Meu Humor

Dira Vieira
E-mail: dira.Vieira@gmail.com
Joao Pessoa - Paraiba

Links

:: 1000 Imagens (Site Fabuloso)
:: Agrestino - Manoel Carlos
:: André Ricardo Aguiar
:: Antigas Ternuras - Marco Santos
:: Antonio Mariano
:: As cartas de Elise
:: Camila Vieira
:: Câncer de Mama - Visite e Ajude
:: Cantinho da Laranja Lima
:: Carlos Besen (Selva)
:: Claire Insone
:: Clube do Conto da Paraiba
:: Cores Humanas - Mauro Cassane
:: Alumiada - Valeria Freitas
:: Digressiva Maria
:: Dora Limeira
:: Dora Vilela
:: Doroteia - Pensar é um ato
:: Ensejo Criativo - Nana
:: Fabrício Carpinejar
:: Horizonte Geométrico
:: Janelas Abertas
:: Kátia Maués
:: Las Ondas
:: Leônidas Arruda - Poesia
:: Linaldo Guedes
:: Luiz Alberto Machado
:: Márcia Maia
:: Maria José Limeira
:: Medo de Avião
:: MEU FOTOBLOG
:: Milton Ribeiro (Vale a pena ler)
:: Nada acontece por acaso - Maria Borges
:: Navegando...(Excelente)
:: Noites em Claro (Benno)
:: O Cisco
:: O Olho - Um jornal patriota e brincalhão
:: Oceanos e Desertos
:: Oficina Literária - Maria José Limeira
:: Os poetas Elétricos (Carito)
:: Outra Madame, a Giovanna
:: Pedra Brasileira
:: Pedro Camargos
:: Ponto G
:: Proseando com Mariza
:: Retalhos e Pensamentos
:: Tábua de Marés - Márcia Maia
:: Transmimentos - Claudinha
:: Zênite - Adriana Zapparoli
:: Contos Secretos
:: Idéias Despedaçadas - Sarah
:: A verdade está lá fora - Adriano de Léon
:: Brasileira de Meia Idade - Beth
:: Labirinto do sol e da lua
:: Cherry
:: Loba
:: Sem Bolso - Daniel (Excelente Blog, vão lá)



..:: INDIQUE ESSE BLOG ::..

01/04/2008 a 30/04/2008

01/03/2008 a 31/03/2008

01/02/2008 a 29/02/2008

01/01/2008 a 31/01/2008

01/12/2007 a 31/12/2007

01/10/2007 a 31/10/2007

01/09/2007 a 30/09/2007

01/08/2007 a 31/08/2007

01/07/2007 a 31/07/2007

01/06/2007 a 30/06/2007

01/05/2007 a 31/05/2007

01/04/2007 a 30/04/2007

01/03/2007 a 31/03/2007

01/02/2007 a 28/02/2007

01/01/2007 a 31/01/2007

01/12/2006 a 31/12/2006

01/11/2006 a 30/11/2006

01/10/2006 a 31/10/2006

01/09/2006 a 30/09/2006

01/08/2006 a 31/08/2006

01/07/2006 a 31/07/2006

01/06/2006 a 30/06/2006

01/05/2006 a 31/05/2006

01/04/2006 a 30/04/2006

01/03/2006 a 31/03/2006

01/02/2006 a 28/02/2006

01/01/2006 a 31/01/2006

01/12/2005 a 31/12/2005

01/11/2005 a 30/11/2005

01/10/2005 a 31/10/2005

01/09/2005 a 30/09/2005

01/08/2005 a 31/08/2005

01/07/2005 a 31/07/2005

01/06/2005 a 30/06/2005

01/05/2005 a 31/05/2005

01/04/2005 a 30/04/2005

01/03/2005 a 31/03/2005

01/02/2005 a 28/02/2005

01/01/2005 a 31/01/2005

01/12/2004 a 31/12/2004

01/11/2004 a 30/11/2004

01/10/2004 a 31/10/2004

01/09/2004 a 30/09/2004

01/08/2004 a 31/08/2004

01/07/2004 a 31/07/2004

01/06/2004 a 30/06/2004

01/05/2004 a 31/05/2004

01/04/2004 a 30/04/2004

01/03/2004 a 31/03/2004

01/02/2004 a 29/02/2004

Visitas

Creditos

Faminta

Imagem: Victor Melo

 

Madalena tem fomes quase maiores que ela. Quando caminha, metade dessas fomes caminha a passos largos atravessando as suas pernas e falando alto como se quisesse duvidar dela. Não sei se tenho pena, ou se eu também queria a sua fome diária de querer o amor a roçar os meus cabelos e tocar a minha boca enquanto me arruma numa poltrona de viagem ao lado dela.

 

Ontem me falou dessa fome que não consegue controlar e nem denominar, como se pudesse enfileirar, emprateleirar, ou coisa semelhante, as suas vontades. As suas necessidades de amor, chegam a doer no estômago e ela se parte em duas quando está em crise. Falou-me do moço ao lado dela na cama. O sono, fechando os olhos após o amor e Madalena querendo mais, sobrando na cena e na paisagem. Queria mais suor, queria palavras ofensivas, ou carinhosas, queria barulho no quarto de quem ama como animal. Na verdade, Madalena sempre quer o que está além da escrita e da descrição do autor. Queria muita festa, e talvez o que ouvisse o tempo todo fosse o silêncio de quem pouquíssima coisa tem a dizer. Isso dói em seu estômago, porque ama com as vísceras e quando se entrega, chega a sangrar a sua carência. Madalena é faminta e eu nem sei se a culpa é dela mesma ou dos outros que não se entregam na mesma proporção.

 

Enquanto viajávamos ontem me contou do moço, e do outro e do outro. Dos sonhos e das apostas que fazia quase sempre para perder. Ela não se importa com isso. Paga o preço, como eu disse, paga com a dor de talvez não acertar o alvo e cair de cansaço.

 

Dessas fomes, que por vezes a derruba na cama e a faz comer chocolate por horas a fio, sei que caminha para o pior. O pior de quem tece castelos de areia e de vento. Menina sozinha. Enquanto ele dormia, Madalena o olhava faminta, com os olhos cheios de lágrimas, imaginando que talvez aquele momento fosse o último. Nem se desse a sua alma, alcançaria o outro que de tão alheio, nem perceberia que ela chorava quando vestiu a roupa e insinuou ir embora. Não queria ir, claro que não. Talvez o mínimo que esperasse era que ele disse não, não vá e ela fingiria resistência mas por fim, deitasse ao lado daquele corpo, que era apenas o corpo mais especial que já tocara. Mas era só isso. E Madalena tem fomes demais para contentar-se com o corpo, o suor e a alegria do prazer no durante.

 

Queria o que estava por trás, atrás da porta, debaixo do travesseiro, por baixo das cobertas, do edredom. Queria a palavra não dita e talvez a dor de partir sem ouvir o que dizia por tantas vezes e o tempo todo. Eu te amo. Madalena gostava de repetir na intenção de que o outro aprendesse e sussurrasse para ela. Sim, ela amava, mas a fome que tinha, pouquíssimas pessoas a saciaria.

 

Enquanto me contava, percebi que chorava e massageava a barriga mostrando onde a fome se instalara. Fome de tudo, de olhos, de bocas, de palavras, principalmente palavras que dissessem a ela mais do que ela pretendia ouvir. O mundo inteiro é pouco para a fome de Madalena que se instala além do ventre e vai muito mais fundo do que qualquer raio x possa expor. Quando ama, costuma abrir as comportas e como as chuvas são temporãs, não há represa que a comporte e nem tão pouco, mãos que se adaptem à sua boca, saciando a sede e a fome de todas as ausências. E mesmo assim, me admiro de encontra-la sempre terra fértil e preparada para gerar todos os frutos de que necessita.

 

Quando o moço dorme e sonha, Madalena derrama rios e deseja margens, corpo aberto na expressão de quem espera. Mas que o desejo, mas que energia, o que está invisível talvez à cena anterior ao toque de midas. Madalena é mata fechada, vontade selvagem de quem viverá seus silêncios e noites sem lua. Nas clareiras que abre em si mesma, Madalena é foco, fogo predador e fêmea e não há quem possa com isso.

