Estou em outro endereço. Sempre mudando de casa para não sufocar.  http://diravieira.blogspot.com/

Como chuva sobre a pele

 

Madalena é toda festa. A palavra se apossou de sua pele e forçou sucos de caminhos até onde nem sabia mais se poderia. Mas ele pode. Tocou-lhe na possibilidade e o coração surtou de uma maneira diferente de todas as vezes em que foi janela e varanda a contemplar salivas e solidão.

O moço veio de repente. A janela aberta, a noite caindo, suas asas batendo no fora quando já era no dentro onde ele morava. Madalena o sabia de endereço invisível, mas o cheiro, ardia em suas entranhas como se nunca tivesse nem saído do seu peito.

Cada palavra que ele falava pedia permissão em suas entranhas e a resposta era um tremor quase incontrolado. Madalena sorria. Madalena chorava. Tomava aquela companhia em doses embriagantes de uma idéia que já habitava em si. Todas as noites, inconscientemente, Madalena o visitava e ali, silenciosamente, sentia o cheiro dele, e a alegria e as suas angústias e sorvia o melhor dele... a invisibilidade de quem vê além do que está na frente.

Madalena viu suas asas. Boca carnuda, braços fortes e aquele nozinho na garganta que ela tanto admirava nos homens. Não quis sexo. Não o olhou com pecados. Viu-o na janela, roupa branca e delicada a tirar-lhe o fôlego.

Esperava-o por tantos anos que nem sentiu quando as suas portas estavam todas abertas e a sua intimidade de pele exposta languidamente. Mas não era tão simples assim. Nada que pudesse ser representado por beijos, toques, suores noturnos. Intimidade de corpo não abre a intimidade de pele. Mas ele estava ali. Dentro. Onde apenas quem ouve, pode sentir uma mulher.

Madalena não entendia. E mesmo tendo todas as respostas, não poderia traduzir aquela pergunta que se fazia alegria e prazer retirando a sua estrutura e paz dos dias de espera. Não poderia mais explicar todas as coisas, porque ali, diante dele, ela era encontro e partida ao mesmo tempo.

Madalena não fez nada que a impedisse de estar ali. Não impôs regras, não abriu as asas para não incomodar. Alargou sua esperança, ajeitou a flor no cabelo e saiu para pescar sonhos, mas ele já estava ali, na curva em que ela evitou, mas pronto, como se ele mesmo já soubesse porque veio buscar o que o tocou ali atrás. Ele sabia, e ela desconfiava de todas as culpas.

Sorriu. Secou as lágrimas que ele produzia e arrumou-se à parede para não cair, mas era completamente inútil. Estava entregue em vírgulas, parênteses e luas. Não podia mais esperar que outra lua cheia a deixasse de fora daquele mar. Ele a disse oceânica para dizê-la profunda. Ela o disse precipício para dizê-lo presente. Ela teve medo que ele se fosse. Ele perguntou porque ela o queria ir.

Sabia que não tinha portas. Nem travas. Nem ilusões. Sabia de curvas na pele de dias a mais que aquele encontro. Mas ele não se importava tanto assim com o que a feria. Ele, a ela, lambia-lhe as feridas e esquecia-se de suas próprias.

Era tão longe aquele cheiro, mas ela não o decifrara. Abriram-se as cordas, soltou-lhe o medo e disse sim, sabendo que sua alma de faquir entregava-se novamente para esse mergulho. Ela o olhou, mandou-o ir e vir. E ele veio e foi. Mas o corpo trêmulo continuava chorando aquele encontro que a ninguém explicaria.

O que viria na palavra seguinte, se todos os corpos em desejo seriam apenas um o que o traduzia?

O moço saiu. Mas isso não cessou o barulho que fizera ao entrar no quarto, onde Madalena já o esperava, por longos anos.

Não era sexo. Não podia ser, já que isso se tornava pequeno diante daquele momento. Madalena buscava de todas as formas explicar aquele encontro porque se dava às explicações dos fenômenos. Mas quando disse sim às lágrimas, dizia sim ao moço que a tocara de longe, quando o visitou pela primeira vez e como por milagre, esquecera de como lia as pessoas que a tocavam todos os dias. O barulho que veio com ele, adornava-a de uma paz sobrenatural. Podia pisar na grama, porque já se fazia flor na sua presença.

Madalena não tem sono e traduções. Nem pode dormir o seu corpo de esperas. 

 

 

 

Madalena, ele e a paisagem dentro da janela

 

Ele era suave como a lua que quietinha fazia o maior alarde no céu. Foi fatal para Madalena cujos cabelos ao vento, gostava de enroscar-se naquelas mãos suaves dele. O moço das estrelas tinha no olhar a serenidade dos furacões. Madalena respirou aquele beijo nos olhos como se fossem únicos e em despedida.

Não havia sol. Nem nuvens onde pudesse comportar aquilo. Cada sentimento era uma pedrinha que Madalena acalentava nas mãos. Mãos que o seguraram, olhos que não conseguiram ver. Precisaria de tempo para compor aquela paisagem e amá-lo para sempre enquanto a poesia o deixasse ser.

Madalena estava repleta. O coração embalado nas mãos possuia a voz de Caetano Veloso. O que daria ela àquele ser tão especial em troca daquela tempestade? 

Iria embora. 

Mas ficou ali com ele por todo o tempo em que se sentiu só. Dele.

 

Mulher ao telefone

Foto de Philippe Ramakers

Depois que o telefone tocou

 

Ficar em casa sozinha era sinônimo de pensar nele. E pensava tão intensamente que se afogava em sua própria saliva. Não poderia se distrair com outra coisa. Nem se quisesse, conseguiria. O corpo dela gemia por ele. Algo indescritível que jamais poderia traduzir para alguém senão ele. Ele entendia. Mesmo quando disfarçava. Mesmo quando virava o rosto para o outro lado, mesmo quando fugia. Sérgio entendia o que Madalena descrevia porque era a própria caça. Com ele, ela era todos os papéis e principalmente, a mulher que talvez ele quisesse e que ela desejava ser.

(Ele escreveu na pele dela o homem que seria se tivesse alcançado a montanha. Mas isso era muito pouco para o que ela esperava e morria de ciúmes)

Quando fincava os seus dentes nele, e via a sua expressão de dor e desejo, Madalena se sentia sobrenatural, mas nunca dona, porque só reagia em pleno vôo e desconhecia todos os termos de propriedade. E como costumava repetir, nem era desse mundo para explicar aquele momento. Porque em alguns instantes mesmo ela, a super tudo, se sentia a mulher frágil e delicada que necessitava mesmo era ser arrebatada por aqueles braços másculos e por aquela boca ávida de todas as suas chuvas. E como chovia densamente, bem pequenina ao seu lado.

Só ele tinha aquele cheiro de homem que ela desejava quando lhe emprestou a jaqueta no frio. Só ele e mais ninguém.

Não queria os laços. Tinha medo daquela teia tão tênue que os adornava e individualizava. Teia de medos, teia de limites, teia de fartura de alma, teia de melancolia, ao mesmo tempo em que podia fechar os olhos e não temer os abismos e os vácuos. Por que se importaria com o fim, se o limite era a sua boca encostada tão sutilmente na sua? Por que morrer na véspera do estio, quando o seu corpo era floresta densa de segredos tão delicados?

Não pediu, mas poderia ter evitado. Bem que evitou, bem que clamou aos céus socorro que no tempo certo até veio, mas que a partiu bem no meio de dores antigas. Madalena se repetia em suas tempestades porque já era bem farta de muitas lágrimas. E nem dispôs os pés de todos os abismos porque já estava ali, despedindo-se novamente de sua vontade que gemia tão alto que o mundo inteiro poderia ouvir.

É dele que vem toda a inspiração. Madalena sabe. E ele desconfia porque tem medo quando o seu próprio corpo grita, acostumado a sufocar seus gemidos.

Sérgio ligou. Madalena não entendeu. E o fim de semana vestiu outro tom, o corpo voltou a tremer, como em outros terremotos.

O dia abriu clareiras no céu, e afastou as densas nuvens que se erguiam sobre a sua solidão, mas isso não quis dizer nada. Madalena já previa que deveria despojar-se daquele desejo o quanto antes. Antes que os danos viessem. E eles vieram, talvez apenas para um lado. Mas vieram. E ele ainda a culpou por existir, ali, bem no meio do desejo dele.

E agora, como faria para parar de pensar nele, depois daquela ligação tão desproposital?

- Você está bem? Perguntou o moço, como quem talvez nem queira mesmo saber.

E Madalena respondeu: - Estou. E eles não sabiam mais o que dizer. Mesmo que ela quisesse lhe dizer todas as faltas que ele lhe fazia. Mas isso era pouco demais para todas as angústias.

Não havia lhe fechado as portas, mas não o mandaria entrar. Preferia que a necessidade dele a tomasse de assalto sem nenhuma justificativa. Madalena abdicou de todas as respostas para ter a dúvida sobre ele como terapia. E isso lhe conferia outra oxigenação.

Imagem capturada na Internet, sem autoria.

ESCADAS

A despedida embrulhou o estômago e ficou com as palavras fazendo aquele barulho estranho no dentro. Poderia até imitar com a boca e morrer de rir pela ingênua e aparente insatisfação naquele momento. O que foi aquilo?

 Fechou a porta quando o elevador se foi e o levou também. Madalena olhava o vazio na frente da porta e não entendia o que tinha sido aquilo. Afinal, que olhar foi aquele? Por que Madalena não tomou a iniciativa, ou ele? O que foi aquilo, minha gente? Ficou com a imagem da boca dele, ao longe, pronunciando um “boa noite” quase sussurrante de quem não sabe para onde vai.

O apartamento, de três andares, continha escadas infinitas e sombrias que levavam a espaços mais abertos. Subiu lentamente degrau por degrau tentando entender aquela dor súbita que lhe comprimia o ventre. Tinha ainda a marca das mãos dele em suas costas. Mãos de profissional, apenas. Que pena.

Enquanto passava de cômodo a outro, ia apagando as luzes e deixando para trás mais distância e escuridão do que percebia. Era ela que ia ficando aos pedacinhos quanto mais se distanciava dele. Ele estava indo embora. Ela sentia.

A escada, em estilo colonial e antigo, produzia um rangido quando Madalena a tocava degrau por degrau. No ambiente, o silêncio da noite era quebrado apenas pelo canto dos seres noturnos, grilos, sapos, rãs e cães que ladravam por coisa alguma. Pensava em cada passo que dava. Subindo para o andar mais alto, queria ficar distante dele, como se isso fosse possível mesmo que absorvesse a sua indiferença. Ele era apenas o profissional que fora chamado para tocar a sua pele que ardia incansavelmente. Na verdade, a falta é uma ferida que sangra o tempo inteiro e uma dor quase insuportável de se conviver. Madalena tenta absorver isso enquanto sobe as escadas para ficar mais longe do chão.

(lembra quando ele disse que nada os afastaria um do outro, houvesse o que houvesse? Era pura fantasia, porque o amor não sobreviveria ao medo)

Ouviu quando o carro dele partiu. Observou da janela que ele ainda ficara por um tempo dentro do carro, no silêncio lá fora e podia jurar que ouvira os seus pensamentos. O que se passava na sua cabeça? Ela daria tudo para saber. Por alguns minutos e silenciosamente, Ricardo ligou o carro, fingiu que esquentava o motor e partiu deixando Madalena com a sua multidão de dúvidas.

Enquanto olhava-se no espelho, a algoz de si mesma parecia gritar de dentro dele. Madalena não consegue mergulhar naquela mulher que a reflete no espelho. O olhar dele a guiava para longe de si. A indiferença machucava naquele momento, como se alguém negasse regar uma planta presa em um jarro à mercê das águas que saem de sua boca. Madalena nunca mais seria a mesma, depois daquele toque. 

 

CANÇÃO DE DESPEDIDA

Eu tento ser leve. Volta e meia vou até a varanda, solto os cabelos, sinto a brisa do mar invadindo a alma, dou um trato na taça de vinho e me abasteço de alguns goles de saudades. Elas sempre estão comigo. Saudades múltiplas. Saudades inclassificáveis e até inexplicáveis. Aquelas que vez ou outra me assombram de levinho, quando suavemente chegam ao fim do dia, na ponta dos pés e me tocam a nuca, com lábios gelados e hálito refrescante.


Eu tento ser breve. Sei que ele tem medo de mim, ou dele mesmo - não sei - e ainda assim quando o vejo desviar de olhar diretamente, sei que ele guarda a si mesmo em uma caixa tecida com os sonhos dos outros. Ele era um menininho quando a mulher da floresta colocou-o numa casa na árvore e todos os dias pedia para que ele colocasse o dedinho para ver se tinha ganhado peso. Ele ganhou medo, várias caixinhas de medo em que empilhava suas faltas na sala da casa da árvore. Talvez ele quisesse engordar. Mas preferia fingir-se magrinho a fim de demorar os dias ali.

As bruxas sabem. As fadas imaginam.

Madalena que sou, não me encaixo em molduras. E talvez o bordão que carrego seja a minha identidade: esse mundo não é meu, sou de um outro planeta onde as pessoas não se negam a sentir.

 

Deixo a porta aberta na esperança que eu nunca mais entre eu também. Porque recuo os dedos de caminharem em sentido oposto. Mas sempre dou voltas em mim mesma e quando me percebo, estou eu a ensaiar partidas, sempre sou eu que parto primeiro.


Eu agora vou e não é culpa dele. Nem minha. E não precisarei dar explicações. Nem justificativas e nem defender tese alguma. Ele sabe e fica quieto. Eu sei e grito o tempo inteiro, rasgando-me em silêncios que me implodem o dia inteiro. Pesa sobre mim a incapacidade de invadir seja lá o que for que esteja aberto, ou fechado. Vivemos de correntes e segredos. 

 

- o homem conversava em voz alta dentro do ônibus e eu sonhava com o sussurro dele no meu coração –

 

O vestido encalhado na porta do quarto ainda diz de mim, mas já não pode escrever versos. Sim, Madalena é louca. Visto lilás de um domingo que espero e depois, roo as unhas de impaciência quando o que quero tem outra sigla e sina. “Nem que eu bebesse o mar, encheria o que eu tenho de fundo...”(Djavan)

 

Alio-me a brisa em desertos tumultuados. Em todo o tempo, a casa é o jardim e a vala. O meu critério é a partida. Acostumei-me a recuar. Sempre. O recuo é a minha defesa e a proteção do campo do outro. Quer ir? Vá. Não irei atrás mesmo que o tempo seja estar em sua companhia. Faço silêncio e me parto em duas: Clarice que suporta, Madalena que esbraveja.

 

Nunca fui atrás. Nunca tomei o telefone de assalto e liguei chorando. Nunca tomei um pileque e liguei para o outro de madrugada pedindo pra voltar. Nunca me expliquei, nunca me justifiquei. Aprendi a deixar ir o que se incomoda em ficar. Não sei se assim estou certa. O meu maior escândalo foi me permitir desejar. 

 

Mas não é uma posição confortável. E também não é covardia. É respeito. Mas quase ninguém entende isso. Eu apenas recuo do recuo do outro. E o corpo que fica se parte e se reparte em milhões de pedacinhos até que não reste nada. Senão outra esperança de mais pedaços.

_ quando o seu corpo esbarra no meu os animais silvestres se recolhem em silêncio em suas casas. eu desejaria a festa, mas o recuo é o mote e a tábua de salvação -

 

Ele sabe. Eu sei que ele sabe e ainda assim eu recuo. Fecho os olhos fingindo sono e peço ao dia para acabar mais cedo. É como desligar o celular e saber que ele não vai chamar estando assim.

Eu até tento deixar de amar. Mas o tempo é outro. E por mais que o silêncio da varanda me conforte em eclipses, sei que o coração dorme lá, com ele, embrulhado em alguma dúvida. Enquanto isso, arrumo a minha própria casa da árvore sabendo que nada disso me consola, sem o físico, nem o metafísico e nem as lembranças de fuga. Quando ele me manda embora, eu me sinto como quem não tem para onde ir.

 

A pergunta ainda ficou no ar. Mas para que responder se ela não era fato, era apenas uma suposição? 

 

Eu até tento supor. Mas não sou de prever a chuva e as temperaturas altas me causam tremores. Quando ele se vai é que me corpo descansa de tanto esperar.

 

Eu vou sentir a falta de chuva. E vou lembrar quando o cheiro do mar invadir a minha falta. Os meus pés procurarão o céu e vou tentar segurar com toda força o chão.

 

Eu até tento me fazer de forte. Mas quando estou só, pergunto a Deus porque não consigo ser igual a todas as pontes. Em mim, o que está suspenso é que se torna sólido e o que evapora é o que me codifica.

 

Eu penso nele. Mas isso é um tempo perdido porque ele jaz em mim em esfinge.

 

 

 

CONCHINHA

 

Esperou que ele dormisse para absorvê-lo completamente em seus olhos. Ele dormia na posição fetal. Como um passarinho, guardava a memória dela debaixo das asas. Memória de luas. Madalena sorria ao olhá-lo por longas horas enquanto ouvia Roger Waters cortar a noite naquele silêncio de paixão. Nada mais importava ali senão esquecer de entender o nome que daria àquele sentimento. Era impossível encaixar aquele sentimento em alguma prateleira. Ele subvertia todas as ordens. Era tão bom estar ali... sem prazo de validade, sem hora para acabar.

 

Levantou-se com cuidado para não acordar o moço e dirigiu-se até a varanda. Os cabelos soltos sobre os ombros e o vestido longo amassado deixava-a com uma aparência de deusa que acabara de acordar de um longo sonho... mas era apenas Madalena. Sorriu de si mesma enquanto pensava nessa cena e suspirou de prazer por estar ali naquele momento tão perto do passarinho sem que ele temesse assustar-se e voar pela janela.

 

Não é a gaiola que nos prende é a porta aberta.

 

Madalena sabia disso porque tinha por hábito nunca fechar as próprias gaiolas. Deixava se levar pelas primaveras e o cheiro suave das manhãs após noites deliciosas ao lado dele ou de si mesma. O melhor de outro é quando o estar sozinha, o silêncio de si é o outro fazendo festa dentro. Madalena compartilha o ar que respira porque de outra maneira seria egoísmo demais querer apenas para si.

