Croniqueta de uma tarde vendo o mar
  
 
 
Débora Vieira em estúdio, gravando seu primeiro CD "Matreira".
 
"Matreira"
 
      Estacionei o carro um pouco distante enquanto sentia uma vontade enorme de caminhar a passos perdidos. Sem rumo. Mas acompanhava um grupo alegre de familiares. É sempre assim, naturalmente, alguém tem que sacrificar o vinho para dirigir. Eu sacrifiquei. Até porque, dirigir para mim é como voar, pegar a minha vassoura e deslizar as nuvens de João Pessoa. Cada sinal, um motivo para lembrar um rosto querido, um beijo antigo, um toque, uma saudade.
     Paramos na praia de Cabo Branco. Um bar de frequentadores de meia idade, pessoas muito alegres de seus 60 anos acima. Interessante.
     Procuramos uma mesa próxima ao "dancing", onde casais de mágicos na arte do viver -  dançavam como passistas divinais. Eram senhores lindos, mulheres alegres. Pessoas de uma idade que eu tinha medo de chegar, dançando como bailarinos. Lindos!
     Os jovens são poucos. Mas alguém aponta um desembargador, um juiz, vários advogados, funcionários públicos, pessoas solitárias, cantando e dançando velhos motes.
     Sentamos em uma mesa. Nosso grupo pede cerveja. Sinto-me uma estranha no ninho, mas vejo a alegria em pessoas que lá fora, chamariam de velhos. Uns velhos mágicos, dançando na pista, a sensualidade presente nos passos, na forma gentil em que tiram as mulheres para dançar. Fico encantada. Músicas antigas. O brilho que pensara estar apagado bem aceso à minha frente.
      Há uma solidão dentro de mim. Um peixe fora dágua. Procuro-me na menina que diz ter estudado comigo. Alegre, uma maluquinha me beija a mão e se admira de meu corpo. Como mudei. Mudei? Nem sei. Ainda a criança solitária, a adolescente tímida moram em mim. Onde eu mudei? Alguem me chama de poetisa, revido a ofensa. Digo que sou poeta. Alguém acha ruim. A música toca, quase não ouvimos a voz do outro, mas que importa? O corpo quer bailar, samba de uma nota só.
      A menina de Bayeux (cidade satélite de João Pessoa), moleca traquina que vive a cantar, levanta-se e ousa pedir à orquestra para cantar. Débora Vieira, chora quando canta, brilha, quando encanta.
      Abrindo a voz, desafia o medo e a insegurança. Tanto tempo irmãs, não sabia que cantava tão belo. Ela canta Kid Cavaquinho, fazendo-me lembrar uma infância de Maria Alcina e ensaios no quarto antes de dormir. A menina que sonha ser cantora, brilha, majestosa, chamando a lua para nascer azul. Poeta, eu? Poeta Deus, que inaugura uma lua no céu, sem nuvens, azul, nítido, moldura no mar, praia de Cabo Branco.
      A moleca canta, mais um pouquinho de tempo e sua amiga lua, viria fazer companhia a ela. Canta, voz melodiosa, as pessoas aplaudem. É ela mesma, a minha irmã, bruxinha dos sonhos, das tempestades, menina que briga para cantar e encantar. Sua música, sua magia. O microfone, sua vara de condão. Débora Vieira, na praia de Cabo Branco, uma ilustre e encantadora desconhecida de todos, mas a amiga da lua cheia sob o mar de João Pessoa.
       Ouço alguém reconhecer a voz. É Débora! Aquela do PT, do Colegio Estadual de Bayeux. É a menina-bruxa, varinha de condão na mão, ditando o tom para a tarde que se vai.
       Vento bom, tarde agradável. Na praia, nenhum banhista. Olho o mar, olho a lua. Meu pensamento gira, pega a vassoura e voa. Observo um barco bem longe. Ainda me sinto distante. Sapatos altos na areia, corpo que não me pertence. Olhar distante. Vontade de ir. Vontade de mergulhar, perder e achar. Rostos conhecidos. Olhar de outros olhares. Bocas de outras bocas, olho que ninguém vê.
       Gosto de céu na minha boca. Beijo adormecido no meu paladar, fecho os olhos para eternizar a saudade e partimos para o mundo, realidade fria de todos os dias.
 