 

Dira Vieira

:: Postado por Dira as 4:38 PM

:: Enviar esta mensagem

Hora marcada

Reinventei os dias quando o tive entre as mãos: poesia a cumprir-se como profecia. Hei de te amar enquanto o sopro me doer nas narinas e quando o tarde se fizer hoje nas noites em que fechamos os olhos para suspirar. Sim, eu reinventei a poesia no cheiro, no hálito e na sintonia de ouvir a tua voz, melodiosa canção de ninar enquanto eu sussurrava milhões de vezes o teu nome para acreditar.

 

Hei de te amar, quando o sono não vem e o relógio avisa do dia amanhecendo como um enfado e nenhuma vontade de levantar. Se o tempo se fecha, se o riso é um choro abafado e se os teus olhinhos me pedem alegria quando eu sei que aquele tempo é o que me desenhas instantes sem promessa, sem registros fotográficos, sem nenhuma marca de descontentamento.

 

Hei de descobrir a porta para o ontem e o verso contorcionista que segura os dias e revela-se no momento do deixar partir. Deixa eu ir, deixa. Ensina para os filhos, que nunca terei contigo, o quanto de nós que era vidro e nunca quebrou nas tempestades de silêncio. Conta para eles, que nunca virão, que o teu pelo era a minha pele e a tua boca, o mapa dos meus encontros e bússola de perdição. Conta-lhes do teu desejo de como soletramos pesadelos, bocas, dedos, camisola de dormir e o teu pijama de bolinhas que eu vesti sem sentir. Conta tudo. Conta. E não me deixas mentir. Conta de quantas vezes, para fugir, vestimos os avessos e em contrário e nos confundimos entre as nossas pernas quando éramos apenas vontade e fome de nunca existir.

 

Enquanto isso derrama em mim essa saudade, o suor descendo pelo teu rosto, cascata de desejos alimentando minha boca. Do que nunca perdi por não guardar como marca em um anel que brilha no escuro trago os traços do teu corpo, caminho de ilhas e parágrafos, tempo final de todas as lutas.

 

Já é tarde. E enquanto arrumo as malas, desembaraço o cabelo acostumado aos teus dedos, me alimento da devoção com que me olhas, saudade e pedido de não vá e eu fecho os olhos para acordar mais viva dessa angústia que é dizer adeus quando a tua boca me morde o céu da boca e eu agradeço a Deus o sopro da vida.

 

És a tatuagem mais perfeita e que me descola assim, de mim, quando em todas as fases me fazes lua ao teu bel prazer e majestade. E eu, a rainha confusa, letras formando nuvens no azul céu enquanto esquadrinhas e prendes a minha alma na tua canção.

:: Postado por Dira as 7:13 PM

:: Enviar esta mensagem

Silêncio nas curvas

Imagem: Cássio Murilo (Santa Luzia, Paraíba)

Madalena estava sem ar como de costume. Quando o emocional se abalava, sentia o ar faltar-lhe nas narinas como a palavra que lhe salivava vida. A boca seca e a língua se enrola em um ritual assombroso de quem procura o chão e encontra vazios.

 

Sentou-se na praça. A noite silenciada por uma chuva fina, transparente, caia ao seu lado, sem que tocasse os seus cabelos em chapinha – vez por outra, Madalena discute a relação com os seus guardados tamanha a dor que sente sozinha, sem compartilhar com quase ninguém, senão os amigos invisíveis que coleciona para momentos como esses.

 

Abriu-se como bolsa a procurar alguma coisa ansiosamente. Procurava frases, bilhetinhos deixados sobre a sua mesa do trabalho, promessas, sonhos de menina, uma criança que não conheceu exatamente o frescor das manhãs em um parquinho infantil. Quis encontrar o beijo prometido, a chuva fresca, o brilho no olhar, a ousadia invadindo a blusa e o escuro da noite. Quanto mais procurava, mais se agitava ansiosamente. O ônibus que se perdia na escuridão da madrugada não estava ali, dentro dela, em um folhetim em reprise. Queria tocá-lo imensa e silenciosamente, mais que tudo na vida.

 

A chuva, usando de todo o senso comum, curva-se diante da moça de cabelos nada ondulados, que sentava sozinha com a alma aberta em busca de traços do homem que conhecera há dias atrás. Teria sido mesmo o aquele homem ou outro avatar que saltara de dentro do espelho de Alice e lhe tocara como se nunca fora tocada? Madalena era uma página em branco, amassada e jogada no passeio público. O poema, que certamente teria escrito naquela noite ao tocar os lábios carnudos do moço, era agora, apenas um esboço suave na salivação incontinenti daquela hora.

 

A hora em que a despedida é apenas um aceno e um até logo, como se aquele encontro tivesse sido apenas e unicamente um meteorito no lugar errado e na hora errada, Madalena se ressente de querer sempre o impossível. Porque a pele e a densa nuvem que desce sobre os seus pensamentos descrevem uma cena sem atores e um palco onde apenas o desejo fez dueto de si mesmo.

 

Ontem ele era apenas um menino e Madalena especialista em descascar nuvens de fumaça.

 

Recolheu-se no banco, quis olhar para trás e lembrou-se do sal. Volte. Lembrou o pedido do homem de longe quando ela era apenas uma paisagem de sorriso largo e confissões infantis. A amizade desejava líquidos e sonhos da boca do outro, e o proibido se permitiu poesia solene de amores e os pés nos chão alcançando a liberdade.

Dira Vieira

:: Postado por Dira as 8:29 PM

:: Enviar esta mensagem

Sexta-feira de todas as paixões

Imagem: Sérgio Pinto (Encontros e Desencontros)

 

 

 

Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Por dentro de mim, não sou sozinho, sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto minha história, me misturo, mulato não das raças, mas das existências.

[Mia Couto, "Afinal, Carlota Gentina não chegou a voar?", do livro Vozes anoitecidas, 1987]

 

 

Tenho medo de dormir algumas noites, como a de hoje. E quando o silêncio é a placa de vídeo prévio sobre o destino açoite, imagino o tempo que ficarei a sós comigo e com os meus monstros habitantes em mim. Melhor varar a noite e cair de cansaço para não ter que discutir a relação com os meus outros. A mulher mal amada que reclama de tudo e se sente só quando o dia é apenas um quadradinho riscado de tinta vermelha no calendário preso da porta da geladeira; a menina que saiu para comprar chocolate e insiste em que eu veja as variações de ovos que comprou para a minha páscoa; o homem que me chama de maluca, e vez por outra se espanta quando eu escolho o batom que ele usa; a mulher magra de boca carnuda que tem a pele em brasa e vive ao espelho retocando a palidez como se sentisse falta de outras culpas; a mulher gorda, sentada na sala comendo pipoca, insatisfeita, que morre de tristeza de não ser aquela gostosa que chama a atenção quando passa na rua, mas que ao mesmo tempo se sente feliz por ser a que melhor goza e que não se rejeita, quando ama.

 

Em mim, alguns personagens fazem plantão em noites de lua como hoje e esperam, horas a fio, que eu me disponha a ouvi-los, como agora em que eu me sinto rendida a fugir de todas as mãos de mim que puxam a barra do vestido que já foi azul só dele.

 

A loira que odeia ser chamada de burra; a morena voluptuosa e cheia de maldades; e a bruxa que errou a fórmula de todos os encantamentos e nunca conseguiu a poção correta e exata para acostumar-se quando o amor pede férias e sai a pescar. Todos esses eus me esperam à noite em minha cama, quando eu me encontro em dias como hoje, sem entender como alguns sentimentos se expõem e se retraem numa facilidade de perder de vista a noção do encantamento e do respeito ao outro.

 

- Era mesmo lilás aquela canção da madrugada em que me vestisses a alma e saímos para encantar? –

 

Tenho medo, nem vou negar, das noites que se vestem como a de hoje. Uma frieza de sentimentos que me enche os olhos de uma saudade infinita. É como não comer macarrão e não sentir a menor falta disso, já que ao meu lado tenho as marcas de todas as reivindicações de mim e de todos eus.  Não acreditar em luas cheias; não dar pérolas e nem beijos calientes em porcos que se reviram em suas poças de lama; não acreditar jamais no amor que pede um tempo ou tira férias e se vai; não mergulhar no amor que não se expõe, que não suja as mãos e que não derrama rios quando a saudade comprime o peito. Sei que de todos a Madalena é a que mais chora: puxa pelo meu braço, chora quando descubro os seus ritos e ainda se joga, peito aberto, vísceras à mostra, toda vez que ensaia amar e arriscar-se aos precipícios. Madalena sabe que nessas histórias de contos e fadas,  a bruxa é a atriz principal, e os sapinhos, apenas príncipes desengonçados e mal acostumados a fingir que beijam bem, quando na verdade, é Madalena e todas as mulheres em mim, que arriscam a pele quando o assunto é desvendar e virar a pele pelo averso em tatuagens que sangram poética e deliciosamente.