 

Ela não o prendia. Ele não se prendia. E Madalena sonhava em encurvar-se até tocar o seu coração em conchinha e adormecer ao seu lado, com uma imensa vontade de mares. O formato do seu corpo em conchinha acariciava a sua imaginação. E Madalena preservava aquele momento, eternizava aquele sono, e se fazia conchinha nele, esperando que o dia amanhecesse e os surpreendesse assim. Uma só pele e mil pessoas ao redor os guardando em multidões.

 

Ricardo com as mãos entre as pernas e a cabeça curvada sobre o colo deixava-o protegido do mundo. E enquanto Madalena sorria mexendo nos cachos, deixou-se prender em seus braços, as costas que a ligava a ele naquele abraço. Era apenas um pássaro e Madalena nem ousava contê-lo.

 

Ao longe uma porta batia. Alguém fechava um portão, um cachorro latia e a lua se escondia em sinal de respeito ao que não se podia podar, grama crescendo ao redor dos riachos e as asas traduzindo o perfeito.

 

Madalena vive em rios e até que a noite se afaste e o sol os resseque, ela cultiva o cheiro e se alimenta da alma do outro, sempre em silenciosa procissão. Porque estar dentro é melhor que o frio da rua. 

 

Imagem capturada no Blog: http://www.portugalnet.pt/pnet/membro.asp?cod_leitor=34078 Mas desconheço o autor. 


CANSADA

 

Estou triste, cansada. Deve ser o estresse de fim de ano que para nós, professores, é de doer. O fim do ano chega a nos presentear com dias de fúria. Apesar de ter tido algumas respostas ontem sobre projetos espirituais, hoje, ao fim desse dia, descobri que estou chateada. Não me perguntem porque, já que talvez nem eu saiba responder. Mas estou chateada. Triste por ver que pessoas que eu amei e ainda amo não falam mais comigo, pelos seus próprios caprichos, por suas mesquinhezas e porque não dizer, por suas esquisitices. Nem vou me defender de coisa nenhuma. Tenho muita culpa em todos os meus relacionamentos: Eu amo. E o pior, declaro isso 24 hs por dia. Mas digo de encher o saco. Meu pecado: eu amo e amo muito.

Vamos por etapas. Se você consegue manter um relacionamento com um homem (sabe pessoas com as quais você tem uma sintonia sobrenatural?) e diz a ele que o ama, imediatamente ele vai tratá-la diferente, porque talvez ache que você quer namorar-pegar-transar-ou-seja-lá-mais-o-que. E não é o que caso. Claro que ele pode até ter aquele charme que você adoraria dar umas pegadas. Mas o cara tem namorada-esposa-dona-ou-sei-lá-mais-o-que e você tem uma ética cristã e nunca faria isso. Mesmo quando ele chega bem perto de você quase tirando o seu completo juízo, mas você se mantém.... eu diria, fiel, pelo menos às suas convicções, não exatamente a ele...rs Somos humanos, a pele arde. Tudo conspira. Mas você se mantém, estátua. Pelo bem da humanidade, não é assim?

Pois é. Para que servem os amigos, homens? Vai que passa pela cabeça dele que você está confundindo a amizade e deve estar apaixonada por ele. Ai que peninha. Então ele a enche de cuidados, porque não quer magoá-la. E vai enchê-la de "amiga" pra cá, "amiga" pra lá... repete tanto o "amiga" que você está quase acreditando que ele é gay. Antes fosse. Assim você não pensaria nele de noite, e nem gastava horas pensando o quanto seria bom provar daquela boca. Que nada, poderias estar fazendo algo mais útil, pára de pensar nele.  Antes ele fosse gay, esses amigos tão moças, que você é capaz de tirar a roupa na frente deles que não vai acontecer nada. Nada. Não acontece nada porque até hoje não conheci nenhum ex gay que deixou a opção por causa de uma mulher. Balela. Esquece.

Mas esse seu "amigo" tem que lhe lembrar o tempo inteiro que você é "a-melhor-amiga-dele"? Será que ele está com medo de admitir que percebeu que você está caidinha por ele, e que mesmo assim vai resistir até não suportar mais e até vai contar para ele que está paquerando e apaixonada por Jesus Luz (aquele da Madona, lembra?) só para ele relaxar e parar de repetir a infame "amiga" pra cá e o "amiga" pra lá? Tem coisa mais gay que isso?

Ou será que é esse o propósito? Talvez. Se ele depois disso passar a evitar você, não responder aos seus emails mesmo quando você consegue contar aquele sentimento mais íntimo que não contaria a ninguém... então, melhor que ele fosse gay. Mil vezes ele fosse gay. Seria menos constrangedor, porque ai você se convenceria que isso era um caso perdido e continuaria até chamando-o, de amiga. Seria mais justo. Por que droga você teve que escolher um homem para ser seu confidente? Não poderia ser mulher? Assim não corrias nenhum risco já que tens certeza da sua sexualidade hetero. 

Mas espera ai, quem consegue escolher quem vai amar? O coração é um bicho burro e cheio de vontades. Não vai aceitar suas imposições. E quem disse que estás apaixonada? Não, estamos só explicando a raiva que dá de ver um homem chamar a mulher de amiga. Melhor mesmo que ele fosse gay. Ou assexuado. Melhor, não? Quem sabe vegetariano, macrobiótico... sei lá. Qualquer coisa que você deteste. Assim você nem vai sentir a falta dele nos dias em que não estiverem juntos. E nem vai se arrepiar quando a pele dele tocar a sua. Pronto, está resolvido. Seu corpo não tremeria se ele fosse gay. Será?

Mas não. Ele não é gay. E você fica chateada e tem que manter uma certa rigidez com ele, e mudar de lado na calçada ao encontrar com ele, fingir que nem viu, e quando esbarrar com ele for inevitável, dizer: Oi, estavas ai, nem tinha te visto. E passar soberana para outra calçada para cumprimentar seja lá quem for. É só uma desculpa para você fugir dele e da vontade que você tem de agarrar esse seu "amigo" e dizer uma monte de besteiras para ele (ou coisa muito pior, melhor fugir mesmo).

Mas você não fará isso, porque ele mesmo vai mudar de calçada e você não terá a chance de demonstrar sua frieza, pois ele, mais rápido, terá jogado o balde de água fria em você. 

É. Hoje estou triste, chateada, ou sei lá mais o que. Chateada porque gostaria de estar escrevendo alguma coisa que preste e só consigo pensar em bobagens e visitar sites sem nenhuma utilidade. 

Mas pior mesmo não é isso. Pior, pior, mas pior mesmo é você achar que esse seu "amigo", sim esse mesmo que você adoraria que fosse gay, é o seu melhor amigo. Tão melhor e tão mais perfeito que você daria tudo para ele não ter com você a menor frescura e entendê-la até no seu silêncio e você não precisar se explicar tanto. Pior mesmo é você ter a certeza que estar com ele é conseguir ser melhor as próximas 48 horas da sua vida. 

Pequeno é quem separa as relações humanas em categorias e o amor em panelas apropriadas e de tamanhos variados. O amor é farto, ele mesmo se explica e não se encaixa. Por isso que os seres humanos se desencontram tanto, porque querem categorizar todos os sentimentos. Eu continuo amando sempre, e na intensidade da possibilidade de morrer no minuto seguinte. 

É, melhor é mudar de calçada. Mas não briga com ele. Porque assim ele vai morrer achando que você está mesmo apaixonada por ele. E isso não é verdade, estou certa?

Estou farta da solidão desse blog e dos links dos meus amigos ai ao lado todos antigos. Sumiram todos. E eu acho que talvez seja a hora de fechar a bodega. 

Estou mesmo cansada. 

E triste. 

 

 

O SONHO


Estava quase dentro. Madalena podia sentir isso dada à proximidade do seu pensamento. Como ele podia não se ver ali? O que mais precisava ser dito? Naquele momento, as palavras poderiam confundir ao invés de explicar. E algumas coisas definitivamente não se explicam. A pele dele tocando a dela parecia ter a exata proporção da intimidade consentida. Ela estava no dentro quando eles quase mergulhavam. Mas isso era um código quase imperfeito para se decifrar. O cheiro dele se misturando ao cheiro do ambiente demarcava um território que só Madalena poderia contemplar. Jardins suspensos. 

 

Madalena sentia o seu cheiro e se fazia dengosa diante dele. O mínimo toque e ela paralizava. Mais um pouquinho e estaria consumado. O desejo tinha cheiro adocicado e de cores diversas. O moço se fazia de cego, mas o olhar de Madalena gritava em uma melodia que as vezes precisava ser disfarçada. Como ele poderia não entender? Ela ria, mexia nos cabelos, jogava-os para trás numa clara timidez de quem não tinha mais o que dizer. O sussurro seguinte era para distrair o desejo.

 

Se dependesse dela, não diria. Porque tudo o que dissesse poderia ser usado contra a sua inocência naquele momento.

Ela bem que queria perder as rédeas e todo o juízo que ainda restava naquela cabeça de vento. Não era a Madalena, a louca varrida? E o desejo não estava na pele dela como tatuagem? Ele cruzou o braço sobre a sua cabeça, falou algo ao seu ouvido e sua cabeça dobrou. 

 

Sonhei com você. Soltou Madalena quase monossilábica. Hummm. Foi? Pode contar, ou é segredo?

 

Ela contaria. Se ele pudesse ouvir. Ela tocaria se ele pudesse sentir. A sua ansiedade era tanta que o seu coração poderia ser ouvido de longe, mas talvez ele não conseguisse ouvir. Ou talvez, os preconceitos de Madalena se surpreenderiam com o que guarda o coração daquele moço que compreende a intensidade da lua, quando ela se esconde onde ninguém mais vê.

 

Madalena bem que poderia contar o seu sonho. Mas ai o que estava oculto perderia o calor do segredo e do desejo que quase o toca, quando ela o pensa dormir.

 

CARTA ABERTA AOS AMIGOS

Queridos amigos, estou escrevendo esta carta não para pedir votos para A ou B, mesmo porque, todos que me conhecem já sabem qual é a minha posição 
política. O que tem me incomodado e me causado indignação nesse segundo turno das eleições presidenciais é o tom preconceituoso de gênero adotado pelos 
articuladores da campanha do tucano José Serra. 

Como mulher, mãe, dona de casa, universitária e trabalhadora, me sinto profundamente ofendida quando ouço frases do tipo: ela não vai dar conta! Não 
vai dar conta? Traduzindo: nós mulheres somos incapazes, é dessa forma que meus botões estão interpretando essa infeliz tentativa de desacreditar a adversária em função do seu pertencimento sexual, ou será que estou delirando?

Como no primeiro turno o discurso da terrorista não surtiu o efeito desejado, apelaram no segundo para o fundamentalismo religioso com a questão do 
aborto, que caiu por terra graças ao telhado de vidro da candidata à primeira dama Mônica Serra, não deu certo nem mesmo com o candidato tucano dando um de papa hóstias em todas as missas que ia. 

Como disse Marcos Coimbra a Srª Mônica Serra "sem que ninguém imaginasse que existia, desabrochou uma devota, disposta a carregar a imagem da santa (Nossa Senhora da Aparecida) em peregrinação para confortar os mineiros do Chile (país onde nasceu). De missa em missa, não relutou em apagar o que havia sido e dito, cumprindo com seu dever de esposa" (Carta Capital, 27/10/10, p. 36).


Para quem não sabe, o nome da esposa do presidenciável tucano é Sylvia Mônica Allende Serra, naturalizada brasileira, tem um parentesco distante com Salvador Allende, que foi presidente do Chile, aliás, primeiro presidente socialista da América Latina, deposto pelo golpe militar de Augusto Pinochet em 1973. 
Com certeza Salvador Allende deve estar se revirando no túmulo ao ver o que sua parenta anda fazendo por essas plagas, como diriam os gaúchos.

Aturei até onde foi possível para um ser pensante. Mas agora cansei de ficar calada, esse discurso sexista mexeu com meus brios feministas. Eu, cá com os 
meus botões fico pensando: será que os encarregados de articular a campanha do candidato tucano são burros mesmo ou eles acham que os brasileiros (mais 
especificamente as brasileiras), são acéfalos (as)?Outra frase que me causou profunda indignação foi a de que "sem chefe ela não funciona", em outras palavras, eles estão dizendo que nós mulheres precisamos estar sempre à sombra dos homens porque somos incapazes e precisamos que eles nos digam o que fazer. A Srª Serra, esta sim, vive a sombra do seu marido, inicialmente como esposa do governador de São Paulo ocupando posições 
secundárias e assistencialistas que "cabem" as primeiras damas, e agora, encarregada de difamar a adversária do seu marido, espalhando boatos maldosos do 
tipo: você sabia que ela é a favor de matar criancinhas? Papel ridículo e triste este desempenhado por uma mulher que foi bailarina integrante do Ballet Nacional 
Chileno, professora aposentada da UNICAMP, assessora pedagógica do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas, que possui mestrados nas universidades norte-americanas de Cornell e Drexel e doutorado pela USP.


Considero a mais grotesca das formas de desacreditar as mulheres a que li na carta capital hoje: "no rádio, um dos enquetes veiculados no Nordeste mostra 
dois homens conversando, um deles dizendo ter sido 'arrasado' por uma mulher chamada Wilma. O outro responde: mulher é assim mesmo. Não fica assim, essa mulher tem várias caras" (Carta Capital, 27/10/10, p. 35). Ah tá! Além de incompetentes também somos falsas e mau caráter. Atitude típica de desespero ou 
pura maldade?

Para aumentar a minha indignação estão tentando agora desqualificar a adversária do tucano com insinuações de que ela é lésbica, como se o fato de ser 
homossexual fosse um crime previsto no código penal ou que isso interferisse na capacidade de gerir o país. Mas ainda pode ficar pior, como a presidenciável não é casada, só falta agora sugerir que o problema dela é falta de homem, como costumam dizer os machistas de plantão quando não tem mais argumentos para desacreditar uma mulher.


Agora a pergunta que não quer calar: que tipo de políticas públicas voltadas a nós mulheres, caso fosse eleito, podemos esperar de um presidente que acata um discurso autoritário, tacanho e machista contra a sua adversária? E se fosse um adversário eles agiriam assim?
Espero sinceramente que as mulheres que representam a maioria do eleitorado brasileiro dêem ao candidato tucano a resposta que ele merece nas 
urnas.

"os progressos da razão são lentos, as raízes dos preconceitos são profundas".  Voltaire

Um grande abraço a todos. 

ELIS DENISE GONDRO


Imagem capturada no endereço: http://migre.me/15jt9

Todo o bem que houver

 

A Si e a Luis Fragoso, e a quem mais possa interessar, com imenso amor

 

Por um instante Madalena riu. Lembrou-se que se olhasse bem de pertinho, ele veria mais do que ela poderia mostrar. Não era assim? Ela se traia, o tempo todo, porque seu olhar é uma grande vitrine de seus guardados. Não se pode encostar sem esbarrar no dentro. Não há voltas quando se entrega o tudo. Ela sabe, ele lê o que ela não diz. Ele não era bobo. Nem ela a tão sabida moça de guardar o que não podia mostrar. Os segredos estão estampados na sua pele. Era só fechar os olhos que ouviria a música ao fundo. Se o tocasse saberia que não podia, feito criança que logo começa a entender a palavra não. Madalena rir de evitar o fogo, mas sai chamuscada ao proteger o rosto. Sentia-se nua diante do sim. E essa sensação era até confortável em alguns momentos. Em outros não. Nos primeiros momentos, Madalena relaxava e entregava-se àqueles cuidados. Era das metades completas. O longe que acenava esperas.

 

Entre eles uma troca silenciosa de afetos. Era bom sentir sua respiração bem pertinho. E saber que um cuida do outro... Aproximação sem dores. Madalena tem solidões em seus guardados não ousando contar para ninguém e quando está só veste a vontade de amar e sorri enquanto dorme como um anjo que desperta para traquinagens.

 

Não! O pai acenava ao longe e a moleca se divertia ao chamar a atenção dos seus medos. Madalena não recua quando sente fome. Ao contrário, come os pesadelos e distrai-se no caos em que alimenta suas faltas. Ela é imensidão.

 

E nessa troca, Madalena desviou o olhar. Ele leu a sua esquiva. O que eu falei? Perguntou o moço. Madalena abriu a janela que a guarda em outro instante e pensou no longe. No centro de si, centro da terra enquanto caminha sobre as águas. Sempre só. Ninguém sai sem arranhões quando beira os precipícios. Preferiu livrar o momento. Para que perder aquele lugar seguro? Há tempos que não pisava em terreno seguro (?). Não temia queimar-se na fogueira, criança brincando com fogo antes de dormir. É seguro estar perto. É seguro ser dentro. Ele tem a segurança na fala de outros trovões. Mas não a assusta, ao contrário, acalma, ateando fogo em seus imensos vácuos. Madalena sabe quando vai chover, é normal tremer de longe ao ouvir a pele em voz alta. Sabe que deve pisar com cuidado para evitar as minas.

 

(pensava em provar aqueles lábios devagarzinho, centímetro a centímetro enquanto lhe faria uma canção... todas as palavras eram insuficientes nesse momento para explicar isso. ele a letra, ela a falta de parágrafos)

 

Ele sabia. Madalena sabia. Mas para que falar? Os segredos se mantinham bem guardados. Para que abrir se isso a vestia? Madalena é o segredo e a porta fechada, dentes trincados no frio e no silêncio. E quando ele a toca, um dedo beira a fechadura. Por isso que ela treme. E ele sente. E o escuro os protege.

 

Os dias se desenham despedida. Quanto mais longe, a intimidade das dores à mostra. Madalena ri solta. O moço não entende. Madalena brinca, mas reserva-se guardada em suas caixinhas onde empilha as cartas. As que trocavam e as que traduziam. Tinha todas as ruas na ponta da língua e não calçava sapatos... disso bem sabia e as vezes ria comedida. Quem sabe assim, Deus permitisse ao menos que ela sentisse aquele cheiro bom de homem. Cheiro de homem da cidade. O suor, o hálito, o faro para coisas que flutuam. O dia recolhe seus braços e Madalena dorme ao ser vencida pelo cansaço.

 

Ele a chamou de boba. E era bom sentir o corpo arrepiar sem culpa. Sentimento de espera. Ansiedade acomodada na pele. Diga quando quiser, não tenha pressa e nem espere o que volta.