Poema de Socorro Leadebal a respeito dessa croniqueta:
 

o passar dos dias

quem me disser

que idade é defeito

não entende que o passar dos dias podem

na verdade

virar poesia.

depende do olho. depende do dia.

com rima ou verso quebrado

escrevê-los

e colocá-los

à vista

pelo prazer de estar viva.

Socorro Leadebal

 
Dias fora do ar

Alguns dias fora do ar devem-se à impossibilidade de conexão. Infelizmente temos mais mistérios que a nossa filosofia tosca, rota possa imaginar. Ando tecendo fios de paciência, os fios que se entrelaçam nas minhas mãos... e eu vou tecendo metodicamente para ver se sobrevivo aos meus enclausuramentos de dor. A internet tem disso. Na minha repartição (tá, não sabiam? sou funcionária pública, honesta, diga-se de passagem),  cortaram a internet dos funcionários, como se assim, pudessem proibir os funcionários de comunicarem-se com o mundo. Amordaçam o povo, mas não conseguem amordaçar o pensamento. O corpo pode até sofrer açoites. E as vezes, entramos num processo de depressão tão absurdo, que é preciso muita força para levantar.

Mas nunca vi poeta ser tão teimoso. Amordaçaram temporariamente a minha possibilidade de falar com o mundo, mas eles não podem amordaçar a minha alma e nem o meu pensamento...

É difícil. Lembro das proibições de Fidel Castro quanto à utilização da Internet no país.  Só que Fidel eu admiro. Exemplo de educação e Saúde. Mas proibir o livre arbítrio? Nem Deus proibiu.

O problema é que tem muita gente achando que é maior que Deus. A propósito, eu creio em Deus. Assim como creio em sua justiça. A resposta a tanta maldade dos homens virá mais na frente.

Enquanto isso. Eu me recolho aos meus pensamentos temporários, suplicando: alguém tem um emprego aí? Estou precisando.

Os políticos deveriam ler mais sobre gestão de pessoas, para desenvolverem colaboradores e não escravos.

Estamos ainda, infelizmente na época da Casa Grande e senzala. Melhor que cantemos: lê lê, lê, lê...lê lê lêêê..

Na primeira noites eles se aproximam

roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Trecho do Poema "No Caminho, com Maiakóvski"
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série "O Tocador de Atabaque"

Retirado da Página: Futuro do Atendimento Médico no Brasil

Revivendo Tambaba

Foto da Cristina. (Lado esquerdo da Praia de Naturismo - Tambaba)

O carnaval de João Pessoa já começou. Hoteis lotados, muitos turistas de todo o país e exterior. Fico feliz que todos possam compartilhar dessa maravilha de cenário. Parou de chover um pouquinho. O céu está lindo.

Sentada no meu birô da repartição, acostumo-me à lama de Augusto dos Anjos. Ai Chapolim Colorado, quem poderá nos defender? Enquanto não vem o socorro, abro as portas da saudade, deixo-me invadir pelas palavras e solto o verbo da minha angústia.

Platônico

 

 

fecho os olhos

delineando tua boca

nua

exposta à minha

 

te beijo

transpiro o mar vermelho

e dou voltas ao redor da lua.