 

Os habitantes do meu corpo são prisioneiros de uma sexta da paixão em branco e preto no melhor estilo faroeste sem armas.

 

Visto o silêncio, como o dele, no mesmo tom, e antecipo a falta para uma madrugada íntima com a coragem que se veste em mim. Pelo tom da pausa, desconfio que o poema quebrou o verso e se afogou no nada. Não será possível destravar a língua nesse vazio de palavras vãs.

 

Dira Vieira

:: Postado por Dira as 12:02 AM

:: Enviar esta mensagem

Mulher de tardes

Infelizmente não sei o autor dessa foto que capturei no Google. Se alguém souber, por favor, avise-me.

De faltas. a minha pele sente e me faz rosários de lamúrias quando o dia se veste de uma noite perdida. O clima que se abre pós sol, arrepia e me chama outros sons que eu desconfio fazer parte de minhas angústias. Relaxo as cores, abro um sorriso tímido e toco a pele para ver se transformo a noite em poesia e desperto anjos em mim.

 

De faltas, a minha angústia me enche de peles o peito e expõe os guardados nunca secretos que explodem sorrisos e gerânios de um tempo quase em meu coração.

 

- os pensamentos são como ninfas em uma floresta deserta, fujo deles para não acreditar -

 

Algumas tardes me cobrem com lençóis vermelhos, de cetim, e acendem outras intenções como se abrissem um livro e uma página manchada a dores com frases incompletas. Sou maré cheia ao fim da tarde, e um movimento de tocar e voltar em ondas me faz descobrir que estou mais viva do que morta em saudades.

 

Sou letras e rabiscos e um desenho ímpar sobre a pele das faltas escrevendo um nome que eu não consigo traduzir. Era ontem e o janeiro diria que eu sentiria essa falha em meu sistema de dados, mas era tarde para voltar atrás o que estava posto sobre a cama tão vazia dele.

 

De faltas, eu me traduzo outras línguas e em parábolas, me tatuo rede, rosto virado para o que não vejo e tento chamar a sua atenção: nem todas as línguas revelam o que só o coração dele d(e)ialeta para outras ilhas. Sou bug numa tarde de vermelhos e ardências e o mar fazendo voltas na pele em uma sinfonia minuciosa e íntima onde eu te traio em mim na presença da tua lembrança que se manifesta carinhos, redomas e hálito quente.

 

Sou tardes, hálitos, faltas, pele e um sonho reeditado ano após ano, contando-me desejos que neguei e que se acendem em detalhes todas as vezes que penso tecer.

 

De faltas eu me traduzo ilhas e uma saudade anelar me conta de promessas que prefiro esquecer. 

 

Dira Vieira

:: Postado por Dira as 8:28 PM

:: Enviar esta mensagem

Atropelando as chuvas

 

Imagem capturada na página: http://i78.photobucket.com/albums/j104/poesia_portuguesa/Chuva.jpg

 

A tela que se mostra o lado fino do olhar é o outro e a sentença sobre a tez de Madalena é cruel. E ela é fria. Escolhe os passos que dará como quem escolhe uma peça de roupa para sair. E tem que ser assim, como o suave desejo que lhe percorre a espinha e é tão só dela o tamanho das asas que escolhe para voar nesse dia.

 

Quando o dia amanhece, Madalena é outra, em uma estação de trem distante de casa. Revolve os cabelos, olha a imensidão de uma estrada que deixou para trás. O que virá no depois?

Madalena é faminta. E quanto mais o dia vai chegando ao seu final, mais ela se agita como um leão em fúria dentro do quarto. Sua ansiedade geme, eu posso escutar de onde estou que todas as angústias dela dividem o seu corpo em partes de um quebra-cabeça complicado e difícil de atender. Madalena chove como um temporal que cai sobre a cidade deixando as ruas repletas de pedidos de socorro. E o que eu posso fazer da posição confortável de espectador?

Uma fúria feminina, inconstante e líquida me absorve e debilita. Exala um cheiro de fêmea. Doce cheiro. Desenha suas faltas em um espelho encardido na parede de um banheiro fétido na estrada. Entendo a sua angústia latente. Os lábios rosados perdendo o volume pelo peso da idade, e o corpo, tomando proporções que ela nega até a morte. Madalena é rio que corre sem represas... mas ela queria os braços dele a represar as suas ilhas: anda cansada de pastorear sozinha as suas falas.

Madalena é tola. Carrega a angústia de noites sem lua. E quando finalmente é lua cheia, treme dentro do quarto como se suas fomes fossem únicas no mundo. Sei de seus desertos e daquele moço que levou a sua alma azul de mil tons. Nunca mais a teve e sempre que se agita, sei que busca o azul dentro de si para sobreviver. Ultimamente, sua palidez desenha monstros em meu sorriso. Isso me assusta. Onde se perdeu, a minha menina?

Ontem foi assim. A noite descendo devagar como um manto enlouquecedor e Madalena esperando respostas na estação de trem. Queria a sua alma, como antigamente e a paz que a precedia nesses momentos únicos.

Na pele, as marcas em tatuagem falavam dele... Lembranças malditas de tardes sofridas, espaço em branco, lilás de palavras sufocadas e um desejo maior que tudo empurrando a sua vontade para pensar nele. Vai Madalena, só mais uma vez, pensa nele e morre. Morre de uma vez por todas, fecha esse capítulo, encerra essa cena e abre outra chance em seu leque de azuis perfeitos. Talvez fosse apenas louca, com uma insanidade pagã masoquista.

Das pinturas em quarto crescente, Madalena é o vidro que secou na minha melhor cor e tom e eu ainda nem explorei de todo a sua pele macia de suas valsas em tons semi-rosas. 

:: Postado por Dira as 7:51 PM

:: Enviar esta mensagem

Quando o olhar é peixe fora do aquário...

 Imagem capturada nesta página

 

Madalena fixa os olhos no nada e passa a contar as palavras que saem do silêncio de Mário. Uma palavra, duas, interrogação, reticências. Não há em sua estrofe silenciosa nada que se possa formar uma oração. Há um desconexo de dúvidas a cada minuto.

 

Ela pára. Respira fundo e recomeça a contar. Para que criar uma novela nesse vácuo? Quando a noite de sábado se enrola em uma cortina de silêncio, Madalena realiza uma discussão acerca do vazio que se interpõe entre a sua ausência em si e a do outro.

 

Metade é ela em frente ao espelho, cabelo molhado, taça de vinho convidando a lua e a insegurança de não ser nada para ele a brincar com as gotas que correm pelo seu corpo ao sair do banho. A pele tem uma textura de mata virgem e de pêlos que esperam luas cheias. Madalena se toca e a noite parece ter outro clima que a joga para a varanda.

 

Há uma angústia que se instala em seu ventre afastando-a de outras alegrias. Embriagaria todos os sentidos. Deixaria a varanda aberta, dia de chuva fina sobre a sua pele sempre tão úmida de ausência e quereres.

 

Não ia forjar uma luta, nem ventanias, nu frontal sob o olhar minucioso do gato siamês que brinca com a almofada da sala. Ela poderia insistir por choques elétricos e fios desencapados. Mas seria inútil... se a outra parte não arrepia para que incendiar terra encharcada de águas salgadas?

 

A noite de sábado poderia ter areia nos pés, sorriso solto, uma ventania. Poderia ter barulho de bocas roçando e pés inquietos procurando outros debaixo da mesa. A noite e o sábado poderiam inventar serestas, ditados populares, poesia concreta, batom vermelho, camisa aberta, olhar de quem quer, e se finge de morto. Poderia quem sabe ser terreno baldio na sua sede de terra molhada. Mas o dia reservou silêncios e angústias e ainda se arrastou para um até breve seco, como se a linha tênue de todas as falas se calassem para sempre, e fosse o fim do mundo.