Apague a luz, pediu silenciosamente à lua e ela obedeceu. 

 

 

 

"Estou indo embora quando pareço ficar"


Nunca se dá o tudo. Madalena sabe. Ele sabe. O que sai é o que sobra. E o que nos falta nunca se completa no outro. Não há metades e nem a alma gêmea, apenas a solidão do outro, cadeira vazia na sala de jantar.  Homem que trabalha no dia que devia comemorar para não ter ver o tempo e o sorriso do lado.

 

Quando a estrada pareceu único caminho, ela voltou despedindo-se do mato, do vento, dos insetos alados que batem contra o vidro do carro. A lua, abrindo os braços em vestido para cheia, acendia o breu da volta. Madalena estende o braço para fora e brinca com o vento provocando barulho para não ouvir a própria respiração.

 

(não dizem que toda volta é feliz?)

 

Madalena não se sente dona de lugar algum. Tem medo da estrada e dos olhares alheios quando pára em algum posto à beira da estrada para tomar água, carregar o celular, comprar algo para mastigar enquanto o longe é companhia.

 

Mais à frente, um policial fez sinal para que parasse e em suas mãos um refletor enorme. Não sabia se acelerava ou se diminuía a marcha. Estava cansada e confusa. O gesto assustou o homem à frente que veio com a luz sobre ela. – Estou sozinha, disse Madalena sem muita convicção. Ele passeou o refletor pelos vidros para dentro do carro e desejou boa noite. Madalena seguiu. O outro seguiria junto porque prometera sempre estarem juntos. Mas ela sabia que ele não cumpriria a promessa. O longe dele era o perto que ela queria tocar e isso o assustava e o deixava vulnerável.

 

A velocidade excessiva concedia asas ao veículo. E quando a rua era escada, a solidão se abafava com o barulho dos passos ou do som produzido pelos carros em contrário. 

 

(quando o amor era o som da voz deles, Madalena ouvira suas promessas. mas ali, na estrada, o amor se espatifava no que ficava para trás)

 

E se ela ultrapassa o que é, certamente mete os pés pelas mãos, diz o que não quer e nem para ouvir o seu coração descompassado. Preferia nem voltar onde todo silencio é falta. E mesmo quando o espaço é extenso, parte dela se constrange e recua.

 

Quando a cidade fez paisagem à frente do carro, Madalena relaxou e ainda assim, sentia-se estrangeira de qualquer lugar.

 

Ela está indo. Ela sabe. Ele sabe, mas finge nem ver. Talvez quando ela o procurar ele já disponha das armas que o protejará. Madalena está indo. Ele já foi, mas vai preferir dizer nada.

 

inventando ruas onde o abismo é sono

 

Capturei a imagem em http://prosasdeoutono.blogspot.com/2010/03/hoje-inventei-te.html


o dia me pesa onde a saudade é queda e água e eu me procuro nos espelhos da casa tateando o que de dentro em mim é imagem e som – a voz dele é o meu silêncio quando preciso acordar. tenho o que me farta como melodia que se inscreve e arde como tatuagem marcada a ferro em brasa. ele me toca e o meu corpo se dobra em medo e contentamento.

está em mim o dia inteiro, quando tenho raiva e desesperadamente lavo de minha pele o seu cheiro, chuva temporã, dias frios, tempestades de vontades e de saudades. estou nele quando a fome é sinal aberto para falta de medo e grudo nele até quando sou covarde.

no dentro dele minha noite é desculpa de não fazer nada, fechar os olhos, aguçar a memória e ver a estrada em 3D me trazer de volta: menina cansada de tantas batalhas numa Madalena que em muitas vezes é vulto em ruas desertas.  

é azul o nome que escolho para sorrir em esfinge. e se eu morro, deixo de herança ao lado do vestido estendido sobre a cama o último beijo, a poesia desidratada e aninhada sobre o peito do que foi ontem e é hoje, um aboio - não de tristeza - mas de quem sorri quando a noite cai.

(ele é em mim na flor guardada no meio do livro de Neruda. ele lia Neruda e hoje já não entende mais, desconfio até que tenha queimado meus livros e cartas).

e quando já não for, é como fechar os olhos nele, porque todas as tardes em rosa chiclete improvisam o desejo e um moço, mochila pendurada nas costas, a espera do que já veio. eu até digo tantas vezes que o amo, mas isso já não faz diferença nem em ouvir a mim mesma. se for verdade, é apenas uma música de uma balada difícil de ser tocada em qualquer rádio. ele é esfinge e eu, poesia decifrada. até finjo dormir para o tempo passar e o desejo morrer de sede. 

em mim ele é um desenho, um homem de cabelo grande, sorriso de felicidade como marca sobre a minha saudade (não tente entender o vácuo que se forma: só quem transpira desertos podem dispor de angústias).

ele é em mim quando a chuva cai, quando o telefone toca e quando o ontem veste um vermelho sangue e se molda em mim grávido para vestir outro dia.

(lembra daquele toque? a sua mão vestiu a minha em luva e o dentro exorcizou minhas faltas. não quero qualquer ontem, nem qualquer beijo, nem qualquer riso, quero o impossível, porque o fácil não me resiste nem redime).

o que guardo, de desertos é professor. e quando o silêncio se finge de morto, eu sei que o moço sabe, mas assim mesmo, vira para o outro lado e dorme.

sou nele quando o tempo é inteiro e quando se parte, o perto tem mais quilômetros que o distante. e no meu dentro o rádio toca aquela música e não se toca de tanta vergonha. em mim, tudo pensa ele, até quando não durmo e sonho.

ele é em mim a noite inteira quando o beijo é outra boca. e quando o digo, o silêncio corta o som e apaga o bom.

(eu até penso nele, e já nem sinto raiva).

Dira Vieira




Aviso: Devo ter mexido em algo aqui que provocou o sumiço dos comentários, mas adoraria sabê-los: dira.vieira@gmail.com

 

Tecendo carinhos

 

 

Enquanto o vi pousar a mão sobre a outra mão e mexer delicadamente em uma pele que se soltava, não me contive e a toquei também. O dentro da mão vestia uma veludez de calor que combinava com a minha calma (no dentro sou dele e o que sobra é que nos recorta). A proximidade dos nossos corpos, e a multidão em volta pareciam não sufocar o que eu sentia, um desejo quase incontrolável de encostar a cabeça em seu ombro e adormecer feliz. Nas minhas mãos, saudade do que não vivi.

 

Por mais que os anos e as experiências se multipliquem causando marcas irreversíveis sobre a pele, ainda e sempre ao tocá-lo em mim tudo se acende como em festa de um dia em que a lua realça o céu com a sua brancura perfeita moldando um esconderijo para onde fujo sempre que me percebo só, nessa imensa selva.

 

(minha mão sobre a dele a procurar calos que não existiam, tinha a simbologia de alguém que cuida e zela para que aquele menino grande ao meu lado jamais saísse ali de bem pertinho, quase dentro de mim... a alma nua beirando os meus lábios).

 

Ele me olhava enquanto conversava aparentando ignorar a sua presença. De lado, a sensação era de estar dentro... e quando o ouvi chamar meu nome, Madalena, era como se me acordasse de todos os pecados. O amor me cura ainda me culpa de querê-lo. Onde mesmo que eu parei?

 

Certamente Deus sabia do quanto me faltava e restava para viver. Nunca quis outros palcos senão a simplicidade de quem trabalha para quem aparece. Eu teço sonhos aonde a amizade é apenas lembrança e onde o amor é um retrato no ontem de uma menina que ele amou.

 

- Madalena, você é linda.

 

Ele disse. E eu fechei os olhos para não acreditar.  

Imagem: Natureza na mão

Mão única

 

 

Me parto ao meio para entender o movimento do sol. Não tem jeito. Fazemos as ruas e nos perdemos em labirintos que traçamos em muitas esquinas. É doce a lembrança e a imagem em mar. Nem dizendo tudo o que sinto comporia meu azul.

 

Traço outros atalhos, desenho outras esperas e coloco flores na janela sem a menor intenção de que elas murchem. Quero mais que as flores virem gerânios e girassóis, quem sabe assim o maio se transforme em setembros sempre ensolarados, abrindo portas para o esquecimento.

 

O dia me pega de um jeito morno ainda na cama e me finjo de morta para não ter que viver o mesmo dia de ontem. Em mim tudo é vontade e esperança. Por isso alforrio os medos, desejo o mesmo para outros desejos e fico quietinha esperando a noite chegar. Estou cansada.

 

Parte de mim se entrega silenciosamente em alguma rede de frente ao mar e a outra grita silêncios intermináveis e sombrios.

 

A minha boca guarda um único beijo com endereço marcado e um sinal de fogo na entrada, mesmo assim contabilizo marcas em uma parede que desmorona e ri de mim o dia inteiro. Eu sou mais forte. Madalena ri de minhas fragilidades, mas em pouco difere de mim.

 

Mudo as páginas e o calendário cinza na parede que pintei azul. Sou uma concha e um fio quase partindo em dois. Estou sozinha em um campo longe e um verde esquisito. As vezes so(u)rrio, as vezes sou mar. Quando estou lua, cheiro. Quando estou farta, ilha. Em todas as fases, mantenho-me portas abertas e música produzindo em mim palavras estranhas aos ouvidos normais. Tenho a alma agradecida. Mas sou metade quando chove.

 

Não escondo palavras, armazeno poemas que nunca falam. E quando o dia se encerra leio relatos de dores de avatares perdidos em 3D e só então compreendo que há falta onde a culpa grita. Há pedaços onde o que foi inteiro se vestia mentiras repetidas sumariamente até que se cumprissem desejos verdadeiros.

 

É amor o discurso eufórico dos passarinhos no cair da tarde. Isso não se pode mudar, nem que seja preciso podar as árvores da palavra saudade.

 

De longe vem a cura. Demasiadamente lenta e dolorida, como quem trata homeopaticamente uma doença quase incurável. Sei dos caminhos de mar alto. Mas sei também dos rios, onde minhas asas de gaivota mergulham, e quase sempre, pescam preciosidades e carinhos.

 

Cubro a cama com vontades e adormeço sem ouvir o que eu mesmo grito dentro de mim. O meu corpo é de faquir. E que me corta é o que me sara em frente e verso de um unquento novo de uma poesia longe. Meu tempo é quando e aquela vontade era apenas marcas de um batom fácil de perder a cor. Outras marcas são invisíveis aos olhos mais exigentes.

 

Quem sabe de mim é a lágrima que me embala.

Dira Vieira

Clique na imagem  e veja de onde a retirei


Canção de saudade e de pele

 

 "Não consigo ouvir nenhum som em Nova York, apenas sinto o
 meu coração"  (Filme Mensagem pra você)

 

 

Tenho pacto com o inverno em minha pele. E quando o calor se transforma em frio, vejo os olhos dele me pedindo desesperadamente que não o deixe só. O amor sem interesses e com tempo marcado para a decepção abre espaço na sala e me acomoda em frente a saudades e uma TV em preto e branco.

 

Tenho o frio dele em minhas canções... e quando ele diz que se vai, vou com ele em minha solidão. Porque os dias se arrastam em um tom que desconheço e uma saudade me chama por outro nome. O nome descreve disfarces de ilusões, mas o amor, verdade que me dá asas, dilata os espaços e ganha amplitudes que eu desconheço, redesenhando o vestido que uso em um azul de esperança e paixão. Eu inventaria tempestades para te imaginar meu.

 

Todos os dias me lembro de palavras que abriam a tarde e desligavam sons que inventamos para recriar sonhos novos. Sonhos e filhos nossos. Eu tive os filhos que ele queria e os criei olhando estrelas, sem que o pai pudesse ensinar-lhe os primeiros passos.  

 

Eu tenho pacto com o frio da palavra dele cantada em versos de um colorido marron de ausências. Mesmo e ainda assim, traço caminhos que não voltam e ondas em um mar azul de intenções nada saudáveis. Ainda assim vou beber em sua fonte para colher de mim as mais profundas declarações de amor.

 

Na pele, nem que eu quisesse conseguiria retirar a promessa. Faz frio. E o vento que antes tinha nome e som, mudou a rota de encontros e escondeu o que era certo e verdadeiro. Eu amei. Ou amo ainda, não entendo ao certo as rotas desse coração que se esquiva de narrar os fatos. O que de fato existe é esse peito que arde e essa suada saudade de esperas. Ele tinha o contorno exato da minha boca quando o meu nome sussurrava em seu/meu pensamento. Gostava de me ver voando e ensaiando vôos com ele.

 

Talvez o meu amor tivesse lugares escondidos e se ressentisse de falar a verdade. Mas quando a sua canção me desenhava dias sem ele, eu já nem era e nem me permitia ser naquela falta e assim, me esparramava na sala que ele desenhava e via os filmes sob o olhar de braile de suas mãos me desenhava culpas e esperas.

 

Eu tenho pacto com a saudade e todas as vezes que penso nele um alfabeto de quereres me molda a pele e estampa a minha fala.

Outras mulheres, antigas sombras

 

Imagem: Di Cavalcanti

Há um gosto estranho em minha boca quando ele chama o meu nome mesmo que sem querer no meio dos tumultos. Nos rios secos, tento proteger cobrindo de folhas as nascentes para que possam ressuscitar de vez em quando.

 

Quantos mares me faço enchentes em suas cordilheiras se nem ao menos sei das florestas que cresceram onde você fazia morada em mim? O templo é tempo ocioso e já não tenho medo de nada.

 

Como ilha, segredo-me do mundo, separo-me das multidões porque me falta a gota d´água e os fios invisíveis. Retrato os desertos de como eu me acho esfingindo-me a cada ilusão ou martírio. Tenho os riscos de viver sobre a pele e não me queixo de quase nada. Senão de deixar-me tocar pelos silêncios e acender a pele dos meus desertos.

 

Quando fecho as portas abro em mim as outras mulheres que só eu domo, recrio e me visto de nus para outros descobrimentos. Nunca acreditei no reencantamento até pousar a minha boca sobre a tua, como se despertasse de um longo e dolorido inverno – era deserto quando te vi oásis, quase miragem. É um sonho e a Madalena que adormecia em mim se agarrava àquela boca com a fome que não mais sufocaria crias e necessidades tão íntimas.

 

Eu me neguei tantas vezes que nem Pedro conseguiria contar nos dedos todos os nãos ditos ao longo daquela existência. Disse não quando a boca pronunciava culpas e salivava esperas. Negava-me a contar estrelas, negava-me a chorar ruas passadas, mas todas as vezes que ele me tocava, nem que fosse de longe, passava a revisar minhas páginas viradas e aqueles sinais do diário conjunto exalava todos os desejos por ele. Amava acima de outras lutas e mesmo assim não conseguia escrever outras histórias, deixava sempre um final aberto, um sinal que não avermelhava nunca. Chorava o sim quando nos despedíamos na esquina de casa e Pedro voltava sozinho acompanhando outros abismos. Somos feitos de ilhas desencontradas e de abismos íngremes.

 

Eu sempre desejo assim, quando a música canta, o silêncio grita e o carro em disparada lambe uma estrada que provoca desertos e medo. Não conheço seus dedos, nem a velocidade do seu pensamento e ainda assim me pressinto tentativas de ser feliz além do que é possível desenhar na minha face apaixonada. Ele sabe e eu desconfio que me engano e todas as tentativas são inúteis para acender castelos na areia, como se fossem cigarros em minha mão que acena despedidas. Ele ama a si mesmo no espelho e competir com isso eu não posso. Esqueci de tecer sacrifícios de tolos quando ainda era bem menina.

 

Aquele olhar nem sempre me vê e quando se esconde, pisa outras areias, calça outros ritmos, sufoca dores e explode quase sempre onde o meu olhar não o alcançará. O tempo é de choro e de ressentir-se do vazio que me supera, mas o amanhã me traz sorriso e noites insones de puro amor e contentamento. Madalena nunca desiste, reage às tempestades como quem as aproveita para mergulhos mais profundos.

 

Não tenho respostas, nem formularia perguntas impossíveis com suas dúvidas óbvias. Resta esperar que esse dia chuvoso carregado de mistérios traga algum alívio. Enquanto isso, acato silêncios e soletro desejos.     

Madalena em mim descansa de mais uma batalha e quanto mais o campo machuca os meus pés, mas me desejo ali, amando-o e desejando-o como se mais nada me completasse quanto aquela imagem do menino que acredita que é alguma espécie de deus.

Eu penso nele quando o batom acaba

 

 

Eu penso nele quando a fome me empresta uma mão e me faz procurá-lo por todos os poros. Ele navega em mim, e mesmo assim sinto a sua falta e a falta de todas as presenças que eram meio dia até o finzinho de todas as tardes. Ele me faz falta quando me revira as páginas e deixa a sua poesia como rodapé de minhas saudades e eu percebo que fui carbono em dias que não se deixava marcas de metades. A alma que gritava gêmea, definhou quando lhe negou um beijo. É de látex aquela fala e o sorriso, uma bijouteria de pouco valor ou nenhum valor.

 

Eu penso nele nos dias de feira e nos que ainda assim, me remetem a um cinzeiro de conversa jogada fora. Escrevíamos o amor em silhuetas e estrofes que ele detalhadamente sussurrava e me advinhava as curvas e cores. A poesia era a senha e o álibe o mapa de ansiedades e dúvidas. A cor do dia ele me escolhia quando me abria as asas. 

 

Eu penso nele nos dias que chovem e nos dias em que me parto ao sol, olho a minha pele que não tem mais o brilho da juventude que ele guardou com ele na carteira de cédulas. E quanto mais me prefiro esfinge, mais eu penso nele e a minha alma fica numa metade visível e outra incompreensível. Eu até economizo, mas o batom sempre acaba.

 

Eu penso nele quando o batom dos meus retratos reluzem no espelho e ao contrário me remete a um tempo em que eu delineava a praia de Tambaú e prometia surfe nas ondas de Intermares. (Ainda lembro de ter cruzado o oceano atlântico em sua fala sempre tão aflita de quereres e mágoas). Ele se vestia de minha pele e me contava os centímetros de suas metades dentro do apartamento em que me desenhava amor nas paredes.

 

Eu sempre penso nele quando o travesseiro me conta pesadelos e acordo na madrugada forçando o sol a lembrar-se de mim.