 

Dira Vieira 

Enquanto o sono não vem, cabei por dar umas navegadas por blogs belíssimos: André Ricardo Aguiar, Linaldo Guedes, Paulo, Marcia Maia, putz, quanta gente escrevendo bem. Fiquei fascinada. Quem chegar por aqui, vai clicando no nome dessas feras e comprovando que não estou falando demais. Boa noite, João Pessoa.  
Poemas e saudades em fim de noite

 

Vou tentar dormir. Amanhã é um novo dia. Trabalho, trabalho e trabalho. Coisas que preciso falar, mas que as circunstâncias calam. Parecem que vivemos em 68, quando as pessoas falavam por códigos, metáforas e parábolas. Tem-se medo de falar tudo. Vivemos uma fase de Big Brother. Cuidado, irmão, tudo que falar, pode ser usado contra você. Salve-se quem puder. Deixo poemas pra finalizar a noite. Enquanto isso, imaginamos formas de burlar a vigilância do grande irmão. As nossas rosas ainda falam. Boa noite, queridos! Essa bruxinha tá cansada, por hoje.

Temporário

Parece que o tempo
Esse carcereiro implacável
Brinca de dominar
E por fim
Libertar
O que a gente com tanta força
Sufoca entre os dedos


Açoite

Quero que permita
ao menos
que me escondas
no doce quilombo
de tua boca.

Folião
Na imensidão do nada,
o desejo
toma corpo e fantasia
e se dispersa na avenida.

Natureza Viva

A janela aberta
o olho mirando outro olho
réstias de sol
vazando imagem a dentro,
imaculada paixão fotográfica.

Insólito

Devora-me
a língua culta
e a saliva afoita
a boca
de estrelas incandescentes.

Imenso

 

“Só chamei porque... te amo...”.

 

 

Teu pé entrelaça o meu

confuso

e o meu coração

 

                   Moleque inquieto

 

acelera

tentando entender

estrelas que se curvam a você

 

Poemas de Dira Vieira

 

Ainda Jacaré

Pôr de Sol em Jacaré (By Dira Vieira®)

Esse é um outro anglo da praia de Jacaré. Nesse dia, as nuvens ainda nos deixaram vislumbrar  o sol se escondendo por entre o mato do outro lado da praia. Essa foto foi há 3 anos. A bolsa que aparece no detalhe era da Eva, quando ela nos visitou em Fevereiro, há três anos atrás... O clima é delicioso. Ouvir Ravel quando o sol vai se pondo, é simplesmente belo. Se um dia você vier em João Pessoa, não deixa de ver esse espetáculo da natureza, com um dedinho do Ivanildo do Sax. Ei Lau Siqueira, o que me diz dessa foto, tu como poeta dos bons???

Praia de Jacaré

Por do Sol em Jacaré - Foto by Eva Arman®

Jacaré é o encontro do Rio Paraíba, com o mar através de Cabedelo. Não é um local de banho, mas um passeio de barco é delicioso. Todas as tardes, ao pôr do sol, Ivanildo do Sax, faz um verdadeiro ritual, tocando o "Bolero de Ravel" o que faz acompanhado por todos os bares da redondeza. Vai tocando o Bolero até o sol se por... é simplesmente arrepiante.

Inspira poetas, músicos, namorados. Faz-nos lembrar o quanto a vida é bela de viver e como a natureza é explêndida. Depois que o sol se põe, Ivanildo volta e recolhe seu sax. O lugar tem uma boa estrutura de estacionamento e de bares. Pra turista nenhum botar defeito.

Bom ir lá, tomar algo interessante, esperando o sol ir embora. A companhia também tem que ser interessante, ou então, amigo, vá sozinho, que antes só que mal acompanhado. Intessante que não vi poetas de João Pessoa por alí, onde vocês se escondem, mágicos das letras? Saiam das tocas, venham para o pôr do sol em Jacaré.

Tabatinga - Paraíba

Foto da Eva Arman®

Observando de cima a beleza das praias de João Pessoa, fico sem fôlego com magia. São quilômetros de praias paradisíacas, mas infelizmente sem infra-estrutura suficiente para receber turísta. Não sei se isso é bom ou ruim. Bom porque sem turistas elas continuariam "virgens" e ruim, porque a beleza natural não serve para trazer divisas para o estado.Essa aí de cima é Tabatinga, no município do Conde, poucos quilômetros de João Pessoa. Essa foto foi tirada de uma barreira. É lindo. Bom mesmo que o goiverno percebesse quanta riqueza temos aqui e pudesse disponibilizar isso pro mundo, com infraestrutura, e recursos.