 

Madalena é porta fechada e desertos. Melhor assim que inventar rimas pobres e remendos em roupas novinhas em folhas. Se ele não decide, por que ela se traduzia em  braile a si mesma? Eu sempre soube que Madalena ama demais. E isso é tão inútil quanto tentar suar em dias de gelo e vácuos. Mário era um camaleão. Madalena era a interpretação de todas as falas e riscos. Água e óleo no dia azul. Nada se mistura mais que as incompletudes quase idênticas. Alguns diálogos não resistiriam às dúvidas. E Madalena sabia de sua boca a contar as meninas que saltavam de seus olhos.

 

A boca dele é doce. E aquelas mãos já não escreveriam tantos poemas bons porque perdeu a noção do corpo dela em  suas mãos. Amar era sacrifício de arte e induções.

:: Postado por Dira as 9:23 PM

:: Enviar esta mensagem

Arquipélagos na alma

Imagem: Marília Campos

Doce é o cheiro dele. Roupa estendida na varanda, suor de homem que chegou correndo. Madalena comprime o peito e respira fundo para não avançar os sinais que se propôs respeitar. O menino tem a suavidade de uma idade que já foi para ela. E mesmo que afirme milhares de vezes que a sua preferência seja os cabelos grisalhos de um homem maduro, o professor bem que chega perto e entorna os seus cabelos ao vento. 

 

Madalena se protege. Brinca de esconde-revela. Mas se cansa de nunca ser achada por ele. Deixa sempre se revelar na blusa nova que deixou o botão aberto; no batom novo, no sorriso que desamarelou para brilhar azuis para ele. Ele não se decide. Finge não entender quando o grito dela é uma sinfonia solitária e dissonante na lua cheia. Faz de conta que o som da rua é mais alto que a respiração ofegante dela, sempre que toca a pele dela.

 

Doce é o cheio dele quando se deixa mostrar, as pernas alvas, a barriguinha protuberante, sorriso de quem esconde outros sonhos e outros invisíveis na alma. Madalena não se importa. Importa sim o treme-treme ao meio-dia, sol escaldante, trânsito maluco, suor descendo pelo rosto que nem o ar condicionado do carro consegue aliviar. Ela pede por ele nos sinais vermelhos e quando o verde acena o "vai, canta pra ele", ela sorri se sentindo a bala.

 

Madalena é desejo de uma história real contada a dois. Mas não está interessada em sofrer por ela, nem ser tão ridícula quanto as cartas que escreve para ele todos os dias. E por falar em dias, esses se arrastam como tartarugas que se caminham para a sombra e fazem Madalena desistir de correr atrás e de lado. É como se sentisse que não há muito tempo para quem amou demais, quis demais e ainda, amargou dias de morrer na praia e no antes, quando o depois era apenas contar as lágrimas derramadas enquanto dirigia todas as velocidades do mundo.

 

Precisa diminuir a ansiedade, diminuindo as marchas e freando o querer, quando o menino apenas acena na paisagem, mas não é de fato e de direito, terra sua, para que possa ser posseira dessa necessidade que tem de ser dele: boca acenando gostos tão diferentes.

 

Ontem, quando o cheiro dele invadiu a casa e Madalena achou que completaria a cena, encheu-se de capítulos novos, refez algumas falas mansas, ensaiou desejos, desenhou-se pura numa virgindade de todos os anos em que se desejou virgem e santa, para tocar aquela boca que ela via na fotografia e que moldava o outro lado do travesseiro em que dormia.

 

Ontem Madalena bem que queria esquecer como as mãos dele cabem em copo em seus seios, e fechou os olhos quando sentiu saudades do que não viveu e que talvez nem viverá, mas mesmo assim, não teve como conter o gozo, quando pensou em seu corpo sobre o dele, como tapete de águas, todos os líquidos e pedidos que fez dela apenas a imagem que ela queria nele, arquipélagos e ilhas incandescentes.

 

Madalena só queria a tatuagem daquela boca em seu ventre, e ainda assim, era pedir demais da lua cheia. Nem estrelas cadentes lhe dariam tamanha loucura.  

Doce é a ilusão de sabê-lo movido pelos cheiros dela... Ainda que seja tarde, ainda que seja breve, o beijo era tudo o que ela mais queria.

:: Postado por Dira as 10:23 PM

:: Enviar esta mensagem

Um dia ao sol

Patos - Paraíba

 

Quando o dia amanhece, sinto as pernas não responderem ao meu comando. Patos fica distante 370Km da capital, mais ou menos. Dizem que o sol fez morada aqui. E é verdade. O sol é na verdade o grande vilão dessa cidade. Todas as terças, acordo com a cabeça doendo muito e a pressão oscila entre muito alta ou muito baixa. Amo essa cidade e as portas que ela me abriu, mas quando a tarde cai na terça feira e a noite se promete ausente de sonhos, eu corro para a rodoviária para voltar para casa, em João Pessoa.

Os dias lá, são corridos, de muita alegria e cansaço. Os alunos são parceiros que vamos conquistando ao longo dos semestres. Ser professor, é padecer no paraíso. Nós "sofre", mas nós... É isso. Quando a noite chega e o corpo está moído (uma maratona de aulas das primeiras horas da manhã até às 22 horas), eu não quero mais que minha cama no alojamento das professoras. O sono vem sem que eu espere. E se eu me demoro a trocar palavras com as colegas, sou pega de surpresa durinha de sono com roupa e tudo.

Sinto aquele cheirinho de cidade do interior, cheiro de mato, de terra que se ressente do castigo do sol e à noite, solta uma poeirinha silenciosa. Eu durmo próximo à janela, deixo o vento (quando ele existe) entrar, e até mesmo quando a chuva ensaia uns passos tímidos, deixo que ela me molhe. Sim... porque chuva em Patos é novidade e eu amo, receber essa novidade no meu corpo.

Quando as luzes do apartamento finalmente cedem à escuridão do cansaço coletivo, eu tento me achar antes que o sono me domine completamente. Penso em tanta coisa... penso em organizar-se por essa cidade e estabelecer-me por aqui. Um lugar de silêncio e paz nos fins de semana. A cidade de Patos é uma cidade essencialmente universitária, quando se está em férias ou em fins de semana, isso aqui fica um deserto. E é isso que assusta. Mas ao mesmo tempo, estou precisando de dias de silêncio de mim mesma.

Aqui vivemos em república, como a maioria dos estudantes que são de outras cidades. E a vida em coletivo não é fácil. As pessoas são diferentes, e as culturas, o modo de vida. Não é fácil conciliar e mesmo que o tempo juntas seja muito pouco, mas os conflitos são reais. Alguém que usou utensilhos e não lavou, alguém que não secou o banheiro, alguém que sujou e não limpou. Ou outra que ocupou muito lugar e tomou o espaço de outra entre outras tantas reclamações. A vida é recuo e avanço. Mas na verdade, Patos me deu régua e compasso e eu não reclamo de quase nada, senão unicamente, da solidão de ruas e silêncios quando o corpo queria bailar, flutuar e sonhar que ama. No mais, eu sobrevivo, sempre, às quartas feiras, quando João Pessoa se torna um carinho na pele e na alma.

:: Postado por Dira as 8:38 AM

:: Enviar esta mensagem

PRÉ LANÇAMENTO

 

Photobucket

Finalmente Fevereiro é o mês! Estão nascendo mais duas crias do mundo blogueiro!

Quem estiver interessado em adquiri-las, faça desde já a reserva pelo e-mail:

lobamulher@uol.com.br

dira.vieira@gmail.com

Ou deixe seu e-mail nos comentários para que eu possa fazer contato.

Preço de cada livro, já com postagem para dentro do país: R$ 20,00

:: Postado por Dira as 2:56 PM

:: Enviar esta mensagem

Gatinhos

Imagem: Jorge Jacinto (1000Imagens)

Brinca de gato e rato. Quando ele quer, chama, e ela, só de pirraça, esconde as garras, finge-se de morta, faz biquinho mas acaba cedendo. Mexe nos cabelos dele, passeia a língua em seus braços e em seu peito nu, ronrona como uma gata manhosa e depois enfia as unhas em suas costas, só para que ele não esqueça quem manda ali.

Madalena ri de como deixa o professor incomodado. Mas na verdade, é ela, a moça nada comportada, que, em dedos, treme quando veste a sensualidade na palavra e toca o outro, lá onde a poesia traça palcos e encena sussurros e beijos. Ela nem confessa mas morre de medo de ser ela o rato.

Gostava de vê-lo tímido, olhos confusos se escondendo dos dela. As mãos fazendo gestos arredondados no ar tentavam falar de outras coisas, outras teias que tece enquanto estão longe.