 

Ele se foi levando as minhas senhas, os códigos e o meu melhor vestido azul. E nunca mais desceram as chuvas fora de tempo e as margens fizeram silêncio em respeito às minhas ilhas.

 

Eu penso nele quando o batom acaba.

 

Beijo

 

 

Primeiro foi o cheiro e a metade de todas as coisas passadas que me fizeram leque diante de outros olhos. Os dele. Olhos de vidraça em manutenção. E no perto, onde aquela boca estava quando eu pensei miragens? Não é carência que molda o desejo. Se assim fosse, o vendedor de picolé que passa na praia me causaria arrepios. Nada contra o vendedor e nem o arrepio que ele possa causar. É que o animal em mim só acende perto dele, de ninguém mais. Mas isso não me tira a paz, ao contrário. Não é a falta que me cria o palco, é a cena que me faz desejar beija-lo quando ele é sorriso e lenda. Não me perguntem exatamente porque a lua acendeu agora minhas faltas e não no antes do que sempre foi depois. Não sei responder. Ele estava ali, pertinho, e a sua invisibilidade era meu porto bem seguro. Algumas culpas envelhecem conosco e só vamos perceber que elas existem quando os valores se confundem e se apresentam desejo.

 

Viro a página todos os dias para escrever novas manhãs. Mas nunca consigo alterar a cor branca e pálida de minhas lembranças, como marca dágua de novos registros. Elas doem, sangram e no fundo, algumas, são pequenas dores de estimação.

 

Ele me pediu um beijo de verdade e eu me apercebi que todos os outros tinham sido de mentirinha. Eu tinha perdido as chaves de abrir o beijo que eu queria ter. Pensei em todas as fomes e aquela espera disfarçada de jejum poético ardia em minha boca um hálito de esperas e sonhos. Era marrom o meu batom.

 

- Quer algo para beber?

- Não, nada.

- Cerveja, coca-cola?

Fiz sinal que não com a cabeça. Ele lia nos meus olhos de minhas outras sedes.

- Beijo na boca, aceita?

- Sim. Respondi brincando. (Tenho sede de tuas falas e a palavra que derramas é a que me preenche e enfarta).

 

O moço fez um silêncio de épocas e de dúvidas. Tantas. O ontem e o antes de depois me diziam, por que não o dei quando? E por fim, o beijo de crianças que arriscam experimentar o novo. Selinho. A boca encostada à minha, ria. E a minha que ria com ela, nem acreditava que seria sim.

 

Eu quis aquele beijo. E outro. E mais outro. Eu quis telefonar e dizer do quanto tremi quando a sua boca fez em mim rios e densa floresta em chamas. Mas não era o tempo, ou era. Nem sei. Sei que as nuvens expostas em um véu anunciavam chuvas fortes e lamaçal de encrencas e eu tive que embarcar naquele vendaval que estrategicamente me tirava dali. Ele sabe que me detém, mas eu não abro com todas as chaves. Aliás, tenho um dispositivo de perigo, e sempre que ele alarma, saio a tempo de não sofrer danos. Quando o dano é inevitável, abro uma clareira, acendo uma fogueira e tento aprender com os passarinhos a não temer as tempestades. 

 

Memórias do esquecimento

 (Imagem: Achei-a na net, quem souber o autor, por favor, ajude-me a dar os créditos)

 

Sim, pensei nele nessa manhã de uma forma que talvez nem devesse, mas quem vai dizer que posso controlar o pensamento quando as rédeas me faltam nas mãos? Soltei os remos, essa é a verdade. Estive cansada por esses dias para imaginar o que pensar justamente em uma manhã de sol quente e uma promessa no ar. Então, deixei que ele me aparecesse por alguns minutos em minha cabeça.

 

Não deveria, bem sei. Mas foi aquela cena na teve de um comercial que me fez chorar (quando estou incolor, os comerciais me fazem desbotar).

 

Desbotei por todos os lados em uma euforia que já não me conhecia. De onde saltaram aqueles repentes e repentinas extravagâncias? Eu saberia dispor de todas as saídas se naquele momento, exatamente naquele momento alguma luz (quem sabe uma voz superior no meu ouvido) tivesse fechado o sinal para que não pensasse nele. Eu sempre me queixo de lembrar dos meus esquecimentos.

 

Mas pensei, é verdade. De uma forma bem protegida. Não ia me expor a um pensamento que talvez me doesse a espinha dorsal (entre outros prejuízos irreparáveis). Respirei fundo, bem fundo, para dar tempo até de pensar em outra coisa, uma outra imagem, uma poesia, quem sabe. Mas ali estava ele. Bem na frente das minhas idéias... sua boca (sempre essa boca e de ninguém mais) acenava para a minha fragilidade que só eu mesma pensava em esconder. Desligava a teve e corria para fazer alguma coisa mais útil?

 

É. Pensei sim. E agora, nem vou me arrepender. Ele nunca saberá. Nem valeria a pena. O tempo perdido foi apenas meu. E é claro que me protegi para nem sofrer. Minutos depois tinha outra cor e nada de dores. Nem quero voltar ou olhar para trás. Algumas promessas me transformaria em estátua de sal. Sal grosso nas minhas memórias de Alzheimer. Que cor inha mesmo o cabelo dele? Eu não conseguiria delinear sua boca no minuto seguinte. Santa memória de Alzheimer! Tenho a desculpa perfeita! O que seria de mim se sentisse naquele pensamento o cheiro dele, e lembrasse do percurso de suas mãos sobre o meu corpo? Nunca. Apaguei tudo. Amnésia. Disse isso imediatamente quando alguém me viu em outra dimensão. Quem era ele mesmo? Disfarcei para os meus botões. Nem lembro. Amei mesmo? Foi? Como pude? Ele nem era isso tudo. Segundo as minhas amigas, "o-que-mesmo-você-viu-nesse-cara-arrogante"? Eu vi isso também. Claro que a gente vê também os defeitos. Mas eles só servem para a partilha final. E pesam... ui, se pesam no inventário dos mortos.

 

Sei que pensei e agora foi. Desse evento catastrófico e delirante eu nem me recordo mais. Quem se lembraria que aquele beijo molhado ficou tatuado por semanas na minha boca? E que eu guardei a blusa que me fez suar? Tinha um cheiro bom, eu gostava de fechar os olhos e desejar que ele viesse em todos os momentos em que meus guardados eram vazios de memórias. Eu pensava que era dele. E ele fingia que era meu. Mas eu não lembro agora. De nada disso. Mas sei que lembrei de pensar nele naquele dia e ainda nem sinto remorso por isso.

Para você ouvir

http://www.youtube.com/watch?v=0ukYrdaNSt4

AmPáginas

 

                                                                                                      Autor da foto: Tiago Martins

 

 

 

Quando ele me dobrou, tinha em mim que as palavras eram as linhas tortas em que ele me gravara. Amanhecer em lírios e uma pitada do ontem ainda sobre nossas peles era brincadeira de boneca. Uma, duas, outras tantas marcas no meu ouvido e o desejo ficava removendo a poeira e sacudindo as estrelas todas as vezes que ele se ausentava de mim. Sempre dizia voltas, mas nunca acreditei dia amanhecendo depois das tempestades.

 

Nem contei quantos calendários eram folhinhas amassadas sobre a penteadeira. Roberto sabia que toda vez me encontraria ali, no exato marco histórico que nos encontramos pela enésima vez. E o mesmo batom, eu sempre cuidava de ser a mesma marca, ele me reconheceria de olhos fechados.

 

- Minha letra em contraste, meu desarranjo poético. Ele sussurrava quando nos víamos na boquinha da noite cheia de vontades.

 

Ontem eu contei quantas vezes me disse que me amava. Quer saber? Tudo mentira. O moço que contava linhas tinha outras estradas e pés descalços para as armadilhas. E num minuto em que me apercebi era tarde em suas mãos. Os dedos, que antes descobriam minha ilhas, tateava o braile da despedida e me despia de todos os planos.  

 

Quando ele me amassou e embaralhou minha páginas eu vi que era um verso quebrado e uma imagem sobre saudades. Nunca mais me vi poesia em outras linhas.

 

Ninguém saberia compor tantas tardes assim. E outros outonos seriam de páginas em branco, mulheres esperando na rodoviária, fim de tarde escurecendo as idéias e uma mulher sozinha a caminhar sobre os ombros nus numa serenata sem som. Nenhuma boca diria mais eu te amo naquele tom. E nem mais o meu batom brilharia naquela camisa branca de cores quando a vontade fosse um verso lírico de raiva e dor.

 

Roberto escreveu outros ritmos e Madalena sou eu, medida rota de saudades e uma página sem sinais de trânsito. Ele desenha mulheres de latas na cabeça e vestidos que disfarçam ausências. E eu, renovo suas palavras e repito suas vontades até que me faça livro e autor novo em outras edições.

Caixinha de música

 

Desconheço o auto dessa imagem. Capturei no Google.

 

Eu construo vontades onde a fome é ventania. Basta abrir a porta da frente e perceber que ainda estou na mesma caixinha em que ele me colocou, ainda com invólucro de “cuidado, este lado para cima”. Construo então pequenas saídas, passagens secretas, pergaminhos densos por onde os meus pés vão traçando caminhos para longe dele. Longe, bem longe dele e do que essa falta simboliza nessa tempestade. Tentativas inúteis. Ele sempre me encontra quando de propósito cria esquinas em minhas fugas. O secreto é hábil em desvendar os meus tesouros.

 

Eu-digo-e-ela-não-acredita-ela-é-bonita-demais.

 

E o verbo se volta para o infinitivo. Omeleteria que descompassa as idéias e absorve pequenas passagens secretas.

 

- eu disse para ele que meu mapa continha pequenos vácuos e ilusões de ótica e ainda assim ele acreditou que o toque era a promessa mais ousada daquele domingo de agosto.

 

Às favas com a pronúncia sempre tão correta e justinha nos lábios do nome dele. Não me mereço. Nem os favores, nem o cumprimento, nem a saudação de bons ventos. Quero as tempestades no meu vestido e o roncar de um vento impetuoso a trazer-me boas notícias empacotadas com um laço lilás indescritível.

 

Tive-o em minhas mãos, no limite do meu nariz, onde todos os seus odores eram escapes para uma dor insuportável que eu mapeava de saudade. Essa saudade era nominal ao invisível, comparsa de todas as fugas. Eu o neguei tantas vezes em meus delírios febris. Por tantas vezes, antes que o galo anunciasse o dia, eu o neguei, cuspi sobre a face do tempo e disse, basta de lamúrias, o ontem é um copo sujo sobre a pia da cozinha em um dia de falta d´água e vontades.

 

Assim mesmo no desenho que me marco Madalena, imprimo guerras e desbravo conflitos, e ainda assim, o meu discurso é de mais quimeras. Onde me culpo se enfrento os moinhos e desbravo fantasmas? Dos abismos, aprendi a pentear cabelos e em redemoinhos faço franjas no que ele não diz. Estou eterna e limpa onde o que me finjo é a cor escarlate do meu batom e o rebu das unhas tecendo mistérios e entrelinhas.

 

Os cabelos (sempre eles) possuem uma tonalidade que ele desconfia, sempre tive. E quando  mudo o tom, ele me chama a atenção e remete-me ao um passado torto, aquele da caixinha de música e põe-me bailarina a rodopiar sozinha em uma música que ele sussurra para eu ouvir. Ele lembra a música e não lembra as dores que me causa quando me põe a roupa de época e me deixa sozinha a rodopiar na caixinha em sua mesa. A mesa é fria e o som que canto na caixinha é um aboio regado a uma saudade imensa dos dias não vividos.

 

Reclamo dele. Reviro a cara, finjo engano quando o telefone toca. Eu queria mesmo era o hálito quente em minhas veias e o brilho do verbo como verniz das minhas vontades. E nada disso me escolhe pois o que é beco não tem saída e nem tem parte com a essa história.

Quando o azul é abismo

 

Enquanto me movo na frente do espelho à procura de sons que possam traduzir o meu desejo por ele, alguns pedaços de mim saem fora do quebra-cabeça e se confundem na imagem que me molda no espelho.

O corpo avolumado dos dias e dos desencontros emerge de uma depressão que se arrastou por meses e meses. Eu era sempre o desejo por ele... e fazia-me falta ser a Madalena dos próprios azuis, ondas e um mar em fúria. Ele me desenhava azul quando queria mergulhar e ao pensar que me usava para aplacar seus desgostos, era eu que me aproveitava de seus tons para ser mais feliz.

Íamos ao cinema sempre. Mãos que não se desgrudavam nem para pegar os bombons de doce de leite que ficavam na sacolinha presa à cadeira. Quem olhasse de longe ou no perto-quase-cheiro não poderia supor que dois abismos tão juntos beiravam o paraíso. O abismo dele era a minha identidade secreta. E o que me mostrava fundo o adornava em dias de chuva. Desse jeito a gente se completava e nem entendia direito o porquê já que o encontro era quase de uma impossibilidade crônica.

O meu coração que adornava os cachos nos cabelos era de uma bola azul reluzente... quase beijávamos, quase tocávamos o nosso dentro e quase sonhávamos o mesmo sonho. Éramos o retrato falado do que escrevemos na lousa branca da sala de aula. Opostos como sombra e paisagem.

Não me arrumava para sair com ele. Gostava de senti-lo soltar os cachos nos meus cabelos com os dedos... desembaraçando qualquer dúvida entre nós. Sentia a pulsação dele pertinho de mim e me sentia fora e longe de casa. Quando me contava de uma música nova, de suas saídas com os amigos, sem mim, ou do quanto que pensara em mim, sem ele, era como se assistisse a um filme de encantamentos. O doce lar era a angústia de tantas distâncias. Ele era o longe e eu o pé na estrada. O encontro era na quebra da onda e no beijo do mar.

Se chegasse ao encontro com os cabelos presos ele marcava a testa com sulcos de desaprovação, imediatamente. Em minha cabeça, tinha todos os poemas e as palavras de uma Madalena louca de amor. Eu usava a sua presença para as inspirações que me cabiam daqueles encontros e marcava a própria pele de suores e vinhos.

Eu lhe daria um nome para compor as faltas. E do quanto que a sua ausência denominava vácuos em mim, mas não era necessário. O homem que me cobria de cores tinha as mãos de profeta e batizara-me de vida quando a substância líquida e quase invisível se desenhava boca e batom em mim. Essa era a senha para a presença dele e a escada para sair dos mergulhos quando o azul se tornava dia a dia comigo.

Os sons que busco ao espelho surgem como sinfonias de enclausuramento. Não vou arrumar os cabelos para esperá-lo. Que venham as horas e as marcas na pele. Sou o que me resta do lirismo dos versos moldados no seu corpo. Eu desenho as curvas e me afogo em seus rios, quando as margens de uma estrada nua enlaça-me para outros atalhos. Eu me olho e não me vejo e ainda assim me espero.  

Rituais

Gosto dessa palavra e do que ela me causa. Alguns rituais são imprescindíveis em alguns momentos. O ano chegou ao fim e como no ano passado, se abateu um branco vazio sobre mim (muito embora alguns afirmem que o branco é a presença de todas as cores - nunca entendi essa mentira, achei q fosse o preto).

2008, ano maravilhoso:

1. Passei no doutorado em Sociologia e em segundo lugar

2. Tive inúmeras respostas de Deus na minha vida pacata e corrida

3. Comecei o ano aprendendo a ser sozinha, não foi fácil

4. Aprendi a fazer feira sozinha, sem roteiros, sem babás, sem personais qualquer coisa

5. Adoeci (e encerro o ano doente) e me vejo curada no ano que virá;

6. Conheci pessoas ímpares no blog do AO, sob a batuta da incrível Loba (Euza Noronha)

7. Descobri que alguns superherois que eu achava que eram o máximo não passavam de pessoas normais, covardes e duvidosas

8. Descobri-me conselheira

9. Descobri-me voluntária

10. Descobri que ainda sei chorar, cair, e levantar

11. Publicamos nossa coletânea (novamente a Loba e a Cherry na frente)

12. Me apaixonei e desapaixonei num piscar de olhos.

13. Descobri que a maioria dos homens lindos, perfeitos e sarados (e SOLTEIROS) são gays.

14. Descobri que preciso descansar e aprendi a ouvir o meu corpo reclamar

15. Descobri que amo as pessoas e não preciso que elas me amem de volta.

16. Descobri que quero emagrecer e ter a boca da Jolie.

17. Descobri que quero ser homem para namorar uns gays lindos e apaixonantes;

18; Descobri que amo a Deus acima de todas as coisas, e resolvi serví-lo da forma como ele me chamou.

19. Descobri que sou fã da AMY, mas detesto a sua aparência anoréxica e drogada.

20. Percebi que sou importante demais para ceder à depressão.

21. Descobri, finalmente que sou uma pessoa internacional, globalizada, mas que ainda morro de medo de dormir no escuro.

22. Tive a certeza que sou linda, anoréxica, gostosa e beijo bem ao espelho, sozinha

23. Descobri sem querer, que o moço que não era gay, ia casar com outra e ele nem sonhava em me contar pessoalmente

24. Descobri que mentira tem pernas curtas e que sou uma sortuda em descobrí-la, SEMPRE.

25. Descobri que posso viver sem a coca cola e essa foi uma das melhores descobertas desse ano de 2008.

26. Descobri que é verdade o ditado: antes só do que mal acompanhado, por isso pretendo dançar comigo mesma em meus sonhos na passagem do ano novo.

27. Tive a incrível sensação de chegar atrasada na minha própria vida em eventos decisivos e íntimos de my life.

28. Descobri que amo, e isso não especifica exatamente um lugar, uma pessoa, um gênero ou qualquer outra classificação humana e vazia.

29. Descobri que alguns príncipes não passavam de sapões que se transformaram após o meu beijo.

30. Tenho sempre a certeza absoluta que posso viver sem chocolate e coca cola, mas que Deus não me tire os poucos e valiosos amigos que Ele me deu ao longo da vida. Eu morreria.

Ritual

 

 

Meu corpo é feito de caixas, várias e pequeninas caixas de todas as cores. Mas não possuo armários, nem prateleiras, nem rótulos que possam dar nomes aos meus sentimentos. Tudo o que sinto e às vezes vêm de momento, existiu em algum outro lugar... E se eu acreditasse em vidas passadas, diria que as outras Madalenas, Clarices, Suzanas, Berenices, certamente teriam vivido esse coração que agora habita em mim. Mulheres são todas assim. Repletas de cores de todos os sons. E nunca executamos o amor não correspondido.

