoas que passavam por nós. O relógio correndo e eu ouvindo o teu coração pulsar de encontro ao meu, numa atitude suicida. O teu cheiro é o meu suicídio. A tua boca a minha confissão de pecado. Tuas mãos, o meu holocausto. Não te encantarei nem decantarei o poema.

Deixa eu sentir essa liberdade de andar sempre nua. Nua de corpo e alma e o corpo se confundindo com o pensamento. Não me reprima, nesse beijo que poderia ser doado e nesse carinho que me torna elétrica e cheia de vida. Seu coração pulsa no meu feito bomba relógio.  E as estrelas estremecem quando os meus lábios tocam a sua boca. Ninguém compreenderá o sentimento entalado na garganta soltando fumaça por todos os poros.

Lágrimas entalam no canto dos meus olhos, numa sinfonia opaca e sem vida de quem perdeu a esperança de voar.  Ainda que as asas congeladas estejam aptas para alçar grandes vôos. Você me ensina a ter medo e a caminhar olhando para baixo. Meus desejos, golfinhos batendo em retirada com a chegada súbita do tubarão. Não se pode fugir enquanto a maré não for camarada e as nadadeiras ainda forem precoces. Dê-me um tempo.

E eu, ainda vejo o sol se opor a minha ansiedade, enquanto as ondas brincam de tocar-me a alma, sereia de mim em cantos de sedução.

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