Quando as palavras se gastam e o tempo de olhar o longe conta os dias para o fim, Madalena é sonho e desejo de tatuar-se par no moço. Na briga de gato e rato, a lua mingua e quase, no ontem infindável, ela é ímpar nas decepções de inacabáveis sonhos de nanquim.

Quando ele quer ela é poesia concreta e úmida desenhando possibilidades e rebeldias na pele que tecem, a dois, enquanto se alimentam de luas cheias (a voz miada e sussurrada ao telefone diz tanto, e ele se finge de morto).  Quando ela é sim, nem sempre o mundo se parte em dois e se entrega em seus tons. Madalena é sempre solitária, quando ama e quando apenas deseja rios pela vida inteira.

Por ela, subiria outros telhados, contemplaria outras luas e faria serenata em outros quintais, mas foi querer o sorriso do menino rato, os dentinhos de roedores novos e a pele branquinha de lençois virgens com sinais por mordiscar. A sua alma de bruxa deseja a alquimia da boca dele com a sua pele. E para isso, tecerá nuvens e tempestades, adornará os dias de verde e lilás incadescente até que o rato se deite em sua teia, farto de fugir e ávido por suas mordidas.   

:: Postado por Dira as 5:22 PM

:: Enviar esta mensagem

Para responder silêncios

Autor da Imagem: Marcus Ribeiro - 1000Imagens

 

 

Silenciosa, a madrugada se veste de uma cor que eu não decifro. Cores e formas e o invisível, é a carícia do silêncio se compondo na pele da gente. Nem todos podem compreender quando a noite se veste de festa e sorri sozinha para inaugurar os guardados. Eu nem sei quem sou e ainda assim, ouço o murmúrio de uma chuva fina lá fora e penso que o mundo fala comigo. O mundo talvez não. A noite. A madrugada com os seus segredos e sonhos quase sempre impossíveis.

 

O longe é a tatuagem em máscara que brilha na televisão e eu já nem acredito que haja parte entre os opostos. Não sinto o cheiro, nem sei do hálito quente ou frio e nem se as mãos abarcam minhas vontades – há tanto por se pensar e querer que nem vale a pena o desejo morno. Todo o querer é mínimo quando a cena se desarma e as cortinas fecham.

 

Pensava que longe era um lugar que não custasse mais que dois passos e perto de alcançar o outro, mas cada vez que ensaio chuva dentro de mim, invento de desfilar desculpas para o inevitável. Não se pode negar, as portas sempre se fecham quando nos acovardamos diante do nada.

 

Antes, à noite, fechava bem os olhos até que o redor dormisse para que eu ficasse sozinha com o silêncio. Essa era a senha para pensar em tudo, inclusive no verso inacabado e impossível de terminar. Algumas palavras são ditas no silêncio, na ausência e ao apagar das luzes. Talvez eu peça a ele, para apagar a fala quando precisar sonhar. Ou afagas os meus bichos sempre tão selvagens. Em mim todos os poros são abismos abertos ao ar livre. Livre sou de coisa alguma. E o que temo são as algemas da consciência. Quem pode se livrar das culpas?

 

- Imaginei o beijo dele como a métrica dos poemas mais complexos. E nem foi. No mínimo a ausência do calafrio na espinha e o tremor da língua me diziam para ir embora o quanto antes.

 

Traduzo o poema, a canção, os versos provocam barulho ao teclado quando todos os seres dormem. Enquanto a noite descansa, a poesia alardeia sua incompletude bizarra. Nunca ninguém me acompanhou nessa viagem, por anos e anos teci canções que desfiava de meus próprios rosários.

 

Desconfio que não haja lugar para acompanhantes ao meu lado. Toda viagem é solo, desenho solidão como um casaco surrado, cheio de pó dos dias que eu trago comigo nessa passagem. Levanto, afasto para um lado o sono, (na madrugada, sono é palavra impossível e sem rima) e vou escrever, como se ninguém mais pudesse estar comigo.

 

Minhas inquietações são olhos brilhando no pedinte que encontro na rua. Estava ali,  desenhado na minha cara, o que custei a esconder. Palavras, frases, sons quase inaudíveis, cada vez mais angustiantes. Sempre o que quero é o que nego e digo não. Talvez por ter desafiado o silêncio e ter aprendido a dizer sim quando me convém. Isso talvez seja imperdoável.

 

Sou quadros desenhados em curvas na parede e pele. Sinuosidades que eu desfilo faminta, mas que ao fim, desconheço-me roteiros e avenidas. Não tenho rumo certo mesmo quando abuso das bússolas. Nem quero saber teu endereço, escapando assim das tuas promessas inúteis. Quando a palavra se esgota, a boca implora e isso é o que eu nunca consigo traduzir.  

 

(E eu lá sei, que ruas – e segredos a –  percorrer?)

 

Eu conto dias e enfileiro carícias para amanhecer mais leve, mas nunca adianta, porque planto dúvidas onde me sobra tempo e madrugadas a compor-me insônias e pesadelos.  

:: Postado por Dira as 5:01 AM

:: Enviar esta mensagem

Imagem: Delírios de Baco - Autor: Ramarago no 1000Imagens

 

Estendidas

 

Quando Mariana chegou encontrou-me varal de roupas estendidas em um quintal limpo e arrumado. Há tempos que arrumava a casa em mim, tentando guardar os pertences ainda amassados e cheios de poeira. Demorei a vê-la no portão. Costumo olhar a roupa secar ao sol no varal. Algo de especial há nesse ritual que me toma o tempo e eu fico a ver o ritmo das peças para um lado e para o outro... Silenciosamente.

 

Mariana chamou minha atenção pela pele que usava naquela tarde. Pele de esperas, como a de Madalena que é morna por vida. Quando a toco, parece que esteve ao sol há pouco tempo. Transpira em minha mão como se vivesse eternamente febril. E eu sei de suas febres quase sempre incontroláveis. Madalena possui a febre de matas virgens e ao mesmo tempo, a febre dos pactos de sangue em que diz não, quando a pele diz sim o tempo todo.

 

Ontem estivemos juntas, eu, Madalena e Mariana. Conversamos e dançamos e enquanto a chuva nos pegava de surpresa ao ar livre, vi Mariana atender ao celular. Noite de entregas que ficou pairando no ar como promessas juvenis. Era Rodolfo. Engraçado que sempre achei que a cara dele combinava com esse nome. Um menino cheio de azuis e de mistério. Bem que Mariana o acolhe em si e se farta grávida dos desejos que nutre por esse moço. Achei que aconteceria o que ela esperava, noite de estrelas e Chico César cantando ao largo. Nem tanto, algumas paisagens líquidas são quase impossíveis de relacionar como realidades febris. Precisa mais. Tom, cores, a brevidade das necessidades urgentes em nós. Eu disse isso a ela. Pena que a minha pele cética sempre tenta proteger as mulheres em mim.

 

É inútil. Elas sempre se jogam no escuro. Fendas, labirintos secretos que, ousadas, teimam em desbravar como bandeirantes afoitas. Foi só ele ligar, pela primeira vez, como insinuou da última vez e Mariana ali, com a febre de Madalena, suspirando tão alto que daria para compor uma sinfonia. A sinfonia das esperas nuas.

 

Quando ela voltou, estava sozinha. Celular na mão, e os olhinhos miúdos ainda esperando o retorno. Do que? Eu me entregava ao show. Dancei como nunca, tentando tornar real apenas aquele momento na mata, recebendo a chuva dos céus e contendo em mim todos os secretos. Porque minhas fomes são tantas e a água pouca para fazer gerar fora de mim as sementes do outro.

 

Eu queria a febre delas. Mas o que me restou foi os medos da volta e a solidão barulhenta de quem vagueia a noite, como gatos que voltam madrugadinha de suas farras pelos quintais vizinhos. Eu sou o outro que se recolhe em esperas infinitas e febris. Madalena e Mariana se divertiram, muito embora, notássesmos os olhos de Mariana para o celular enquanto durou a festa. E ele não retornou.

 

Estendida sobre a nossa pele, sobravam as esperas, o vinho e o ofertório. O desejo da festa e a esperança de beijos trêmulos quase infantis. A roupa secando no varal e em nós. E o corpo em festa, movido pelo vento a voar sozinho naquele noite que podia tudo, mas ficou a dever e ainda será quando a poesia se completar em versos que podem tatuar o desejo e esperar a completude. Eu sei que o que ela espera virá. O radar, instalado em seus olhinhos miúdos era a promessa, o vento na roupa a balançar.