 

Minha cama é o último lugar onde o meu corpo se encontra. Não tenho endereço certo. O meu cansaço é o meu tempo quando. Perdi as contas de quantos rosários desfiei em memória. Sou meu próprio cárcere e o meu alvo de todas as guerras. Mas não me importo muito com isso. 

 

Meu nome é Madalena e às vezes me inquieto com essa fala que nem sei mesmo se reflete em mim. Todo o dia, como quem escolhe uma roupa para sair, procuro nessas caixas, detalhes que adornem o meu dia. Pequenos e invisíveis detalhes. Pequenos e imperceptíveis desejos. Eu não consigo definir os sentimentos e nem ao menos entender os alheios. Tenho as tintas e outras estimas, mais o desejo de pintar, mesmo em dias de um cinza quase preto ainda me salta o peito e geme. Inútil, ainda não ousei descolorir os meus risos mornos nem minhas utopias. Ainda não perdi a cor lilás que me escrevia nem o resumo dos vôos que me partia em mil partes e cores.  

 

Choro as meninas e as mulheres que matamos todos os dias. Choro as manhãs que não retocarão o batom de suas meninices. Choro as meninas clicadas nas digitais dos sonhos que serão apenas adornos de lápides abandonadas e empoeiradas.

 

Quando o dia é estrada eu aproveito para organizar as listas de todas as coisas dentro de minhas caixas. Não há roteiros, nem um manual de boas vindas. E tudo em mim se mistura e desencaixa. E quando a luz do ônibus apaga, a Madalena sorri para a paisagem escura lá de fora e finge dormir para a multidão. Nem olho para os lados, nem contemplo os vultos que ressonam ao largo, o que me interessa é que não refiro e o que me acorda é o que menos conta. Aproveito a estrada para as faxinas da alma e retiro o pó das minhas intensidades. 

 

Desconstruo a imagem do espelho, recomponho outros detalhes e registro o invisível. Na verdade, eu não sou. Soletro apenas o impossível. O ontem, estampado na imagem reluz a sutileza do que não sei. Sou outras imagens e o que se move ao longe não se escreve em linhas tortas. Não se pode querer saber o que o outro pensa. É megalomania se achar sabedor de todos os mundos. O que é verdade tem outras versões. E a que menos importa é o que está exposto no outdoor. Sou outras falhas e ritos. 

 

-    o amor não se faz fatura vencida e nem se submete a bancos em greves. tudo é delírio e coma.

 

Eu tenho detalhes que ninguém lê e todas as vezes que pinto em face, no batom vermelho incandescente e na máscara do dia, revelo a nudez que desconcerta e cria. Minha memória é falha na ordem do dia. E a minha falta nunca foi tão ausente.

O Dia das Crianças

 

Imagem: Crianças cubanas,  clique na foto para ir ao site que armazena essa imagem

 

Primeiro ato: Algumas coisas me incomodam nesse dia. E eu não consigo ficar sem dizer uma palavra. O dia das crianças, o dia dos professores, o dia disso, o dia daquilo. Compreendo todo o processo capitalista de instituir dias para esses lucros. Não me reporto a isso porque também não posso conter o capitalismo. Nem eu mesma consigo fugir dele, já que vivo quebrando cartões para não trocar a alegria de não dever pelo consumo enlouquecido.

 

Ainda estou ressacada pelas últimas eleições. Não me conformo do meu canditato não ter vencido. Mas sou movida 80% pela emoção e apenas 20% pela razão. E isso me entristece ver pessoas novas na política e já comprando votos. Isso me deixa estarrecida. O fenômeno da caradepau não só aconteceu na capital. O estado todo viu a campanha da compra do voto, com excessão de Pombal, onde a justiça realmente foi feita com a candidata e agora prefeita, Pollyana (que eu nem vou contar aqui porque é loooonga).

 

Segundo ato: Quando os meus filhos eram menores eu não podia comprar presentes no Natal, nem no dia das crianças. Hoje que eles não são mais crianças, eu compro para os afilhados, os vizinhos, e alguns parentes. Vejo a alegria dos olhos deles, mesmo quando o presente é singelo. Isso me deixa imensamente feliz.

 

Terceiro ato: Hoje ao deixar uns presentes na casa de uma amiga, não esperava que lá estivessem outras crianças. E nem podia levar para todas, mas me chamou a atenção a reação de uma menininha quando eu chegava com uma boneca para a outra, a dona da casa. Ela não entendeu nada. E caiu em um desespero que me cortou o coração. Criança não perdoa. E nem vai entender o que houve ali. Eu sei bem o que é trauma de infância por não ganhar presentes em datas assim.

 

Ao lado, uma mocinha, com um problema sério de pele e na face, explicava a sua peregrinação pelos postos de saúde e hospitais da cidade em busca de ajuda médica. Sem sucesso (Socorro, alguem arruma um Dermatologista por aí?) E ela tem apenas 15 anos, nenhum documento e órfã de mãe. Com ela, a tia, minha amiga, com três dias de resguardo do quarto filho. Depois de peregrinar por uma laqueadura, a bebê não aguentou e nasceu normal. Ruim para ela que penou nas mãos do médico que a atendeu em um hospital da capital e ainda obrigada a ter cesareana, quando foi proibida por outro médico a ter normal, desde o primeiro filho. E esse era o quarto, sem que ninguém aceite a realizar a laqueadura. Olhamos a criatura e vemos uma mulher humilde, magérrima, andando devagar com o semblante de preocupação e dor.

 

Quarto ato: Na cama, a menininha que eu queria que fosse minha, dormindo como um anjinho... sem saber da podridão que é o mundo ao redor.

 

Quinto ato: Em outro lado da cidade, uma outra menininha, com sérios problemas psicológicos agravados pelo abandono e a negligência de pais até certo ponto, "esclarecidos".  É triste demais. É absurdo demais. É desumano demais.

 

Sexto e último ato: E eu ainda vejo canditatos campeões em compra de voto na capital, agradecendo em cartazes a Deus a votação estrondosa na cidade. Deus tenha misericórdia dessas almas sebosas.

 

E amanhã é dia das crianças.

 

De que mesmo?


O doutorado vai de vento em polpa, quanto mais leio, mas me apaixono pela palavras e pelas coisas.

 

Escritura E A Diferenca, A
  Filosofia 
Derrida, Jacques

Quer questionem a escritura literária ou o motivo estruturalista, no campo da crítica, das ciências do homem ou da filosofia, quer apelem por uma leitura configurante a Nietzsche ou a Freud, a Husserl ou a Heidegger, a Artaud, Bataille, Foucault, Jabès ou a, Levinas, os ensaios aqui reunidos têm todos um só centro de insistência: o ponto de articulação

Lendo, lendo, lendo.

Paul Cézanne, Les Grandes Baigneuses

O não-corpo

 

Tenho códigos por todo o corpo. O mapa que me esconde possui territórios não cobertos. Não traço todos os caminhos para não me perder de todas as idas. Traços voltas e me perco delas. Algumas me partem em duas, outras são como mapas de tesouros. Uma espera e outra desenha pesadelos noturnos. Mas nem sou. Nem me traduzo.  Penso no corpo de mar e de brilhos não ditos, é essa linguagem que pinta em mim fios que nunca direi. Na mão uma aquarela que ainda moldarei em sua boca.  

 

(o que o moço levou de mim não me deixa em falta, antes alimenta meus rios sempre tão aflitos por sua fala).

 

Sou outros planos e uma câmera sempre atenta a olhares silenciosos e cinematográficos. O plano B me alimenta e sara.

 

Ontem, quando me dei conta, a voz do moço era som em alto relevo na paisagem da estrada. Um sonho em carne e osso e bilheteria. Voltei-me para decifrar e vi-o em holograma, exatamente como me desenhava azul. Barba beirando a boca que eu sonhei, cor de menino-homem ainda guri e uma garota em sacola nos seus braços. Observei a moça, branca, vestido amarelo estampado, sorriso largo, brincadeiras com outra amiga ao seu lado. O que ela preenchia me faltava ao lado dele e ainda assim, cometi o pecado de desejá-lo, como a mais ninguém. O olhar dele era paisagem e o que eu mais desejo não possuía fala e nem inscrições em braile. Ele olhava o nada e eu do nada traçava desejos e vontades. Eu queria imolar aquele momento e emoldurar o seu pensamento no meu corpo como sinais de trânsito. Sinal fechado para essa paixão.  

 

Voltei a dormir as linhas cansadas e percebi que a sua falta é o meu pesadelo de cores e dias. Vivo e morro no pensamento nele. Não era o inconsciente e nem o que não disse que desenhava corpo sem órgãos. Era o amor do moço que me despertava sonhos no meu cansaço diário de outras guerras. Não sou o que digo e nem o que penso, sou o que nego e que me escondo. Há em mim ruas perdidas e guetos malditos. E ainda assim, a imagem dele é campo minado das Bermudas.

 

Eu tenho rios que transbordam vazios e as linhas imaginárias não ditas serão a herança de gozos e saudades. Naquele moço teci outras marcas de angústias e de prazer. Outros mapas revelam minhas esquinas e em todas sou calçada deserta onde o azul espera a não-promessa. Eu não me escrevo e em todas as cartas sou todas as dúvidas. 

 

 

Da série: cartas que nunca mandamos

Tenho medo quando o meu pensamento tem a voz rouca e fala alto, provocando escândalos. Algumas palavras e pensamentos nunca deveriam materializar-se em ações ou desejos. Eu tenho medo do desejo de tua boca na minha. E ainda, quando nada mais preenche os meus contornos.  

 

O mundo se revira no meu estômago e eu embrulho mal estar sem a tua voz trêmula ao telefone. Conto nos dedos se houve amor maior que o que sentimos. Se é que isso mesmo existiu ou foi um romance que começamos juntos a escrever e desistimos nos últimos capítulos.

 

Se eu dissesse que te amo, estaria mentindo. Nem é mais amor o que eu sinto. É prisão. Um enclausuramento de freira que desiste de viver e isola-se em uma torre com a certeza absoluta que nenhum cavaleiro em um cavalo branco ousará aproximar-se da torre. Não tenho tranças e nem me chamo Rapunzel. Madalena é a minha sina e sinal de entorpecimento.

 

Tenho medo do dia que olharei tua imagem e perguntarei se já o amei um dia. Conto os teus passos e morro de medo de esbarrar em tua sombra por ruas dessa cidade hostil e vazia.

 

Na tua boca escrevi meus desejos e em teu corpo desenvolvi várias teses de encantamento. A televisão nova desligada na sala, as almofadas desarrumadas de nossas brincadeiras e a pia da cozinha com as marcas de nossa fome. Aquele copo em que não bebestes a minha lágrima ainda repousa sobre o medo de tua existência. Eu não me canso de pertencer a ti e às tuas lembranças.

 

O quarto, ainda por decorar com os teus gemidos, possui uma cor esquisita, nem de longe revela o azul de tua voz e o lilás que te vestia. Guardei as cores para levar comigo até o dia de nossa morte. Morte de esquecimento e platéia vazia. As cenas finais deixaram os personagens aturdidos e todas as falas repousam agora sobre o meu ventre querendo o sopro de vida de tuas páginas.

 

O meu corpo não conhece outro autor e as minhas linhas permanecem tortas sem a tua poesia.

 

Ouvi-te calada quando desfizestes as promessas. E a palavra cantada virou aboio entre as minhas pernas. O rio que tecemos juntos ainda permanece abismo e todas as noites jogo garrafas cheias de recados para os teus olhos de sereia.

 

Ontem, quando arrumava a cama para deitar, deixei sobrando o lado que ainda não escolhestes e deitei sobre ele o corpo que ainda te abriga entre os dentes. Eu não espero a tua volta, tatuei outros caminhos no meu corpo pergaminho e enterrei abusos em terrenos baldios. Há muito tempo desisti de acreditar em potes de ouro no fim de arco-íris.    

 

 

EXPIAÇÃO

 

Descobri que tenho vácuos. Eu, a Madalena de todas as faces, possuo vácuos intermináveis. Percebi isso ontem à noite quando ele me deixou na porta de casa. Foi só atravessar o portão e lá estava eu mergulhada no vácuo até o pescoço. Da janela, olhando para a rua através do portão de madeira, tentei alcançar as margens e contornar espaços.. Não existia lados e nem começo onde o fim se fazia uma enorme parede de vento. Um vento frio. Mordaz. O nada dividindo o espaço com as minhas dúvidas.

 

Nesses vácuos, tenho o costume de tecer fios invisíveis de solidão. Fios coloridos que apenas eu posso ver. Das cores, costumo tirar lãs e cobrir minhas vestes de forma que eu possa me sentir azul para mim e para ele. O amor é o adorno do vestido longo que teci para ele, de presente. Vestido fruto dos vácuos. Eu prometi vestir na lua cheia. E o farei , um dia. Por hora, espero os vácuos encherem os cântaros para banhar-me à noitinha, quando estiver bem pertinho de vê-lo. Banhos de azul bem piscina. Daqueles azuis que quando batem os raios do sol a água vira espelho. Eu sou no espelho entre o meio e contentamento. Vou tecer fios de azuis em todos os vácuos para compor outras histórias ao entardecer. Ando cansada do silêncio de mãos pelo meu corpo.

 

Tive que tecer memórias e descarregar de mim o que me pesava e nada dava conta de tantos espaços vazados e lembranças de margens e abismos. Quando me olho do meu próprio alto, sou o que não entendo e ainda assim, me permito.  

 

Hoje descobri-me metades. Uma metade vazada e incompleta cheia de plenitudes e desejos. Os cabelos, ah, sempre os cabelos fazendo volume onde o nada é apenas presença inócua nessa paisagem. De onde venho, nem sempre me acho e quando estou farta, sou como porta que bate no silêncio da noite. Já disse tantas vezes que estou pela fresta da porta...

 

Em mim, vários fantasmas passeiam dentro de casa, insones. Eu, janelas e pastos de vácuos à espera de sonhos, disputo com eles, a tapas, o meu direito de defesa. Eu teço noites a fio e nunca preencho outros pedaços. O que escrevo, descreve os meus pêlos e o que escondo lateja entre os ombros como uma frase incompleta e impossível. Eu tenho esperas silenciosas que se prostram na minha janela. Abro os olhos, arregalo as vontades e quase sempre, vou dormir com a minha solidão com a pele lacrimejando em dores por tantas ausências.  

 

Ontem não quis decifrar espaços. O vazio instalado no peito tomou conta de toda a casa, instalou-se paisagem e abriu outras fendas em meu peito. Eu tive que tomar um banho, abrir outras comportas e pensar nele para dissipar outros tumultos de ausências.

 

Nem sempre é assim tão fácil, mas quando sou forte, minha memória me traça de pecados e culpas. Hoje tem uma lua no céu e eu nem aí para conquistá-la.

Diários de Pele

O Diário de Su

Imagem capturada na net. Clique na imagem.

 

O meu corpo conhece a tua falta e pressente da ausência da forma mais cruel: me sinto rabiscos de uma história incompleta. Quando as horas tocam o alvo e o dia se espalha no céu da boca, sou toda cabelos ao vento e marcas de pele. Uma ansiedade me corta ao meio e me diz de rimas que tu me fizestes.

 

-         nos dedos que trazes, o caminho que traçou em minha pele. rituais de outros sons que ensaiamos juntos.

 

Nem era tão tarde assim, ouvi-te chamar ao telefone em uma mensagem: Madalena, minha Madalena, acorde. E a noite, era a madrugada dos meus dias. Uma penumbra de hábitos e a vontade de chover em tua boca, como me ensinastes. Todos os rios correm para as suas mãos e quando me tocas, sou mar de todas as vontades. Quando penso saudade minha pele se descreve com o teu nome.

 

Sei de todas as culpas e o silêncio subscreve capítulos nocivos a todas as faltas. A paixão me tomou pela mão e nunca mais largou, mesmo quando caminhava sem o oleiro e o meu corpo relata o barro ainda intacto e imperfeito. Eras meu dono e ao mesmo tempo, metade do barro que me esvazia.

 

Não há esperas quando os pés beiram o novo. Quando nem querias brisa, tomei-te tempestades em minhas mãos. Tomo do teu cálice e de tua boca e mergulho no encantamento, fechando os olhos para te ensinar todas as portas e as brechas entre as idas e voltas. Espio entre as palavras e te traduzo para nunca mais sair de perto de ti.

 

Dei-te os melhores desejos e colhi de tua boca as mais perfeitas foices. Quando tua voz era surdina, o meu corpo era dor e cortes profundos. E quando a tua espera era o beijo eu disse sim na tarde que nunca volta. Nossas bocas provaram de todos os azuis.

 

Eu te beijei quando já nem eras e o dia que fomos ficou emoldurado dentro de mim: diplomas de incapacidades latentes.  

Espelho... espelho meu

Imagem: AmandaCom.foto Excelente trabalhos, visite, clique na imagem.

Espelho da sala

Tenho sempre a noção da volta. O corpo quente, as idéias fervendo, ventanias no sol da manhã. Temo sempre a noção do tempo. O dia passado, o beijo não dado e aquela promessa de encantamento fazendo dobra no cair da tarde. Tudo o que eu mais queria era o silêncio do perto e o olhar cansado de outras páginas.

 

Preciso rever a estrada. Desarrumar velhos mitos e entender que a palavra chave é sempre aquela que não posso reproduzir. O vento encalha a folha seca na porta. Não adianta abrir, encostar o timbre no dia e chamar o nome dele. Algumas palavras são indivisíveis em qualquer compasso. As esperas são espinhos escondidos na pele quase imperceptíveis.

 

- o que te falta que te agride a alma? em que parte da arrumação da casa perdeste o novelo da volta?

 

E ainda. Quando todos os contrários repetem a mesma cena. Uma. Duas. Trezentas mil vezes. O mesmo vestido azul, o ano que se repete ano após ano. Todos os fogos que se acedem quando o ano finda, eu acendo uma vela dentro de mim para os mortos que nunca morreram demasiadamente demais para enterrá-los.

 

Pego a palavra e soletro. Foto antiga, beijo colado na tela. Voz do outro lado que treme. O coração pipocando um compasso meio louco e tímido e a vontade de dizer, me chama, que eu vou.