Ontem começou o carnaval de rua de João Pessoa. Aqui não é nada maior do mundo não, mas garanto, é pra Paris nenhum botar defeito. Fico na Paraíba sim, senhor. Eitcha estado bonito de ver.

Implícito

 

 

Posso não ter certeza de nada
nem do dia
nem da noite que amanhece dentro de mim
Posso não ter noção do nada
nem da ausência
nem da presença
que a tua palavra
verso vivo
alma incolor
ressente em mim

Posso não ser nada
e até a dúvida
te implode dentro de mim.

Dira Vieira

Passos ao redor da lua

 

A lua está linda no céu. Poucas vezes ousamos sair de dentro da concha e ir ver o mar à noite. Foi domingo. Na companhia de Eva, Ana e Dona Nilza. Em cada mesa de bar à beira-mar tem-se que pagar cover. Então fomos sentar na areia da praia. Deitar na areia de noite...lindo. Eu estava esquecida de como é linda a noite na praia. Deitamos olhando o céu límpido. O vento empurrando algumas nuvens que traziam a chuva. A vassoura estacionada no acostamento. Vento bom, lua teimosa que saiu apenas às 18 e 40.

O pensamento vai longe. A alma acompanha. Chove no Nordeste. Chove no Sul. O sertão virando mar, mas graças a Deus, o mar ainda não está virando sertão. O mar avança querendo tocar os nossos pés. Confissões de bruxas, confissões de mulheres. Ritual de liberdade. Vontade de virar a mesa. Choro. Alegria. A cidade ao longe fica linda vista daqui da areia.

Ouvimos o outro. Abrimos os armários, parcialmente para o outro vasculhar. Ficamos atrás da porta com os nossos muros de proteção. O que nos impede de ser feliz? O que nos impede de vir aqui, olhar o mar quando sentimos vontade de estar sozinhos?

O barulho das ondas. Voz entrecortada de soluço, ouvimos a outra na terapia de mulheres que vivem. Daria um livro. A porta do armário querendo abrir, e a gente colocando apenas roupas limpas para fora. Escondemos as sujas debaixo das gavetas. A outra não percebe a meia suja que transparece pela fresta. Armários embutidos de nós mesmas. Mulheres que vivem. Mulheres e seus rituais de compartilhamento de dores. Até onde vai a parceria.  Até onde vai a amizade, o corporativismo. Somos? Acho que homens são, mulheres ainda dançam mais para o acasalamento do outro. Gosto muito dessa palavra: dança do acasalamento. Dançamos o tempo todo. Dançamos ao redor do outro. Dançamos, balançamos os cabelos, realçamos o batom vermelho.Fazemos caras e bocas e a solidão fica parceira de nossas dúvidas.

Domingo à tarde... bom estar olhando você em cada estrela que se destaca. A que pisca mais forte é o seu olhar a nos espreitar. Estrela que se perde no céu de minha boca. Desejo contido e aprisionado. Gaiola de porta aberta e garras invisíveis. Quem pode voar assim?

 

Desconheço o autor dessa foto belíssima, quem souber, me avise que terei maior prazer de dar os créditos e tirar meu chapéu pra ele.

Poema pra ler pro amado. E amada. Noites de chuva e de frio, te mando esse verso, enquanto espero a lua.

Lê aí:


Namorando Estrelas

Deixa brotar outra vez a madrugada. Estarei de vigília
à tua espera.
Pode acontecer de me distrair namorando estrelas
- foi assim uma vez
e não te vi passar.

Agora, não; aprendi com as girafas
e não te perco na noite.

E quando te sentir por perto
vou tremer por dentro
como nas manhãs de ressaca.
Se me olhares, sorrirei tímido;
se me gostares,
vou te amar como nunca.

Luiz de Aquino


Soneto da devoção

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez... — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!
Vinícius de Moraes

Extraido do belíssimo site: http://www.desejo.com/poesia)

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