 

:: Postado por Dira as 11:21 AM

:: Enviar esta mensagem

Feliz Ano Novo!

 

Nada de promessas, nada.

 

Nunca consigo falar em primeira pessoa. Acostumei-me a enlaçar as palavras e os sentimentos em silêncio guardando-os dos transeuntes... As minhas teias, adornando as minhas ilhas, falam de mim de uma menina assustada e faminta. Dias de fome e angústias, mas dias em que esperei atentamente as tempestades passarem para bordar novos sonhos nos meus dedos de gritos. Dentro de mim, algumas meninas brigavam entre si. Madalena, Clarisse, Rebeca, Diadorim, Alice, e a versão de Pollyana-moça sempre trocaram juras e algumas farpas quando eu me descuidava de mim.

 

Com elas, aprendi a guerra. Não se pode expor o sangue, as vísceras, o suor. Tudo é pecado e as meninas em mim ousavam me ensinar que o maior pecado era manter em segredo os meus gemidos e a ousadia de dar o primeiro passo quando o desejo fosse meu e fosse além. Talvez eu ainda nem saiba ser gente grande e Madalena sempre me puxa os cabelos quando me diz que eu devo crescer como ela, que virou uma moça feita e quando ama, sabe ser dela mesma e de mais ninguém. Madalena sabe encolher-se quando chora, mas sabe ser leoa quando a fome aperta. Eu sempre esperei que o outro tomasse as rédeas de minha vida. Não que eu gostasse, mas que talvez a comodidade de esperar a comida na boca me fizesse ser invisível para minhas lágrimas. Nunca fui frágil e nem desprotegida, mas deixar que pensassem isso de mim me trazia benefícios. Eu sempre quis ser a filha, mesmo quando eu era a dona da cena e da poesia.

 

Minhas mãos sempre desenharam invisíveis. Amei o que nunca vi, entreguei-me a paixões inúteis, tive grandes amores e tracei metas que nunca cumpri. Um dia, um único dia eu voei sem a minha vassoura. Alice, atordoada no avião, ensaiava versos de ousadia para as estrelas agora bem pertinho da janela.

 

Essa semana, enquanto via “O amor nos tempos do Cólera” me senti pequenina e ao mesmo tempo gigante nos braços do amor que eu amo. Um amor sem limites. Esse amor que nada tem a ver com as nossas razões e nem com o que imaginamos de “fidelidade”. O amor não requer pactos de fidelidade, ele apenas é. E quando vem, nos atinge o estômago como um soco. O amor que sentimos nunca é em via dupla. Ele quase sempre existe sozinho... por si só.

 

Enquanto o filme se desenrolava na tela eu sentia falta do amor em mim, e dessa troca que a gente costuma fazer quando ama. Senti as ausências de mim mesma e do encontro amoroso de minhas meninas dentro de mim. Madalena, Clarice, Beatriz Alice, sabem que quando estamos “tocadas” e afetadas por algo ou alguém não há como controlar a ansiedade e o desejo de ir buscar o outro, seja lá onde o outro possa estar.

 

Não. Nada de promessas para o ano novo. Só a gratidão de ainda manter vivo dentro de mim esse poder de renovar a alma. Síndrome de Peter Pan, síndrome de Phoenix. Síndrome do amor que adorna os meus dias tornando-me cada dia mais guerreira.

 

Trago em mim as frases incompletas e dos desejos inconclusos para dividir com o outro. Aquele que eu espero e que não seja nunca meu, mas seja do amor. Nada de posses, nada de meu e teu e dele. Que o amor é casa sem muro e portas abertas.


Quando sai do filme... com a cabeça em lugares ermos e um desejo de voar, mirei a minha emoção na ultima cena em que o casal de velhinhos fazem sexo, ela com vergonha do corpo marcado pelo tempo e ele a dizer-lhe: como pode sentir vergonha, do corpo que eu esperei por 52 anos? É esse o amor que eu quero para mim. Hoje, com 42 anos, amanhã com 80 anos. Amor que conhece o desejo, mas se reconhece acima de tudo, como o outro que se vê no espelho e ama a si mesmo. 

 

P.S. Obrigada aos amigos carinhosos que continuam vindo aqui, mesmo quando eu estou sem inspiração e pareço ter abandonado o blog. Eu volto. Isso sim, é promessa. Beijos a todos e Feliz Ano de 2008!.

 

 

 

:: Postado por Dira as 9:04 PM

:: Enviar esta mensagem

O que gosta uma mulher que os homens façam, ou manual de uso dos homens

(Ilustração de Daniel Garcia, Telmo, retirada do Blog: Pilha Errada.

 

* Por  Madalena Mel

 

Sou Madalena, 32 anos, e cansei de tentar entender os homens. Eles deviam vir com manual de instrução em português. Ok, talvez, no máximo em espanhol. No entanto, acho que eles estão vindo com defeito de fábrica. Falta sensibilidade para enxergarem que ao lado deles está uma mulher e não outro ser do mesmo sexo que eles. Percebo isso porque está cada vez mais difícil encontrar um homem meio “mulher” por aí. Que tal um homem com manual de instruções? Ou quem sabe alguém não inventa um manual de mulheres e não dá para eles? Por favor, escrevam em português, senão, será um desastre quando eles resolverem interpretar, como algumas pessoas fazem com a Bíblia.

Por exemplo, tem coisa mais irritante que esse medo dos homens de mostrarem-se apaixonados? E o de chorar? Ah, meu Deus. Chega a ser patético. Adoro vê-los chorando... por um filme, uma música, um livro, uma cena da novela. Por isso admiro Zeca Baleiro, autor da música: “Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar...” Eu choro mais quando esbarro com uma figura masculina razoavelmente interessante e ele acaba nos mostrando que o cérebro dele é de um tamanho de um falo, e o pior, bem pequenininho. 

Alguns deles quando esbarram em alguma mulher cujo perfil eles se interessem, partem para o ataque frontal. Nem se dão ao trabalho de estudar a forma de abordagem ou no mínimo, entender o que gosta ou quem é o seu objeto de prazer e desejo. Chegam mais perto (é, algumas mulheres pagam para ver: umas se decepcionam e conseguem sair de fininho, outras, se envolvem, aí é tarde, choram por séculos) e já estão puxando a mão delas para o membro deles. Há coisa mais patética que homem “guiando” a nossa mão pro sexo deles? Acaso não sabem que se estivéssemos interessadas nós mesmas faríamos isso? É que homens acham que apenas o membro deles é importante, por isso uns se acabam quando o possuem pequenos. Falta de imaginação. É como estar com um canivete, gostariam era estar com a espada de samurai. Não sabem eles que um canivete pode fazer um grande estrago, questão de inteligência, apenas. Mas não vou ensinar, não nasci homem. 

 A mulher fica lá, esperando para saber que livros lêem; se conhecem Nelson Rodrigues, opa... logo esse? Ou se gostam de filmes na sessão da tarde. Perda de tempo. Eles já estão de pau duro e raramente vão deixar elas falarem. São instantâneos, como se estivessem em stand by o tempo todo. Pior, quando as mulheres pensam em gozar eles já estão diminuindo o ritmo e lá estão, loucos para dormir.

E quando brocham, em quem eles colocam a culpa? Na mulher, claro. Em quem mais? Quem manda ser imbecil e acreditar neles?

Outro dia saí com um. O cara era um deus grego. Corpo sarado (cuidado com os saradões, eles não vão admitir nenhuma celulite sua), 1,80, sorriso lindo, dentes-saídos-de-uma-sessão-de-clareamento-dental e por vezes balançava o cabelo de uma forma que eu estranhei um pouco. Ora, mas sou legal. Respeito todas as tribos. E agora, surgiu uma nova categoria de homens, o tal do metrosexual... talvez ele fosse um. Embarquei. Estava carente. Achei que aquele corpanzil no mínimo me daria uma tarde inteira de prazer animal. É, ele tinha um corpo magnífico. Mas entrou no quarto já seminu. Nem tirou as meias. Mulher odeia isso. Homens de meia. Brocha qualquer uma. Comigo não foi diferente. Performance? Só mesmo se eu colocasse plaquetas no meu corpo: siga a seta, cuidado, piso escorregadio, vire a direita, desça devagar, e por aí vai. O cara devia ser tapado, mas se sentia a bala.