 

O dia não pára e os arremedos histéricos da impaciência querem todas as respostas instantaneamente. O que eu guardo é o presente mais caro. Não há devoluções quando a carne arde e pede. E se tudo fosse apenas o holograma da fala? Decorei a geografia de tua pele para poder falar em francês. Aprendi a geometria do olhar para decifrar os teus nãos.

 

Quando disseres o nada saberei que o rito é o contrário. E quando a pele soltar brilho, saberei de ti quando o dia acabar à minha volta e o final feliz se desenhar no azul que nos guarda nessa fala que me cabe.

 

De tudo o que mais possuo é o não lugar e a casa que compomos juntos: tapetes e sonhos espalhados na sala, uma televisão para entender a rua e passos que reescrevem labirintos azuis.

 

Deixei dormir o filho que não tivemos. E quando ele tiver menino, contarei as suas estórias de Dom Quixote enquanto ele se veste de lilás e quereres. Ensaiarei seus primeiros passos nas marcas dos teus pés no meu próprio corpo e te esperaremos ao anoitecer, o teu amor e tua melodia.

 

Tenho em mim que todos nos silêncios são orquestras de esperas. E que os dias lá foram expõem dos dentes à mostra como leões que matamos todos os dias.

 

A saudade tua é esse bicho feroz que mato todos os dias. Resta a palavra-presente embrulhado sobre a penteadeira com o livro que não te dei. E ainda assim, o meu instante é o azul que espera estorinhas de fadas na hora de dormir.    

Miguel, mandou, eu obedeço

Há uma brincadeira rolando, Miguel mandou, então eu obedeço e respondo também.

 

Descreva-se

 

Sou uma mulher que ainda não cresceu, mesmo que o tempo e a vida tenham se encarregado de marcar o rosto e o corpo. Não tive infância, muito menos adolescência. Mas não me ressinto disso. Tive que ser adulta aos sete anos e quando alcancei a idade adulta, descobri que estava entrando na adolescência. Gosto de estudar, gosto de ensinar, gosto de ser eu mesma, mas isso quase sempre nem é possível por viver em um mundo cheio de regras e de valores que nos encaixam dentro de prateleiras com rótulos que muitas vezes nem cabem na gente. Eu não me adequo a rótulos nenhum, eu não tenho ódio, nem invejas, nem raiva, mesmo que me ire algumas vezes. Creio em Deus. Tenho uma sensibilidade cristã que me faz chorar e pular de alegria na presença de Deus. Eu sou Dele e Ele é meu. É o meu melhor amigo, é o meu marido, é meu irmão: Deus é tudo e todos as minhas perguntas e voltas. Todos os dias reconheço em mim uma outra pessoa e me reconstruo nela e me refaço todos os dias para não ser nunca igual a ontem. 

 

O que as pessoas acham de você?

 

Como vou saber? Pouco sei de mim. Sou metade do que pensam que sou. Mas não me importo muito com isso.

 

Descreva o atual relacionamento

 

Um bonito sonho, a esperança da confiança, da sintonia, da companhia à solidão, ainda que seja apenas um desejo.

 

Descreva a ultima relação

 

21 anos. Dois filhos perfeitos. Um grande aprendizado, afetividade, amizade.  Eu cresci apesar de ainda ser menina. Eu cresci e deixei de brincar de bonecas.

 

Onde queria estar agora?

 

Numa praia. Rede na varanda. Alguém interessante na cozinha preparando o almoço. (ora, quero ser rainha por um dia).

 

O que você pensa sobre o amor?

 

Ainda é o equilíbrio que sustenta o mundo em fios invisíveis. O amor pra mim é Deus.

 

Como é a sua vida?

 

De muita luta e muitos fios invisíveis conduzindo os meus passos. Eu amo. O tempo todo e tudo o que faço.

 

Se tivesse direito a apenas um desejo...

 

Não posso ser Deus. Não pediria o que já está determinado. Não posso acabar com a fome no mundo. Nem posso endireitar os caminhos tortos dos homens. Mas é só um desejo? E quem o me daria? Se fosse concedido por Deus, eu desejaria o fim do tráfico de drogas.

 

Uma frase sábia

 

“Suportai-vos em amor”.  Frase Bíblica.

 

Uma frase para os próximos

 

Conheça Deus além do que se diz por aí.

 

Indicações;

 

Cherry(Cerejinha), Loba (BH), César (Avesso)

Fotoimagem: Antonio Guimarães

Dos mil desejos, apenas um.

 

 

Se chamar o seu nome a minha pele responde entre as marcas das tantas algemas dispostas nas portas das minhas saídas e do tempo que faz questão de anotar dia a dia as dores que nos causa ao longo da vida. Não é possível desvencilhar das margens e eu me disfarço muito bem das minhas faltas. Sou intérprete de minha solidão e nunca desafino quando em frente ao que mais temo. Não abro todas as portas para não me soltar eu pássaros.  Em mim as falas resultam desejos. E os desejos são reservas das invernadas que atravesso sozinha. Desejo da casa, da caça e da pesca. Desejo de gozo e de descanso. Desejo de soltar a língua e o verbo e ser livre colada à boca dele sempre tão convidativa e insegura.

 

(tantos desejos traçam caminhos difícieis de cumprir-se: em mim todos os dias acordam manadas correndo em desespero, fugindo do tempo, pulando as cercas, correndo além de pastos. bichos de todos os tamanhos e cores combinam entre si dilatando minhas ilhas. eu tenho todas as faltas do mundo e todas elas descrevem apenas um nome).

 

Imaginei que recuperaria o fôlego longe do toque, mas as senhas e as palavras que abrem espaços eram todas nativas daquele olhar. Menino safado que me tecia silêncios e taras mas nunca promessas. Dificilmente sobreviveria àquele abraço bom de reencontro. Tantas vezes tentando fugir e milhões de vezes desejando aqueles braços. Eu me reconstruo todos os dias. E todas as noites, desfaço-me retornando sempre ao pó para acordar outras manadas no dia seguinte.

 

Todos os dias reescrevo o meu próprio nome em vários tons para nunca ser a mesma, conservando a essência de fênix. Sou eu mesma e todos. E quase sempre, sou eu mesma de um lado e outro do tabuleiro. Cheque-mate de mim e de meus conflitos.

 

Quando minha pele soletra o nome dele, nem importa se ele responderá ou não. Se me tocar, sou toda braile e se sorri, o óbvio é a minha falha, o ponto em falso. O suficiente é a música que toca meus dentes e mordem a falta. Eis-me farta da imagem dele. Minha pele sabe bem o caminho que trilha quando soletra as ausências e eu sei que antes só, num deleite de lua cheia e desejos, que a presença sempre tão inquieta e ausente dele.

 

Sei da promiscuidade dessas margens e dos atalhos que decifro sem querer. Fazer o que se tudo em mim é trilha em matas fechadas? O meu corpo acostumado à companhia da lua, entende bem que esperas se tecem com fantasias. É preciso tecer o sol todas as manhãs para inaugurar algumas melodias e noites de luas cheias.

 

Sem a minha própria pele, nem o nome dele eu decifraria.

 

O melhor dele é o meu pensamento nele. Mata virgem. Palavras guias. Mentiras que ele não disse e aquela boca sempre tão perto longe de mim. E sei dos atalhos e quase sempre recuso parábolas. Pressinto as claras e prefiro chamar o seu nome, como quem resiste ao encantamento das sereias. Finjo que estou dormindo para que o ontem não me assombre e eu ainda imagine que estou à sua mercê, tapete por onde ele pisa e massageia com botas de cano alto.

 

Quando me toca, ativa as defesas, acende os faróis, põe vigia em minhas torres. Eu sou a menina dele, esperando o colo e os perigos do sim. Nunca mais me dispus a enfrentar o os riscos. Os cabelos em concha me prendem a outros armários e eu o espero, silêncio  (mas nunca cativa), como ladrão no meio da noite a encantar com a palavra mãe que põe panos quentes em minha nuca e me despe de esperas de multidões. Sim, eu tenho todos os desejos repletos e nenhum à mão da sensatez.

 

Fazer o que? Madalena é assim. Não me estranhe. Sinto desejos quase insuportáveis de conter. Resisto à mão dele, apenas quando farta de muitas luas. Mas quando deserto, as suas mãos abrem em mim outros atalhos. Ele conhece todas as chaves e se atrapalha na hora de abrir.

 

(não levanto bandeiras, não grito palavras de ordem. Minha política é desejo e a minha fala, minha questão de pele).

 

Sou sempre porta, deixo ferrolhos invisíveis para casos de guerra, apesar da língua presa e da alma que responde pelo desejo. Apenas um desejo entre tantos mil que responde pelo seu nome.

 

Dira Vieira


P.S. Resultado da primeira aula de Seminários Avançados II (Doutorado em Sociologia - UFPB) do Professor e mágico das palavras: Adriano de Léon e Prof. Artur Perrusi. Impossível sair de uma de suas aulas sem ter a cabeça fervilhando de idéias e questionamentos. Adriano nos dá o roteiro mas sempre torce para que sigamos outros.

 

 

Tempo de frio

 

Fiquei lhe devendo uma carta, um choro, uma despedida, sei lá. Ontem pensei, ao ler um bilhete seu que não nos despedimos. A rota de sua boca quase encostou na minha e eu bem que silenciei o mundo ao redor para receber os seus lábios. Não houve volta e nem ida. O silêncio foi mais duro que cortar os pulsos ou jogar-se de uma ponte. Eu bem que me avisei, não entra nessa Madalena, não entra. Mas como sou teimosa, traço os meus motivos, especulo minhas trilhas como quem caminha lentamente e com muita fome para o matadouro. Eu bem que adoro arriscar a pele, quem sabe eu não me dou bem e acho o pote de ouro no fim do arco-íris?

 

Dizem que a poesia existe. Eu até tentei acreditar nisso naqueles dias. O homem me esperava aflito; a minha pele pedia a sua, o corpo, a alma, as palavras se demoravam no camarim preparando a melhor fala para dizer o que sabes decorado. Tinha o vocabulário da paixão como um rosário meticulosamente guardado dentro de mim. E eu beata de suas horas marcadas e aparições no meio do dia corrido. 

 

Quando o dia amanhecia eu já me imaginava sua, poema partido, trabalhado em uma página colorida por onde me tocavas. E como me tocava bem ... Sua língua tinha uma sinfonia especial, eu esperava acordá-lo em mim para que me tecesses o dia e o quanto me esperou a vida inteira.

 

Não tivemos tempo de tecer angústias. Ao seu lado, em distância segura, eu tecia outras paisagens rupestres, desenhos que fazíamos na voz e nas promessas de acasalamento. Eu fui sua, mesmo quando não era presente naquela folha de papel desenhada no meu corpo. Todos os dias me recompunha as folhas e me fazia florescer em seus dedos. Cada frase, cada promessa, cada verso era balada de mascar mentiras.

 

Eu sempre fui nossa. Mesmo quando nem nos despedimos e eu sabia que nunca mais ouviria a sua voz me chamar pelo nome. Decorei suas falas, suas rimas e o seu cheiro e nunca mais viram Madalena bailar a meia noite. Decorei seus pedidos de socorro, suas angústias, sua solidão sempre tão impossível de compor. Decorei o seu sorriso e seus pêlos. Desconstruo em mim, dia após dia, o desejo e a vontade do dia findo a repousar no seu colo o meu cansaço.

 

Sou sempre idas, peito aberto a outras quedas mas nunca me desfaço do mote de esperá-lo na rua. Novas cenas abrem outros abismos e ainda assim, ofereço os pulsos à palmatória, ainda que o nada aconteça e os espasmos seja mesmo da minguante fala que nunca quis mais que as margens aos sacrifícios de coragem.

 

Se é que me sabes, hoje é um tempo de frio, de recolher-se às cavernas e de curva-se longe das tempestades. Um tempo hábil de dar adeus e querer. Um tempo de pensar em você e ensaiar desculpas para essa despedida. Quem sabe assim arrisco outras curvas?

 

Madalena

Solidão de esfinge

 

tenho a sensação de um silêncio em preto e branco que sensibiliza os meus dedos. doi tudo em mim como se a falta dele de repente viesse à tona em alguns poucos minutos em que vi a sua silhueta passar por mim. era ele mesmo ou o meu desejo tomando contornos de alma e vindo assombrar quando a noite entra na segunda parte da madrugada? nem me dei conta que alguns anos passaram rápido demais. dos filhos que não tivemos um se chama azul e a outra, pequenina e com a cara dele, tem a poesia e a fala mansa dos vermelhos que acendemos. temos dois filhos que nunca existirão e ainda assim me sinto órfã da falta de esperança de sobreviver à solidão. faz frio nesse corredor de ônibus no meio dessa noite e campina grande abre as portas para o inverno de palavras.

era azul celeste mesmo aquele vestido que ele me deu?

sinto que perdi algumas cenas desse velório. não chorei todas as lágrimas, não enterrei todos os mortos, nem ousei missas de sétimos ou outros dias. eis-me ainda aqui, na rua, cabelos em lilás e a frase solta que nunca mais conseguiu outras rimas. o rosto dele e a barba por fazer fazem cosquinhas em minha memória e lá vamos nós sozinhos novamente para o século passado em eras medievais... sinto-me só como a esfinge plantada na sala de minhas angústias.

Madalena

Banho
(Rural)

Zila Mamede


 De cabaça na mão, céu nos cabelos
 à tarde era que a moça desertava
 dos arenzés de alcova. Caminhando
 um passo brando pelas roças ia
 nas vingas nem tocando; reesmagava
 na areia os próprios passos, tinha o rio

 com margens engolidas por tabocas,
 feito mais de abandono que de estrada
 e muito mais de estrada que de rio

 onde em cacimba e lodo se assentava
 água salobre rasa. Salitroso
 era o também caminho da cacimba

 e mais: o salitroso era deserto.
 A moça ali perdia-se, afundava-se
 enchendo o vasilhame, aventurava

 por longo capinzal, cantarolando;
 desfibrava os cabelos, a rodilha
 e seus vestidos, presos nos tapumes

 velando vales, curvas e ravinas
 (a rosa de seu ventre, sóis no busto)
 libertas nesse banho vesperal.

 Moldava-se em sabão, estremecida,
 cada vez que dos ombros escorrendo
 o frio d'água era carícia antiga.

 Secava-se no vento, recolhia
 só noite e essências, mansa carregando-as
 na morna geografia de seu corpo.

 Depois, voltava lentamente os rastos
 em deriva à cacimba, se encontrava
 nas águas: infinita, liqüefeita.

 Então era a moça regressava
 tendo nos olhos cânticos e aromas
 apreendidos no entardecer rural.

Intimidade
 
eu passo em riste
o dedo que me aflige
minha melodia é quanto
o meu verbo
é embrulho de um cinema mudo.
 
-  teço intimidades
com a solidão -
 
 
Dira
Olhando para trás

Não localizei o autor dessa foto, quem souber, por favor, preciso dos créditos.

Madalena é resolvida. Na cabeça, atitudes, no que quer da vida. Resolve as situações como quem arruma o leque sobre os ombros e sorri para a câmara. Debulha as palavras com maestria e ri de si mesma quando se imagina uma atriz. A atriz que esconde em si a menina que nunca deixou de ser.

 

E estava ali... Diante dele. Resolvida? Nem tanto. As mãos, suando, o olhar desviando, as imagens de um tempo ontem bailando na sua cabeça. Queria aquela boca... E queria de novo a vida que ele injetava naquele encontro casual. Não programara nada e se tivesse feito, talvez não tivesse sido tão bom. Tantas coisas a contar... Tantas. O pensamento dela criava o palco, mesmo que fosse para um monólogo secular. Estava acostumada a desejos de mão única, mas quem poderia decifrar o poema que se erguia entre as suas lembranças? Madalena deslizava suores frios e tremia com o gelo da sala. Não gelava dentro dela... Sentia sim pontadas na carne de um sentimento que não conseguia decifrar. Seria justo sentir tudo aquilo, tantos anos depois? Não poderia responder e mesmo que tentasse, não aceitava o papel da menina boazinha e compreensiva que lhe nomearam a vida toda. Ali era apenas a Madalena afoita de sentimentos fortes e desejos nada comportados.

 

Uma atriz. Tinha que conter as vontades sufocando a pele e as mãos que desejavam aquele rosto. A imagem era a mesma de tanto tempo... O menino doce de mãos ágeis, e o ventre de Madalena ávida dos filhos que compuseram juntos. Sinfonia tardia. Gozo protelado a um tempo que não foi possível encenar juntos. Parecia um sonho. Teria direito àquela reprise?

 

Se fechasse os olhos, enquanto o moço se movimentava em outros mundos à sua frente, poderia (e tinha o poder de) tocar a alma dele. O moço ainda usava as calças apertadas que mostravam o peso das pernas e um caminhar que traduzia a saudade grande que ela encenava diante dos olhos. Lembrava o jeans surrado de outros tempos e o sonho de vencer o mundo, a partir do nada que tinha nas mãos. Não queria sair dali. Nunca mais. Teria que se acostumar àquele olhar pequeno do homem que subiu às nuvens, mas continuava o megalomaníaco adoravelmente insuportável. Ele podia tudo. E era dor saber que sim. Madalena sabia bem.

 

Inquieta, tentava a melhor posição sobre as nuvens. Não poderia ser diferente. Cada passo que ele dava sua cabeça de menina rodopiava. Não poderia levantar naquele momento com a sensação de que cairia a qualquer momento. Mesmo que tudo aquilo não passasse de uma ilusão da adolescente que acalentou por tantos anos.

 

Quando finalmente levantou para ir embora, todo o seu corpo disse não. Madalena lutava dentro de suas cavernas para continuar fiel a si mesma. Fiel a tudo o que se negara por tanto tempo. Precisava ir. Precisava olhar para frente numa releitura de possibilidades e realidades. Mas como poderia se e ele ainda a olhava com a mesma poesia? 

 

Quando ele sentou no sofá, insinuando mais tempo de conversa, Madalena fingiu pressa para resistir a proximidade e intimidade que se anunciava tardia naquelas mãos tão próximas de si. Capaz de trair-se se sentasse ali, pertinho da boca que lhe dizia saudades e dores. Apertou as mãos, soluçou o tempo gasto e finalmente acordou daquele momento quando a calçada era a fuga perfeita para a realidade. 

 

Corre, Madalena, corre. Faz um verso, pinta um poema, qualquer curva é melhor para todos os segredos. Corre, Madalena, corre e salva a tua própria pele, ao menos uma vez na vida.  

Deitada

milnoites.jpg

Fotografia de Graça Loureiro retirada daqui

O dia se levanta sobre sua pele como uma cobra que se revira enquanto digere o último alimento. O corpo não responde e o burburinho da manhã lá fora bate na janela como pedras jogadas contra a vidraça. O coração demora a acordar as páginas deletadas do tempo que urge na calçada do ontem. Mas nada disso importa a Miguel que se debruça na varanda para ver o dia acordar.

A palavra, língua solta e úmida, conta dos segredos da noite anterior. O vinho, a meia luz, a gargalhada solta da moça (o cenário perfeito para o encantamento), entoavam o som ambiente para o encontro perfeito. Sem rimas, o verso só quebrava quando a última barreira, onda quebrando na praia, esbarrava no céu daquela boca ainda úmida de tanto repetir o nome dele. Ah, Madalena, Madalena, que delírios esconde essa mulher na qual a ausência de todas as culpas a levam para o sim, sempre que o dia se levanta em seu querer.

Debruçado sobre a varanda a esperar a noite, deixa transparecer outro mundo além do balcão da recepção. Citou-a como namorada e depois ficou pensando realmente o que ela seria naquele momento em que todos os seus ossos, células, medula, fios de cabelo, eram de Madalena e apenas dela. Corpo moreno que compunha a cena daquele quarto, onde, na noite anterior, estreara o seu melhor disfarce sobre ela. Não conseguia ser o seu dono, nem ele mesmo pertencia a si ao lado dela. Madalena era livre. E ao seu lado era apenas a materialização dos desejos dela. Madalena era a senhora de todo aquele momento, ambiente, sonhos dele. Os sonhos de Miguel vestiam uma camisola vermelha curtíssima de renda e uma boca que sorria enquanto dormia.

Voltou para dentro do quarto. Viu-a dormindo mas não como um anjo. Além disso. Madalena era a extensão das suas mãos que tateavam nela a esperança dele mesmo existir. E se ela fosse um holograma, Miguel, o homem da varanda, seria também uma ilusão da palavra marfim?

Sentou-se ao lado da cama. Pegou o violão pois sabia que ela gostava de vê-lo tocar. Viu-a chorar na madrugada e ficou em silêncio para não entrar de sapatos em sua vida. Por muitas horas, evitando magoá-la, ou invadi-la, desejou sua boca em silêncio, desenhou seus lábios com os olhos e não ousou roubar-lhe beijos. Antes assim fosse. Um ladrão. Bandido impiedoso que invade o corpo alheio sem pedir licença e deixa a vítima violada e apaixonada. Mas ele não era assim. E talvez faltasse um pedaço por não ser comum a todas as eras. Miguel era único como Madalena alí, deitada naquela cama, como se a manhã não tivesse poder para acordá-la, nem senha para abrir o que ela tão bem escondia. Quem era essa moça que dormia como uma ninfa naquela cama? >  

Miguel tocou a canção dela. Não seguia nenhum código, nenhum ritual, nenhum manual. Ele seguia a si mesmo e àquele ímpeto de vê-la acordar suavemente sobre a cama macia. Tocava o violão com tanto respeito que as notas musicais eram como um coro de muitas águas. Seu corpo todo era cachoeira descendo despenhadeiro.

Sua namorada. Pensou e rejeitou a possessividade no mesmo tempo. Não. Madalena era dela. E ele nem a si pertencia. Ela era a namorada dos dias dele. Constrangimento na hora em que o recepcionista perguntou quem era a moça que entrava com ele. O rapaz apenas queria saber o seu nome para o registro obrigatório e Miguel entendeu outra coisa. Não sabia responder.  Quando ela entrou no saguão do hotel, todos pararam para vê-la passar. Não era bonita. Ou não tão bonita para isso. Mas Madalena chamava a atenção pela sua sensualidade e meiguice. Era ao mesmo tempo uma mulher e uma menina. As mãos pequeninas, o corpo quase perfeito. Era na sua imperfeição. Miguel se deslocava quilômetros para vê-la, anualmente. Qualquer sacrifício seria pequeno para ouví-la rir, contar o seu dia, dar gargalhadas já "altinha" por três taças de vinho. 

Miguel a queria mas não sabia exatamente como isso seria. Nem poderia, Madalena está acima de todas as leis. Aprendera a vida toda a exercer o poder sobre os outros (e a deixar-se dominar por pessoas, sentimentos e situações) ou sobre tudo o que tinha. Com ela aprendera outros tons, outros verbos e algumas palavras perderam o sentido quando finalmente tocou aqueles lábios arredondados que sempre desejou. O beijo daquela moça o suspendia do chão. O toque da língua, o cheiro, as mãos por dentro do cabelo e a entrega que a tornava promessas e desafios.

Madalena lhe ensinava todos os dias a reverter a ordem das coisas e a fazer poesia concreta quando as suas mãos contornava os sonhos dele acariciando o seu ego e injetando vida em suas veias. Naquele momento, deixava que ela se fizesse cenário para a melodia que sussurrava para despertá-la. Miguel era ridículo apaixonado e nem fazia questão de não demonstrar. O amor daquela moça lhe vestia de sonhos e adornava as manhãs em que fugia do mundo para vê-la naquele quarto de hotel.

De qualquer maneira queria ser ali, aquele momento, ao lado e dentro dela porque era apenas assim que se traduzia.


Para os homens sensíveis que quando amam, se desprendem das dores do mundo. Dentre os que conheço e amo: Miguel, Luis, Nélio, Paulo Sérgio, Zeca, Isaque, Marco, César (aldeias).

Na arena

Imagem: O fantasma da Ópera


Alguns pedaços em Madalena são como gomos de uma laranja, o suco escorre como se o mundo fosse um espremedor agressivo e impiedoso. E é. Ela deixa escorrer o medo e desfaz-se em voltas que as rimas soletram em sua cabeça – há ventos no céu da boca quase insuportáveis de administrar, ela comanda os próprios furacões e nada posso fazer daqui de fora, já que todas as suas falas pronunciam o nome dele. Anda sozinha, sorri sozinha e as vezes até enclausura-se em multidões de si: cada passo é em falso e um abismo completa o outro em prosa. Conta estórias que não quer esquecer. Não pode reativar os laços porque na verdade, tudo nela é o contrário, deslizantes desejos. Inspira-se na falta como se a palavra dele fosse cântaro onde ela bebe, diariamente e em silêncio mortal. Não quer que ele saiba que é sua sombra, gosta do silêncio e do moço quando a saudade é poesia concreta ardendo suavemente na boca.

Madalena cansa das escolhas que faz e mete o verbo no chão com medo do que é possível, como se isso fosse restos de idéias e relatos de suas paixões. Todas as palavras se ressentem da inspiração que só ele lhe sussurra. (E quando voava ao lado dele, nunca a inspiração foi tão farta e a alma tão leve nas promessas dos beijos futuros). E se não fosse aquela música, poderia ser algodão doce na paisagem?

Ela finge que nem lembra, mas cada vez que olha, o atrás é reflexo e pesadelo. A boca dele em concha é o alimento tátil e a sua prestação mais sofrida. Não pode pagar sozinha por todas as culpas. Eu sei. Mas ele não sabe. Quando o amor resseca na boca, é necessário antibióticos miraculosos para sarar ausências. Não sei como sobreviveu sem estrelas até agora. Ela é forte.

Quando caminha, a volta é o frio e todas as portas traduzem gritos. Quem é ela para compor o intervalo e pedir que ele olhe o ontem? O que sente já nem faz eco, e o que soletra já não escreve o nome dele porque esqueceu suas vogais. Uma lacuna e um verso não escrito, milhas e milhas de rimas que tentou compor e era cara aquela falta. Ele é prosa quando se mostra poesia nos olhos que brilham e sorri no momento exato do quando. Mas Madalena não separa a prosa da poesia porque nela, tudo é prazer sem forma.  

Há curvas no tempo e todas as vezes que tenta, o soneto é tempo no verbo passado, que bem podia ser perfeito.

(Uma roda de amigos, conversas ao vento, o pensamento nela, e o moço sentado na frente da televisão compunha uma novela que nunca teria final, muito menos feliz. Esqueceu que não sabia inglês, e o The End ficou sem eco, pixado no muro em frente ao impossível).

Madalena se ressente do que não viveu e a sua alma soletra a poesia rota que o tempo atropelou e marcou a carne viva.

Toda vez que canta pensa no ontem. E cada vez que grita, as paredes de sua pele reeditam o dia em que, o que não volta, fez sombra em uma eternidade. Nunca esquecerá que no abraço descobriu outros mundos e outras paisagens invisíveis. E isso será imputado em sua culpa para o sempre. E o presente dado, não pode ser devolvido, porque já pertence ao cenário de um espetáculo sem estréia. Vive os fantasmas e o personagem principal que não rende bilheteria e nem fama.

Repete as cenas, reescreve diálogos, relê o passado: toda a falha é síntese que não consegue reemprimir daquelas páginas arrancadas bruscamente. O livro é antigo, e a história sempre começa pelo fim sem direito a reprise de inconseqüências. Ainda bem que o beijo quando nunca, repete-se no final. E o dia ditava a hora em que podia dizer eu te amo com a voz entrecortada pela dor do longe.

Madalena tem sonhos em vantagem e toda intenção é o receituário de escolhas. Sabe o que faz todas as vezes que volta. E a essa despedida arranha na pele como viagem sem fim – o bilhete é só de ida e o destino, incerto.

Em todos os dias em que não se desenha na fita, Madalena é angústias de uma alegria passada. Não se pode condenar o tempo por promessas não pagas.

E se ainda tiver fôlego poderá refazer-se palco e brilhar o neon de seu desejo. Haverá sempre outra platéia e um autor em busca de falas. 

Faminta

Imagem: Victor Melo

 

Madalena tem fomes quase maiores que ela. Quando caminha, metade dessas fomes caminha a passos largos atravessando as suas pernas e falando alto como se quisesse duvidar dela. Não sei se tenho pena, ou se eu também queria a sua fome diária de querer o amor a roçar os meus cabelos e tocar a minha boca enquanto me arruma numa poltrona de viagem ao lado dela.

 

Ontem me falou dessa fome que não consegue controlar e nem denominar, como se pudesse enfileirar, emprateleirar, ou coisa semelhante, as suas vontades. As suas necessidades de amor, chegam a doer no estômago e ela se parte em duas quando está em crise. Falou-me do moço ao lado dela na cama. O sono, fechando os olhos após o amor e Madalena querendo mais, sobrando na cena e na paisagem. Queria mais suor, queria palavras ofensivas, ou carinhosas, queria barulho no quarto de quem ama como animal. Na verdade, Madalena sempre quer o que está além da escrita e da descrição do autor. Queria muita festa, e talvez o que ouvisse o tempo todo fosse o silêncio de quem pouquíssima coisa tem a dizer. Isso dói em seu estômago, porque ama com as vísceras e quando se entrega, chega a sangrar a sua carência. Madalena é faminta e eu nem sei se a culpa é dela mesma ou dos outros que não se entregam na mesma proporção.

 

Enquanto viajávamos ontem me contou do moço, e do outro e do outro. Dos sonhos e das apostas que fazia quase sempre para perder. Ela não se importa com isso. Paga o preço, como eu disse, paga com a dor de talvez não acertar o alvo e cair de cansaço.

 

Dessas fomes, que por vezes a derruba na cama e a faz comer chocolate por horas a fio, sei que caminha para o pior. O pior de quem tece castelos de areia e de vento. Menina sozinha. Enquanto ele dormia, Madalena o olhava faminta, com os olhos cheios de lágrimas, imaginando que talvez aquele momento fosse o último. Nem se desse a sua alma, alcançaria o outro que de tão alheio, nem perceberia que ela chorava quando vestiu a roupa e insinuou ir embora. Não queria ir, claro que não. Talvez o mínimo que esperasse era que ele disse não, não vá e ela fingiria resistência mas por fim, deitasse ao lado daquele corpo, que era apenas o corpo mais especial que já tocara. Mas era só isso. E Madalena tem fomes demais para contentar-se com o corpo, o suor e a alegria do prazer no durante.

 

Queria o que estava por trás, atrás da porta, debaixo do travesseiro, por baixo das cobertas, do edredom. Queria a palavra não dita e talvez a dor de partir sem ouvir o que dizia por tantas vezes e o tempo todo. Eu te amo. Madalena gostava de repetir na intenção de que o outro aprendesse e sussurrasse para ela. Sim, ela amava, mas a fome que tinha, pouquíssimas pessoas a saciaria.

 

Enquanto me contava, percebi que chorava e massageava a barriga mostrando onde a fome se instalara. Fome de tudo, de olhos, de bocas, de palavras, principalmente palavras que dissessem a ela mais do que ela pretendia ouvir. O mundo inteiro é pouco para a fome de Madalena que se instala além do ventre e vai muito mais fundo do que qualquer raio x possa expor. Quando ama, costuma abrir as comportas e como as chuvas são temporãs, não há represa que a comporte e nem tão pouco, mãos que se adaptem à sua boca, saciando a sede e a fome de todas as ausências. E mesmo assim, me admiro de encontra-la sempre terra fértil e preparada para gerar todos os frutos de que necessita.

 

Quando o moço dorme e sonha, Madalena derrama rios e deseja margens, corpo aberto na expressão de quem espera. Mas que o desejo, mas que energia, o que está invisível talvez à cena anterior ao toque de midas. Madalena é mata fechada, vontade selvagem de quem viverá seus silêncios e noites sem lua. Nas clareiras que abre em si mesma, Madalena é foco, fogo predador e fêmea e não há quem possa com isso.

 

Dira Vieira

Hora marcada

Reinventei os dias quando o tive entre as mãos: poesia a cumprir-se como profecia. Hei de te amar enquanto o sopro me doer nas narinas e quando o tarde se fizer hoje nas noites em que fechamos os olhos para suspirar. Sim, eu reinventei a poesia no cheiro, no hálito e na sintonia de ouvir a tua voz, melodiosa canção de ninar enquanto eu sussurrava milhões de vezes o teu nome para acreditar.

 

Hei de te amar, quando o sono não vem e o relógio avisa do dia amanhecendo como um enfado e nenhuma vontade de levantar. Se o tempo se fecha, se o riso é um choro abafado e se os teus olhinhos me pedem alegria quando eu sei que aquele tempo é o que me desenhas instantes sem promessa, sem registros fotográficos, sem nenhuma marca de descontentamento.

 

Hei de descobrir a porta para o ontem e o verso contorcionista que segura os dias e revela-se no momento do deixar partir. Deixa eu ir, deixa. Ensina para os filhos, que nunca terei contigo, o quanto de nós que era vidro e nunca quebrou nas tempestades de silêncio. Conta para eles, que nunca virão, que o teu pelo era a minha pele e a tua boca, o mapa dos meus encontros e bússola de perdição. Conta-lhes do teu desejo de como soletramos pesadelos, bocas, dedos, camisola de dormir e o teu pijama de bolinhas que eu vesti sem sentir. Conta tudo. Conta. E não me deixas mentir. Conta de quantas vezes, para fugir, vestimos os avessos e em contrário e nos confundimos entre as nossas pernas quando éramos apenas vontade e fome de nunca existir.

 

Enquanto isso derrama em mim essa saudade, o suor descendo pelo teu rosto, cascata de desejos alimentando minha boca. Do que nunca perdi por não guardar como marca em um anel que brilha no escuro trago os traços do teu corpo, caminho de ilhas e parágrafos, tempo final de todas as lutas.

 

Já é tarde. E enquanto arrumo as malas, desembaraço o cabelo acostumado aos teus dedos, me alimento da devoção com que me olhas, saudade e pedido de não vá e eu fecho os olhos para acordar mais viva dessa angústia que é dizer adeus quando a tua boca me morde o céu da boca e eu agradeço a Deus o sopro da vida.

 

És a tatuagem mais perfeita e que me descola assim, de mim, quando em todas as fases me fazes lua ao teu bel prazer e majestade. E eu, a rainha confusa, letras formando nuvens no azul céu enquanto esquadrinhas e prendes a minha alma na tua canção.

Silêncio nas curvas

Imagem: Cássio Murilo (Santa Luzia, Paraíba)

Madalena estava sem ar como de costume. Quando o emocional se abalava, sentia o ar faltar-lhe nas narinas como a palavra que lhe salivava vida. A boca seca e a língua se enrola em um ritual assombroso de quem procura o chão e encontra vazios.

 

Sentou-se na praça. A noite silenciada por uma chuva fina, transparente, caia ao seu lado, sem que tocasse os seus cabelos em chapinha – vez por outra, Madalena discute a relação com os seus guardados tamanha a dor que sente sozinha, sem compartilhar com quase ninguém, senão os amigos invisíveis que coleciona para momentos como esses.

 

Abriu-se como bolsa a procurar alguma coisa ansiosamente. Procurava frases, bilhetinhos deixados sobre a sua mesa do trabalho, promessas, sonhos de menina, uma criança que não conheceu exatamente o frescor das manhãs em um parquinho infantil. Quis encontrar o beijo prometido, a chuva fresca, o brilho no olhar, a ousadia invadindo a blusa e o escuro da noite. Quanto mais procurava, mais se agitava ansiosamente. O ônibus que se perdia na escuridão da madrugada não estava ali, dentro dela, em um folhetim em reprise. Queria tocá-lo imensa e silenciosamente, mais que tudo na vida.

 

A chuva, usando de todo o senso comum, curva-se diante da moça de cabelos nada ondulados, que sentava sozinha com a alma aberta em busca de traços do homem que conhecera há dias atrás. Teria sido mesmo o aquele homem ou outro avatar que saltara de dentro do espelho de Alice e lhe tocara como se nunca fora tocada? Madalena era uma página em branco, amassada e jogada no passeio público. O poema, que certamente teria escrito naquela noite ao tocar os lábios carnudos do moço, era agora, apenas um esboço suave na salivação incontinenti daquela hora.

 

A hora em que a despedida é apenas um aceno e um até logo, como se aquele encontro tivesse sido apenas e unicamente um meteorito no lugar errado e na hora errada, Madalena se ressente de querer sempre o impossível. Porque a pele e a densa nuvem que desce sobre os seus pensamentos descrevem uma cena sem atores e um palco onde apenas o desejo fez dueto de si mesmo.