Resolvi gritar quando ele passou meia hora tentando colocar o pauzinho dentro da camisinha. Ele achou que eu estava gozando (por que será que eles nunca têm certeza disso se é tão óbvio?). Esse achava que as mulheres gritam quando estão gozando, vai ver são anos e anos vendo os gatos fazendo sexo nos telhados. As gatas gritam. Pobres gatas. Pobre de mim que gritei tanto de raiva que ele acabou sem conseguir vestir a tal camisinha e desistiu. Disse depois que a culpa era minha que pareci “comandar”, e mulheres que comandam o deixam “inibido”. Sei, sei. 

E quando metem a língua na nossa orelha. Alguém sabe para que? E quando eles pensam que preliminares são pura perda de tempo? Será que não entendem que uma mulher precisa desse “tempo” no antes? E será que não lembram que estavam acompanhados no “depois”? Tem coisa mais deprimente que o sujeito tirar a roupa em dois segundos e já cair matando a vítima? Se brincar, a mulher nem lubrificou. Nem poderia. Vai ver pensam que há botões de ligue/desligue e buraco pra enfiar a tomada no nosso corpo. Vão ficar com a tomada na mão e mais uma vez, lá vamos nós explicarmos, põe isso aqui, ó, na minha vagina, ou seja lá em que buraco for. Pobres meninos.  Creio que a educação que eles recebem nunca é da mãe. Marte também é um planeta machista. Deve ser por isso. Se uma mulher os tivesse ensinado, talvez eles soubessem nos tocar.

Pronto, agora vou adivinhar o que o leitor está pensando: coitada dessa mulher, só pega trogloditas. Por que será que eles raramente ligam no dia seguinte? Mulher gosta de saber se a noite foi boa pra ele também. Nada. Eles nem se dirigem a você. Problema seu se gozou ou não. Eles não perceberão mesmo... sempre perguntarão ao final: foi bom pra você? E você a cara de quem morre de pena do infeliz vai dizer, “foi ótimo, você é o máximo”, daí você vira as costas e tenta esquecer que aquela transa existiu e o cara vai embora se sentindo o máximo. Deixa ele, amanhã ele chega em casa e a mulher dele está na cama com a vizinha, uhuuu, ele vai querer se matar. Mas eu bem que avisei.

Tem coisa mais deprimente que a insistência dos homens antes de trepar? São perfeitos. Até flores eles mandam. E se tiverem competindo com outro babaca, aí é que a performance antes do acasalamento se torna mais “romântica”. E todas as mulheres ao redor vão invejar a pobre vítima. Mas é só a idiota dizer sim e esquecem até o seu nome no dia seguinte. E se perceberem que a imbecil se apaixonou, putz... estarão longe na primeira hora seguinte da relação.

Homem não tem mesmo noção. A mulher passa horas promovendo o prazer DELES. E tome carinho, dança do ventre, strip-tease, sexo oral, gemidos em outra língua (eles se sentem o máximo se a mulher varia a entonação do gemido e se aliar a isso uma boa rebolada, pronto, estão satisfeitos) e eles abrem as pernas delas, ensaiam o gesto, correm para fazer o mesmo com elas. Não dá tempo, eles já vão estar quase gozando e precisam estar com aquilo lá duro dentro da gente. Sei de uma amiga que reclamou ao infeliz que ele não a chupava. A resposta dele foi imediata: desculpe benzinho, eu esqueci prometo que na próxima eu não esqueço.

Os homens são egoístas, acham que só goza quem possui pau, mulher então, nem precisa gozar, eles não vão saber mesmo. Nunca.

Eles têm amnésia no dia seguinte: Ah era com você que eu estava ontem, querida? Estava tão chateado com a vida que nem me toquei. Claro que não. Ele usou as mãos dela para tocarem nele. Ora, melhor aceitar, piores os que preferem os becos, as ruas e as calçadinhas da praia para evitarem gastar grana com uma trepada só. Para que? Nada contra os improvisos do desejo de última hora...acontece.

         Ah, mas nem tudo está perdido. A ciência está tão avançada que logo criaremos homens sensíveis e meio mulheres só para o nosso prazer. Bem que os gays deveriam ser bi. Porque assim, teríamos homens sensíveis, amorosos, e perfeitos, sabendo tratar uma mulher.

         Homens deveriam se obrigados a ler o nosso manual. Daí, nem precisariam nos perguntar no meio da transa, onde fica o nosso ponto G. Nem soletrando eles achariam as vogais, quanto mais as consoantes. E a mulher ainda é a culpada quando eles brocham.


Madalena e a Amanda (AQUI) resolveram dar suas versões sobre o tema. Cherry, eu não consigo comentar no seu blog!!!!! 

:: Postado por Dira as 5:58 AM

:: Enviar esta mensagem

Namoro

Imagem: Namoro (Almada Negreiros)

O despertador na cabeceira já tocara várias vezes. Mas ela não conseguia estímulo para levantar da cama. Uma, duas horas de atraso. O telefone, na sala, já demonstrava a irritação de pessoas procurando por eles. Madalena é festa e descanso no dia seguinte.

Evitara muitas vezes deixar o seu corpo falar. A vida inteira aprisionou os seus desejos e apenas era metáfora e dúvidas quando a pele exalava rumores de angústias de pele aflita. Quando tomava banho o corpo chorava. Desejava o moço. Desejava a vida. Desejava sair como saíra naquele dia: braços abertos para a imensidão de doar-se a si e a ele.

Madalena nem quis pensar nas possibilidades do desencontro de peles e cheiros. Desencontros tardios de aflições e sentimentos. Isso tinha que ir além de alguma forma. A hora estava marcada. O dia no calendário lunar adornava-se de uma lua amarelada com os contornos em relevo pendurada sobre o mar azul. Mar de ondas serenas e com um cheirinho suave invadindo a rua onde Madalena estacionaria sua ansiedade.

Quando tocou a porta, Miguel a esperava com uma roupa delicada. Tinha no beijo um vinho perfeito: hálito, boca e segredos enrolados na sua língua quando a recebeu na porta. Madalena era esperas e entrega. Por pouco esquecera a porta aberta, enquanto os vizinhos do flat cruzavam o corredor.

Quando o mundo se fechou atrás dos dois, o céu era ali dentro. Estrelas, cometas, brisa noturna no corpo dele, onde Madalena passeava tentando provar o nunca e o impossível de acontecer. O vinho da boca dele a embriagava, deixando-a mole, cada vez mais entregue e apaixonada. Mas não poderia pensar em sentimentos. Não em paixão. O que estava ali era apenas a sede e a vontade de comer. Mas ele fazia tudo para que aquele momento fosse mais e além. E foi.

Delicadamente Miguel a conduziu a cena seguinte. Ritual de passagem, necessário, se estivesse falando de pessoas comuns, não de Madalena que tinha na pele outros tons em rosa azul incandescente. Sim, a pele dele e o cheiro traduziam o que ela mais quis e sonhou. Cheiro de homem e de menino. Tudo poderia passar despercebido, como apenas mais um encontro entre duas pessoas que se desejam, repito, se não estivesse falando de Madalena essência de vontades e malícia.

Eles não tinham pressa. Nenhuma. Tinham a vida para degustar todo aquele vinho. Na sala, os cheiros se misturavam ao som das ondas quebrando na calçada. Miguel sabia exatamente onde as faltas de Madalena a escondia em barbantes espalhados pela sala. Fio por fio e ele a tecia com mãos de mágico e de escultor. Sabia exatamente como redesenhar a alma dela e isso não tinha nada a ver com romantismo, era apenas um homem conduzindo uma mulher para depois, deixar-se conduzir pela paixão. Miguel não estava preocupado em ser o mais superficial possível com medo que a pobre e indefesa mulher se apaixonasse perdidamente e arruinasse a sua liberdade.  Eles eram cúmplices do desejo e depois de uma amizade que desenrolaria outras cenas de afeto.

Com ele, Madalena ousava dizer “te amo” sem culpa e medo, quando ele orquestrava seus gemidos naquela noite. Era lua cheia. E os gemidos, uivos de carinhos moldados pelas mãos dela... pequena artesã de seus caprichos. A sinfonia era de um afeto incomum àqueles tempos... mas era real, eles se sabiam.