 

Ontem ele era apenas um menino e Madalena especialista em descascar nuvens de fumaça.

 

Recolheu-se no banco, quis olhar para trás e lembrou-se do sal. Volte. Lembrou o pedido do homem de longe quando ela era apenas uma paisagem de sorriso largo e confissões infantis. A amizade desejava líquidos e sonhos da boca do outro, e o proibido se permitiu poesia solene de amores e os pés nos chão alcançando a liberdade.

Dira Vieira

Sexta-feira de todas as paixões

Imagem: Sérgio Pinto (Encontros e Desencontros)

 

 

 

Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Por dentro de mim, não sou sozinho, sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto minha história, me misturo, mulato não das raças, mas das existências.

[Mia Couto, "Afinal, Carlota Gentina não chegou a voar?", do livro Vozes anoitecidas, 1987]

 

 

Tenho medo de dormir algumas noites, como a de hoje. E quando o silêncio é a placa de vídeo prévio sobre o destino açoite, imagino o tempo que ficarei a sós comigo e com os meus monstros habitantes em mim. Melhor varar a noite e cair de cansaço para não ter que discutir a relação com os meus outros. A mulher mal amada que reclama de tudo e se sente só quando o dia é apenas um quadradinho riscado de tinta vermelha no calendário preso da porta da geladeira; a menina que saiu para comprar chocolate e insiste em que eu veja as variações de ovos que comprou para a minha páscoa; o homem que me chama de maluca, e vez por outra se espanta quando eu escolho o batom que ele usa; a mulher magra de boca carnuda que tem a pele em brasa e vive ao espelho retocando a palidez como se sentisse falta de outras culpas; a mulher gorda, sentada na sala comendo pipoca, insatisfeita, que morre de tristeza de não ser aquela gostosa que chama a atenção quando passa na rua, mas que ao mesmo tempo se sente feliz por ser a que melhor goza e que não se rejeita, quando ama.

 

Em mim, alguns personagens fazem plantão em noites de lua como hoje e esperam, horas a fio, que eu me disponha a ouvi-los, como agora em que eu me sinto rendida a fugir de todas as mãos de mim que puxam a barra do vestido que já foi azul só dele.

 

A loira que odeia ser chamada de burra; a morena voluptuosa e cheia de maldades; e a bruxa que errou a fórmula de todos os encantamentos e nunca conseguiu a poção correta e exata para acostumar-se quando o amor pede férias e sai a pescar. Todos esses eus me esperam à noite em minha cama, quando eu me encontro em dias como hoje, sem entender como alguns sentimentos se expõem e se retraem numa facilidade de perder de vista a noção do encantamento e do respeito ao outro.

 

- Era mesmo lilás aquela canção da madrugada em que me vestisses a alma e saímos para encantar? –

 

Tenho medo, nem vou negar, das noites que se vestem como a de hoje. Uma frieza de sentimentos que me enche os olhos de uma saudade infinita. É como não comer macarrão e não sentir a menor falta disso, já que ao meu lado tenho as marcas de todas as reivindicações de mim e de todos eus.  Não acreditar em luas cheias; não dar pérolas e nem beijos calientes em porcos que se reviram em suas poças de lama; não acreditar jamais no amor que pede um tempo ou tira férias e se vai; não mergulhar no amor que não se expõe, que não suja as mãos e que não derrama rios quando a saudade comprime o peito. Sei que de todos a Madalena é a que mais chora: puxa pelo meu braço, chora quando descubro os seus ritos e ainda se joga, peito aberto, vísceras à mostra, toda vez que ensaia amar e arriscar-se aos precipícios. Madalena sabe que nessas histórias de contos e fadas,  a bruxa é a atriz principal, e os sapinhos, apenas príncipes desengonçados e mal acostumados a fingir que beijam bem, quando na verdade, é Madalena e todas as mulheres em mim, que arriscam a pele quando o assunto é desvendar e virar a pele pelo averso em tatuagens que sangram poética e deliciosamente.

 

Os habitantes do meu corpo são prisioneiros de uma sexta da paixão em branco e preto no melhor estilo faroeste sem armas.

 

Visto o silêncio, como o dele, no mesmo tom, e antecipo a falta para uma madrugada íntima com a coragem que se veste em mim. Pelo tom da pausa, desconfio que o poema quebrou o verso e se afogou no nada. Não será possível destravar a língua nesse vazio de palavras vãs.

 

Dira Vieira

Mulher de tardes

Infelizmente não sei o autor dessa foto que capturei no Google. Se alguém souber, por favor, avise-me.

De faltas. a minha pele sente e me faz rosários de lamúrias quando o dia se veste de uma noite perdida. O clima que se abre pós sol, arrepia e me chama outros sons que eu desconfio fazer parte de minhas angústias. Relaxo as cores, abro um sorriso tímido e toco a pele para ver se transformo a noite em poesia e desperto anjos em mim.

 

De faltas, a minha angústia me enche de peles o peito e expõe os guardados nunca secretos que explodem sorrisos e gerânios de um tempo quase em meu coração.

 

- os pensamentos são como ninfas em uma floresta deserta, fujo deles para não acreditar -

 

Algumas tardes me cobrem com lençóis vermelhos, de cetim, e acendem outras intenções como se abrissem um livro e uma página manchada a dores com frases incompletas. Sou maré cheia ao fim da tarde, e um movimento de tocar e voltar em ondas me faz descobrir que estou mais viva do que morta em saudades.

 

Sou letras e rabiscos e um desenho ímpar sobre a pele das faltas escrevendo um nome que eu não consigo traduzir. Era ontem e o janeiro diria que eu sentiria essa falha em meu sistema de dados, mas era tarde para voltar atrás o que estava posto sobre a cama tão vazia dele.

 

De faltas, eu me traduzo outras línguas e em parábolas, me tatuo rede, rosto virado para o que não vejo e tento chamar a sua atenção: nem todas as línguas revelam o que só o coração dele d(e)ialeta para outras ilhas. Sou bug numa tarde de vermelhos e ardências e o mar fazendo voltas na pele em uma sinfonia minuciosa e íntima onde eu te traio em mim na presença da tua lembrança que se manifesta carinhos, redomas e hálito quente.

 

Sou tardes, hálitos, faltas, pele e um sonho reeditado ano após ano, contando-me desejos que neguei e que se acendem em detalhes todas as vezes que penso tecer.

 

De faltas eu me traduzo ilhas e uma saudade anelar me conta de promessas que prefiro esquecer. 

 

Dira Vieira

Atropelando as chuvas

 

Imagem capturada na página: http://i78.photobucket.com/albums/j104/poesia_portuguesa/Chuva.jpg

 

A tela que se mostra o lado fino do olhar é o outro e a sentença sobre a tez de Madalena é cruel. E ela é fria. Escolhe os passos que dará como quem escolhe uma peça de roupa para sair. E tem que ser assim, como o suave desejo que lhe percorre a espinha e é tão só dela o tamanho das asas que escolhe para voar nesse dia.

 

Quando o dia amanhece, Madalena é outra, em uma estação de trem distante de casa. Revolve os cabelos, olha a imensidão de uma estrada que deixou para trás. O que virá no depois?

Madalena é faminta. E quanto mais o dia vai chegando ao seu final, mais ela se agita como um leão em fúria dentro do quarto. Sua ansiedade geme, eu posso escutar de onde estou que todas as angústias dela dividem o seu corpo em partes de um quebra-cabeça complicado e difícil de atender. Madalena chove como um temporal que cai sobre a cidade deixando as ruas repletas de pedidos de socorro. E o que eu posso fazer da posição confortável de espectador?

Uma fúria feminina, inconstante e líquida me absorve e debilita. Exala um cheiro de fêmea. Doce cheiro. Desenha suas faltas em um espelho encardido na parede de um banheiro fétido na estrada. Entendo a sua angústia latente. Os lábios rosados perdendo o volume pelo peso da idade, e o corpo, tomando proporções que ela nega até a morte. Madalena é rio que corre sem represas... mas ela queria os braços dele a represar as suas ilhas: anda cansada de pastorear sozinha as suas falas.

Madalena é tola. Carrega a angústia de noites sem lua. E quando finalmente é lua cheia, treme dentro do quarto como se suas fomes fossem únicas no mundo. Sei de seus desertos e daquele moço que levou a sua alma azul de mil tons. Nunca mais a teve e sempre que se agita, sei que busca o azul dentro de si para sobreviver. Ultimamente, sua palidez desenha monstros em meu sorriso. Isso me assusta. Onde se perdeu, a minha menina?

Ontem foi assim. A noite descendo devagar como um manto enlouquecedor e Madalena esperando respostas na estação de trem. Queria a sua alma, como antigamente e a paz que a precedia nesses momentos únicos.

Na pele, as marcas em tatuagem falavam dele... Lembranças malditas de tardes sofridas, espaço em branco, lilás de palavras sufocadas e um desejo maior que tudo empurrando a sua vontade para pensar nele. Vai Madalena, só mais uma vez, pensa nele e morre. Morre de uma vez por todas, fecha esse capítulo, encerra essa cena e abre outra chance em seu leque de azuis perfeitos. Talvez fosse apenas louca, com uma insanidade pagã masoquista.

Das pinturas em quarto crescente, Madalena é o vidro que secou na minha melhor cor e tom e eu ainda nem explorei de todo a sua pele macia de suas valsas em tons semi-rosas. 

Quando o olhar é peixe fora do aquário...

 Imagem capturada nesta página

 

Madalena fixa os olhos no nada e passa a contar as palavras que saem do silêncio de Mário. Uma palavra, duas, interrogação, reticências. Não há em sua estrofe silenciosa nada que se possa formar uma oração. Há um desconexo de dúvidas a cada minuto.

 

Ela pára. Respira fundo e recomeça a contar. Para que criar uma novela nesse vácuo? Quando a noite de sábado se enrola em uma cortina de silêncio, Madalena realiza uma discussão acerca do vazio que se interpõe entre a sua ausência em si e a do outro.

 

Metade é ela em frente ao espelho, cabelo molhado, taça de vinho convidando a lua e a insegurança de não ser nada para ele a brincar com as gotas que correm pelo seu corpo ao sair do banho. A pele tem uma textura de mata virgem e de pêlos que esperam luas cheias. Madalena se toca e a noite parece ter outro clima que a joga para a varanda.

 

Há uma angústia que se instala em seu ventre afastando-a de outras alegrias. Embriagaria todos os sentidos. Deixaria a varanda aberta, dia de chuva fina sobre a sua pele sempre tão úmida de ausência e quereres.

 

Não ia forjar uma luta, nem ventanias, nu frontal sob o olhar minucioso do gato siamês que brinca com a almofada da sala. Ela poderia insistir por choques elétricos e fios desencapados. Mas seria inútil... se a outra parte não arrepia para que incendiar terra encharcada de águas salgadas?

 

A noite de sábado poderia ter areia nos pés, sorriso solto, uma ventania. Poderia ter barulho de bocas roçando e pés inquietos procurando outros debaixo da mesa. A noite e o sábado poderiam inventar serestas, ditados populares, poesia concreta, batom vermelho, camisa aberta, olhar de quem quer, e se finge de morto. Poderia quem sabe ser terreno baldio na sua sede de terra molhada. Mas o dia reservou silêncios e angústias e ainda se arrastou para um até breve seco, como se a linha tênue de todas as falas se calassem para sempre, e fosse o fim do mundo.

 

Madalena é porta fechada e desertos. Melhor assim que inventar rimas pobres e remendos em roupas novinhas em folhas. Se ele não decide, por que ela se traduzia em  braile a si mesma? Eu sempre soube que Madalena ama demais. E isso é tão inútil quanto tentar suar em dias de gelo e vácuos. Mário era um camaleão. Madalena era a interpretação de todas as falas e riscos. Água e óleo no dia azul. Nada se mistura mais que as incompletudes quase idênticas. Alguns diálogos não resistiriam às dúvidas. E Madalena sabia de sua boca a contar as meninas que saltavam de seus olhos.

 

A boca dele é doce. E aquelas mãos já não escreveriam tantos poemas bons porque perdeu a noção do corpo dela em  suas mãos. Amar era sacrifício de arte e induções.

Arquipélagos na alma

Imagem: Marília Campos

Doce é o cheiro dele. Roupa estendida na varanda, suor de homem que chegou correndo. Madalena comprime o peito e respira fundo para não avançar os sinais que se propôs respeitar. O menino tem a suavidade de uma idade que já foi para ela. E mesmo que afirme milhares de vezes que a sua preferência seja os cabelos grisalhos de um homem maduro, o professor bem que chega perto e entorna os seus cabelos ao vento. 

 

Madalena se protege. Brinca de esconde-revela. Mas se cansa de nunca ser achada por ele. Deixa sempre se revelar na blusa nova que deixou o botão aberto; no batom novo, no sorriso que desamarelou para brilhar azuis para ele. Ele não se decide. Finge não entender quando o grito dela é uma sinfonia solitária e dissonante na lua cheia. Faz de conta que o som da rua é mais alto que a respiração ofegante dela, sempre que toca a pele dela.

 

Doce é o cheio dele quando se deixa mostrar, as pernas alvas, a barriguinha protuberante, sorriso de quem esconde outros sonhos e outros invisíveis na alma. Madalena não se importa. Importa sim o treme-treme ao meio-dia, sol escaldante, trânsito maluco, suor descendo pelo rosto que nem o ar condicionado do carro consegue aliviar. Ela pede por ele nos sinais vermelhos e quando o verde acena o "vai, canta pra ele", ela sorri se sentindo a bala.

 

Madalena é desejo de uma história real contada a dois. Mas não está interessada em sofrer por ela, nem ser tão ridícula quanto as cartas que escreve para ele todos os dias. E por falar em dias, esses se arrastam como tartarugas que se caminham para a sombra e fazem Madalena desistir de correr atrás e de lado. É como se sentisse que não há muito tempo para quem amou demais, quis demais e ainda, amargou dias de morrer na praia e no antes, quando o depois era apenas contar as lágrimas derramadas enquanto dirigia todas as velocidades do mundo.

 

Precisa diminuir a ansiedade, diminuindo as marchas e freando o querer, quando o menino apenas acena na paisagem, mas não é de fato e de direito, terra sua, para que possa ser posseira dessa necessidade que tem de ser dele: boca acenando gostos tão diferentes.

 

Ontem, quando o cheiro dele invadiu a casa e Madalena achou que completaria a cena, encheu-se de capítulos novos, refez algumas falas mansas, ensaiou desejos, desenhou-se pura numa virgindade de todos os anos em que se desejou virgem e santa, para tocar aquela boca que ela via na fotografia e que moldava o outro lado do travesseiro em que dormia.

 

Ontem Madalena bem que queria esquecer como as mãos dele cabem em copo em seus seios, e fechou os olhos quando sentiu saudades do que não viveu e que talvez nem viverá, mas mesmo assim, não teve como conter o gozo, quando pensou em seu corpo sobre o dele, como tapete de águas, todos os líquidos e pedidos que fez dela apenas a imagem que ela queria nele, arquipélagos e ilhas incandescentes.

 

Madalena só queria a tatuagem daquela boca em seu ventre, e ainda assim, era pedir demais da lua cheia. Nem estrelas cadentes lhe dariam tamanha loucura.  

Doce é a ilusão de sabê-lo movido pelos cheiros dela... Ainda que seja tarde, ainda que seja breve, o beijo era tudo o que ela mais queria.

Um dia ao sol

Patos - Paraíba

 

Quando o dia amanhece, sinto as pernas não responderem ao meu comando. Patos fica distante 370Km da capital, mais ou menos. Dizem que o sol fez morada aqui. E é verdade. O sol é na verdade o grande vilão dessa cidade. Todas as terças, acordo com a cabeça doendo muito e a pressão oscila entre muito alta ou muito baixa. Amo essa cidade e as portas que ela me abriu, mas quando a tarde cai na terça feira e a noite se promete ausente de sonhos, eu corro para a rodoviária para voltar para casa, em João Pessoa.

Os dias lá, são corridos, de muita alegria e cansaço. Os alunos são parceiros que vamos conquistando ao longo dos semestres. Ser professor, é padecer no paraíso. Nós "sofre", mas nós... É isso. Quando a noite chega e o corpo está moído (uma maratona de aulas das primeiras horas da manhã até às 22 horas), eu não quero mais que minha cama no alojamento das professoras. O sono vem sem que eu espere. E se eu me demoro a trocar palavras com as colegas, sou pega de surpresa durinha de sono com roupa e tudo.

Sinto aquele cheirinho de cidade do interior, cheiro de mato, de terra que se ressente do castigo do sol e à noite, solta uma poeirinha silenciosa. Eu durmo próximo à janela, deixo o vento (quando ele existe) entrar, e até mesmo quando a chuva ensaia uns passos tímidos, deixo que ela me molhe. Sim... porque chuva em Patos é novidade e eu amo, receber essa novidade no meu corpo.

Quando as luzes do apartamento finalmente cedem à escuridão do cansaço coletivo, eu tento me achar antes que o sono me domine completamente. Penso em tanta coisa... penso em organizar-se por essa cidade e estabelecer-me por aqui. Um lugar de silêncio e paz nos fins de semana. A cidade de Patos é uma cidade essencialmente universitária, quando se está em férias ou em fins de semana, isso aqui fica um deserto. E é isso que assusta. Mas ao mesmo tempo, estou precisando de dias de silêncio de mim mesma.

Aqui vivemos em república, como a maioria dos estudantes que são de outras cidades. E a vida em coletivo não é fácil. As pessoas são diferentes, e as culturas, o modo de vida. Não é fácil conciliar e mesmo que o tempo juntas seja muito pouco, mas os conflitos são reais. Alguém que usou utensilhos e não lavou, alguém que não secou o banheiro, alguém que sujou e não limpou. Ou outra que ocupou muito lugar e tomou o espaço de outra entre outras tantas reclamações. A vida é recuo e avanço. Mas na verdade, Patos me deu régua e compasso e eu não reclamo de quase nada, senão unicamente, da solidão de ruas e silêncios quando o corpo queria bailar, flutuar e sonhar que ama. No mais, eu sobrevivo, sempre, às quartas feiras, quando João Pessoa se torna um carinho na pele e na alma.

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