O dia amanhecera devagar e ela se recusava a acordar junto. Não queria ir embora. Nem. Desejaria acordá-lo com flores do campo, cereja que mergulharia sobre o corpo alvo dele... brancura pintada de pelos e marcas de batom... Naquela noite mergulhara nele de corpo e alma, procurando nascentes de águas límpidas onde bebeu e matou sedes. Guardaria o seu gosto entre as mãos, os lábios, o corpo inteiro, até que a ausência, provocasse outras reprises em preto e branco.

Quando acordou, Miguel sorria ao seu lado. Sem jeito, arrumou o lençol sobre o corpo desnudo e pediu para ele olhar para o outro lado. Miguel riu e sem entender o constrangimento dela, obedeceu carinhosamente. Madalena levantou, trancou-se no banheiro e pediu aos céus para nunca acordar daquele sonho bom. Beberia todas as tempestades que saíssem daqueles lábios, corpo, pele e músculos. Mas sabia que era um corpo estranho ali naquela cama e naquele quarto. Precisava desocupar o espaço até há pouco tempo dividido entre gemidos e ensaios de um ritual de acasalamento.

Sussurrou o nome dele. Mil vezes, para tornar real aquele tremor em suas pernas. Mas Miguel era apenas uma promessa tórrida e meiga e era tudo que Madalena queria: descanso dos dias e gozo nas preliminares. Aquele sim era sua metade, o parque de diversão e a sala de leituras que ela desejara a vida inteira. Pena que era apenas um personagem que compôs para si mesma. E ele morreria na cena final, quando o livro por fim, fosse fechado, sem nenhuma chance para uma segunda parte ou a continuação de outros sagas. Personagem com dia certo para nascer e morrer, sem substitutos no set de filmagem. Nada é tão perfeito, quanto a imaginação dessa moça.

:: Postado por Dira as 10:20 AM

:: Enviar esta mensagem

Clarice

                                                                  Imagem capturada aqui 

 

Clarice apareceu na minha janela num sopro e logo saí para vê-la brincar com a chuva. Há meses que não me refiro a ela, não que ela não tenha tanta importância quanto Madalena em minha vida. Lógico que não. Mas Clarice é mais passiva, espera os dias, espera as noites e brinca de encantar castelos que ela constrói na areia da praia. Ela não é ousada, possui a displicência de dias silenciosos e dos apaixonados.

 

Lembro do dia que ele casou. Clarice chorava sozinha pelos cantos da casa. Relia as cartas que trocaram no tempo em que eram apenas riscos e planos de um futuro que nunca chegaria. Olhava a boca dele... a foto que tirara quando estiveram juntos pela primeira vez pela webcam.

 

Talvez eu evite falar nela porque não suporto sua dor de ter perdido aquele moço das letras. Moço lindo. Moço real e de uma cor ímpar onde ela se desenhava nua em azul todos os dias. Só pra ele. Até o dia que puderam ouvir a voz um do outro. Clarice estremeceu quando o tom da voz dele cantava em notas coloridas, rimas e ritos africanos e a melodia quase explosiva da paixão em embolada. O amor, o seu único amor que se proibia pela mentira e o medo de perde-lo se fazia maior que todas as promessas.

 

Talvez eu a ignore pelo que ela suscita em mim todos os dias. Saudades das suas narrativas em que os dias teciam palavras e promessas azuis. “Haja o que houver nunca vou deixar você”. E o moço a deixou. Abriu a janela e lançou-se asas e ira sobre a tempestade. Clarice sabia dos ferimentos que causara nele e em si mesma. Mas nunca, em toda a sua existência, teria amado tanto e entregado-se como a ele, nem nunca ao menos ter provado da sua boca.

 

A voz ainda era uma promessa em branco e preto ecoando pela tarde vazia que se seguiu quando ele resolveu ir buscar o que nunca teve. Não vá. Clarice pediu e angustiou-se quando o moço saiu, louco de tudo, apagando os rastros e o passado para cair nos braços de quem ele dizia nunca mais amar. Clarice tinha a impotência da distância e das mãos curtas na vontade de tocar o moço das letras e consola-lo pelas dores diárias. Ela queria ser apenas dele como um comercial de tv e teve as asas dilaceradas pela dor e pelo sumiço dele. Fique online, meu amor, fique. E o dia tinha o tom de desejo e desgraça no ar.

 

A saudade a despia de vestidos azuis, a cor dele e a deixava com o olhar perdido, perdido, como se nada mais importasse. Daí evitar Clarice nos meus dias de lua. Sei do sofrimento dela e de como pediu aos céus o fim de seus dias. Sei de como chorou e se perdeu em lágrimas que desenhou na mesa naquele dia que ele se fora. Chorava descontrolada e sozinha. Tinha uma angústia tão grave em suas amídalas que quando cantava, era como se gritasse chamasse o nome dele em prantos. Quis me poupar de sua angústia porque não suporto outros pesos senão o meu próprio de esperar arco-íris diários. Sou outros rios e Clarice pesa sobre os meus ombros quando fechou as janelas, travou as portas e cingiu-se de dores e prantos por ele. Com ela por perto, tenho dificuldade de voar.

 

Mas é claro que não digo isso pra ela, até que se cure, e isso levará anos. Espelha-se nas poças de chuva que vai pulando como uma criança. De certo, espera o moço voltar, ou ao menos conta os dias e as horas para esbarrar nele por alguma avenida dessas. Ela é frágil e mesmo fingindo-se de forte, sei que todas as noites, implode sozinha em seu quarto: cores, cheiros, voz grave do poeta, o abraço dele e a despedida trágica. Tudo isso é o alimento mórbido de seus dias. Até que se vá enfim para outro planeta azul. Clarice ainda é do poeta, em todos os dias em que se desenha sua para toda a eternidade de lágrimas. E isso pesa demais em mim. Não suporto as folhas em branco e os finais melosos das novelas dramáticas.

 

Reescreveria sua história, se possível fosse e evitaria as cenas finais para que a poesia nunca se partisse em dois e fosse um poema em carne viva: alimento de sensualidade e nunca de vermes. Eu dançaria outros ritos e destilaria outras cenas, para que Clarice nunca tivesse que implorar perdão. Ela bem que poderia ter sumido com ele no ontem e ter sido a meretriz, mas preferiu o papel da mocinha e percebeu que as mocinhas sempre morrem no final.

:: Postado por Dira as 10:32 PM

:: Enviar esta mensagem

Desencontro

Imagem do Site: Escola de Parapente

Foi do nada, assim, batom escrito boca no vidro mesa da sala, venenos suaves em conta-gotas e rapidinho Madalena era refém. O dia, cada vez mais longe, desenhava contatos, marcava encontros e marcava a calcinha com a vontade dele. Menino-ideal-como-companhia-para-matar-passarinhos. Espantava-se com o que queria e como tudo concorria para o contrário, pele indisposta, hálitos, pêlos demais nas axilas e as filas de banco. Precisava tempo para ser dele. Mas isso era quase impossível. Tudo girava em aberto e ao contrário e Madalena desistia dia a dia, silenciosamente, de andar em asa delta.

- tinha as asas encolhidas pelo frio do silêncio dele -

Desenhou encontros, fez caras e bocas, tocava o corpo, a alma, sonhava com ele, queria, queria, queria... e a lua era outra, medusa, de costas. E por mais que desejasse e moldasse a pele àquelas mãos, tudo concorria para as lágrimas, a decepção e a aquarela de uma cor só na contemplativa tarde na praça. Esperaria-o sair de casa para caminhar silêncio na praia. Não telefonaria. Não mandaria mais e-mails, nem cartas, nem flores, nem beijinhos pelo correio. Esperaria-o na calçada de sua casa e seria dele, sempre, quando na chuva tatuava aquela tarde.

Madalena tinha fome dele. De sonho, de imagens, de contos eróticos e de passeios ao pé do ouvido. Queria aquela voz, melosa sorrindo à meia boca, meia lua, meia cara, a sua metade dos desejos malditos. Nunca desejara tanto e sempre, ser daquele moço exatamente naquele dia, em que não combinariam mais nada, para que o vento não tomasse o rumo, a hora e o dia marcado e varresse seus sonhos. Madalena é alfenim e aquele moço, a decisão que ela queria tomar entre os braços. Chave jogava fora para nunca mais perder a porta aberta e o holocausto de medos.

À véspera era o desgosto e a espera pelo vidro da janela fechada. Tomaria as rédeas entre as mãos como os cabelos dele, puxados para trás, e o amaria assim, com a folhinha do calendário rasgada pa